
O Grammy Museum divulgou nesta segunda-feira (24) a íntegra de The Icon Sessions with Taylor Swift: A 20-Year Retrospective, gravada no Clive Davis Theater, em Los Angeles. São quase 50 minutos de conversa com Harvey Mason jr., CEO da Recording Academy, em uma sessão realizada pelo Songwriters & Composers Wing — o braço da Academia dedicado a compositores. A sessão ainda inclui um mashup que costura três eras — “All Too Well”, “august” e “I Knew It, I Knew You”.
Harvey Mason Jr.: Eu quero começar do começo de tudo. Você aprendeu muito sobre estrutura de música, e isso começou muito cedo. Nashville — quem foi que te influenciou? Como isso aconteceu? Me conta um pouco dessa história.
Taylor Swift: Eu tinha uns 10 anos quando comecei a pensar obsessivamente e a planejar como seria possível eu tentar fazer música pelo resto da vida. Então eu pesquisava. Eu tinha ouvido falar que a Faith Hill tinha sido descoberta no Bluebird Cafe. Comecei a estudar sobre o Bluebird Cafe, transformei em uma meta pessoal de vida conseguir tocar lá. E no meio desse processo, comecei a pegar instrumentos e a escrever minhas próprias músicas, meio que baseada nas estruturas e na arquitetura das músicas que eu mais amava, pensando que talvez, se eu escrevesse um monte delas, eu ficasse decente nisso.
Harvey Mason Jr.: E com esses sentimentos, colocando isso na música, você tinha consciência de “ah, eu preciso encaixar isso nessa estrutura”? Ou era mais colocar os sentimentos na música?
Taylor Swift: Eu acho que, quando se trata de estrutura, é meio como quando você aprende as regras básicas de alguma coisa: aquilo serve mais como um esqueleto. E a gente tenta não ser formulaico demais no que faz, porque no fim das contas a gente está tentando expressar uma verdade humana. Mas, no fundo, até a ausência de estrutura é um tipo de estrutura — assim como a anarquia é um tipo de sociedade.
Harvey Mason Jr.: Pegar a estrutura tradicional, virar do avesso, fazer coisas diferentes e quebrar regras é algo que você fez bastante, na verdade — já começou no seu primeiro álbum, o que é incrível. Depois, adolescente, você começou a escrever coisas realmente avançadas. “Tim McGraw”, aquela música — você apresentou não só uma artista, mas uma compositora com um instinto enorme para contar histórias. De onde veio isso?
Taylor Swift: Eu acho que contar histórias foi o motivo pelo qual a música pareceu importante para mim. Então, sendo atraída por esse aspecto da música, eu nunca recorri à música para esquecer a minha experiência humana. Eu recorri à música para lembrar dela. E na composição eu sempre me pego atraída por consequências, por riscos e pela passagem do tempo, para a gente conseguir ver aquelas decisões até o fim. Eu amo um epílogo em um livro — estou sempre tentando saber o que aconteceu no fim da história. E muitas vezes, numa música, você gosta de ficar em um único momento, mas especialmente no começo da minha carreira como compositora eu adorava dizer “e foi assim que terminou”.
Harvey Mason Jr.: Pular no tempo, né?
Taylor Swift: Eles se casaram. Que surpresa.
Harvey Mason Jr.: Bom, você fez um pouco disso em “Tim McGraw”, onde escreveu sobre algo que estava terminando, mas que não tinha terminado, mas que ia terminar — e isso é definitivamente um outro tipo de estrutura.
Taylor Swift: Essa música, quando eu olho para trás, meio que estabelece um padrão de escrever com detalhes. É algo que as pessoas comentam muito sobre o meu trabalho: que eu escrevo com detalhes. Mas eu acho importante determinar que os detalhes precisam ter uma significância para a história em questão. E nessa música tem um verso sobre um garoto numa picape Chevy que vive atolando em estradas de terra à noite. Se você olhar pelo valor de face, você pensa: “ah, aquela picape quebrava muito”. Mas se você olhar mais fundo, o duplo sentido é que são dois adolescentes que estacionavam por ali para se beijar e diziam para os pais que a picape tinha quebrado.
Harvey Mason Jr.: Ah. Agora a gente sabe. Nesse período, você estava crescendo, aperfeiçoando o seu ofício e seguindo os seus instintos. O que é que tem nesse período — ou o que foi que você fez nessa época — que você acha que é único, ou talvez um superpoder seu?
