Não teve jeito, o ano foi dela! A renomada revista Time elegeu Taylor Swift a Pessoa do Ano em 2023. Com a turnê The Eras, filme do show e vários (re)lançamentos, a escolha não poderia ter sido outra. Fama, processos criativos, impacto econômico e vida pessoal são alguns dos tópicos abordados na matéria publicada pela revista, que conta com uma sessão de fotos exclusivas e muitos trechos importantes. Confira tudo abaixo.

Tradução: Equipe TSBR

Taylor Swift está me contando uma história, e quando Taylor Swift te conta uma história, você escuta, porque você sabe que vai ser boa – não só porque ela tem uma vida extraordinária, mas porque ela é uma extraordinária contadora de histórias. Essa aqui é sobre a vez que ela teve seu coração partido, embora não tenha sido do jeito que você espera.

Ela diz que tinha 17 anos e havia conseguido a maior oportunidade de sua vida até então – um lugar altamente cobiçado para show de abertura da super estrela do country Kenny Chesney em turnê. “Isso iria mudar minha carreira”, ela relembra. “Eu estava muito animada”. Mas algumas semanas depois, Swift chegou em casa e viu sua mãe, Andrea, sentada nas escadas da parte de frente da casa. “Ela estava chorando”, diz Swift. “Estava com a cabeça nas mãos como se houvesse uma emergência familiar”. Através de soluços, Andrea disse à sua filha que a turnê de Chesney estava sendo patrocinada por uma empresa de cerveja. Taylor era jovem demais para se juntar a eles. “Eu fiquei devastada”, Swift diz.

Mas alguns meses depois, na festa de 18 anos de Swift, ela viu o promotor de Chesney. Ele lhe entregou um cartão de Chesney que dizia, bem como Swift se lembra, “Sinto muito por você não ter conseguido vir na turnê, então eu gostaria de te recompensar.” Com a nota, havia um cheque. “Foi o maior dinheiro que eu já havia visto na vida”, diz Swift. “Eu consegui pagar os bônus da minha banda. Consegui pagar meus ônibus de turnê. Eu consegui alimentar meus sonhos.”

Ouvir Taylor compartilhar isso, em uma tarde clara de outono em seu apartamento em Nova Iorque, me deixa impressionado com o quão satisfatória a história é. Há grandes riscos no início; há detalhes vívidos e sensórios; há uma reviravolta que vira a ação de cabeça para baixo; e tem um final feliz para o herói. Ela só precisou de 30 segundos para contar isso, mas esses 30 segundos continham todo um mundo narrativo.

Não fico surpreso. Swift tem uma habilidade natural de encontrar a história. Sua anedota sobre Chesney simboliza uma narrativa maior na vida de Swift, uma sobre redenção – onde nossa protagonista descobre uma nova felicidade não apesar dos desafios, mas sim por causa deles. Swift, bem como vamos comentar sobre, levou algumas pancadas para chegar lá. “Eu fui levada ao alto e ao baixo no mastro da opinião do público por muitas vezes nos últimos 20 anos”, ela diz enquanto nos acomodamos no aconchegante recanto ao lado da cozinha para conversarmos, e ela tira os sapatos e se enrola no sofá. “Me deram uma coroa, e depois tiraram-na de mim.”. Ela parece muito honesta na conversa, reflexiva sobre onde já esteve e onde se encontra agora. Afinal de contas, embora ela seja, há muito tempo, uma das maiores pessoas do entretenimento mundial, esse ano é diferente. “Parece ser o momento decisivo da minha carreira acontecendo aos 33”, ela diz. “E, pela primeira vez na minha vida, eu estava mentalmente forte o suficiente para pegar o que quer que viesse junto.” Essa é sua história – mesmo que agora ela esteja tão alto que seja difícil acreditar que um dia já esteve tão baixo.

As conquistas de Swift enquanto artista – culturalmente, criticamente, e comercialmente – são tantas que relembrá-las parece quase impossível. Como uma estrela do pop, ela está em companhia rara ao lado de Elvis Presley, Michael Jackson e Madonna; como compositora, já foi comparada com Bob Dylan, Paul McCartney e Joni Mitchell. Como empresária, ela já construiu um império que vale, segundo algumas estimativas, mais de 1 bilhão de dólares. E como uma celebridade – que pelo fato de ser uma mulher é escrutinizada por tudo, desde com quem namora até o que veste – ela há muito tempo atrai muita atenção e sabe como usar isso. (“Eu não dou conselhos a Taylor Swift sobre como ser famosa”, Stevie Nicks me diz. “Ela não precisa disso.”) Mas, esse ano, algo mudou. Discutir sobre seus movimentos parece ser como discutir sobre política ou sobre o tempo – uma linguagem falada tão abertamente que precisa de contexto. Ela se tornou a maior personagem do mundo.

Se você não acredita nisso, considere o seguinte: quantas conversas você teve sobre Taylor Swift nesse ano? Quantas vezes você viu uma foto dela enquanto mexia no celular? Você foi uma das pessoas que fizeram uma peregrinação para uma cidade onde ela se apresentou? Você comprou um ingresso para assistir ao filme da turnê? Você curtiu um post no Instagram ou riu de um tweet ou clicou em uma noticia sobre ela? Você se pegou cantarolando “Cruel Summer” enquanto esperava na fila do mercadinho? Algum amigo confessou que assistiu clipes da Eras Tour noite após noite no TikTok? Sim ou não?

