22 de maio de 21 Autor: Karla Santos
Taylor Swift sabia de tudo quando era jovem

Aos 18 anos, Taylor tinha alguns arrependimentos. Por meio do seu segundo álbum de sucesso, Fearless, Swift cantou sobre momentos que ela gostaria de reviver e, em alguns casos, reescrever. “Gostaria que você pudesse voltar / E dissesse para si o que você sabe agora”, ela diz em “Fifteen”, uma memória do seu ano de caloura no ensino médio. Em “White Horse”, ela se repreende enquanto pensa num término, “Garota estúpida, eu deveria saber”. O álbum captura muito bem a ingenuidade, comum na adolescência, quando apenas alguns meses de amadurecimento parecem uma vida inteira de aprendizado.

A Taylor Swift de agora, com 31 anos, não parece querer mudar seu passado. Sua nova regravação do Fearless, chamada Fearless (Taylor’s Version), simplesmente afirma quem ela era em 2008. Sua voz está mais profunda, algumas vezes ela enfatiza sílabas diferentes e sua equipe alterou alguns instrumentais e mixagem, mas as composições são fundamentalmente as mesmas. Se as notas, letras ou o time mudaram, você pode prestar mais atenção usando cuidadosamente o botão de pausar. “You Belong With Me” continua sendo uma das melhores músicas pop da história e o pré-refrão de “Breathe” ainda é meio desajeitado. A fidelidade de Swift à sua visão de adolescente é inesperadamente emocionante. Volte para algo que você colocou muito esforço 13 anos atrás. Faz com que você sinta vergonha? Ela está te dizendo para pegar leve com o seu “eu” do passado.

A razão mais óbvia para a fidelidade de Swift ao Fearless original são os negócios.  Em 2019, Scott Borchetta, o CEO da sua antiga gravadora, vendeu os master de seus primeiros seis álbuns para Scooter Braun, um poderoso agente de talentos com quem Swift teve atritos. Swift considerou o acordo como uma traição e divulgou seu descontentamento nas redes sociais. Braun, desde então, revendeu os masters para um terceiro, mas Swift seguiu em frente com um plano para desvalorizar suas faixas antigas, lançando novas versões. Fearless (Taylor’ Version) é o primeiro álbum a culminar desse esforço.  Fãs, DJs de rádio, produtores de TV e qualquer pessoa que quiser usar músicas antigas de Swift agora têm a opção de escolher entre as versões. Ao se recusar a ajustar muito sua música, Swift minimiza o papel da preferência estética nessa decisão. A questão é: você apoia a pessoa que canta e escreve as músicas de que você gosta, ou apoia os inimigos dela?  

De uma forma mais profunda, porém, as disputas de Swift colocam Fearless sob uma nova luz – e não é a dourada da foto da capa da nova versão.  Por anos, a narrativa pública de Swift esteve intimamente ligada a Borchetta, o executivo de Nashville que contratou Swift para sua pequena gravadora independente, Big Machine, quando ela tinha apenas 14 anos. Ela sempre disse que a última música de Fearless, o triunfante hino “Change” sobre Davi derrotando Golias, foi inspirada no momento em que ela viu Borchetta soluçando de felicidade na platéia enquanto recebia um prêmio no Country Music Association Awards.  Hoje, Swift retrata seu ex-patrono e mentor como um escroto — alguém “para quem o termo ‘lealdade’ é claramente apenas um conceito contratual”, como ela escreveu em 2019. A vingativa canção de 2020 de Swift, “My Tears Ricochet”, foi resultado da briga com Borchetta.

Os fãs agora poderão escolher ouvir “Change” como se ela fosse sobre as vitórias de Taylor contra Borchetta. Mas a experiência de ouvir o Fearless (Taylor’s Version) não é apenas sobre ouvir as músicas em um novo contexto. É sobre apreciar o contexto em que elas foram criadas – por uma garota adolescente que nos anos anteriores teve que crescer muito. No documentário de 2020, “Miss Americana”, Taylor disse que ela se sentiu como se seu psicológico estivesse congelado na idade em que ela se tornou famosa. Fearless capturou esse momento de congelamento, quando ela estava empolgada com o sucesso da sua recente carreira mas também começando a entender os desafios de crescer, namorar e simplesmente existir com o público sabendo de tudo. O álbum a capturou, em outras palavras, tentando descobrir como se apegar à felicidade enquanto também se defende dos ataques.

Fearless pode portanto ser ouvido como uma reflexão sobre traição em forma de álbum, um tema que complementa o motivo descarado de fascínio. Em quase todas as músicas, Taylor canta sobre expor seu coração a alguém que valoriza essa vulnerabilidade (como em Love Story) ou alguém que desonra (como em Forever & Always). Finais infelizes aparecem mais vezes que os alegres banjos podem sugerir. “Isso não é um conto de fadas”, ela canta em “White Horse”, uma prova da realidade em um álbum cheio de cenas de conto de fadas. Ao celebrar fantasias, beijos na chuva, Romeu e Julieta, e também ao mesmo tempo decepções românticas, Taylor transmitiu a noção madura que mesmo se sonhos não se tornam realidade sempre, eles ainda valem a pena serem sonhados. Esse otimismo cauteloso era o que a palavra “destemida” significava para ela.

A complexidade da mensagem se perdeu na narrativa pública de Swift por um tempo. Ela apareceu no VMA de 2009 numa carruagem puxada por cavalos e virou meme por fazer caras de surpresa realistas demais ao receber boas notícias. Fearless é um álbum forte, mas a repetição dessa estética e sonoridade contribuiu para formar a visão caricata que muitos tiveram de Swift. A única tentativa do Fearless (Taylor’s Version) de ‘bagunçar’ essa vibe vem nas seis faixas não lançadas anteriormente, que Swift regravou com seus colaboradores do Folklore e Evermore. Esses dois álbuns complicaram deliberadamente a preconcepção que os ouvintes tinham sobre Swift com um som leve e elegante que agora se estende à essas faixas inéditas. Ainda assim, o ‘soco’ melodicamente conciso do Fearless está presente nelas — misturando otimismo e realidade.

A melhor “música do cofre” do Fearless (Taylor’s Version) é a faixa que encerra o disco, “Bye Bye Baby”, que começa dizendo, “Não era apenas como num filme” e caminha para o final com Swift dizendo ‘bye bye’ a “tudo que eu pensei estar do meu lado”. Com ritmo oscilante e vibe relaxante, não deixa de soar como uma despedida despreocupada à Borchetta e seus aliados, mas na internet é possível encontrar a versão demo da música que nasceu há mais de uma década. Será que Swift já previa os laços que eventualmente teria que cortar? Ou ela desenvolveu cedo o tipo de resiliência que ajuda a explicar seu sucesso tão duradouro? A música “Cardigan”, do Folklore, já respondeu essas perguntas com esse trecho: “Eu sabia de tudo quando era jovem.” E ela sabia mesmo.

Matéria publicada pelo The Atlantic e traduzida pela equipe TSBR.





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