Taylor Swift: Nossa. Eu acho que, naquele momento, eu era uma garota de 16 anos lançando um álbum de música country que era todo sobre a minha vida como uma adolescente no ensino médio. E 20 anos atrás, as pessoas pensavam muito em termos de demografia, e a forma de fazer a música chegar ao mundo era o rádio country. E muita gente do lado da gravadora me dizia: “olha, o público do country é uma mulher de 35 anos. Como é que ela vai se identificar com você escrevendo músicas sobre a sua vida no primeiro ano do ensino médio?”. É uma pergunta justa.
Se eu fosse olhar para trás e dizer “nossa, que loucura, foi por isso que tudo deu certo” — foi porque eu não dei ouvidos às pessoas que diziam que eu não tinha uma perspectiva válida sobre a vida porque eu não me encaixava em uma certa demografia que elas tinham estudado por causa da análise de um determinado gênero e de como as pessoas consomem música. Eu acho que a música é tão boa justamente porque você não sabe o que vai tocar as pessoas. A gente está lidando com verdades emocionais que ou ressoam, ou não.
Harvey Mason Jr.: E é isso que eu ia dizer — para mim, parece que os seus instintos são um dos seus superpoderes. Você tem vários, mas você confiou nos seus instintos tanto na sua estratégia quanto na sua composição, no que você colocou na sua música. E às vezes é difícil confiar nos seus instintos quando você está compartilhando a sua música com o público e precisa fechar isso tudo e escrever de dentro para fora? Como você lida com isso?
Taylor Swift: Eu percebi que estou fazendo música porque estou tocando para os fãs. Estou lançando isso para pessoas que se importam e que recorrem à música como uma forma de lidar com a vida delas, do jeito que eu fiz. E eu acho que, se você consegue passar por todos esses filtros e entender que lançar uma música que você fez e que ama tanto não é o caminho para a validação universal — se mesmo assim você continua fazendo, então você ama isso pelos motivos certos.
Harvey Mason Jr.: Isso é sério. Eu não sei se existiu outro compositor que teve que levar isso em consideração tanto quanto você — a percepção do público, como estão recebendo, o que estão interpretando, como estão interpretando.
Taylor Swift: É, tipo, qualquer coisa que você diz, vem alguém com “ah, fácil falar, né?”.
Harvey Mason Jr.: Mas quando você está no estúdio, como é que isso não bloqueia a sua criatividade? Como isso não atrasa o seu processo, ter que pensar em como aquilo vai ser interpretado?
Taylor Swift: Sei lá. Às vezes isso alimenta. Às vezes, quando as pessoas estão me zoando, é muito divertido zoar de volta. Às vezes eu gosto de usar palavras que elas vão ter que procurar no dicionário para conseguir falar mal.
Mas eu passo por vários processos e mecanismos de enfrentamento que fui desenvolvendo ao longo dos anos, e um deles é dizer: você escolheu isso, você escolheu isso todos os dias. Você poderia ter desistido disso em qualquer dia antes de ficar grande de um jeito incontrolável. E eu decidi não desistir porque eu amo isso demais. E é aí que começa e é aí que termina. E tudo o que vem junto com isso, no fim das contas, vale a pena, desde que eu ainda possa fazer música.
Harvey Mason Jr.: Isso é especial. É incrível. Muito bom. Certo, vamos avançar um pouco. O seu álbum Red soou diferente, parecia que você estava tentando outras coisas. Estava empurrando os seus próprios limites como compositora, certo? E eu acho que 1989 te levou para uma direção pop, um pop muito deliberado. O seu processo de escrever essas músicas mudou em relação ao que você vinha fazendo?
Taylor Swift: Mudou. Quer dizer, eu sempre fui muito fascinada e desafiada pela ideia de nunca fazer um movimento lateral criativamente. E ajudou o fato de que, como eu comecei nisso aos 16 anos e continuei lançando álbuns, a minha vida estava mudando tão rápido que, se você continua escrevendo sobre a sua vida e escrevendo a partir desses novos desafios e aventuras, a paisagem sonora disso e a trilha sonora disso podem mudar junto com você.
Então, com os meus álbuns, eu levava comigo a minha dedicação a ser uma compositora confessional e a minha crença de que isso é importante — e de que, embora os detalhes da minha vida possam ser diferentes dos detalhes da vida de outras pessoas, é a significância desses detalhes que nos une na nossa experiência humana compartilhada. Isso você leva com você.