Sua épica turnê de retrospectiva da carreira revisitando suas “eras” artísticas, que teve 66 datas nas Américas esse ano, é projetada a se tornar maior de todos os tempos e a primeira a arrecadar mais de um bilhão de dólares brutos; analistas falaram sobre o “Efeito Taylor”, já que políticos da Tailândia, Hungria e Chile imploraram para que ela tocasse em seus países. Cidades, estádios e ruas foram renomeados por causa dela. Toda vez que ela chegava a um lugar, uma mini explosão econômica acontecia, já que hotéis e restaurantes puderam ver uma horda de visitantes. Ao lançar seu filme da turnê, Swift driblou estúdios e companhias de streamings, fazendo um pacto incomum com a AMC, dando para essa rede de teatros sua maior venda em um único dia da história.

Existem pelo menos 10 cursos de faculdade dedicados a ela, incluindo um em Harvard; a professora, Stephanie Burt, diz à TIME que planeja comparar o trabalho de Swift com os do poeta William Words-worth. Pulseirinhas da amizade trocadas pelos fãs em shows se tornaram um acessório da moda, causando um aumento de 500% nas vendas em lojas de artesanato. Quando Swift começou a namorar Travis Kelce, o jogador do Kansas City Chiefs e campeão do Super Bowl por duas vezes, seus jogos receberam um aumento massivo de telespectadores. (Sim, ela de alguma forma fez uma das coisas mais populares dos Estados Unidos – futebol americano – ser ainda mais popular.) E tem, ainda, seu catálogo musical – tão amado que, enquanto ela os relança, constantemente quebra recordes que ela mesma criou. Ela é a última monocultura que resta em nosso mundo estratificado.

É difícil ver a história quando se está no meio dela, e ainda mais difícil distinguir o impacto de Swift na cultura e seu estado de celebridade, que emite tanta luz que pode ser cegante. Mas algo diferente está acontecendo com Swift, sem um precedente contemporâneo. Ela usa o meio mais eficiente do dia – a música pop – para contar sua história. No entanto, ao longo do tempo, ela aproveitou o poder dos meios de comunicação, tanto tradicionais como novos, para criar algo totalmente único – um mundo narrativo, no qual a sua música é apenas uma peça numa história interativa e mutável. Swift é a arquiteta e heroína dessa história, protagonista e narradora.

Esse é o ano que ela aperfeiçoou seu ofício – não apenas com sua música, mas em sua posição como a maior contadora de histórias da era moderna. O mundo, em retorno, assistiu, clicou, chorou, dançou, cantou junto, desmaiou, foi aos estádios e aos cinemas, deixou que seu trabalho fosse a trilha sonora de suas vidas. Para Swift, é um auge. “Nunca me senti tão orgulhosa e tão feliz assim, e nem tão criativamente completa e livre”, Swift me diz. “Nós podemos complicar o quanto quisermos, ou tentar complicar demais, mas existe só uma questão.” Aqui, ela adota uma voz estrondosa. “Você não está entretido?

Alguns meses antes de eu me sentar com Swift em Nova Iorque, em uma noite de verão em Santa Clara, na Califórnia, que foi temporariamente renomeada para Swift Clara em sua homenagem, eu estava em um estádio com quase 70,000 outras pessoas tendo uma experiência religiosa. A plateia é arrebatadora e Swift se beatifica enquanto olha para nós, todos altos pela mesma droga. Seus fãs são apaixonados de forma singular, não somente no local do show mas também online, já que eles analisam dicas, pistas e mensagens secretas em tudo, desde sua coreografia até seus figurinos – alguns plantados de forma deliberada, outros não. (“Os fãs de Taylor Swift são os equivalentes modernos àqueles cultos que consistentemente teriam previsões erradas sobre o arrebatamento uma vez por mês”, disse um tweet viral.)

Ao estar no estádio, não é difícil entender por que essa é a maior coisa no mundo. “Beatlemania e Thriller não são nada comparados a esses shows”, disse a amiga e colaboradora de Swift, Phoebe Bridgers. Os fãs na Argentina montaram acampamentos do lado de fora do estádio por meses para conseguirem lugares privilegiados, e algumas pessoas pediram demissão de seus empregos para se comprometerem ao fandom por tempo integral. Pelos Estados Unidos, outras pessoas fizeram filas por dias, enquanto aqueles que não conseguiram ingressos se juntaram em estacionamentos para que pudessem pelo menos ouvir ao show. Quando os ingressos foram a venda ano passado, a Ticketmaster caiu. Embora 4,1 milhões de ingressos tenham sido vendidos para os shows de 2023 – incluindo mais de 2 milhões no primeiro dia, um novo recorde – cambistas aumentaram os preços no mercado secundário para mais de $22,000. Vários fãs entraram com processos. O Departamento de Justiça seguiu em frente com a investigação. O Senado teve uma audição.

