17 de março de 21 Autor: Karla Santos
A trajetória de Taylor Swift até ‘Folklore’

Como a superstar evoluiu de canções country ‘de diários’ para a música mais progressiva que já fez até agora.

Com seu encantador oitavo álbum, “folklore”, Taylor Swift comemora mais uma vitória de álbum do ano no Grammy e um retorno louvável ao que ela faz de melhor: contar histórias.

Para o mês que comemora o Dia Internacional das Mulheres, GRAMMY.com está celebrando algumas das artistas femininas indicadas no show 2021 do GRAMMY Awards. Hoje, homenageamos Taylor Swift, vencedora de 11 gramofones.

Quando conhecemos Taylor Swift em 2006, ficou imediatamente claro que sua abordagem ao compor era como rasgar uma página de seu diário.

“Apenas um menino em uma caminhonete Chevy / Que costumava atolar / Em estradinhas à noite / E eu estava bem ali ao lado dele durante todo o verão / E então acordamos para descobrir que aquele verão havia acabado”, lamentou ela no primeiro verso de seu single de estreia, “Tim McGraw)”. A maneira como Swift, então com 16 anos, podia transformar histórias pessoais em versos instantaneamente memoráveis, ​​espelhava a destreza de um veterano da indústria, apelando para mais do que apenas adolescentes que poderiam se identificar com um breve romance de colégio.

Agora, quase 15 anos depois, Swift introduziu outra camada de intriga passeando pelo folk indie, revelando um par de álbuns, “folklore” e “evermore”, no ano passado. Gravado inteiramente de forma isolada após surgir a pandemia de COVID-19 em março de 2020, “folklore” foi muito aclamado como o melhor álbum de Swift, elogiado por suas composições íntimas e dinâmica cinemática; “evermore” recebeu críticas igualmente brilhantes.

“folklore” foi o álbum mais vendido de 2020 e deu a Swift cinco indicações ao GRAMMY em 2021, incluindo sua quarta indicação ao álbum do ano. (“evermore” será elegível para o 64º GRAMMY Awards em 2022.) Porém, como suas 10 vitórias anteriores no GRAMMY sugerem, este novo capítulo não é uma jornada repentina para a estrela – é uma continuação magistral de sua evolução como cantora/compositora.

Se há uma coisa que Swift provou ao longo de sua carreira, é que ela se recusa a ser colocada em uma caixa. Seu som em constante evolução a levou de queridinha do country a fenômeno pop e a mais nova contadora de histórias do folk – uma transição que, no papel, parece árdua. Mas, para Swift, foi perfeita e resultou talvez em seu trabalho mais marcante até então. E o brilho de “folklore” depende de três das ferramentas de composição de Swift: baladas honestas, escrita autobiográfica e narrativa baseada em personagens.

Embora sempre houvesse uma combinação de elementos nas músicas country com um toque de pop de Swift, sua transição de estrela country para rainha do pop começou com Red. O primeiro single do álbum, o animado hino sobre término “We Are Never Ever Getting Back Together”, foi o primeiro lançamento de Swift a alcançar o número 1 na Billboard Hot 100 (e, que ironicamente, zombou de “álbuns indie muito mais legais que o meu”). Ela declarou uma transformação completa para o pop com o álbum “1989” de 2014, mas a reação provou que sua jogada ousada foi certeira: além de mais três sucessos No. 1, Swift ganhou seu segundo GRAMMY de Álbum do Ano.

A partir daí, vieram “Reputation” em 2017, uma resposta ao escrutínio da mídia, e “Lover” em 2019, uma exploração constante de todas as facetas do amor. Apesar de compartilharem uma produção grandiosa de forma semelhante, “Lover” apresentou um punhado de baladas poéticas, incluindo “The Archer”, uma canção de amor auto-reflexiva que mostrou a sensibilidade folk de Swift por meio de letras de contos de fadas e texturas ambientais.