E com Red, especialmente, eu tinha acabado de sair de um processo — o meu álbum anterior se chamava Speak Now, e foi um álbum que eu escrevi completamente sozinha. E naquele álbum eu realmente aprendi a pegar um sentimento que eu estava sentindo e moldar aquilo sozinha em um som, meio que construir um mundo musical em volta do meu sentimento. Então o que você tinha ali eram músicas como “Enchanted”, que é sobre se apaixonar e sobre aquela sensação brilhante, cintilante, de luzinhas de fada — e é exatamente assim que a música soa. Tem uma música chamada “Never Grow Up”, que é uma canção para uma criança dormindo no berço, e ela soa exatamente como uma canção de ninar. Tem uma música chamada “Mean”, que era sobre críticas, e naquela época uma das críticas que eu recebia era “ela não é country o suficiente”. Então eu falei: coloca o máximo de banjo que der para colocar nessa música.
Então, depois que eu aprendi a fazer os meus sentimentos combinarem com o que eu estava escrevendo, e a influenciar a produção para que ela soasse exatamente igual àquilo, isso me ajudou muito mais para frente, quando eu passei a conseguir escrever no caminho inverso. Se alguém me mandasse uma base, eu ouvia os primeiros cinco segundos e pensava: “meu Deus, isso aqui é sobre uma garota que volta para a cidade natal no feriado e está frio, e ela se apaixona de novo pelo antigo amor do colégio, mas ela tem que voltar para a cidade grande — só que ela se apaixonou por ele em dois dias. O que ela vai fazer?”.
Harvey Mason Jr.: Isso é sensacional. Sensacional.
Taylor Swift: É. Mas Red, como você disse, foi onde eu decidi que ia tentar me encontrar explorando todas as bordas de todos os produtores diferentes com quem eu pudesse trabalhar. Todo mundo, do Dan Wilson ao Jacknife Lee, do Max Martin ao Nathan Chapman, ao Jeff Bhasker — eu pensei: quero trabalhar com todo mundo de quem eu gosto, todo mundo cuja música eu gosto. Quero ver como essas pessoas são no estúdio. E aquele álbum era muito parecido com trocar de canal na TV, como a gente fazia antigamente. Mas, quando eu olho para aquele álbum, foi isso que o tornou empolgante: a variação. E aí eu cheguei em 1989, que eu vejo como uma peça sonoramente muito coesa.
Harvey Mason Jr.: Existiam regras que você aprendeu no country e que precisou quebrar? Quais foram alguns dos desafios? Porque eu sei que muitos dos nossos membros escrevem em gêneros diferentes, mas não foram muitas as pessoas que conseguiram fazer essa transição em um nível tão alto — de compositora de country para compositora de pop em altíssimo nível também. Como são esses desafios?
Taylor Swift: Obrigada. Eu acho que a mudança principal seria, como letrista, o vocabulário que eu fui usando ao longo dos anos. Porque, quando se trata de escrever nuances diferentes da minha música, você pode dizer a mesma coisa de várias maneiras. Você pode dizer “estou a fim de você” com um verso sobre um toque de Midas na porta de uma picape, sobre novembro e sobre flanela. Ou você pode dizer que alguém tem aquele olhar de sonho, tipo James Dean, nos olhos. As duas coisas significam exatamente o mesmo: tudo o que você toca brilha, você é a coisa mais importante do meu mundo, eu acabei de te ver pela primeira vez e não consigo acreditar e não sei o que fazer com esses sentimentos. Mas você pode simplesmente escolher dizer isso de formas diferentes.
E eu acho que a forma como eu escolhi me expressar como letrista mudou ao longo dos anos, e tem momentos em que essas contradições aparecem, e os fãs falam “não acredito que a mesma pessoa que escreveu isso escreveu aquilo” — porque uma coisa é muito simples e boba e a outra é muito detalhada e profunda, cheia de alegoria, num mundo completamente diferente de linguagem atmosférica. Mas eu acho que essa contradição humana é divertida. Eu acho divertido fazer músicas brincalhonas. Acho divertido fazer músicas desoladas, solitárias e maltrapilhas na letra também — e é essa contradição humana que eu acho interessante.
Harvey Mason Jr.: E, aliás, é muito difícil de fazer — conseguir os dois. Então você dominou isso. Você também fala bastante sobre o quanto ama as coisinhas fonéticas, como você chama: a aliteração, a rima interna, os sons consonantais, onde a frase se encaixa. Como você prioriza essas coisas, e como decide “eu quero que soe bem ou quero que signifique alguma coisa”?
Taylor Swift: Bom, eu acho que no fim a gente está tentando fazer as duas coisas. E, quando eu falo sobre escrever, eu tento explicar de um jeito que faz parecer que eu penso muito mais nisso do que eu realmente penso na hora de fazer. Quando você recebe a visita da fadinha das ideias e confia para onde aquilo vai te levar, com base nas suas milhares de horas fazendo isso, você consegue entrar num estado de fluxo — e aí o seu gosto e as suas preferências vêm para a frente. Eu gosto tanto de aliteração que hoje elas acontecem sem eu querer. E eu gosto de uma síncope saltitante, e tenho certas coisas de que eu simplesmente gosto e que nem tento mais fazer — eu teria que me esforçar para não fazer.
