Nem no inferno tem alguém com a fúria de uma Taylor Swift desprezada. Basta perguntar a Damon Albarn, o líder do Blur e do Gorillaz, que disse algo espetacularmente bobo e sexista sobre a estrela pop americana – e recebeu uma repreensão contundente na frente de seus 90 milhões de seguidores no Twitter.

Em entrevista ao Los Angeles Times no domingo, Albarn afirmou que Swift “não escreve suas próprias músicas”. Quando o entrevistador apontou que ela as co-escreve, o britânico de 53 anos disse: “Isso não conta. Eu sei o que é co-escrever. Co-escrever é muito diferente de escrever.”

A resposta de Swift foi robusta e brutal. “Eu era uma grande fã sua até ver isso. Eu escrevo TODAS as minhas músicas. Sua opinião é completamente falsa e tão prejudicial”, disse ela a Albarn no Twitter na noite de segunda-feira. “Você não precisa gostar das minhas músicas, mas é realmente uma merda tentar desacreditar minhas composições.” Ouch!

Ela seguiu sua mensagem com o arco: “PS, eu escrevi este tweet sozinha, caso você esteja se perguntando”. Ai!

Albarn, que se desculpou “sem reservas e incondicionalmente”, disse que seus comentários sobre as composições de Taylor foram “reduzidos a clickbait”, mas ele realmente deveria ter se informado melhor. Swift, de 32 anos, tem a fama de rebater as tentativas de minimizar suas conquistas, principalmente se elas têm um toque de sexismo por trás, intencional ou não. Ela é conhecida por não aceitar críticas calada. E os meio milhão de ‘curtidas’ que ela recebeu por cada uma de suas críticas a Albarn sugerem que seus fãs estão logo atrás dela. É algo bom, também. Enquanto a discussão se espalha no mundo da música sobre direitos e dominação dos homens na indústria, Swift é a mulher que a indústria fonográfica precisa agora.

Primeiro, Albarn. No que ele estava pensando? Ele foi questionado pelo crítico de música pop do LA Times, Mikael Wood, sobre um próximo show que contaria apenas com ele, um piano e uma sessão de cordas. O músico disse que shows acústicos são difíceis porque “não se pode esconder atrás de nada”: eles provam se as músicas são boas, ou se elas só foram populares por causa do “som e da atitude” envolvidos em tocá-las com uma banda completa.

Albarn disse, um pouco pomposamente, que poucas músicas modernas poderiam resistir a tal exposição. Wood então perguntou se ele achava que muitos músicos modernos se confiam no som e na atitude. “Diga-me alguém que não seja”, respondeu Albarn. Foi nesse momento que Wood disse: “Ela pode não ser do seu gosto, mas Taylor Swift é uma excelente compositora”. Então vieram as afirmações de Albarn de que ela não escreve suas próprias músicas e que a co-composição não conta.

Além de qualquer outra coisa, esses comentários são hipócritas de cair o queixo. O encarte do último álbum de Albarn, The Nearer the Fountain, More Pure the Stream Flows, afirma que todas as faixas são escritas e produzidas por ele. No entanto, logo abaixo, destaca que todas, exceto duas, das 11 faixas do disco apresentam uma “composição adicional” pelo ex-guitarrista do The Verve, Simon Tong (que ajudou em nove músicas), o músico do Gorillaz, Mike Smith (que trabalhou em três), e o maestro alemão André de Ridder (dois). Saber exatamente qual é a diferença entre ser um “compositor adicional” (tudo bem com Albarn) e um “co-compositor” (não conta) está além da minha capacidade.

De fato, Albarn é notoriamente um dos grandes parceiros ao criar música, seja com Gorillaz (ele escreveu com Snoop Dogg, Lou Reed e Jehnny Beth do Savages), seja Bobby Womack, ou a dupla maliana Amadou & Mariam.

E ele é brilhante nisso, o que torna o que ele disse muito sem sentido. Ele também disse ao LA Times que ama Billie Eilish, mas que ela co-escreve tudo com seu irmão Finneas. Ela conta?

