09 de fevereiro de 21 Autor: Julia Cardoso
referências místicas e mitológicas do folklore/evermore

Eu amo mitos e mitologia. E amo Taylor Swift. Com o lançamento do ‘folklore’, eu fiquei extasiado ao ver minha artista preferida abertamente fazendo alusão a estórias de magia e mitologia. Quando veio a surpresa do ‘evermore’, e essas referências só aumentaram, não pude me conter de alegria: precisei por em palavras as reflexões e sentimentos que me vieram à cabeça ao escutar tantas músicas lindas carregadas de referências a estórias épicas e de um misticismo nem um pouco usual – nós, swifities, sabemos que encontrar o significado das letras deixa as músicas muito mais fortes e mágicas.

Nem todas as músicas da era folklore/evermore contém menções mitológicas ou mágicas. Algumas contém referências claras e diretas, enquanto outras são bem sutis. Boa parte dos paralelos traçados aqui provavelmente sequer foram pensados pela Taylor ao compor as músicas, mas invariavelmente conectam a genialidade dessa artista atual às lendas dos povos antigos: independentemente da época, o ser humano ama uma boa história de amor, tragédia e magia.

1 – o clipe de ‘willow’

Figura 1. Referência ao mito de Narciso em ‘willow’

Vamos começar com uma das primeiras cenas (figura 1): Taylor admira o reflexo do lago que a mostra ao lado de seu amado. Instantes depois, ela pula no lago, pois está em busca do coração que o destino reserva para ela. A lenda grega de Narciso (Figura 2) conta uma versão parecida, porém mais trágica do que é mostrado no clipe: Narciso era um jovem belíssimo que nunca foi capaz de reconhecer seu próprio reflexo. Após rejeitar a ninfa Eco, os deuses o castigaram por sua petulância fazendo com que ele se apaixonasse pelo próprio reflexo. Ao ver seu belo rosto refletido no lago, ele também pulou em direção a quem amava, o que causou a sua morte. A cena seguinte do clipe, após o mergulho, retrata uma Taylor mais jovem do que aquela que pulou no lago, o que pode sugerir que sua paixão pelo amado é muito forte e atravessa as fronteiras entre diferentes vidas. A própria Taylor confirmou que a música retrata o forte desejo por alguém e o quão complexo esse desejo pode ser.


Figura 2. Pintura clássica de Narciso se admirando no lago.

A letra de willow traz: “head on the pillow I could feel you sneaking in / as if you were a mythical thing” (com a cabeça no travesseiro, eu pude sentir você entrando de mansinho, como se fosse uma criatura mítica). Essa pequena passagem alude a um dos mitos gregos mais bonitos: o de Eros e Psique, a alegoria conflituosa entre o Amor e a Mente Racional.


Figura 3. Eros e Psique

Psique era uma jovem de beleza comparável à de Afrodite, a qual ficou ofendida por tamanha comparação com uma reles mortal. Amaldiçoada pela deusa, Psique nunca foi capaz de achar um amado. Além disso, Afrodite ordenou que seu filho, Eros, o Cupido, fosse até Psique e a fizesse apaixonar-se por um monstro terrível. Cumprindo os desejos de sua mãe, Eros foi até Psique, mas ficou tão extasiado com a sua beleza que acabou ferindo a si mesmo com a flexa do amor, apaixonando-se pela jovem mortal. Psique, seguindo os conselhos de um oráculo que determinava que seu destino seria casar-se com um monstro horrível, irresistível aos olhos humanos ou divinos, foi então morar sozinha em um palácio encantado no meio de um vale onde deveria esperar a visita do monstro. Todas as noites, o deus Eros, escondido de sua mãe Afrodite, vinha de mansinho, visitar Psique, sempre pedindo que esta nunca mirasse o seu rosto ou perguntasse a respeito de sua identidade. Tomada pela curiosidade, Psique acabou descobrindo quem era o suposto monstro que a visitava todas as noites (Figura 3), ocasionando a ira de Eros, que fugiu revoltado para o Olimpo.