Obviamente, quando você termina a primeira passada de alguma coisa — eu realmente não sou o tipo de pessoa que interrompe uma música e diz “vamos guardar isso e voltar depois”, ou que troca partes de lugar. Eu sei que muita gente faz isso. Eu não consigo. Eu preciso ir até o fim. Mas depois eu volto e reviso, pensando “esse verso aqui podia ficar mais afiado?”. E é aí que às vezes eu acrescento aliterações onde elas não existem. Mas normalmente elas já estão lá.
Harvey Mason Jr.: E quando você está fazendo isso — seja na sessão original de composição, seja revisando depois — você fica testando versos diferentes, palavras diferentes, vendo como soam, como fluem?
Taylor Swift: O legal é que acontece de um jeito diferente toda vez. Pode ser um verso em que eu pensei três meses atrás, anotei no bloco de notas, e de repente, agora que estou tocando esses acordes no piano, de repente eu sei o que aquele verso precisa ser. E aí a gente vai se expandindo a partir dali. Mas primeiro eu tive que descobrir: onde fica esse verso? É o segundo verso da segunda estrofe? É o refrão? É a primeira coisa que a gente escuta? E é aí que a gente vive montando quebra-cabeças como compositores. Só que a gente também cria todas as peças do quebra-cabeça primeiro. Então depende muito de você receber uma peça do meio ou uma peça de canto. E é o seu histórico como montadora de quebra-cabeças que vai, com sorte, te dizer onde aquilo entra. Mas é isso: é a mágica disso e também a desgraça disso.
Harvey Mason Jr.: Olhando para como você produz discos — e você tocou nesse assunto —, quais são algumas das coisas que você gosta de fazer para complementar as suas músicas? Como você constrói a produção em volta das suas letras e das suas histórias para garantir que aquilo crie o clima certo? Você falou das “luzinhas”. Isso é algo que você trabalha com os produtores, dizendo “não, eu quero que soe mais assim”? Eu sei que você produz bastante coisa sozinha também. Fala um pouco desse processo, se não se importar.
Taylor Swift: Pode ser interessante fazer uma música soar exatamente como ela se sente, ou fazer o oposto. E as pessoas que mais me ensinaram sobre isso foram o Max Martin e o Shellback. Acho que o melhor exemplo que eu tenho é que eu escrevi uma balada de piano muito triste chamada “I Knew You Were Trouble”. Eu estava super empolgada para levar aquilo, toquei para eles essa balada tristíssima e falei “eu acho que sem bateria nenhuma”. E eles: “e se fosse dubstep?”.
Harvey Mason Jr.: E o que você respondeu?
Taylor Swift: Eu falei: “sei lá, gente. Vamos tentar. Não sei”.
Harvey Mason Jr.: Eu não consigo imaginar eles falando isso para você. Você sentou, tocou a música para eles, e eles: dubstep.
Taylor Swift: Ah, sim, tipo “e se for guitarra elétrica e dubstep? A gente não vai colocar piano nessa aqui”. Mas acabou sendo a melhor coisa para a música. E eu acho que, como colaboradora, as minhas pessoas favoritas para estar numa sala são as pessoas do “sim, e…”. Então, por que não tentar? Se eles ouviram e pensaram em dubstep, e eu procurei eles justamente porque não queria fazer movimentos laterais criativamente — por que a gente não seguiria por esse caminho? Por que não? E eu realmente acho que o entusiasmo no estúdio pode fazer ou quebrar o que você acaba criando.
Harvey Mason Jr.: Pessoas do “sim, e…”.
Taylor Swift: Isso. Não seja a pessoa que chega no estúdio [sem isso].
Harvey Mason Jr.: Quer dizer, é uma grande lição para todos nós como compositores — encarar o processo criativo com esse espírito, com o “sim, e…”. É importante demais, né?
Taylor Swift: É.
Harvey Mason Jr.: Certo. Próxima fase — o álbum Reputation. Acho que é uma fase grande. Você estava escrevendo em um ambiente em que muita gente, o público em geral, sabia a história, ou achava que sabia a história. Como isso mudou o que você escrevia, e como a percepção do público te fez ajustar?