“Eu sabia que essa turnê seria mais difícil do que qualquer coisa que eu tenha feito antes, de longe”, diz Swift. Cada show tem mais de 180 minutos, incluindo mais de 40 músicas de seus últimos 9 álbuns; são 16 trocas de figurino, pirotecnia, uma ilusão de ótica na qual ela aparece mergulhando no palco e nadando, e não um, mas dois cenários meio cottage, que contam com musgo em abundância.

No passado, Swift brinca, ela fez turnês como “um cara da fraternidade”. Dessa vez, ela começou a treinar seis meses antes do primeiro show. “Todo dia eu corria na esteira, cantando toda a setlist bem alto”, ela disse. “Correndo rápido em canções rápidas, e uma corrida mais suave ou uma caminhada rápida em canções mais calmas.” Sua academia, Dogpound, criou um programa para ela, encorporando força, condicionamento físico e peso. “Então eu tive três meses de treino de dança, porque queria que isso entrasse em meus ossos”, ela diz. “Eu queria estar tão bem ensaiada que eu pudesse fazer coisas bobas com os fãs e não perder minha linha de pensamento”. Ela trabalhou com a coreografa Mandy Moore – recomendada por sua amiga Emma Stone, com quem trabalhou em La La Land – já que, como Swift diz, “aprender coreografias não é meu forte.” Com a exceção da noite do Grammy – que foi hilária, segundo ela – ela também parou de beber. “Fazer esse show de ressaca…. não quero conhecer esse mundo. “A chegada de Swift em uma cidade energizava a economia local. Quando a turnê se iniciou em Glendale, no Arizona, ela gerou mais receita para os negócios do que o Super Bowl de 2023, que aconteceu no mesmo estádio. Fãs voaram pelo país, se hospedaram em hotéis, comeram em restaurantes e gastaram dinheiro em tudo, desde blusas de moletom até discos de vinil em edição limitada. Alguém que compareceu à The Eras gastou, em média, $1,300. Swift vê as despesas e os esforços feitos pelos fãs como algo que ela precisa retribuir. “Eles tiveram que dar duro para conseguir os ingressos”, ela diz. “Eu queria fazer um show que fosse mais longo do que eles achavam que seria, porque isso me faz sentir bem ao sair do estádio”. O “Efeito Taylor” foi noticiado nos mais altos níveis de governo. “Quando a Reserva Federal te menciona como a razão pela qual a economia aumentou, isso é algo grande”, diz Ed Tiryakian, um professor de finanças na Universidade de Duke.

Carregar a economia nas costas é muito para uma pessoa só. Depois de fazer uma sequência de shows, Swift tira um dia para descansar e se recuperar. “Eu não saio da cama a não ser para pegar comida e levar de volta pra cama e comer lá mesmo”, ela diz. “É um cenário dos sonhos. Eu mal posso falar porque estive cantando por três shows seguidos. Toda vez que dou um passo, meus pés fazem crack, crack, crack depois de dançar com salto alto.” Manter sua força através da malhação entre os shows é a chave de tudo. “Eu sei que preciso subir no palco mesmo estando doente, machucada, de coração partido, desconfortável ou estressada”, ela diz. “Isso é parte da minha identidade como ser humano agora. Se alguém compra ingresso pro meu show, eu vou fazê-lo, a menos que temos algum tipo de força maior.” (Uma onda de calor no Rio de Janeiro causou caos durante os shows de Swift em novembro, já que uma fã, Ana Clara Benevides Machado, supostamente colapsou durante o show e veio a falecer depois; Swift escreveu no Instagram que estava de “coração partido”. Ela reagendou o show seguinte por causa das condições não-seguras, e passou um tempo com a família de Benevides em seu show final no Brasil.)

Swift é muitas coisas no palco – vulnerável e triunfante, brincalhona e triste – mas a intimidade da sua habilidade de compor é a frente e o centro. “Seu trabalho como compositora é o que mais fala comigo”, diz a cineasta Greta Gerwig, cujo filme feminista “Barbie” foi o próprio testamento da ideia de que mulheres podem ser qualquer coisa. “Escrever músicas que são da parte mais profunda dela mesma e ter isso diretamente dito nas almas de outras pessoas.” À medida que Swift atravessa as eras, ela não está tentando atualizar suas músicas antigas, seja o romance sincero de “You Belong With Me” ou a lassidão milenar de “22”, mas sim as abraçando novamente. Ela está modelando a auto aceitação radical no maior palco do mundo, dando ao público um espaço para revisitar sua própria alegria ou dor, uma vez rejeitadas ou esquecidas. Digo a Swift que o programa me fez pensar em um meme que diz: “Não mate a parte de você que se encolhe – mate a parte de você que te encolhe”. “Sim!” ela exclama. “Cada parte de você que você já foi, cada fase pela qual você passou, você estava trabalhando naquele momento com as informações que tinha disponíveis naquele momento. Há muitas coisas para as quais penso: ‘Uau, alguns anos atrás eu poderia ter me encolhido com isso’. Você deveria comemorar quem você é agora, para onde está indo e onde esteve.”

Chegar a esse lugar de harmonia com seu passado deu trabalho; há uma ironia dramática, explica ela, no sucesso da turnê. “Não passou despercebido que os dois grandes catalisadores para isso acontecer foram duas coisas horríveis que aconteceram comigo”, diz Swift, e é aí que a história dá uma guinada. “A primeira foi ser cancelada a um centímetro da minha vida e sanidade”, diz ela claramente. “A segunda foi ter o trabalho da minha vida tirado de mim por alguém que me odeia.”