As baladas de Swift são fundamentais para a compreensão de toda a essência de “folklore”. Elas frequentemente marcaram momentos de destaque em cada um de seus álbuns, graças à sua vulnerabilidade comovente e rica sonoridade. “White Horse”, o destaque de “Fearless”  rendeu a Swift dois GRAMMYs em 2009; a elaborada “All Too Well” de “Red” foi uma das favoritas dos fãs; “This Love” de “1989” e “New Year’s Day” de “Reputation” proporcionaram ternura em meio a sons pesados ​​de sintetizadores.

A emoção crua que ela coloca em suas músicas lentas ganham vida no “folklore”, introduzindo uma nova onda de sonoridade neoclássica que eleva sua escrita fantasiosa a um nível etéreo. Independentemente dos Swifties terem previsto ou não um álbum totalmente indie-pop na carreira de Taylor, essa mudança não é tão surpreendente assim. As líricas romantizadas e a produção relativamente “lo-fi” (low-fidelity – utilização de elementos que causam ‘imperfeição’ durante a produção de canções, tais como barulhos de fundo, distorção e frequência limitada) são, indiscutivelmente,  o que muitos fãs têm esperado pacientemente.

Liricamente, a natureza ultra pessoal da música de Swift sempre cativou fãs e ‘haters’, obcecados e críticos analisaram cada um de seus álbuns em busca de inspirações e significados ocultos da vida real. Mas mesmo que ela brincasse com as teorias na época — seja revelando nomes em títulos como “Hey Stephen” e “Dear John” ou provocando a outra garota em “Better Than Revenge” — até Swift admite que seu método adolescente tinha uma data de validade.

“Cheguei em um momento como uma compositora que só escreve músicas como escreve em um diário, o que se tornou insustentável para meu futuro continuar fazendo isso”, ela disse à Zane Lowe, apresentador do Apple Music em dezembro de 2020. “Parecia um grande microscópio… Nos meus dias ruins eu sentia como se estivesse enchendo um canhão de clickbait e não era isso que eu queria pra minha vida”.

Essa conclusão foi o que contribuiu para tornar o “folklore” tão memorável. Swift se afastou dos dramas para deixar sua escrita artística brilhar. Claro, em alguns momentos ela fazia menção a acontecimentos pessoais (“invisible string” menciona os presentes que mandou ao bebê de seu ex e “mad woman” faz alusão à batalha legal que ela travou com Scott Borchetta e Scotter Braun). Mas ainda assim, de forma geral, ela foge com sua narrativa autobiográfica para dar espaço à sua imaginação.

“Eu me encontrei não somente escrevendo minhas próprias histórias, mas também escrevendo sobre pessoas que nunca conheci, pessoas que conheço e pessoas que eu gostaria de nunca ter conhecido — e sob a perspectiva delas”, Swift escreveu em uma carta aos fãs postada nas redes sociais no dia do lançamento de “folklore”. “As linhas entre fantasia e realidade foram borradas e os limites entre verdade e ficção se tornam quase indiscerníveis”.

“folklore” talvez seja seu primeiro projeto totalmente dedicado à criação de personagens e projetar histórias, mas Swift já mostrava talento para a fantasia desde o começo. Faixas como “Mary’s Song (Oh My My)” no seu autointitulado debut e “Starlight” no Red mostraram Swift criando histórias para personagens da vida real (“Mary’s Song” foi inspirada por um casal de idosos vizinhos de Taylor na infância; “Starlight” partiu de uma foto que ela viu de Ethel e Bobby Kennedy ainda adolescentes). E mesmo quando as músicas partiam de sua vida real, Swift encontrava um jeito de transformar memórias em metáforas caprichosas, como na inteligente resposta a um crítico em “Mean”, de Speak Now, ou em “Getaway Car”, falando sobre um relacionamento de impulso para escapar de outro.

Pensar que não teríamos o “folklore” se não fosse pela pandemia é quase surreal; visto que o álbum já se tornou uma peça tão fundamental para o quebra cabeça artístico de Swift. Não havia como dizer o que viria após a purpurinada “carta de amor ao amor” que foi o Lover, mas parece que o isolamento fez a cantora repensar os planos que talvez ela já tinha.