Este foi apenas o começo da jornada de Psique em busca do seu amor, Eros, mas contá-la na totalidade não é a intenção deste texto. O interessante aqui foi ver Taylor fazendo referência ao maior mito clássico sobre a briga e reconciliação entre a Mente e o Coração, sempre presente em qualquer relacionamento.


Figura 4. Referência ao monstro Píton

Todos nós lembramos das cobras da era ‘reputation’, certo? Bem, agora que Taylor abandonou aquela sua fase sombria e vingativa, ela fez questão de referenciar esse momento (Figura 4) da carreira como algo cômico – uma atração de circo: ‘The Python’ (A Píton)! Píton foi uma terrível serpente gigantesca que presidia o oráculo de Delfos antes do deus-sol Apolo matá-la e tomar para si o templo do oráculo. Soa familiar? Se não, lembre-se que Swift afirmou ter escrito ‘Daylight’ (do álbum ‘Lover’) como um símbolo da luz do sol que dissipa as trevas e os medos da noite – representada pela era ‘reputation’ na sua vida. Assim como Apolo matou Píton, a era Lover veio para destruir as dores e as mágoas da era reputation.


Figura 5. Suposto sabbath de Yule no clipe de ‘willow’

Para finalizar a lista de referências do clipe de willow, vamos à mais majestosa de todas: nunca pensei que veria uma celebração de Sabbath (Figura 5) em um clipe da Taylor, mas novamente ela me surpreendeu! Como a própria já explicou, ao passo que o ‘folklore’ representou a primavera e o verão, o ‘evermore’ veio para completar o ciclo e dissertar sobre o outono e o inverno. A cena sobre a qual falaremos, de fato, acontece em meio à neve invernal. Apesar de hoje em dia muitos de nós sequer prestarmos atenção à passagem das estações, essa era uma prática comum e sagrada para muitos povos antigos – a sobrevivência deles dependia de saber a hora certa de semear, regar, colher e sacrificar.


Figura 6. Celebração moderna de Yule no santuário de Stonehenge.

Fazer rituais que celebrassem a passagem das estações era a forma dos povos antigos se conectarem ao sagrado da natureza, e um dos festivais mais bonitos e importantes era o de Yule, o solstício de inverno no calendário dos povos celtas (Figura 6). No hemisfério norte, essa data ocorre por volta de 21 de dezembro e marca o dia mais curto e a noite mais longa do ano. É o ponto do calendário a partir do qual as horas do dia vão começar a aumentar, e as horas da noite, a diminuir. É o momento em que, apesar da escuridão típica do inverno, a luz triunfa e começa a crescer a partir de então, trazendo calor e vida para a terra.

O paralelo entre esta celebração celta e a vida da TayTay é inegável. Foi durante a era reputation, seu momento mais difícil, delicado e sombrio, que ela se conectou com Joe Alwyn, seu atual namorado, cuja beleza e personalidade são frequentemente referenciadas como ‘ouro’ ou ‘luz do sol’ desde a era ‘Lover’. Foi em seu momento mais escuro que ela viu a luz nascer mais forte.

2 – o triângulo amoroso entre Betty, James e Augustine

Sim, depois do Long Pond Studio Sessions, todos estamos cientes de que Betty e James tiveram um final feliz juntos (na mente da TayTay). E também refletimos sobre Augusta/Augustine não ser, necessariamente, a vilã da estória. É exatamente pelo fato de um triângulo amoroso ser uma experiência humana tão comum e poderosa que ela é explorada em tantas estórias – a maioria das tramas românticas atuais é sempre sobre uma mulher que é amada/ama dois homens ou um homem que é amado/ama duas mulheres. Portanto, obviamente esse tipo de conflito está retratado em um dos maiores símbolos da magia e do ocultismo conhecidos atualmente: o Tarot!

De forma sucinta, o Tarot vai muito além da “previsão do futuro”: suas cartas são, principalmente, instrumentos de autoconhecimento e retratos da evolução humana. É precisamente por isso que um triângulo amoroso está retratado no Tarot (Figura 7): o poder do conflito e da indecisão é a força motriz para a evolução do indivíduo.

