14 de outubro de 22 Autor: Taylor Swift Brasil
The Times UK afirma que Taylor Swift é a Bob Dylan desta geração

Ele era o trovador dos anos 60 saindo para a turnê aos 81 anos; ela é a estrela Millennial prestes a lançar seu décimo álbum “Midnights” – mas na verdade eles têm mais em comum do que você poderia imaginar

Para o ouvido superficial não há muito que ligue o homem que fez o hino dos direitos civis Blowin’ in the Wind com a mulher que afastou seus críticos com Shake it Off. Ele é o príncipe trovador da contracultura. Ela é a rainha das confissões dos anos 2000, com álbuns que existem em um constante dueto com sua vida.

Ele pertence a uma era de músicas de protesto; ela é uma artista de prestígio na era das redes sociais. A música de Bob Dylan – pelo menos antes de seu período em Nashville no final dos anos 60, foi constantemente dada como política. Taylor Swift, que iniciou sua carreira em Nashville como apolítica até a metade de sua jornada, se revelando liberal. 

Mas enquanto Dylan foi muito imitado (olá Donovan), ninguém nunca chegou ao seu nível de importância cultural. Até agora. Quando Dylan surgiu na cena folk de Greenwich Village em New York em 1962, ele não era apenas um artista promissor, ele era o poeta de um mundo em revolução. E Taylor também é a voz da geração do Instagram, ultra-exposta e auto-inventora.

Dia 21 de Outubro, Taylor, 32, lançará seu décimo álbum. Contando “A história de 13 noites sem dormir espalhadas pela minha vida”, o “Midnights” possivelmente parece expandir a suave introspecção estabelecida em dois álbuns de lockdown, Folklore e Evermore.

Ao mesmo tempo Dylan estará em outro tipo de conquista. Entre os dias 19 e 24 de outubro, ele fará 4 shot no London Palladium como parte de sua turnê Rough and Rowdy Ways — que, dados os 81 anos de Dylan, provavelmente será sua última.

O que Dylan foi para a geração pós-guerra, Taylor é para a sua geração. Eles articularam as esperanças e pesadelos das pessoas vivendo em tempos sem precedentes. Mais que isso, eles se modelaram como símbolos vivos de suas eras. Ele foi influência direta em sua música “betty”, do álbum folklore. Se faz algum sentido falar sobre “o novo Bob Dylan”, é ela.

No nível mais básico da parte de “compositores” é onde está a genialidade dos dois artistas. Isso é muito especial em Dylan, com sua voz característica que seria difícil de apreciar sem a magia de suas músicas. A voz de Taylor é menos peculiar, mas é fruto de muito esforço; após uma performance nos Grammys de 2012, que convenceu alguns que ela usava auto-tune, ela se dedicou mais a aulas de canto.

E ambos são levados muito a sério como compositores. Em 2016 Dylan foi premiado com o prêmio Nobel de literatura — até agora o único compositor musical a recebê-lo. Ele também foi o assunto de um estudo enorme do acadêmico de Oxford Christopher Ricks, que o coloca ao lado de Shakespeare.

Swift não possui tantas honras, mas estudantes do Instituto Clive Davis da Universidade de Nova Iorque podem ter um curso baseado em sua carreira e música que promete analisar “a cultura e a política da adolescência na música pop, fãs, estudos da mídia, branquitude e poder que se relacionam à sua imagem e as imagens daqueles que a antecederam e a sucedem”. Se isso soa como muita coisa para colocar nos ombros de uma só estrela, vale lembrar que Swift sempre levou sua carreira a sério.

Na adolescência desenvolveu uma obsessão com atos de country-pop como Shania Twain e as Dixie Chicks (The Chicks, atualmente). Começou a escrever suas próprias músicas e aos 14 anos convenceu seus pais de que a família deveria se mudar da Pensilvânia para Nashville, para aprofundar sua carreira. É notável que eles concordaram e é mais notável ainda que o plano deu certo. Ela assinou com a Big Machine Records e, em 2006, lançou seu primeiro single, aos 16 anos. 

Dylan começou tarde, em comparação: seu primeiro álbum foi lançado quando ele tinha 20 anos. Mas ele demonstrou um senso de propósito similar. No seu anuário do ensino médio ele escreveu sobre sua ambição de “se juntar ao Little Richard”, e uma performance das músicas da estrela do rock’nroll em um show de talentos da escola foi (de acordo com a lenda) impedida pelo diretor. No final da adolescência, passou para o gênero folk e, em 1961, se mudou de Minnesota para Nova Iorque, para ir atrás de suas ambições.

Ele também tomou outra decisão crucial nessa época: mudou seu nome de Robert Zimmerman para Bob Dylan. O novo nome parece ser uma referência a Dylan Thomas e marcou as inspirações poéticas do compositor (Também, de propósito ou não, o deixou menos obviamente judeu). Mas a coisa mais importante sobre a mudança do nome é que anunciou sua determinação para se reinventar.

No filme Rolling Thunder Revue (2019) de Martin Scorsese’s, que revisita sua turnê de 1975, Dylan resumiu sua técnica assim: “A vida não é sobre se encontrar. A vida é sobre criar a si mesmo e criar coisas”. Por mais que ele esteja associado à autenticidade, ele sempre se interessou em criar sua própria personalidade tanto quanto em criar música.

O nome de Swift também é uma declaração, apesar de ter sido escolhido por seus pais — “Taylor” vem do cantor-compositor James Taylor (E, também, convenientemente, é um nome de gênero neutro. Swift disse que sua mãe, que trabalhava em marketing, acreditou que isso a ajudaria no mundo corporativo).