“Eu apenas pensei que não haviam mais regras porque eu costumava colocar todos esses parâmetros em mim mesma, tipo, ‘Como essa música soaria em um estádio? Como essa música soaria no rádio?’ Se você tira todos esses parâmetros, o que você cria?” Ela disse à Paul McCartney em uma entrevista de novembro para a Rolling Stone. “E eu acho que o ‘folklore’ é a resposta”.

Mesmo que ela própria não estivesse fazendo música indie, Swift mostrou afinidade pelo gênero ao longo dos anos através da sua curadoria de playlists. Dentre elas estavam quatro músicas do The National incluindo “Dark Side of the Gym”, que Taylor faz referência em “betty”, e “8 (Circle)” de Bon Iver, colaborador de Swift na emocionante “exile” e na faixa título de evermore.

Aaron Dessner, guitarrista do The National, co-escreveu e produziu 11 das 16 faixas do “folklore”, criando a trilha sonora para os contos imaginários de Swift com orquestração arrebatadora e piano delicado. A parceria deles começou em “cardigan”, uma reflexão melancólica sobre amor adolescente, e foi a realização de um sonho para Swift — autoproclamada uma super fã de The National — e um destaque na carreira de Dessner, que compartilhou um post no Instagram sobre “folklore” dizendo que “raramente é tão inspirado por alguém”. Ele vê o álbum como um momento pivô tanto para a carreira de Swift quanto para a música pop.

“Taylor abriu as portas para que artistas não sintam a pressão de ter ‘o hit’”, Dessner disse à Billboard em setembro. “Fazer o álbum que ela fez, batendo de frente com o que é programado pelas rádios para serem os maiores níveis de música pop — ela meio que fez um álbum ‘anti-pop’. Ela jogou fora todo o manual de regras e tornou esse álbum um dos mais, se não o mais bem sucedido comercialmente do ano.

Eu espero que isso dê a outros artistas, especialmente os menos conhecidos ou mais independentes, uma chance no mainstream”, ele continuou. “Talvez o rádio perceba que a música não precisa necessariamente soar tão forte quanto tem sido. Ninguém estava tentando criar nada para ser um hit. Obviamente, Taylor tem o privilégio de já ter um público extremamente grande e dedicado, mas eu realmente sinto que há uma ressonância além disso”.

O outro colaborador principal no “folklore” foi Jack Antonoff. Ele tem sim seu braço direito desde que eles se uniram em 2013 para o single promocional “Sweeter Than Fiction” (Swift se referiu a ele como “família musical” no anúncio de “folklore”). Mesmo depois de anos criando smash hits prontos para estremecer estádios, Antonoff disse no seu próprio post do Instagram sobre “folklore”, “Eu nunca escutei Taylor cantar ou escrever melhor na minha vida”.

Como a própria Swift reconhece, “folklore” inaugura na super estrela uma nova maneira de pensar que não apenas destaca o que ela tem de melhor, também estabelece um promissor precedente para o que está por vir. “O que senti depois de lançar o “folklore” foi, ‘Oh, uau, as pessoas também gostaram disso, dessa coisa que faz tão bem para a minha vida e para minha criatividade”, Swift acrescentou na entrevista com Lowe. “Eu vi um caminho para o meu futuro que era um momento realmente inovador de empolgação e felicidade.”

Seu entusiasmo é tangível tanto no “folklore” quanto no “evermore”. O álbum, apelidado de uma irmã para o “folklore”, expande a recém descoberta atmosfera mística de Swift. Para o delírio de muitos Swifties, a sequência também recorda suas raízes country (em faixas como “no body no crime”, uma colaboração com as irmãs da banda HAIM) e sua maestria no pop em faixas mais agitadas como “long story short”.

Juntos, os álbuns são um lembrete importante de que Swift é uma cantora porém compositora primeiro. Sua maneira de usar as palavras é uma das mais atraentes de sua geração e isso nunca se perdeu em sua música, independente de que gênero ela está explorando. Mas agora que Swift também sente que está em seu melhor, é evidente que o “folklore” foi só o começo de uma Taylor Swift em sua melhor forma.

Matéria publicada pelo portal do Grammy e traduzida/adaptada pela equipe TSBR.

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