Eu, particularmente, enxergo na Figura 7, da esquerda para a direita: Augusta/Augustine, James e Betty. Examinemos cada personagem sob essa perspectiva: a primeira mulher (Augusta/Augustine) tem um olhar muito firme e decidido, quase como se estivesse dizendo em alto e bom tom “meet me behind the mall” ou “get in the car”. A mão sobre o ombro de James e a outra mão em gesto convidativo sugere que ela dá um conselho ou sussurra (‘whispers’) uma pergunta bem sugestiva a James, talvez por conhecer pensamentos/sentimentos dele que são desconhecidos por Betty. Ouvir um “James, get in, let’s drive” nunca foi tão tentador.

A segunda mulher, Betty, coincidentemente lembra muito nossa Taylor no clipe de “cardigan” pelas madeixas loiras e pelo rosto inocente e bondoso tocando o peito de James com a mesma doçura com que toca o piano: o seu toque aponta para o coração de James. A carta, portanto, indica que, independentemente da maturidade e lascívia de Augusta/Augustine, o coração dele sempre pertencerá a Betty. Apesar de não vestir um cardigã, seu olhar gentil deixa claro que ela estará/estaria disposta a receber James após a traição, suspirando apenas um leve “I knew you’d miss me once the thrill expired”.

E, por último, temos James no meio. Veja que curioso: sua cabeça, com fantasias e devaneios, está voltada para Augusta/Augustine, enquanto o seu corpo, sua alma e seu coração estão indo em direção a Betty. Como foi dito antes, o conflito é essencial para o amadurecimento. E essa relação é precisamente sobre o que fala esta carta do Tarot! No fim das contas, James amadureceu ao ponto de ser capaz de pedir desculpas e reconquistar Betty. Além disso, admitir que você conhece pouco ou nada (“I’m Only seventeen, I don’t know anything”) é uma fase do amadurecimento e do autoconhecimento.


Figura 7. Arcano VI do Tarot de Marselha: O Enamorado.

3 – a mitologia grega em ‘champagne problems

“your midas touch in the chevy door”

(Seu toque de Midas na porta do carro)

Essa referência é, provavelmente, a mais conhecida, dada a fama de Midas, rei da Frígia no mitos gregos. Ele teve um desejo concedido pelo deus Dioniso: tudo o que tocasse viraria ouro. À primeira vista, uma benção de grande fortuna, logo seu desejo se mostrou uma verdadeira maldição autoimposta: as flores que tocava tornavam-se ouro, portanto perdiam o perfume; os alimentos que ingeria tornavam-se ouro, portanto perdiam o sabor; por fim, até mesmo sua filha, que o abraçou, tornou-se uma estátua dourada sem vida (Figura 8).


Figura 8. O Toque de Midas

Para mim, esta passagem da música é o que torna a faixa 2 do ‘evermore’ uma das mais tristes e fortes: o ouro e a cor dourada, normalmente associados a felicidade e triunfo nas letras da Taylor toma um viés triste e cruel, pois sugere que algo bom e promissor foi arruinado, transformado em uma memória triste e trágica. Isso vai ao encontro do que já sabemos sobre a estória da música: o encontro de dois jovens, em que um queria fazer o pedido de casamento, enquanto a outra queria acabar com o relacionamento.

she’ll patch up your tapestry that I shred

(Ela vai costurar a sua tapeçaria que eu rasguei)

Dando continuidade à estória de Champagne Problems, a narradora mostra a sua esperança de que uma nova mulher faça feliz o seu ex-amado, fazendo uma referência sutil ao mito de Penélope, esposa de Ulisses (Figura 9). Este foi um guerreiro vitorioso na Guerra de Troia: enquanto esteve fora de casa, sua esposa Penélope manteve-se firme e fiel, esperando muitos anos pelo retorno do seu marido.


Figura 9. Penélope sendo cortejada por pretendentes enquanto tece sua tapeçaria.

