Nos seus álbuns de 2020, folklore e evermore, Swift fala diretamente para profissionais da saúde – e nós a ouvimos.

Existem pouquíssimas coisas atualmente que conseguem fazer meus amigos coletivamente sorrirem ou demonstrarem qualquer outro tipo  de emoção além de tristeza, raiva ou desesperança. Se isso soa deprimente, infelizmente, é a realidade de muitos profissionais da saúde que já enfrentaram nove meses de pandemia. Mais pessoas morreram na quarta-feira do que no atentado do  11 de setembro, e, como socorristas, estivemos presentes em todos os momentos.

Mas aquele sentimento de tristeza mudou ontem quando Taylor Swift anunciou outro álbum surpresa, evermore, que saiu a meia noite. Minhas redes sociais estavam cheias de esperança e sentimentos positivos. Minhas mensagens estavam cheias de pontos de exclamação e carinhas felizes. Pela primeira vez em meses, nós pudemos respirar. 

Como uma psiquiatra de profissionais da saúde e alguém que viu shows da Taylor Swift em todas as turnês — inclusive quando ela abria para Keith Urban quando eu estava na faculdade — nada me deixa mais feliz do que quando meus “mundos se chocam”, e um novo álbum da Taylor se torna uma maneira de ajudar  profissionais da saúde ( inclusive eu!) a lidar com a pandemia e se recuperar um pouco. Talvez eu até tenha derrubado algumas lágrimas com o anúncio. De verdade, não poderia ter vindo em um momento melhor ou tão necessário para todos nós.

Brit Barkholtz, uma terapeuta que conta que sua demanda de trabalho cresceu muito por causa da pandemia, expressa que depois de tantos meses de correria, ela está exausta. Ela recorre à música de Swift desde que ambas tinham 16 anos quando a cantora lançou seu primeiro álbum mas, esse ano, folklore e evermore trazem um sentimento diferente. Ela explica: “Os dois álbuns deste ano saíram em momentos da minha vida em que, pessoalmente e profissionalmente, eu me sentia exaurida. Todos os  profissionais de saúde que eu conheço expressaram sentir parecido – todos nos sentimos no limite, em alguns momentos como se não tivéssemos mais nada para dar.” 

“Nós simplesmente queremos conseguir lidar e sobreviver à 2020 como profissionais da saúde. Ao recorrer a Swift, talvez queiramos ser transportados para  momentos nostálgicos que tinham mais dança e menos trauma. Como se fosse um cobertor que passa segurança (ou cardigan), nos agarramos às boas memórias que associamos com ela na esperança de que, bom, possamos nos sentir mais felizes.”

Eve Bloomgarden, médica, professora assistente de endocrinologia na Northwestern University e co-fundadora e diretora de desenvolvimento do Impact, lembra de alguns desses momentos mais felizes, como cantar “Love Story” no ônibus depois de um plantão durante  sua residência, a música a animando  (ou pelo menos mantendo – a acordada até que ela chegasse em casa. Para Danielle Belardo, médica, diretora de cardiologia do Institute of Plant-Based Medicine em Newport Beach, Califórnia, a música de Taylor a lembra de momentos que ela estudava para a faculdade de medicina, colocando o 1989 e o reputation no máximo durante seus casos em seu treinamento. Mariam Ali, MD, estudante de endocrinologia, conheceu sua melhor amiga no treinamento médico por meio de seu amor mútuo por Swift. Courtney Emery, lembra-se de um momento durante o furacão Sandy quando a energia acabou, o gerador do hospital falhou e ela usou uma caixa de som a baterias para cantar e dançar músicas do Red com as crianças em uma unidade psiquiátrica para alegrar e distraí-los.

A música de Taylor Swift é tecida como uma colcha ao longo das nossas carreiras médicas. Cada álbum é um novo capítulo, e o folklore  – tanto sonoramente e emocionalmente – representa onde estamos agora como profissionais da saúde durante uma pandemia. Jane van Dis, MD, uma ginecologista e obstetra, observa: “Honestamente, o folklore  é realmente o único tipo de música que eu escutei durante a pandemia. Ou seja, tem sido difícil me concentrar, e eu me inclinei no folklore  porque parecia um lugar seguro para estar mentalmente… Há algo sobre este álbum que parece refrescante e reconfortante. E acima de tudo, eu me sinto notada. Swift captou o que senti: retraída e reflexiva, e precisando de consolo e conforto.”  Kirstin Manges, PhD, acrescenta: “Quando o folklore foi lançado – era como uma brisa de ar fresco quando eu mais precisava. Era catártico escutar o álbum e ele proveu conforto em momentos de escuridão e isolamento.

Também, claro, há a canção “Epiphany.” A faixa 13 do folklore foi escrita sobre trabalhadores da saúde durante o COVID-19 em paralelo com as experiências do avô de Swift durante seu período  na Segunda Guerra Mundial. Você pode não pegar  as referências da primeira vez que ouvir a música, ou fazer o que eu fiz quando ouvi pela primeira vez as palavras “faculdade de medicina” em um verso de uma música Swift, que é rebobinar, e ouvir de novo e de novo. Mas uma vez que você ouve, se você é um profissional da saúde, eu posso praticamente garantir que isso vai fazer você derramar lágrimas e dizer algo mais ou menos como, “ELA ENTENDE! ELA NOS VÊ!” 