Taylor Swift: Foi um período da minha vida em que, pela primeira vez — e não a última —, as pessoas tinham tentado ativamente me entender errado, de modo geral, e entender errado o que eu estava tentando dizer, e interpretar mal de propósito. E aquilo era muito sufocante como pessoa, como ser humano. Mas, no fim das contas, como escritora, isso me deu — quando eu olho para trás — uma mordida meio retorcida na hora de escrever as minhas letras.
Porque eu pensei: ok, foi aí que eu aprendi que, quando as pessoas estão num frenesi de ódio contra uma figura pública, ou contra qualquer pessoa — pode ser a sua filha na turma dela do ensino fundamental —, quando as pessoas decidem “vamos todos ficar em volta de alguém, apontar e zombar”, você não pode responder com sinceridade aberta. Qualquer tentativa que você faça de se explicar com sinceridade ou seriedade vai ser zombada ainda mais. E então foi um desafio interessante como escritora perguntar: o que você pode dizer quando tudo o que você diz volta para você distorcido, quando as pessoas simplesmente reagem de forma exagerada em vez de reagir a qualquer coisa que você diga ou faça, a qualquer posição que você tome?
E aí eu decidi lançar uma música chamada “Look What You Made Me Do” como primeiro single, em que eu, como um cadáver, saio de um túmulo e passo a entregar uma versão muito irônica e travessa do que é se sentir encurralada desse jeito.
Mas a parte divertida daquele álbum é que ele tinha muitos lados. Se você olhasse mais fundo, é um álbum sobre se sentir tão mal com essa humilhação em massa pela qual você acha que está passando que você encontra uma cavernazinha, se enfia lá dentro e tenta achar um pouquinho de calor — e é esse calor que te sustenta durante todo o tempo em que você se sente absurdamente incompreendida por pessoas que não te conhecem. Então esse foi um desafio muito divertido daquele álbum, e eu tenho muito orgulho dele quando olho para trás. E eu acho que as coisas para as quais eu olho hoje são as vezes em que eu passei por algo que era meio uma tentativa de me enlouquecer. Quando você não deixa isso acontecer e usa a arte e a música como forma de sair daquilo dando uma cambalhota — esses são os momentos de que eu mais me orgulho.
Harvey Mason Jr.: É ótimo, ótimo, ótimo. Aí você tem Reputation e Lover, e eu diria que é escuridão e luz, defensividade e abertura, indo e voltando, certo? Isso foi só onde você estava na vida, ou foi feito de propósito? Você disse “ok, já fiz isso, agora quero fazer aquilo”? Ou você escreve exatamente o que está sentindo no momento?
Taylor Swift: É isso mesmo. Eu não sou muito uma artista de mood board. Eu sou muito mais uma artista de humor mesmo. Eu sempre começo por aí. Eu sempre começo por como a minha vida está soando para mim, e a estética do álbum é a última coisa que eu decido. Alguns detalhezinhos vêm no caminho, mas é divertido ter esses vislumbres de como a minha vida se sentia, que são tão precisos.
Quando eu olho para a minha discografia, eu vejo exatamente o que eu estava vivendo naqueles pontos da minha vida, e para mim isso é especial. Eu sei que cada um é de um jeito. Isso pode parecer muito estranho e esquisito, uma cirurgia de peito aberto, para algumas pessoas, mas para mim é muito sagrado. Eu olho hoje para músicas que escrevi sobre um coração partido de doer e penso “essa foi uma lição muito boa que eu aprendi. Essa música é sobre uma lição muito boa que eu aprendi”. Então muda com o tempo, mas continua sendo muito fiel à época que eu estava vivendo.
Harvey Mason Jr.: E o mais legal é que essas épocas ressoam com os seus fãs, os seus ouvintes, e eles estão passando por aquilo junto com você ao mesmo tempo. E você tem uma habilidade incrível de transmitir aquele sentimento e dar às pessoas conforto e compreensão — de que tem outras pessoas passando por aquilo ao mesmo tempo, certo?
Taylor Swift: Sim, e eu acho que esse é um conector que une, e que provavelmente é o que trouxe todo mundo nesta sala para a música. Uma época em que eu senti isso mais forte foi quando eu fiz um álbum chamado Folklore na pandemia. E aquele álbum é muito, muito sobre solidão, se você se aprofundar em certas letras de músicas como “Peace”, “Hoax” ou “Exile”. É sobre se sentir completamente sozinha — o que, estranhamente, todo mundo no planeta estava sentindo em algum grau. E poder lançar aquele álbum e a gente ter algo em que todo mundo pudesse dizer “ah, é, eu também me senti assim”. Essa foi, eu acho, a sensação de união mais intensa que eu já senti.
Harvey Mason Jr.: Parecia que, naquele projeto do Folklore, você estava escrevendo quase de uma terceira perspectiva, ou escrevendo em personagem. Como foi essa diferença para você?
