15 de março de 21 Autor: Maria Eloisa Barbosa
Taylor Swift e a sabedoria na juventude

folklore, o álbum que fez Swift ganhar cinco das suas seis indicações no Grammy, está cheio de referências às percepções específicas e frequentemente menosprezadas dos adolescentes. 

Quando ela tinha 18 anos, Taylor Swift escreveu uma música chamada “Fifteen”. “Naquela época, eu jurava que algum dia iria me casar com ele, mas eu percebi que tinha sonhos maiores”, ela canta, soando mais como uma bisavó enrugada do que como uma veterana em ascensão.

“Fifteen” é evocativa, embora um pouco higienizada: dedilhados ágeis de mandolim imitam o friozinho na barriga do primeiro dia de escola, enquanto Swift canta com os olhos arregalados de esperança de que “um daqueles garotos mais velhos pisque para você e diga: ‘Sabe que eu não tinha notado você antes’”.

Havia uma certa verdade emocional nas letras – quando que uma grande diferença de idade vai parecer tão importante senão quando você é adolescente? – mas alguns ouvintes mais velhos estavam céticos. “Você aplaude a habilidade dela”, escreveu um crítico para o The Guardian em uma crítica mista do segundo álbum de Swift, “Fearless”, “enquanto se sente um pouco incomodado com a ideia de um adolescente doutrinando como Yoda”.

Swift, agora com 31 anos, canta “Quando você é jovem, eles presumem que você não sabe de nada”, no folklore, um álbum que é tanto liricamente maduro quanto trançado por toda parte com referências à sabedoria específica e frequentemente menosprezada dos adolescentes. (Recebeu cinco das seis indicações de Swift no Grammy). No final da música, “Cardigan”, a narradora escavou um monte de memórias floridas, mas emocionalmente lúcidas que ela deve concluir, com a força de uma revelação repentina: “Eu sabia de tudo quando era jovem”.

Embora não seja um assunto tão chamativo quanto falar de ex-namorados, fama ou rixas com celebridades, idade sempre foi um tema recorrente no trabalho de Swift. Entusiasta da numerologia com um apego particular ao número 13, Swift também lançou algumas canções cujos títulos referem-se a idades específicas: “Seven”, “Fifteen” e, claro, “22”, o hit  animado de “Red” em que ela resumiu aquela combinação específica de estar adentrando a vida adulta com se sentir “feliz, livre, confusa e solitária ao mesmo tempo.” Como sua contemporânea Adele, Swift parece gostar de registrar o tempo em suas músicas, às vezes apresentando-o como um álbum de recortes voltado para o público que sempre a lembrará como era ter uma certa idade – mesmo que nenhuma das duas sejam mulheres comuns, com seus milhões de fãs e braços cheios de Grammys. 

Os críticos de Swift muitas vezes pareciam estar ainda mais conscientes de sua idade. Talvez porque a precocidade tenha desempenhado um papel importante em sua história desde o início – aos 14, ela se tornou a artista mais jovem a assinar um contrato com a Sony/ATV; aos 20, ela se tornou a mais jovem a ganhar o Grammy com “Álbum do Ano” – muitos ouvintes ficaram fascinados com a forma como sua evolução para a vida adulta foi, ou não, refletida em suas canções. As pessoas vasculham as letras de Swift em busca de alusões a sexo, álcool e palavrões tão meticulosamente quanto os representantes da MPAA (associação que classifica os filmes) fazem um filme para crianças. Em 2017, foi dada atenção especial ao seu álbum “Reputation” e às várias menções a embriaguez e bares – embora Swift tivesse 27 anos quando foi lançado.

O puritanismo relativo das músicas de Swift até “Reputation” parecia uma decisão intencional: ao contrário de estrelas do pop que divulgavam sua “perda de inocência” como uma transformação repentina e irrevogável, Swift parecia profundamente consciente de que não queria rejeitar seus jovens ouvintes – ou perder a aprovação de seus pais. Na melhor das hipóteses, parecia uma aceitação de seu status como exemplo a ser seguido; na pior das hipóteses, tinha o cheiro de estratégia de marketing.

Mas a crescente obsessão sobre se Swift estava “agindo de acordo com sua idade” também refletia um duplo padrão social bem amplo. Famosas ou não, as mulheres enfrentam um escrutínio muito mais intenso em torno da idade, sejam esses lembretes culturais constantes do suposto tique-taque do relógio biológico ou o imperativo de que as mulheres de todas as idades permaneçam “de cara nova” ou arriscam sua própria obsolescência. (“As pessoas dizem que sou polêmica”, disse Madonna em 2016. “Mas acho que a coisa mais polêmica que já fiz foi ficar por aqui”). E, embora a juventude feminina e a engenhosidade sejam recompensadas em alguns contextos, elas também são facilmente descartadas como boba e frívola assim que aquela garota se torna ousada – como Swift já vivenciou várias vezes.