Swift me mostra algumas coisas que ela adora em seu apartamento: uma barbie de Stevie Nicks que ainda está em sua cozinha, enviada a ela pela artista; o bilhete emoldurado de Paul McCartney que está pendurado em seu banheiro; azulejos ao redor da lareira que Swift encontrou fazendo compras em Paris com a mãe. As conexões com sua família estão por toda parte, incluindo uma foto impressionante de sua avó Marjorie, uma cantora de ópera e inspiração para uma faixa de seu álbum “evermore”. Swift cresceu em uma fazenda de árvores de Natal na Pensilvânia, com seu irmão mais novo, Austin; seu pai, Scott, era corretor da bolsa Merrill Lynch e Andrea trabalhava com marketing. Sua família ainda trabalha em estreita colaboração com ela até hoje. “Meu pai, minha mãe e meu irmão tiveram algumas das melhores ideias da minha carreira”, diz Swift. “Eu sempre brinco que somos uma pequena empresa familiar.”

Depois de se mudar para Nashville ainda adolescente, ela assinou contrato com a Big Machine Records de Scott Borchetta. A habilidade de composição de Swift ficou evidente na primeira letra de “Tim McGraw”, seu single de estreia: “Ele disse que a maneira como meus olhos azuis brilharam envergonhou aquelas estrelas da Geórgia naquela noite – eu disse: ‘Isso é mentira’”. Até mesmo para música country, essas letras são literárias – evocando uma fantasia romântica e esvaziando-a um verso depois. A promessa de conto de fadas de amor e intimidade tornou-se um obstáculo no trabalho de Swift como compositora, algo que ela repetidamente defendeu e depois negou; ela estava consciente do papel que a narrativa desempenhava em suas expectativas. Ela era vista como uma artista talentosa ingênua do pop country quando, em um momento agora infame, Kanye West interrompeu Swift no palco do VMA de 2009 enquanto ela recebia um prêmio. O incidente desencadeou uma série de eventos que moldaria a próxima década de vida de ambos os artistas.

Foi nessa época, Swift lembra agora, que ela começou a tentar mudar de forma. “Percebi que todas as gravadoras estavam trabalhando ativamente para tentar me substituir”, diz ela. “Em vez disso, pensei em me substituir primeiro por um novo eu. É mais difícil atingir um alvo em movimento.” Swift escreveu músicas solo, incorporou diversas influências sonoras e colocou mais pistas sobre relacionamentos pessoais em suas letras e materiais de álbum para os fãs decodificarem. Sua balada épica “All Too Well”, do álbum “Red”, de 2012, resume o superpoder de Swift como compositora, implantando detalhes descartados como um cachecol esquecido que volta no final da música para apunhalar você no coração – mas também tinha uma mensagem secreta escondida nas notas do encarte. Quando uma versão estendida da música alcançou o primeiro lugar no ano passado após seu relançamento, não foi apenas porque a música é extraordinária, mas porque tem sua própria tradição, como “You’re So Vain” de Carly Simon, se veio com um quebra-cabeça experiencial para os fãs resolverem. “Ela é como uma sala inteira de escritores como uma só pessoa, com aquela voz e carisma”, diz Bridgers. “Ela é tudo ao mesmo tempo.”

Swift sabia que precisava continuar inovando. “Quando um artista está maduro o suficiente para lidar psicologicamente com o trabalho, normalmente eles o expulsam aos 29 anos”, diz ela. “Nas décadas de 90 e 2000, parece que a indústria musical apenas disse: ‘OK, vamos pegar um bando de adolescentes, jogá-los no fogo e ver o que acontece. Quando eles acumularem sabedoria suficiente para fazerem seu trabalho de maneira eficaz, encontraremos novos adolescentes.’” Ela se tornou pop a todo vapor no álbum “1989”, de 2014, colocando-a no topo do mundo – “uma fase imperial”, ela chama isto. Ela não percebeu que isso também lhe daria muito mais para cair. O sentimento público mudou – criticando tudo, desde sua suposta superexposição até teorias conspiratórias sobre sua política. “Eu tive todas as hienas subindo e se aproveitando”, diz ela. West escreveu uma música com letras vulgares sobre ela e afirmou que Swift havia consentido com isso, o que Swift negou; a então esposa de West, Kim Kardashian, divulgou um vídeo de uma conversa entre West e Swift que parecia indicar que Swift estava de acordo com a música. O escândalo foi a erva-dos-gatos dos tablóides; fazia Swift parecer uma cobra, que é como as pessoas a chamavam. Ela sentiu que era “uma morte na carreira”, diz ela. “Não se engane – minha carreira foi tirada de mim.”