Taylor Swift: Foi extremamente diferente para mim, e foi meio como uma válvula de escape. Foi uma fuga para dentro da minha imaginação. De repente eu estava caminhando à beira de um penhasco, olhando para o oceano, em vez de estar só em casa. Foram muitas coisas de uma vez. Mas com Folklore eu estava muitas vezes criando o personagem e criando personagens diferentes que interagiam entre si. Isso foi muito divertido. Eu acabei de escrever em personagem para Toy Story 5, o que foi uma delícia.
Harvey Mason Jr.: Isso, aplausos para isso. Toy Story 5, isso é grande. Não é todo mundo que tem a chance de escrever essas músicas.
Taylor Swift: É, e ainda mais para uma personagem que eu amo há anos e anos e anos — essa personagem, a Jessie, que eu sempre assisti a esses filmes especificamente para ver. Eu me identifico com a forma como ela reage a certas situações. Eu reajo a como o coração dela foi partido profundamente e a como ela sente as coisas profundamente, mas também a como ela protege as pessoas que ama. Eu acho muito mais divertido escrever a partir de um personagem quando você entende de verdade as motivações dele, porque você se identifica.
Harvey Mason Jr.: Eu gosto quando vem de dentro. Mas você acabou de dizer algo em que eu queria me aprofundar: compositora confessional. Você disse que é uma compositora confessional. Obviamente, quando você está escrevendo em personagem, talvez nem tanto — mas, como compositora confessional, o que isso significa para você? Não sei se todos aqui já ouviram muito esse termo, mas é muito interessante.
Taylor Swift: Obrigada. Eu acho que, quando eu uso o termo “compositora confessional”, é importante especificar que nem toda revelação chocante que você faz sobre si mesma é profunda. Dizer algo dramático, chocante e absurdo não faz daquilo algo que vai ajudar as pessoas, ressoar com as pessoas, ser uma história importante que fica na cabeça, no coração e na alma das pessoas. A gente precisa ter propósito. Você não pode simplesmente gritar uma loucura e dizer “sou uma compositora confessional”. Exatamente pelo mesmo motivo pelo qual os detalhes não devem ser meramente decorativos. Vamos não ser descuidados com essas coisas. Vamos fazer com que elas contem.
Tem uma música no meu álbum Fearless, que é o segundo álbum que eu lancei. Ela é toda escrita da perspectiva de uma criança cantando sobre a mãe, mas você nunca ouve a palavra “mãe”, “mamãe”, nada disso. Você sabe porque a narradora está descrevendo o frio, um casaco grande, ouvir aquela risada e olhar para cima sorrindo, correr pela plantação de abóboras e pelos passeios de trator, o céu ficando dourado, abraçar as pernas dela e dormir no caminho de volta para casa. Esses detalhes servem ao propósito de nos dizer exatamente quem é a nossa narradora.
Harvey Mason Jr.: Estou puto. Eu nunca vou ser um bom compositor. Eu nunca vou escrever isso. Poxa vida. Muitos escritores não precisam voltar às músicas que escreveram com a profundidade que você tem. Fala um pouco sobre fazer as Taylor’s Versions — o que aquilo significou e como isso te afetou como compositora? Você olhou para aquelas músicas e pensou “queria poder ajustar isso” ou “talvez eu mude aquilo”?
Taylor Swift: É interessante. Entrando nesse processo, eu regravei toda a minha música que eu tinha gravado por uma antiga gravadora.
Harvey Mason Jr.: A gente sabe.
Taylor Swift: Pouca gente sabe. Eu fui bem quieta sobre isso. Eu escondo. Eu não falei nada sobre isso.
Foi uma coisa interessante. No começo, é como quando o cachorro realmente comeu o seu dever de casa e você pensa “agora eu tenho que refazer tudo, e depois vou ter que chegar para a professora e dizer ‘o cachorro comeu meu dever’”. O público e a imprensa — como aquilo não tinha sido feito daquela forma antes, e imagino que numa escala tão grande e de um jeito tão alto e inconveniente — o público meio que me olhou de lado, do mesmo jeito que uma professora olharia se você dissesse que o cachorro comeu o dever.