Acontece que, enquanto Ulisses não chegava, Penélope foi instigada por seu pai a casar-se novamente. Para não o desagradar, e ainda assim manter-se fiel ao seu amado Ulisses, Penélope impôs a condição de que se casaria novamente assim que terminasse de tecer uma tapeçaria (tapestry). Assim, durante o dia Penélope tecia a tapeçaria, mas todas as noites, ela desfazia o trabalho do dia anterior, sempre ganhando tempo para esperar por Ulisses. O ato de “desfazer a tapeçaria”, portanto, dramatiza o quanto a narradora não queria casar-se com o seu ex-amado.

4 – “now you hang from my lips like the Gardens of Babylon

Já sabemos que a faixa “Cowboy Like Me” do Evermore fala sobre dois artistas pobres em busca de um amante rico, mas que acabam se apaixonando. É curioso pensar que aquilo que trouxe felicidade aos dois artistas foi exatamente o que eles nunca buscaram (e talvez até evitaram!) – never wanted love, just a fancy car. Quando a narradora descreve o início do relacionamento dos dois com “agora você está suspenso em meus lábios como os Jardins (Suspensos) da Babilônia” (Figura 8), ela compara o seu amor com uma das 7 Maravilhas do Mundo Antigo, especificamente a única das sete cuja existência é duvidosa! O amor da narradora é algo grande, bonito, digno de lendas, mitos (e fofocas!) através dos anos, mas, ao mesmo tempo, é real? No âmago dos dois corações, o sentimento é verdadeiro? Acredito que Swift é tão aclamada por sua habilidade de escrever músicas exatamente por ser capaz de capturar em pequenas expressões as sutilezas de tantos sentimentos fortes e conflituosos, tênues e grandiosos ao mesmo tempo.


Figura 10. Os Jardins Suspensos da Babilônia (Supostamente)

5 – ‘illicit affairs’ & ‘ivy


Figura 11. À esquerda e à direita, passagens de “illicit affairs” e “ivy”, respectivamente. Ao centro, pintura de Hefesto ao flagrar Afrodite na cama com seu amante, Ares.

Tanto no Folklore quanto no Evermore, Taylor aborda o tema infidelidade, sob vários ângulos. Nas músicas “august”, “cardigan” e “betty”, esse tema é explorado dentro de um contexto escolar e juvenil, mas em “illicit affais” e “ivy” a infidelidade é tratada de forma mais madura, talvez com a seriedade que acompanha a vida adulta. Na verdade, em “illicit affairs”, o conflito não necessariamente advém de uma traição conjugal – pode referir-se a um relacionamento que não é socialmente aprovado por quaisquer motivos. Como era de se esperar, essa temática também aparece frequentemente na literatura mitológica, especialmente nos mitos gregos.

O deus grego do fogo e da forja, Hefesto, era apaixonado por Afrodite, mas sendo feio e manco, jamais caiu nas graças da deusa mais bela. Assim, Hefesto, traiçoeiro como o fogo, armou um ardil para que Afrodite lhe fosse presenteada por Zeus (detalhes do plano de Hefesto para tomar Afrodite estão fora do propósito deste texto). E assim Afrodite tornou-se sua mulher, completamente a contragosto. Quem realmente lhe cativava o desejo era o belo deus da guerra, Ares, com quem Afrodite teve um longo caso. De forma semelhante ao cenário retratado em “illicit affairs” e “ivy”, os dois sempre se encontravam enquanto Hefesto estava fora, trabalhando na forja.

“What would he do if he found us out?” – o que ele faria se nos descobrisse? Bom, quando o deus Hélios contou a Hefesto sobre a traição de sua esposa, este ficou furioso e preparou uma rede mágica para aprisionar os dois amantes. E assim o fez (Figura 11), fazendo questão de convidar todos os deuses para testemunharem a humilhação do casal. Apesar de proibidos de se encontrarem novamente, Afrodite e Ares nunca deixaram de se amar às escondidas. Talvez o caso ilícito entre os dois deuses seja, no fundo, um retrato da associação sórdida entre o amor e a guerra.

