23 de fevereiro de 21 Autor: Maria Eloisa Barbosa
Aaron Dessner fala sobre a produção do “folklore” e “evermore”

Em entrevista para a Sound on Sound, Aaron Dessner, produtor do folklore e evermore, deu detalhes sobre a criação desses álbuns, contou curiosidades sobre o processo e opinou sobre o futuro da carreira de Taylor. Confira abaixo os destaques da entrevista, traduzidos pela Equipe TSBR:

Apesar de sua banda ser extremamente popular e até ter ganhado um Grammy com seu álbum Sleep Well Beast de 2017, Aaron Dessner admite que inicialmente, foi estranho para um guitarrista e tecladista de indie-rock estar em um projeto tão mainstream. Swift já havia se declarado fã do The National e conheceu a banda em 2014. Ainda assim, Dessner ficou surpreso quando a cantora lhe enviou uma mensagem “do nada” na primavera passada.

“Quer dizer, não achei que fosse uma piada”, ele ri. “Mas foi muito emocionante e num momento por acaso ou algo do tipo, especialmente no meio da pandemia. Quando ela perguntou se eu consideraria escrever com ela, simplesmente aconteceu de eu ter um monte de música em que tinha trabalhado muito. Então, foi um momento de sorte. Isso abriu para um período louco de colaboração. Foi uma jornada muito louca”.

Muitos de seus trabalhos em andamento se tornaram o folklore. Sua primeira colaboração (e o primeiro single do álbum), ‘cardigan’, por exemplo, surgiu de uma ideia que Dessner estava trabalhando nos bastidores da turnê europeia do The National no inverno de 2019.

“Mandei uma pasta para ela e no meio da noite ela me mandou aquela música”, explica Dessner. “Então, na manhã seguinte, eu estava apenas ouvindo, tipo,‘ Uau, OK, isso é louco’”.

Durante o processo

Dessner e Swift trabalharam intensamente e rápido ao longo de 2020, tanto que em uma ocasião, o produtor mandou uma faixa para a cantora e saiu para correr no interior de Long Pond. Quando voltou, Swift já havia escrito “the last great american dynasty”.

“Aquele foi um momento louco”, ele ri. “Uma das coisas surpreendentes sobre Taylor é a brilhante compositora que ela é e a clareza de suas ideias, quando ela tem uma história para contar, o jeito que ela as conta. Ela tem feito isso há tanto tempo que ela tem uma facilidade que faz com que você sinta que nunca vai conseguir fazer o que ela é capaz. Mas nós somos uma boa dupla porque eu acho que o instrumental inspirou ela de tal forma que as histórias foram vindo”.

Todos os colaboradores do folklore trabalharam remotamente. “Quando nós fizemos o evermore, muitos dos vocais foram gravados aqui no estúdio quando Taylor estava visitando para o documentário da Disney+ Long Pond Studio Sessions. Mas os vocais de Taylor para o folklore foram feitos todos remotamente”.

Mantendo segredos

Diante da fama de Taylor, toda equipe precisou ser cuidadosa para que nada vazasse. “Sim, quero dizer, nós tivemos que ser muito cuidadosos, então tudo era muito secreto”, ele diz. “Havia senhas dos dois lados e nós nos comunicávamos de uma maneira muito específica quando estávamos compartilhando mixes e tudo. Havia um alto grau de confidencialidade e de criptografia de dados”.

“Eu não costumo fazer isso”, ele adiciona, “porque normalmente a gente deixa os arquivos circularem por toda a internet [risadas]. Mas eu acho que com alguém como ela, há apenas tanta gente prestando atenção em cada movimento que ela faz, o que pode ser um pouco, eu acho, opressivo para ela. Nós tentamos fazer o mais confortável possível e trazer o feedback dela para nós. Funcionou muito bem”.

Baterias & Guitarras

Aaron conta que “há muitas baterias vintage no álbum e elas soam muito boas”. Seu trabalho com guitarras também aparece no álbum, como em “the last great american dynasty”, que foi inspirada em “In Rainbows” do Radiohead. Outros sons também aparecem no álbum, como em “Epiphany”, que mistura a voz de Taylor com várias texturas ambiente, criadas por Aaron.

Orquestra

Enquanto isso, a orquestra que aparece em várias músicas foi criada por Bryce Dessner, que mora na França. A faixa “exile”, dueto de Taylor com Justin Vernon, também foi criada de forma remota. “Justin estava renovando seu estúdio em Eaux Claires, Wisconsin, que fica na garagem da sua casa”, conta Dessner. “Foi ideia da Taylor chamá-lo. Eu encaminhei um áudio da Taylor cantando ambas as partes do dueto e ele gostou bastante, ficou muito animado e escreveu a outra parte da ponte”.

“Eu faço vários trabalhos remotos com o Justin também, então foi fácil encaminhar a música e receber ela de volta”. Justin também providenciou a batida de “closure”, uma das duas músicas do evermore que serviram como uma ideia para o segundo álbum do Big Red Machine. Devido ao número de artistas remotos, Aaron conta que surpreendentemente, houve pouquíssimos problemas técnicos.