Foi um momento sombrio. “Você tem um trabalho totalmente fabricado, em uma ligação gravada ilegalmente, que Kim Kardashian editou e depois divulgou para dizer a todos que eu era uma mentirosa”, diz ela. “Isso me levou psicologicamente a um lugar onde nunca estive antes. Mudei-me para um país estrangeiro. Não saí de uma casa alugada por um ano. Eu tinha medo de receber ligações. Afastei a maioria das pessoas da minha vida porque não confiava mais em ninguém. Eu caí muito, muito forte.” (Kardashian escreveu, em uma postagem nas redes sociais de 2020, que a situação “me forçou a defendê-lo”.) O próximo álbum de Swift, “reputation”, de 2017, apresentava imagens de cobra; o vídeo de “Look What You Made Me Do” a viu matando versões mais jovens de si mesma. Ela se lembra de reputation sendo recebido com alvoroço e ceticismo. “Achei que aquele momento iria me definir negativamente pelo resto da minha vida”, diz ela. Ela também havia cumprido seu contrato com a gravadora de Borchetta e sabia que queria sair. “A química molecular daquele rótulo antigo fazia com que cada escolha criativa que eu quisesse fazer fosse questionada”, diz ela. “Eu estava realmente pensando demais nesses álbuns.”

Ela se encontrou com Lucian Grainge, CEO do Universal Music Group, e Monte Lipman, que dirige a principal gravadora da Universal, Republic Records, para conversar sobre a assinatura de um acordo que lhe daria mais controle. Hoje, Grainge é talvez o executivo mais poderoso da indústria musical, mas, enquanto estou sentado com ele no seu escritório em Los Angeles, ele se descreve como um “velho punk” que opera mais por instinto do que por métricas. Ele disse a Swift: “Utilizaremos tudo o que temos como empresa para você”. Swift sentiu como se tivesse recebido carta branca: “Lucian e Monte basicamente me disseram: ‘Tudo o que você entregar, teremos orgulho de lançar. Damos a você 100% de liberdade criativa e confiança.’” Era exatamente o que ela mais precisava ouvir quando as coisas estavam ruins.

No entanto, o lançamento do primeiro álbum de Swift com a Republic, “Lover”, de 2019, coincidiu com a segunda grande reviravolta em sua vida profissional: Borchetta vendeu a Big Machine – e com ela o catálogo de Swift, então avaliado em US$ 140 milhões – para a Ithaca Holdings, que é propriedade do gerente musical Scooter Braun, um ex-aliado de West. “Com a coisa do Scooter, meus masters estavam sendo vendidos para alguém que os queria por motivos nefastos, na minha opinião”, diz Swift. (“Fico triste que Taylor tenha tido essa reação ao acordo”, disse Braun à Variety em 2021.) A venda significou que os direitos dos primeiros seis álbuns de Swift foram transferidos para Braun, então sempre que alguém quisesse licenciar uma dessas músicas, ele seria o único a lucrar. Swift reuniu seus fãs contra o acordo, mas ainda se sentia impotente. “Fiquei muito chocada com a venda da minha música e para quem ela foi vendida”, diz ela. “Eu estava tipo, ‘Oh, eles me venceram agora. É isso. Não sei o que fazer.’” Ela voltou ao trabalho, usando o bloqueio pandêmico para reduzir seu som em álbuns aclamados pela crítica, “folklore” e “evermore”.

Na mesma época, ela começou a pensar em regravar seus álbuns antigos, em um esforço para recuperar o controle. “Eu encontrei Kelly Clarkson e ela disse, ‘Basta refazer’”, diz Swift. “Meu pai ficava dizendo isso para mim também. Eu olhava para eles e dizia: ‘Como posso fazer isso?’ Ninguém quer refazer o dever de casa se, no caminho para a escola, o vento leva embora o relatório do seu livro.” Como Swift escreveu suas próprias canções, ela manteve os direitos autorais da composição musical e pôde regravá-las. Ela também negociou a propriedade dos direitos das masters de seu material quando se mudou para a Republic em 2018, então agora ela possui seu novo material e as músicas regravadas. (Desde então, as grandes gravadoras tornaram mais difícil para os artistas regravarem suas músicas.) Ela começou a regravar versões sutilmente diferentes de seus álbuns antigos, marcando-os como “(Taylor’s Version)” e adicionando faixas inéditas para redirecionar o público para eles. Ela enquadra a estratégia como um mecanismo de enfrentamento. “Tudo depende de como você lida com a perda”, diz ela. “Eu respondo à dor extrema com desafio.”

Grainge chama o projeto de regravação de “bizarramente brilhante e único” – algo que apenas um artista do nível dela poderia realizar. “Tem uma narrativa assim – há uma razão para isso.” Ele balança a cabeça. “Imagine Picasso pintando algo que pintou há alguns anos e depois recriando-o com as cores de hoje.” Parte da história de sucesso, diz Swift, é a liberdade que ela recebeu da gravadora para seguir seus instintos. “Se você olhar o que lancei desde então, são mais álbuns nos últimos anos do que nos primeiros 15 anos da minha carreira”, diz ela. Essa produção prolífica alimentou sua ascensão. “Ela poderia cumprir dois mandatos como Presidente dos Estados Unidos e depois ir para Las Vegas”, diz Grainge. “Quem mais pode fazer isso?”