Apesar de eu mesma já ter sido uma garota adolescente (ao contrário de muitos críticos de música), confesso que não estou completamente livre desses preconceitos internalizados. No início, não gostei de “Miss Americana and The Heartbreak Prince”, uma música que apareceu no álbum “Lover” de Swift em 2019. Nas primeiras vezes que a ouvi, me perguntei o porquê de uma mulher adulta na casa dos 30 anos ainda estava escrevendo sobre rainhas de bailes de formatura e fofocas de adolescentes.

Mas com o tempo, passei a apreciar a música e sua visão sombria, que fala claramente sobre crueldade, depressão e ameaça de violência sexual (“Garotos serão garotos então, onde estão os homens sensatos?”) mais do que qualquer outra música que Swift escreveu quando ela era uma adolescente de verdade. Os garotos mais velhos nesta música não são do tipo que piscam e dizem para as calouras coisas adoráveis ​​como: “Nunca vi você por aí antes” – o que, infelizmente, os faz parecer mais autênticos. Até mesmo o título “Miss Americana” faz alusão a um mundo muito maior fora que vai além dos muros do colégio e às forças sistêmicas maiores que mantêm esses padrões se repetindo até a idade adulta.

“Miss Americana and The Heartbreak Prince” agora parece um precursor de algumas das canções mais ricas de folklore, que mostra Swift voltando mais uma vez aos seus dias de escola com o olhar aguçado e seletivamente observador de um adulto. Considere “Seven” uma recriação impressionista de sua perspectiva naquela idade. O segundo verso soa encantadoramente como uma sequência ofegante de observações de um aluno do primeiro ano sem receio:

“E eu estava querendo te dizer, eu acho que sua casa é mal-assombrada, seu pai está sempre bravo e deve ser por isso / E eu acho que você deveria vir morar comigo e nós podemos ser piratas, então você não terá que chorar”.

Mas “Seven” não é tão fofa quanto comovente por causa da intervenção da perspectiva adulta de Swift que causa conflito. “Por favor, imagine-me nas árvores, antes que eu aprendesse civilidade”, ela canta em um soprano saudoso, levando o ouvinte a se perguntar que tipo de prazer primal ela – e todos nós – trocou pela suposta “civilidade” da idade adulta.

Muitas músicas em evermore, o segundo lançamento de Swift em 2020, também alternam entre o passado e o presente, conscientes do que se perde e se ganha com o passar do tempo. A divertida “Long Story Short” passa uma mensagem para o eu mais jovem de Swift (“Além de mim, quero dizer a você para não se perder nessas coisas mesquinhas”), enquanto em “Dorothea”, assim como “Seven”, revisita uma intensa amizade de infância de uma perspectiva adulta interessante.

Mais impressionante é a faixa bônus “Right Where You Left Me”, um conto de uma “garota que congelou” (“O tempo passou para todo mundo, ela não vai saber / Ela ainda tem 23 anos, dentro de sua fantasia”) . Essa linguagem ecoa algo que Swift admite no documentário da Netflix de 2020 “Miss Americana”: “Há uma coisa que as pessoas dizem sobre celebridades, que elas estão congeladas na idade em que se tornaram famosas. E foi isso que aconteceu comigo. Eu tive que amadurecer muito apenas tentando chegar aos 29 anos ”.

Mas as músicas recentes de Swift entendem que “crescer” nem sempre é uma progressão linear na direção de algo mais valioso. Veja as canções “Folklore”, “Cardigan” e “Betty”, que usam personagens interconectados para narrar o drama adolescente e celebrar o conhecimento emocional elevado da juventude. “Tenho apenas 17 anos, não sei de nada, mas sei que sinto sua falta”, Swift canta na voz de James, um estudante do ensino médio que partiu o coração de Betty e apareceu em sua porta para pedir perdão. Talvez seja uma coisa melodramática a se fazer; talvez seja o tipo de coisa que os adultos poderiam fazer com mais frequência. A música de Swift nos ajuda a lembrar que crescer não significa automaticamente ficar mais sábio – apenas pode facilmente significar compromisso, auto-negação e se tornar adormecido às emoções que antes sentíamos com intensidade revigorante.

Em um gesto para recuperar o controle de suas músicas, Swift está regravando seus primeiros seis álbuns (seus masters foram recentemente vendidas pela Ithaca Holdings de Scooter Braun para a firma de investimentos Shamrock Capital). No mês passado, ela lançou uma nova versão com exatamente as mesmas notas de seu primeiro hit “Love Story” e prometeu lançar uma nova versão inteira de “Fearless (Taylor’s Version)” ainda este ano. Tem sido divertido pensar em Swift voltando no tempo e habitando a voz de seu eu adolescente: Diante disso, “Fifteen” é uma música que será particularmente surreal imaginá-la cantando como adulta.

Por outro lado, “Fifteen” – com suas reflexões distantes sobre as expectativas da loucura juvenil – faz mais sentido e carrega mais peso emocional sendo cantado por uma pessoa de 30 e poucos anos do que para um de 18 anos. Talvez Swift estivesse se preparando para tal tarefa quando fez folklore, um álbum que foge de anos de escrutínio e a encontra se divertindo com a liberdade criativa de ser tão jovem ou tão velha quanto ela quiser.

Matéria postada pelo The New York Times e traduzida pela Equipe TSBR.





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