“Acho que o principal era que eu queria que os vocais dela tivessem um alcance mais completo do que você normalmente ouve ”, explica Dessner. “Porque eu acho que muitos dos álbuns mais pop são mixados de uma certa maneira e eles tiram um pouco da quentura do vocal, então é muito cintilante e faz muito sucesso na rádio. Mas ela tem esse maravilhoso alcance de notas baixas na voz dela, o que é particularmente importante em uma música como “seven”. Ou, como, ‘cardigan’. Torna a música mais pesada, mas para mim é onde está muita emoção”.

Em alguns casos, a combinação final terminou sendo a trilha crua,sem muitas melhorias, enquanto outras canções deram muito mais trabalho.
“‘cardigan’ é basicamente o rascunho, assim como ‘seven’. Então, desde o comecinho das músicas, as primeiras criações, quando nem sabíamos o que estávamos criando, nós nunca fomos capazes de aperfeiçoar mais do que aquilo. Tipo, você consegue fazer soar ‘bem’, mas pode não ser tão bem porque perde um pouco de sua magia estranha, sabe. Mas canções como TLGAD ou mad woman foram um pouco mais difíceis de criar a dinâmica da maneira que queríamos, e que ela valesse sem que tivéssemos que ir longe demais. E ao mesmo tempo mantendo o tipo da estética em que estávamos. Essas foram as mais difíceis, eu diria”.

“Do evermore, eu diria que ‘willow’ foi provavelmente a mais difícil de terminar só porque havia tantos maneiras que ela poderia ter acontecido. Eventualmente nós voltamos quase ao ponto inicial. Então, há um monte de coisas que foram deixadas de fora de ‘willow’, só porque a simplicidade da ideia, acho que, de certa forma,predominava fortemente”.

O assunto desse mês, “willow”, foi a primeira música escrita para o evermore, imediatamente após o lançamento do folklore. “Parecia até como se tivéssemos sidos desafiados ou algo assim”, Dessner ri. “Estávamos compondo, gravando e criando tudo ‘de uma vez’ e fomos de um álbum para o outro quase que imediatamente. A gente não parou desde abril”.

Ás vezes, Swift e Dessner tirariam sua inspiração de fontes inesperadas. Por exemplo, “no body, no crime” começou quando Aaron deu à Taylor um violão especial que ele havia comprado na loja de seu amigo em LA.
Outro amigo de Dessner desenvolveu um software que ajudou na criação da melodia de ‘marjorie’.

A música tem o nome da avó de Taylor, que era cantora de ópera. A voz dela pode ser ouvida em momentos da música. “A família da Taylor nos deu um monte de gravações da avó dela”, Dessner explica. “Mas eles estavam em discos antigos, riscados e barulhentos. Então tivemos que isolar a voz utilizando o software”.

“Eu acho que irmos para o long pond permitiu que nos divertíssemos mais”, diz Dessner”. Sabe, beber mais vinho e simplesmente estar no mesmo lugar, ter a sensação de tocar a música bem alta e dançar e apenas curtindo. Ela é realmente uma pessoa adorável para se passar um tempo, nesse sentido fiquei muito feliz que tivemos a chance de trabalhar juntos pessoalmente”.

Uma música inteiramente nova, ’tis’ the damn season’, saiu dessa abordagem cara a cara presencialmente. Inclusive, Swift escreveu no meio da noite depois que a equipe ficou até tarde bebendo. “Nós tomamos um monte de vinho, na verdade”, Dessner ri”, “e então todo mundo foi dormir, pensei. Mas eu acho que ela devia estar com essa ideia pairando em sua cabeça, porque na manhã seguinte quando ela chegou, ela cantou a música para mim na minha cozinha. Talvez seja minha música favorita que escrevemos juntos. Então ela cantou no jantar para minha esposa Stine e eu, todos nós choramos. É esse tipo de música, então foi muito especial”.

Sem compromisso
folklore e evemore foram ambos gigantes, tanto no sentido das críticas quanto pelo sucesso comercial para Taylor Swift. Aaron Dessner considera que fazer esses álbuns anti-pop liberaram a cantora para o futuro. “Acho que foi muito libertador para ela”, ele diz.”Eu acho que isso foi provavelmente a maior mudança para ela. Ser capaz de fazer canções sem compromisso e então liberá-las sem os requisitos que ela está acostumada a ser cobrada no passado. Obviamente, vem durante esse momento em que estamos todos confinados e ninguém pode fazer turnês ou ir a talk shows ou algo assim. Mas eu acho que provavelmente terá impacto no que ela faz no futuro. Mas também acho que ela pode mudar de forma de novo”, conclui. “Quem sabe para onde ela vai? Ela teve muitos celebres álbuns no passado, mas lançar dois álbuns desta qualidade em tão pouco tempo, realmente ressaltou seu talento para composição e sua habilidade de contar histórias e também, apenas sua vontade de experimentar e colaborar. De alguma forma, acabei no meio de tudo isso e estou muito grato”.

Entrevista publicada pela Sound on Sound e traduzida pela Equipe TSBR.





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