Na grande narrativa da vida de Swift, à medida que ela ascendia neste ano, a sorte de seus inimigos também parecia mudar. Durante o verão, foi relatado que vários dos principais clientes de Braun – os principais sendo Justin Bieber e Ariana Grande – não eram mais administrados por sua empresa, enquanto os comentários anti-semitas e outros comentários ofensivos de West o levaram a perder acordos de patrocínio importantes. Swift sabe em primeira mão que a fama é uma gangorra. “Nada é permanente”, diz ela. “Portanto, tenho muito cuidado para ser grata a cada segundo por fazer isso neste nível, porque isso já foi tirado de mim antes. Há uma coisa que aprendi: minha resposta a qualquer coisa que aconteça, boa ou ruim, é continuar fazendo coisas. Continue fazendo arte.” Ela considera. “Mas também aprendi que não faz sentido tentar ativamente, entre aspas, derrotar seus inimigos”, diz ela. “O lixo sai sozinho todas as vezes.”

A estreia do filme-concerto de Swift aconteceu no Grove, um shopping ao ar livre em Los Angeles, que foi fechado para o evento; Swift lotou 13 salas com milhares de fãs. Ela foi a cada teatro agradecendo aos soluços do público por estarem lá. Assim como a turnê, o filme, que foi lançado diretamente nos cinemas sem parceiro tradicional, é um acontecimento. “Nós nos reunimos com todos os estúdios”, ela me conta, “e nos encontramos com todos os streamers, e avaliamos como isso era percebido e valorizado, e se eles tinham grandes esperanças e sonhos em relação a isso. No final das contas, fiz o que costumo fazer cada vez com mais frequência hoje em dia: apostar em mim mesma.” Ela credita a ideia ao pai. “Ele acabou de dizer: por que tem que haver um – por falta de uma palavra melhor – intermediário?”

No teatro, a emoção se espalha pela multidão, uma mistura de fãs e amigos de Swift, enquanto esperamos por ela. À minha esquerda estão duas Swifties dedicadas, irmãs que se apresentam como Madison, 23, e McCall, 20, e que ainda estão se recuperando de tirar uma selfie com Swift no tapete vermelho. Seus pulsos são cobertos por pulseiras de amizade, algumas das quais possuem piadas internas – como NO ITS BECKY, uma referência a um meme adorado do Tumblr, e BLEACHELLA STAN, para o cabelo loiro platinado de Swift de 2016 – e Madison revela uma tatuagem em seu antebraço que diz “Taylor’s Version” Ambos me disseram que seu álbum favorito é “reputation”. Eles são minhas pessoas favoritas que já conheci e quero falar apenas com eles pelo resto da minha vida. Madison admira Swift por sua vulnerabilidade – “o que é uma loucura, quando ela está sob escrutínio interminável” – enquanto McCall cita sua consistência, que ela chama de “uma forma de arte perdida”. Quando pergunto como McCall se sente em relação à vida romântica de Swift, ela responde à pergunta com elegância. “É um desserviço para ela se concentrar nessas coisas”, diz ela. “Ela é muito boa em fazer com que sua experiência pessoal se relacione com milhões de pessoas. Quando ouço as músicas dela, penso no que passei – não no que ela passou.”

A vida privada de Swift há muito serve como combustível para os tablóides e inspiração para seu próprio trabalho; ela se separou de seu namorado de longa data, o ator Joe Alwyn, no início deste ano. Mais recentemente, ela está namorando o astro da NFL Travis Kelce, como foi bem documentado quando ela assistiu aos jogos dele. “Não sei como eles sabem em que camarote estou”, diz ela. “Há uma câmera a uns oitocentos metros de distância, e você não sabe onde ela está, e você não tem ideia de quando a câmera está colocando você na transmissão, então não sei se estou sendo mostrada 17 vezes ou uma vez.” Ela é sensível à atenção que é dada a ela quando ela aparece. “Estou lá apenas para apoiar Travis”, diz ela. “Não tenho consciência se estou sendo mostrada demais e irritando alguns pais, Brads e Chads.”

Ressalto que é positivo para a NFL ter alguns Swifties assistindo. “Acontece que o futebol é incrível”, diz Swift, brincando. “Eu perdi isso minha vida inteira.” (Um jogo ao qual ela assistiu em outubro foi o programa de domingo mais assistido desde o Super Bowl.)

Dada sua história complexa com interesse público em sua vida amorosa, digo, parece digno de nota que seu relacionamento com Kelce tenha se desenrolado de forma tão pública. Swift gentilmente retruca: “Tudo isso começou quando Travis, de maneira muito adorável, me colocou no ar em seu podcast, algo que eu achei corajoso pra caramba”, diz ela. “Começamos a sair logo depois disso. Na verdade, passamos um tempo significativo juntos sobre o qual ninguém soube, pelo qual sou grata, porque nos conhecemos. Quando fui ao primeiro jogo, éramos um casal. Acho que algumas pessoas pensam que viram nosso primeiro encontro naquele jogo. Nunca seríamos psicóticos o suficiente para fazer daquilo um primeiro encontro.” O ponto principal, para ela, é que não há nada a esconder. “Quando você diz que um relacionamento é público, isso significa que vou vê-lo fazer o que ama, estamos aparecendo um para o outro, outras pessoas estão lá e não nos importamos”, diz ela. “O oposto disso é que você tem que fazer um esforço extremo para garantir que ninguém saiba que você está saindo com alguém. E estamos apenas orgulhosos um do outro.”