6 – o conto mitológico de Dorothea e ‘till this the damn season

As faixas 4 e 8 do Evermore falam sobre pontos de vista diferentes de uma mesma situação: uma mulher poderosa que vem visitar o seu amado durante as festas de fim de ano, somente para deixá-lo depois que essa época acaba. Aqui, a referência mais clara é ao mito do Rapto de Perséfone e ao nascimento das 4 estações (seasons) do ano. Como essa é uma das estórias gregas mais significativas e já estamos chegando ao fim dessa lista, vou tentar descrever o mito da forma mais sucinta possível.

Perséfone, deusa associada às flores, ervas e ao perfume dos campos, era filha de Deméter, deusa da fertilidade da terra, e Zeus, o deus supremo do Olimpo. Perséfone era uma bela jovem cuja beleza encantou até mesmo seu tio, Hades, o deus do mundo dos mortos. Eventualmente, ele raptou Perséfone enquanto esta colhia flores e a levou para os seus domínios infernais (Figura 12).


Figura 12. Pérsefone é raptada por Hades (ao centro).

Longe de ser um vilão, Hades estava apenas apaixonado pela jovem deusa. No reino dos mortos, ele ofereceu a Perséfone uma romã, na intenção de tê-la para sempre ao seu lado – quem come qualquer fruto do reino dos mortos deve ficar lá pela eternidade. Assim ocorreu, e Perséfone juntou-se com Hades em uma das uniões mais felizes e tranquilas da mitologia grega. Ela não era mais uma jovem inocente, mas sim a própria Rainha do Submundo.

Entrementes, Deméter estava desolada por não saber onde Perséfone estava. A mãe caminhou por toda a Terra à procura da filha, mas nada encontrou. Quanto maior a sua tristeza pela perda da filha, mais a terra ficava seca, gelada e infértil. Eventualmente, Deméter soube que sua filha havia sido sequestrada por Hades, ficando revoltada e indo tirar satisfações com o próprio Zeus por ter permitido tal atrocidade.

Ao ser confrontado por Deméter, Zeus explicou que nada poderia fazer, pois Perséfone já havia provado o fruto do Submundo, então estaria eternamente ligada a ele. O que pôde ser feito foi um acordo entre Deméter e Hades: Perséfone passaria metade do ano com sua mãe, e a outra metade, com seu amado. Assim, nasceram as estações do ano – quando o verão acaba, e o outono começa, Perséfone encaminha-se para a morada infernal de Hades, levando embora consigo toda a beleza da terra e dos campos. Já quando o inverno acaba, e começa a primavera, ela volta para sua mãe Deméter, que se alegra, devolvendo a vida e a fertilidade da natureza.

As faixas 4 e 8 do Evermore lidam com o mesmo tipo de conflito: o prazer de voltar à sua terra natal e reencontrar um amor antigo (ou um parente muito querido) com quem você tem uma conexão forte e verdadeira, embora temporária, pois você sabe que em breve terá que voltar à rotina anterior, em outro lugar distante. O mito de Hades-Perséfone-Deméter alude ao ciclo da vida: a semente que precisa ir às trevas do subsolo para germinar, crescer, florescer, gerar frutos e novas sementes que irão continuar o ciclo ao longo das estações. É particularmente lindo ver a Taylor desenvolver músicas que fazem paralelo com essa narrativa mítica.

7. “one single thread of gold tied me to you

Para finalizar a jornada mitológica através da era Folklore/Evermore, vamos falar de uma das músicas mais bonitas já escritas pela Taylor, cujo conceito ela empregou no videoclipe de “willow”: invisible string. No Long Pond Studio Sessions, TayTay explica que a inspiração para a faixa 11 (1 + 1 = 1——–1!) do Folklore foi o conceito de destino, e como cada passo que você dá te leva exatamente em direção ao lugar onde você deveria estar, apesar dos obstáculos e percalços no caminho.