Foi um lugar interessante para começar, e eu tive que sair do “todo mundo diz que isso não vai funcionar, todo mundo está dizendo que ninguém vai querer ouvir a minha nova versão do mesmo trabalho”. Mas, na verdade, eu cheguei a um ponto em que aquilo parecia uma reivindicação desafiadora do que sempre foi meu desde o começo. Eu pensei: na verdade, talvez eu possa voltar e cantar exatamente as mesmas notas, ser fiel ao trabalho do qual eu tenho muito orgulho, sem mudar notas nem fazer nenhum floreio maluco — mas talvez eu possa melhorar a qualidade sonora dessa música. E é assim que eu me sinto hoje quando escuto as Taylor’s Versions. E agora que eu recuperei toda a minha música, eu sou dona de tudo o que eu já fiz, o que é…
Harvey Mason Jr.: Parabéns. Essa não é uma pergunta oficial, é curiosidade minha mesmo: como é que você decidiu chamar de Taylor’s Versions? Você estava em casa um dia e pensou “vou chamar de Taylor’s Version”?
Taylor Swift: Literalmente. É, às vezes está bem debaixo do seu nariz, sabe?
Harvey Mason Jr.: Isso é ótimo.
Taylor Swift: Mas, é, quando eu voltava, eu tinha essas músicas que tinham ficado de fora por um motivo ou outro, e às vezes elas ressoavam mais comigo na hora de regravar. Tem uma música que eu escrevi quando tinha 22 anos, chamada “Nothing New”, que acabou virando um dueto com a Phoebe Bridgers, que é minha amiga. Essa música é sobre a sensação de estar ficando velha demais para a indústria da música. Eu escrevi aos 22 anos e pensava “estou acabada e sou chata, e todo mundo já se cansou de mim, e é triste”.
Então eu meio que entendo por que não coloquei no Red, porque parece um pensamento passageiro quando você tem 22 anos — tipo uma noite triste com uma garrafa de vinho. Mas quando eu tinha uns 30 e estava regravando, eu pensei: “ah, não. Isso acerta em cheio. Acerta em cheio”.
Harvey Mason Jr.: Amo isso. A música “All Too Well” já foi faixa de álbum, já foi versão de dez minutos, já foi uma nova gravação, já foi um curta-metragem.
Taylor Swift: Não para.
Harvey Mason Jr.: É, é incrível. O que isso diz sobre essa música, ou sobre uma grande música?
Taylor Swift: Obrigada por dizer isso. Eu acho que a coisa mais interessante sobre a jornada de “All Too Well” é que ela nunca foi single do álbum Red, e sempre foi uma música da qual eu, pessoalmente, tinha muito orgulho. Eu pensava “cara, tomara que os fãs se apeguem a essa”. E aí eles se apegaram. E eu passei por todo o ciclo do Red — ela nunca foi single. E aí, quando a gente estava indo para o Grammy, os fãs começaram a pedir “por favor, toca ‘All Too Well’, toca ‘All Too Well’ no Grammy”. E pareceu a coisa certa a fazer, então eu toquei essa música no Grammy. Ela sempre foi meio que impulsionada pelos fãs se importarem com essa música. E todas as versões dela falam muito sobre o fato de que, quando eles amam algo com essa paixão, eu vou dar ouvidos.
E essa tem sido uma história interessante com algumas músicas diferentes na minha carreira. “Cruel Summer” nunca foi single do álbum Lover até os fãs falarem muito alto sobre como queriam ouvi-la na Eras Tour. Anos depois, mais de três anos depois, eu estava montando a Eras Tour, e os fãs diziam “tudo o que a gente quer ouvir é ‘Cruel Summer’”. Então eu coloquei ela como a primeira música completa daquele setlist. Isso impulsionou a música a um sucesso viral esquisito, que fez a gravadora dizer “ei, você toparia lançar ‘Cruel Summer’ como single?”. E eu falei: “pode fazer isso? É de um álbum de três anos atrás”. E acontece que pode. Então foi muito gostoso ver isso acontecer.
Harvey Mason Jr.: Estando sentado ao lado de uma das maiores compositoras de todos os tempos, eu preciso te fazer algumas perguntas bem específicas sobre o seu processo, porque eu acho que todo mundo quer ouvir essas respostas. Para você, normalmente começa como? Eu sei que é diferente toda vez, mas vem primeiro a letra? A melodia? Você está no chuveiro? Está no piano ou no violão, e começa pela música? Como o seu processo de composição começa?
Taylor Swift: Eu acho que, se você se limita a uma dessas formas, você está cortando um monte de oportunidade. E eu sou muito receptiva a qualquer ideia, do jeito que ela chegar. Eu não escrevo uma música todo dia, mas eu tenho uma reviravolta legal de uma frase comum quase todo dia.
Harvey Mason Jr.: Você anota em algum lugar?
