25 de novembro de 21 Autor: Julia Cardoso
Por que não achamos que ela era muito jovem?

Em seu novo curta-metragem e regravação, Taylor Swift aponta o dedo para o público.

Quando Taylor contou sobre seu relacionamento malfadado com John Mayer na faixa Dear John, ela repetiu a mesma pergunta várias vezes com uma sinceridade gritante: “Você não acha que eu era muito jovem?”. Ela tinha 19 anos quando namorou Mayer, que tinha 32 na época. Ele, segundo todos os relatos, a tratou terrivelmente, o que não é algo chocante – ele tem uma longa e histórica fama de ser assim. Mas, apesar de sua propensão para calúnias raciais e de falar o que pensava quando se tratava de corpos femininos, ele sempre ficava quieto quando questionado sobre a diferença de idade em seu relacionamento com a adolescente Taylor. Com exceção de algumas músicas, ela evitou falar explicitamente sobre seus vários relacionamentos desequilibrados por idade também – na maior parte de sua carreira, o frenesi da mídia em torno de seus relacionamentos mal a permitiu falar.

Mas a cantora está em um impulso de empoderamento: ela lançou Red (Versão da Taylor) como parte de seu plano em andamento para regravar e repensar os álbuns que ela fez enquanto estava sob contrato predatório. Não há menção a Mayer neste álbum – na época em que Red foi lançado em 2012, o homem principal em sua vida era Jake Gyllenhaal, de 30 anos. Muito do álbum original foi dedicado ao desastroso caso de amor de três meses, mas é apenas no relançamento que ela explora as consequências da diferença de idade de nove anos. A joia da coroa do álbum, na verdade, é uma versão extendida de 10 minutos de seu sucesso clássico cult All Too Well, extraído dos versos originais que ela escreveu ao compor a música pela primeira vez.

É nessa faixa que fica claro que os temas sobre os quais ela escreveu pela primeira vez em Dear John não sumiram de sua discografia. “Você disse que se tivéssemos uma idade mais próxima talvez não tivesse problema, e isso me deu vontade de morrer”, escreve ela, seguida por: “Nunca fui boa em contar piadas, mas aqui vai uma: vou envelhecer, mas suas amantes vão continuar com a minha idade”.

Essa farpa de 10 anos é tão precisa quanto cortante: Gyllenhaal, de 40 anos, começou a namorar sua namorada atual quando ela tinha 21 anos. Da maneira mais “por favor-não-me-processe” possível, espero que ele engasgue com isso!

Na sexta-feira, ela lançou um curta-metragem de All Too Well (Versão de Dez Minutos), estrelado por Sadie Sink, estrela de Stranger Things, e o garoto indie dos anos 2000, Dylan O’Brien. Essas escolhas de elenco são meticulosas, afiadas e pontuais – elas contam uma história tão efetivamente quanto a própria música. Sink é mais conhecida por interpretar crianças honestas, e a maioria das pessoas realmente pensa nela como muito mais jovem do que realmente é (houve um breve protesto online após o lançamento do curta-metragem de pessoas que estavam convencidas de que ela ainda era menor legalmente).

Por outro lado, a idade de O’Brien torna-se ainda mais evidente pelo fato de que ele estava no auge há quase uma década, interpretando personagens adolescentes em Teen Wolf e Maze Runner. Quando o elenco foi anunciado, fiquei confuso – me perguntei se eles estavam de alguma forma brincando de irmãos, ou talvez professor e aluno? – mas a diferença de idade de 11 anos é apenas dois anos maior do que a de Swift e Gyllenhaal, e Sink é apenas um ano mais jovem do que Swift era na época. A diferença é que, ao contrário de Taylor em seus anos mais difíceis, Sink é vista por nós como a adolescente que ela é.