A abertura de Swift é uma parte do motivo pelo qual sua base de fãs é fortemente, embora não exclusivamente, feminina. A Eras Tour foi uma peça crítica do que Swift chama de “um verão de três partes de extravagância feminina” – as outras duas partes sendo a bonança de bilheteria de Gerwig, Barbie, e o sucesso de bilheteria de Beyoncé, a Renaissance Tour, que mudou a cultura. “Fazer um filme divertido com aquele tópico”, ela diz sobre Barbie, “não consigo imaginar o quão difícil isso foi, e Greta fez com que parecesse tão fácil!” (“Eu adoro uma garota que é boa com as palavras, e ela é a melhor com elas”, diz Gerwig sobre Swift, a quem ela chama de “Bruce Springsteen encontra Loretta Lynn que encontra Bob Dylan.”)

Swift não é menos efusiva ao falar sobre Beyoncé, que negociou um acordo semelhante com a AMC e apareceu na estreia de Swift em Los Angeles; no mês seguinte, Swift retribui o favor indo ao Beyoncé’s em Londres. “Ela é a joia mais preciosa de uma pessoa – calorosa, aberta e engraçada”, diz Swift. “E ela é uma grande perturbadora das normas da indústria musical. Ela ensinou a todos os artistas como virar a mesa e desafiar práticas comerciais arcaicas.” O fato de sua turnê e a de Beyoncé serem frequentemente justapostas é irritante. “Houve tantas turnês em estádios neste verão, mas as únicas que foram comparadas fomos eu e Beyoncé”, diz ela. “É evidente que é muito lucrativo para a mídia e para a cultura stan colocar duas mulheres uma contra a outra, mesmo quando os dois artistas em questão se recusam a participar dessa discussão.”

Para Swift, o sucesso das três parece um ponto de inflexão. “Se tivermos que falar de forma estereotipada sobre o feminino e o masculino”, diz ela, “as mulheres foram alimentadas com a mensagem de que aquilo em que gravitamos naturalmente…” Ela tem alguns exemplos: “Infância, sentimentos, amor, rompimentos, analisando esses sentimentos, falando deles sem parar, glitter, lantejoulas! Fomos ensinadas que essas coisas são mais frívolas do que aquelas pelas quais os homens de gênero estereotipado gravitam, certo?” Certo, eu digo. “E o que existe desde o início dos tempos? Uma sociedade patriarcal. O que alimenta uma sociedade patriarcal? Dinheiro, fluxo de receitas, a economia. Então, na verdade, se olharmos para isso da maneira mais cínica possível, as ideias femininas se tornarem lucrativas significa que mais arte feminina será feita. É extremamente animador.”

Em meio a tanta atenção, parece digno de nota que Swift parece mais relaxada aos olhos do público, e não menos – embora eu me pergunte em voz alta se isso simplesmente parece assim. Ela assente. “Ao longo dos anos, aprendi que não tenho tempo nem largura de banda para ser pressionada sobre coisas que não importam. Sim, se eu sair para jantar, vai haver toda uma situação caótica fora do restaurante. Mas ainda quero jantar com meus amigos.” Ela parece pensativa. “A vida é curta. Tenha aventuras. Eu me tranquei em casa por muitos anos – nunca terei esse tempo de volta. Estou mais confiante agora do que há seis anos.”

Ela também está se divertindo mais. Em sua estreia, Swift se senta na mesma fila que eu, Madison e McCall, cantando e dançando em seu lugar; continuamos esticando o pescoço para olhar para ela, compartilhando olhares estupefatos: isso não é surreal? Há momentos no filme em que as câmeras capturam as enormes telas atrás de Swift no palco, e parece uma casa de espelhos, essas miríades de reflexos de Taylor Swift – nós observando-a se observar em uma tela, que por sua vez mostra a imagem de Swift em muitas telas, os milhares de fãs no estádio e nós neste teatro, com Swift no meio dele – todos nós extasiados, incapazes de desviar o olhar.

Swift e eu estamos conversando há algum tempo no apartamento dela, tempo suficiente para que nossos cafés esfriem e seu gato Benjamin Button entre no quarto, fique entediado e vá embora. Ela me conta sobre revisitar “reputation”, que talvez seja a época mais carregada da turnê. “É um momento gótico-punk de raiva feminina por ser iluminada por toda uma estrutura social”, diz ela, rindo. “Acho que muitas pessoas veem isso e ficam tipo, cobras legais e luzes estroboscópicas.” As próximas faixas do Vault para Reputation serão “incríveis”, ela promete. O projeto de regravações parece uma busca mítica para ela. “Estou colecionando horcruxes”, diz ela. “Estou colecionando pedras do infinito. A voz de Gandalf está na minha cabeça toda vez que lanço uma nova. Para mim, agora é um filme.”

Ocorre-me então que, apesar de toda a conversa sobre eras, também vale a pena pensar em gêneros – como Swift se moveu entre eles nas histórias que contou. No início, era uma história de maioridade, sobre uma jovem encontrando seu caminho no mundo e aprimorando sua voz diante de um público inconstante. Depois, houve romances, grandes histórias de encantamento e desejo, desgosto e desilusão, relacionamentos que ela escavou para suas canções e que a mídia documentou para ela com alegria ou tristeza, dependendo do dia. Houve dramas com riscos tão altos e reviravoltas tão sinuosas que parecem shakespearianos em seu escopo, traições pessoais e profissionais que moldaram sua vida. Ocasionalmente, essas histórias se transformaram em comédias malucas – como quando uma multidão em Seattle aplaudiu tão alto que foi registrado como um terremoto, ou quando, em uma parada da turnê no Brasil, a arquidiocese local permitiu que mensagens celebrando-a fossem projetadas no monitor de 124 pés na estátua do Cristo Redentor. Mas eles têm uma coisa em comum: Swift.