Dra. Ali explica que aconteceu o mesmo com ela. “Foi só depois de um dia exaustivo de trabalho, no crescimento da segunda onda do COVID, que voltando para casa andando, reconheci que as palavras ‘faculdade de medicina’ eram ditas. E cada frase depois disso expressavam meus sentimentos, de forma tragicamente bonita, sobre tudo o que eu tinha testemunhado naquele dia e que eu nunca seria capaz de colocar em palavras. Desde então já ouvi a música um milhão de vezes e sempre me remete àquele dia exaustivo. Megan Ranney, médica de emergência da Universidade Brown e co-fundadora da Getusppe, compartilha desse sentimento. “Foi apenas mais um belo toque de T.Swift, emblemática de todas as maneiras que ela presta atenção ao mundo ao seu redor”, diz ela. “Mas o que mais importava era que nos dava liberdade para sentir. A primeira vez que ouvi, comecei a chorar.”

Algo que a escola de medicina não ensinou

A filha de alguém, a mãe de alguém

Segura sua mão através do plástico agora

Doutor, acho que ela está morrendo

E sobre algumas coisas você simplesmente não consegue falar

Dra. Belardo sente que essas palavras a atingiram com força. Ela diz, “Eu vi pacientes morrerem de COVID, dizer adeus a suas famílias por telefone, e eu sempre penso que é a família de alguém, que é amigo de alguém. Infelizmente, parece que muitos americanos são insensíveis ao número diário de mortes do COVID, mas nunca serei insensível a ver alguém amado morrer.”

De muitas maneiras, a letra dessa música nos faz chorar porque nos sentimos vistos e validados. De alguma forma, se Swift entende, talvez não estejamos sozinhos. Talvez as pessoas estejam ouvindo. Talvez nosso trabalho duro todos os dias e nossos sacrifícios importem.

Cadence Kuklinski, explica: “Foi uma experiência completamente diferente sentir-se visto por um ícone da cultura pop, quando tantos trabalhadores da saúde estão frequentemente enfrentando menosprezo e escárnio, não só por estranhos, mas por seus amigos e familiares também. ‘Epiphany’ foi um bom lembrete de que nossos esforços não estão passando completamente despercebidos.”

Kelsie Nick, acrescenta que, embora ela sempre tenha sido uma fã de Swift, seu apreço pela cantora se aprofundou este ano de uma forma que ela não achava possível. Ela muitas vezes sente que a  área da saúde é  isolante, e não algo que serve de material para uma conversa casual, mas Swift fez com que parecesse mais fácil. Ela acrescenta: “Estar lá enquanto o coração de um paciente para, ou luta para respirar não é algo que você pode falar sobre em um primeiro encontro. A canção de Taylor ‘Epiphany’ dá ao público geral um vislumbre em nosso mundo e com talvez a compreensão do  porque o mundo da saúde está assim exausto.”

Em sua entrevista ao Entertainment Weekly 2020, a artista do ano, Taylor Swift, foi questionada sobre as pessoas que não usam máscaras e lotam os bares. Ela explicou que pensa nos profissionais de saúde e observou: “Se eles conseguirem sair disso, se eles virem o outro lado, vai haver muito trauma que vem com isso; haverá coisas que eles testemunharam que nunca serão capazes de esquecer.” Ele destacou ainda outra maneira pela qual Swift ajudou os trabalhadores da linha de frente em toda a pandemia, defendendo o distanciamento social e as máscaras (chegando a brincar que é por isso que ela escreveu o folclore em primeiro lugar) e modelando comportamentos de saúde pública baseados em evidências em suas gravações de vídeo, suas escolhas pessoais e até mesmo o cancelamento de seus shows.

Dr. Ranney explica: “Em um ano em que tantas celebridades ignoraram ou desprezaram as precauções básicas, dando a entender que estavam acima das regras, foi revigorante e reconfortante ouvi-la falar sobre essas medidas essenciais de saúde pública.” Jen Gunter, médica, obstetra e autora de The Vagina Bible, acrescenta: “Isso é muito importante para mim. Vê-la usar seu privilégio desta forma… Infelizmente, não acho que isso mudará nenhuma opinião (anti-mascaradores serão anti-mascaradores), mas é bom saber que algumas pessoas entendem.”

“Mesmo que as pessoas não escutem e os comportamentos não melhorem, ainda é bom ter alguém do nosso lado. Isso nos inspira e nos dá esperança de continuar, o que é extremamente necessário agora.” A Dra. Bloomgarden observa: “Sua música atinge tantas pessoas internacionalmente, ouvi-la apoiar os profissionais de saúde e promover medidas de saúde pública que temos implorado às pessoas para seguir por meses pareceu um presente. É exaustivo sentir que estamos lutando sozinhos contra essa pandemia e ter alguém que entendeu, apoiou e amplificou nossa mensagem, me deu forças para continuar lutando, cantando, gritando e trabalhando para cuidar de meus pacientes.”

O próximo capítulo, Evermore, chega no momento certo para nos inspirar a continuar lutando. É como se ela sentisse que nós (com certeza eu) precisávamos de seu apoio emocionalmente.

Matéria publicada pela Instyle e traduzida pela Equipe TSBR.





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