Swift, que escreveu e dirigiu o filme, joga essa injustiça na nossa cara. A fisicalidade entre os atores é constante, beirando o excessivo: a primeira vez que eles se tocam, eu estremeço fisicamente como se estivesse assistindo a um filme de terror. Uma imagem deles se tocando durante 20 segundos parece tão visceralmente errada que preciso fechar os olhos. Não exagero quando digo que o relacionamento deles na tela é genuinamente revoltante de assistir: Sink de bochechas rosadas e cabelos bagunçados é obviamente uma criança, O’Brien tão claramente um homem. Parece – em alguns aspectos com precisão – como se estivéssemos assistindo a um crime se desenrolar diante de nossos olhos.

Quando eles discutem (com uma escrita tão nítida e realista que parece que Swift deve ter puxado diretamente de um diário de uma década), a diferença de idade gritante faz com que pareça ridículo: “Ela é uma criança!” você pensa “Ela é obviamente uma criança!”

A ironia aqui, é claro, é que o mundo só sentiu raiva disso dez anos depois. Quando Taylor era uma menina repentinamente lançada no maior holofote do mundo, ninguém julgou a porta giratória de homens com o dobro de sua idade que faziam fila para reivindicá-la como um troféu. Em vez disso, ela era uma vagabunda, uma namoradeira em série, uma vadia louca – e quando sua vida amorosa era o alvo de uma piada cultural universal, ninguém sequer considerou que ela poderia ser uma vítima. Em vez disso, Taylor, uma loira de olhos gelados (madura para a projeção de homens e meninas inseguros que eram impopulares no colégio), foi considerada a vilã de Jezebel que todos queriam que ela fosse.

De acordo com os tablóides, os homens viviam com medo de sua caneta mordaz e enlouquecida de luxúria; ela era cruel, insana, sem coração! “Será que ninguém pensa em John Mayer ???” choraram as massas!

Swift – alta, magra e incrivelmente linda – foi uma rainha do mal perfeitamente lançada para o circo dos tablóides. É importante notar, porém, que mesmo com o machismo da mídia a atacando de todos os lados, sua graça salvadora sempre foi sua brancura (notavelmente, muitos meios de comunicação misteriosamente correram em sua defesa quando ela foi colocada contra Kanye West ao invés de um homem branco). Ao longo do eixo da raça, ela foi uma vítima perpétua; em seus relacionamentos românticos, ela era conivente, histérica e manipuladora. Mesmo sendo perseguida por alguns dos homens mais poderosos de Hollywood, ela de alguma forma sempre foi pintada como a agressora (como se a ocasional música country mesquinha fosse uma arma comparável aos sistemas do patriarcado e da cultura do estupro).

Nos últimos anos, inúmeras pessoas mudaram de ideia sobre o Swift; um dos benefícios surpreendentes de seu projeto de relançamento é que as pessoas que a descartaram durante o início dos anos 2010 estão repentinamente percebendo que sua música sempre foi muito boa. Projetos como Red, no entanto, fazem mais do que reintroduzir sua música ao mundo: eles também forçam sua perspectiva sobre os relacionamentos de sua juventude de volta aos olhos do público.

À medida em que ela gradualmente ganha controle de sua narrativa, passamos os últimos anos testemunhando o Arco da Redenção Taylor Swift – mas como os arcos de redenção desse tipo, não há catarse verdadeira em perceber que passamos anos canibalizando uma jovem para alimentar nosso apetite cultural insaciável.

Ao contrário de Britney ou Alanis, no entanto, Swift está optando por responsabilizar artisticamente seu público por parte do que fez antes do início de sua redenção. Em All Too Well: o curta-metragem, ela aponta o dedo para nós: ela expõe a verdade na mesa, balançando-a na frente de nossos rostos, fazendo com que a gente se pergunte por que não a vimos antes.

Com cenas de revirar o estômago, entre ela ficcionalizada e o homem mais velho a desgastando, Taylor está forçando seu público a perceber agora o que eles nunca poderiam ter percebido enquanto esses relacionamentos estavam realmente acontecendo. Com fogo e fúria, com raiva palpável, ela repete a pergunta que fez pela primeira vez há mais de uma década: “Você não acha que eu era muito jovem?”.

Matéria publicada pela Next e traduzida pela Equipe TSBR.





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