Dificuldades no caminho são algo que Taylor entende bem – o diagnóstico de câncer da sua mãe no início da sua carreira, a constante pressão midiática sobre sua vida íntima e todo o caos que foi a era reputation, para citar apenas os principais. Apesar de todos os percalços, que com certeza a fizeram sentir-se perdida em muitos momentos, ela seguiu em frente cada vez mais forte – hell was the journey, but it brought me heaven. É impossível não associar essa jornada turbulenta a um labirinto – cheio de demônios, becos sem saída, wrong arms e caminhos sem fim. Coincidentemente, há um mito grego que fala exatamente sobre isso: o fio de Ariadne (Figura 13).


Figura 13. Ariadne dá seu novelo dourado a Teseu (esquerda). À direita, um fragmento da letra de “invisible string.”

De forma sucinta, Teseu foi o heroi grego enviado à ilha de Creta para matar o Minotauro, monstro metade touro metade homem que vivia em um labirinto. Ariadne era a filha do rei Minos, portanto princesa de Creta. Ela apaixonou-se por Teseu e, para garantir o retorno de seu amado, lhe deu um novelo (dourado? rs) antes deste entrar no labirinto para procurar o Minotauro. Uma das pontas do fio ficou com Ariadne, na entrada, enquanto o restante do novelo foi levado por Teseu ao longo do labirinto, de forma que este só precisaria seguir o fio para voltar à sua amada. Após vencer o monstro, foi isso que Teseu fez, saindo do labirinto e partindo de Creta com sua amada Ariadne.

Até hoje, o mito do fio de Ariadne é usado como metáfora para simbolizar a lógica, o caminho correto, o racional através dos labirintos da vida. Novamente, independentemente de Taylor ter pensado nesse mito ou não para compor a música, a semelhança das duas estórias é emocionante. Depois de ter atravessado um longo labirinto cheio de inimigos e traições, Taylor encontrou a felicidade plena, e todos torcemos para que isso se mantenha assim.

Para mim, além de Artista da Década, Taylor Swift é uma inspiração. Essa quantidade de referências somente nos últimos dois álbuns – muitas delas provavelmente não-intencionais – só mostra que cada época tem os poetas e as lendas que merece, porque a sociedade humana precisa disso: os mitos são chaves emocionais para acessarmos conhecimentos e sabedoria ancestrais através de deuses ou herois. A Antiguidade Clássica teve Homero e Hesíodo para contar estórias inspiradoras e mágicas. Nós, igualmente sortudos, temos a nossa loirinha querida.

Texto por Artur Hermano
Contato: @artie_93 (instagram) / artur.hermano@hotmail.com (e-mail)
Campinas, 21 de janeiro de 2021

Referências:

  1. https://www.britannica.com/topic/Narcissus-Greek-mythology
  2. https://www.ancient-origins.net/myths-legends-europe/ancient-fairy-tale-cupid-and-psyche-where-love-endures-against-all-odds-003393
  3. https://www.greekmythology.com/Myths/Creatures/Python/python.html
  4. https://rotaespiritual.com.br/2017/06/20/festival-de-yule-solsticio-de-inverno/
  5. NICHOLS, Sallie. Jung and Tarot: An Archetypal Journey. York Beach: Samuel Weiser, 1988.
  6. https://www.greeka.com/greece-myths/king-midas/
  7. https://pt.wikipedia.org/wiki/Pen%C3%A9lope
  8. https://www.history.com/news/hanging-gardens-existed-but-not-in-babylon#:~:text=In%20her%20soon%2Dto%2Dbe,there%20in%20the%20first%20place.
  9. https://exploringyourmind.com/the-myth-of-aphrodite-and-ares/
  10. https://dezmilnomes.wordpress.com/2017/02/03/persefone-a-rainha-do-submundo/
  11. https://www.greekmythology.com/Myths/Mortals/Ariadne/ariadne.html
  12. https://www.creativitypost.com/article/myth_and_creativity_ariadnes_thread_and_a_path_through_the_labyrinth
  13. https://genius.com/





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