Swift, por sua vez, escreveu ou co-escreveu todas as músicas de seus nove álbuns de estúdio que venderam milhões de cópias no pop e, recentemente no indie-folk. Ela colabora mais agora do que fazia antes (co-escritores famosos incluem o guitarrista do The National Aaron Dessner, músico do Bleachers Jack Antonoff e super-produtor Max Martin), mas ela certamente não pode ser acusada de não compor as próprias músicas.

As diferenças entre ela e Albarn no fim se resumem ao gênero musical, e, de acordo com alguns, ao gênero. Ele é um gênio musical, ela uma simples estrela do pop.

Os colaboradores de Taylor foram rápidos ao defendê-la. “Eu nunca conheci Damon albarn e ele nunca esteve no meu estúdio mas aparentemente ele sabe mais do que todos nós sobre as músicas que a Taylor compõe e traz pra gente. patético,” disse Jack Antonoff. Dessner disse que os comentários “não poderiam estar mais distantes da realidade”. E acrescentou que o cantor da Blur estava “obviamente completamente sem a menor noção do seu processo de composição e trabalho”.

Músicos acusaram Albarn de Sexismo. Catherine Anne Davies, que faz parte da The Anchoress, me diz que ela está com “raiva mas não surpresa” pelos comentários. Ela disse que essas proclamações mantém a percepção que a indústria musical ainda é um domínio masculino. É por isso que apenas dois por cento dos produtores musicais são mulheres e por isso que muitas mulheres eventualmente saem da indústria por completo. “É a mesma atitude babaca que eu encontrei nos últimos seis anos, dia sim e outro também,” Davies disse. “Imagine ter todo o sucesso que ela tem e ainda ser questionada de suas habilidades e talento.”

Swift raramente se cala quando se trata de eventos que ela vê como sexismo. Seu grande desentendimento com Kanye West começou em 2009 quando o rapper interrompeu seu discurso no MTV Video Music Awards porque ele pensava que Beyoncé deveria ter ganhado. Os dois pareciam ter feito as pazes até Kanye lançar a música Famous em 2016, que continha a letra “Eu acho que eu e Taylor devamos transar ainda/ Por quê? Eu deixei aquela vadia famosa.” West disse que Taylor tinha concordado com a letra em uma ligação. A equipe de Taylor disse que ela na verdade o alertou sobre a mensagem misógina da música. O vídeo era pior ainda, mostrando uma boneca semelhante a Taylor na cama com bonecos parecidos com Donald Trump, e George W Bush (e o próprio Kanye).

A antena de Taylor para o sexismo é muito importante para a indústria. As principais gravadoras mundiais são comandadas por homens e ainda assim os álbuns mais vendidos nos EUA em seis dos últimos sete anos são de mulheres (em cinco dessas ocasiões a própria Taylor). Quando se exclui a antiga geração das paradas britânicas, a dominação era de Adele, Olivia Rodrigo e Dua Lipa (e Ed Sheeran).

Em uma entrevista para a CBS em 2019 Taylor falou sobre sua posição a respeito do sexismo. “Quando um homem faz algo, é “estratégico”, quando uma mulher faz, é “calculado”. Um homem pode “reagir”, uma mulher pode apenas “exagerar”. E não tem fim”. Ela cristalizou essa opinião em sua música The Man. No vídeo, dirigido por Taylor, estrelado por sua versão masculina Tyler Swift ela alfinetou a situação de dois pesos e duas medidas. A paródia de Taylor festejava em bares à noite e celebrava ‘pai do ano’ no parque durante o dia.

Mesmo que – segundo diz Albarn – seus comentários fossem tirados de contexto, ser tão criticado publicamente não pode ser tão legal assim. No show de segunda à noite, ele disse ter entrado no “abismo das redes sociais” pelo repórter do LA Times. E então, dedicou ironicamente a música ‘Song 2’ do Blur ao jornalista.

Taylor deve continuar fazendo as pessoas tomarem responsabilidade por seus comentários. Como a music Davies disse, seu status global faz com que isso seja essencial.
“A Taylor recebe desculpas porque ela tem um sucesso grande o suficiente para chamar a atenção de Damon publicamente. O resto de nós tem que aguentar calada no dia a dia”.

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Fonte: thetelegraph.co.uk





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