Ela é uma mestre da autodeterminação, de escrever sua própria história. A multi-hifenizada criadora de televisão Shonda Rhimes – que conhece bem as reviravoltas na história – que conhece Swift desde a adolescência, diz de forma simples: “Ela controla a narrativa não apenas em seu trabalho, mas em sua vida”, diz ela. “Costumava parecer que as pessoas estavam atirando nela. Agora parece que ela está fornecendo a narrativa – então não há nenhuma foto a ser tirada.”

Aqui, Swift me contou uma história sobre redenção, sobre subir e descer apenas para subir novamente – uma jornada de heroína. Não digo a ela, em nossa conversa, que nem sempre parecia assim visto de fora – que, por exemplo, quando o primeiro single do reputation, “Look What You Made Me Do”, alcançou o primeiro lugar nas paradas, ou quando o álbum vendeu 1,3 milhão de álbuns na primeira semana, perdendo apenas para 1989, ela não parecia alguém cuja carreira havia morrido. Ela parecia uma superestrela que estava explorando sua experiência pessoal com tanto sucesso como sempre. Estou tentado a dizer isso.

Mas então penso: quem sou eu para contestar isso, se era assim que ela se sentia? A questão é: ela se sentiu cancelada. Ela sentiu como se sua carreira tivesse sido tirada dela. Algo nela havia sido perdido e ela estava sofrendo por isso. Talvez este seja o verdadeiro efeito Taylor Swift: o fato de ela dar às pessoas, muitas delas mulheres, especialmente meninas, que foram condicionadas a aceitar demissões, críticas e maus-tratos de uma sociedade que trata suas emoções como inconsequentes, permissão para acreditar que sua vida interior importa. Que o seu coração se parta, seja por ter sido expulso de uma turnê ou pela lembrança de um cachecol ainda em uma gaveta em algum lugar ou porque outra pessoa controla o trabalho da sua vida, é uma ferida válida, e não, você não está louco por ficar chateado com isso ou por querer que sua história fosse contada.

Afinal, para não ser brega, não nos tornamos todos autobiográficos seletivos na era digital, à medida que selecionamos nossas vidas para nossos próprios públicos de qualquer tamanho – cortando o tecido bruto de nossa experiência vivida para revelar a forma da história? que mais queremos contar, seja em nossos próprios feeds ou no palco mundial? Não posso culpá-la por ser melhor nisso do que todos os outros. Também não é como se ela não tivesse admitido isso. Ela mesma cantou, em sua música “Mastermind”, do álbum “Midnights”, do ano passado, em uma ponte tão suave que você quase poderia perder, que marca algumas das composições mais cruas e nuas de sua carreira: “Ninguém queria brincar comigo quando era uma criança/ Então, desde então, tenho planejado como uma criminosa/ Para fazê-los me amar e fazer com que pareça fácil/ Esta é a primeira vez que sinto a necessidade de confessar/ E eu juro que sou apenas enigmática e maquiavélica porque eu me importo.”

Ela me disse que escreveu essa música depois de assistir ao filme Phantom Thread, de Paul Thomas Anderson, que – spoiler – culmina na revelação de uma manipulação vasta e em camadas. “Lembra daquela última cena?” ela diz. “Eu pensei, não seria divertido ter uma letra sobre ser calculado?” Ela faz uma pausa. “É algo que foi jogado em mim como uma adaga, mas agora considero isso um elogio.”

É um elogio. Depois que saio da casa de Swift, não consigo parar de pensar em quão perfeitamente ela elaborou essa história para mim – aquela sobre redenção, como ela perdeu tudo e recuperou tudo. Contar histórias é o que ela sempre fez; é por isso, Chesney me diz, que ele deu esse presente a ela há tantos anos. “Ela era uma escritora que tinha algo a dizer”, diz ele. “Isso não é algo que você pode fingir escrevendo clichês. Você só pode vivê-lo e depois escrevê-lo da forma mais real possível.”

Ela devia saber que todas as referências que fazia tinham significados ocultos, que eu veria todos os detalhes descartados dos easter eggs que eram. Pela maneira como ela me contou aquela história sobre Chesney, ela sabia que havia uma lição sobre o poder da generosidade e como uma derrota esmagadora pode dar lugar a um grande e surpreendente presente. A maneira como ela disse: “Você não está entretido?” – certamente nós dois sabíamos que era uma citação de Gladiador, um filme em que um herói cai em desgraça, é forçado a praticar um esporte sangrento para o prazer dos espectadores e sai vitorioso tendo sobrevivido à humilhação e degradação para voar mais alto do que nunca. E pouco antes de eu sair, ela me mostrou o bilhete de Paul McCartney pendurado em seu banheiro, que tem uma letra dos Beatles escrita – e não qualquer letra dos Beatles, mas esta: “Pegue essas asas quebradas e aprenda a voar.”





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