O mais importante, Swift compartilha do talento para autocriação de Dylan. Começa com sua decisão de se tornar uma artista country na adolescência e continua ao longo de sua carreira. Seu álbum Red de 2012 marcou uma quebra no seu histórico de Nashville, com ela trabalhando com produtores como Max Martin, o homem por trás do som da Britney Spears.

Considerando controvérsias artísticas, isso não foi exatamente “Dylan goes eletric”. Ninguém a chamou de “Judas” por trair suas raízes musicais (foi o que um desordeiro gritou para Dylan quando ele evoluiu do folk puro para folk-rock na metade dos anos 1960). Mas havia céticos entre seus fãs mais antigos. Uma review da turnê do Red reclamava que a sua “simplicidade foi perdida”.

Porém, ver Swift como “simples” era equivocado. Ela é uma mulher de negócios, além de uma artista; após um conflito com sua primeira gravadora, resolveu regravar seus álbuns antigos para garantir que não pudessem lucrar com seu trabalho. Dylan também tem um olho bom para oportunidades: em 2020, vendeu os direitos do seu catálogo antigo por estimados 300 milhões de dólares (1,6 milhão de reais).

Durante toda a sua carreira, Swift jogou jogos sofisticados com sua identidade. Depois do Red ela se mudou para Nova Iorque e, como Dylan, passou por uma transformação. O álbum que ela fez lá, 1989, foi uma peça brilhante de electropop que aparenta aludir ao término de seu recente relacionamento com Harry Styles.

Dylan também transmitiu personalidade na sua arte — Blood on the Tracks, álbum de 1975 considerado uma de suas obras-primas, emergiu do fim de seu casamento com Sara Lowndes.

1989 marcou o pico da popularidade sem complicações de Swift. Em 2016 uma briga entre ela e Kanye West surgiu sobre ela ter dado ou não permissão para o lyric: “Acho que eu e Taylor ainda vamos transar/Por que? Eu deixei aquela vadia famosa”. Após Taylor reclamar publicamente, Kim Kardashian, esposa de Kanye na época, vazou uma gravação sugerindo que Taylor havia concordado (porém, apenas sobre a primeira parte).

Admiradores dos Kardashian-West foram para cima das redes de Swift com emojis de cobra, sugerindo que ela não era confiável. Como resposta, ela se apagou da internet e voltou, alguns meses depois, com o álbum Reputation, onde desafiadoramente abraçou seu papel como a vilã.

Porém, uma vilã com um lado sensível. Com sua imagem pública tumultuada, ela foi para Londres com seu namorado Joe Alwyn, o assunto de algumas de suas músicas românticas mais doces. A lenda urbana conta que Dylan também encontrou rejuvenescimento criativo ao norte de Londres — ou, ao menos, passou um tempo em Crouch End com Dave Stewart do Eurythmics, por volta de 1993.

Depois do incidente da cobra, Swift abraçou abertamente causas políticas de uma maneira que talvez parecesse muito controversa para a “velha e boa” Taylor. Ela apoiou os democratas nas eleições de 2018, apoiou a causa LGBT e, esse ano, tweetou seu desapontamento com a decisão da Suprema Corte de limitar a liberdade de abortar no país. É o inverso da jornada de Dylan: ela se tornou mais política com a idade, enquanto ele se tornou mais opaco. Isso não impediu que políticos tentasse cooptar Dylan, incluindo o improvável Donald Trump que em um vídeo de campanha de 2020 rasgou o filme promocional de Subterranean Homesick Blues, onde Dylan folheia cartões de sugestão de slogan. Swift tem seus próprios admiradores políticos. Uma é Liz Truss, que orgulhosamente postou uma selfie com a cantora no Instagram. Truss também é responsável pela entrada de Swift em Hansard após a política quotar linhas da música The Man em um debate do dia internacional das mulheres, em 2020. 

West era para Swift o que Deus era para Dylan (uma comparação que West gostaria). Em 1979 Dylan se converteu para o cristianismo evangélico e pregava em seus shows. A jornada espiritual era sincera, mas também uma resposta à pressão da fama.

Quando ele era um jovem e politizado artista, seus fãs queriam que ele fosse um profeta: se ele dissesse que os tempos estavam mudando, eles realmente estavam. Agora ele foi refeito como um mensageiro divino e parece gostar parcialmente do desconforto entre os ouvintes que gostariam que ele continuasse um radical de cara nova.

Para a geração de Dylan, escolher quem você queria ser era uma reação à incerteza da vida pós segunda guerra mundial. O “baby boom” significou que, demograficamente, os EUA eram uma nação dos jovens. Os horrores do conflito em massa e genocídio tornaram absurda a ideia de deferência aos mais velhos: por que dar respeito automático às pessoas que pertenciam a um mundo tão caído?

Swift cresceu nas sombras de um tipo diferente de catástrofe — redes sociais — que forçou uma mudança incalculável no modo em que visualizamos a “vida real” e nosso próprio relacionamento com ela.

Suas reinvenções são obra de quem busca a sinceridade em tempos de fachadas digitais. Ela foi uma ingênua no country, um colosso pop e uma figura de ódio. Seus álbuns recentes a mostraram em seu estado mais vulnerável e complicado até agora. Se sua autocriação pode durar tanto quanto a de Dylan, o potencial musical é estonteante.

Fonte: TheTimes UK





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