Taylor Swift: Anoto, eu tenho um app de notas que é uma loucura. É rolar, rolar, rolar, rolar — dá para rolar para sempre. E isso é muito útil, porque quando eu estou numa sessão, ou quando eu engato naquele estado de fluxo de escrever uma música, eu consigo rolar a tela e imediatamente pensar “isso encaixa, isso é perfeito, meu Deus, é sobre isso”.
E eu acho que a gente não precisa ser purista sobre o momento em que essas ideias chegam e ter que perseguir aquela ideia só porque ela apareceu, tipo “preciso levantar da cama e escrever isso agora”. Se você precisa, então vai lá e faz. Mas se você consegue guardar um fragmento de ideia, um verso, num lugar só, para que nas suas sessões você consiga acessar aquilo — pronto.
E é isso, ou então, se eu tenho uma melodia, com ou sem letra, eu pego o celular de qualquer jeito, não importa a situação social constrangedora em que eu esteja. Porque você acha que vai lembrar — e não vai. E todo mundo já passou por isso: você está pegando no sono e pensa “isso é tão grudento que eu vou lembrar, e eu estou com muito sono”. Não dê ouvidos a essas vozes dizendo que você está com sono. Você precisa gravar isso agora. Não importa se alguém acha estranho você ficar ali [cantarolando]. É assim que muitas delas soam. E aí você acorda na manhã seguinte e pensa “nossa, o que é isso?”. Na maior parte das vezes você pensa “isso foi horrível”. Mas de vez em quando tinha alguma coisa ali.
Harvey Mason Jr.: Então, para encerrar, Taylor: quando você se coloca hoje ao lado da compositora de “Tim McGraw”, quais são algumas das coisas que continuam iguais e quais são as coisas que evoluíram e mudaram nessa nova compositora?
Taylor Swift: Essa é uma pergunta muito bonita e muito bem colocada. Se eu olho para “Tim McGraw”, tem ali indícios de tudo o que ia acontecer nos 20 anos seguintes. Trabalho de personagem, por exemplo — tem um verso sobre o jeito como os olhos azuis dela brilhavam, ofuscando as estrelas da Geórgia naquela noite. Eu nunca tinha ido para a Geórgia. Aquilo não era real. Aquilo não tinha acontecido. Mas você meio que trabalha em torno do personagem, do que parece que aquele personagem teria dito, do que pinta um quadro que informa essa história em que a gente acabou de entrar, porque aquele primeiro verso descreveu muita coisa para a gente.
Além disso, a ideia de uma música como mensagem — a música que salta para frente no tempo e que, mesmo saltando para frente, diz “espero que você olhe para trás no tempo”. Aquela música meio máquina do tempo.
E eu também acho que — e acho que isso acontece quando você cresce — eu amo mais e mais as minhas raízes country quanto mais eu avanço nesse caminho. E eu quero honrá-las cada vez mais. E eu me sinto mais ligada e mais leal a elas. As pessoas que moldaram quem eu sou como artista e como compositora — tudo isso aconteceu em Nashville.
Harvey Mason Jr.: Uma sala cheia de compositores e compositoras. Quando eles saírem daqui hoje, o que você espera que fique da nossa conversa?
Taylor Swift: Eu espero que vocês apareçam para trabalhar mesmo quando a fadinha das ideias não aparecer. Espero que vocês não sejam a pessoa que derruba as ideias de todo mundo na sala mas não trouxe nenhuma ideia própria. Espero que vocês lembrem do “sim, e…” da sessão de improviso que são as suas sessões de gravação — e que é a vida também. E espero que vocês lembrem que, na indústria da música, por mais selvagem e mutável que ela seja, o entusiasmo pode te proteger de qualquer coisa. Eu sei do que estou falando.
Taylor Swift: Então, esse é o piano que eu levei comigo pelo mundo inteiro na Eras Tour. E uma das minhas coisas favoritas de fazer na Eras Tour — algo que virou uma coisa que os fãs prestavam muita atenção e sobre a qual faziam um monte de palpites toda noite — era uma parte que eu chamava de seção acústica. Eu fazia músicas diferentes toda noite, uma no violão e uma no piano.
E eu comecei a me divertir muito criando mashups na parte do meio para o fim da turnê. Eu ficava pensando em músicas diferentes que eu poderia juntar com outras músicas de um jeito surpreendente, um momento de surpresa e alegria para os fãs. E a forma como eu escolhia as músicas era encontrando algum fio condutor, fosse ritmicamente, fosse “essas aqui são todas sobre uma emoção parecida”.
E eu preparei um para vocês hoje que, se eu ainda estivesse na Eras Tour, seria esse. São músicas conectadas entre si pelo tema comum de falar sobre memória, sobre reviver certas lembranças detalhadas da sua vida e sobre a significância dessas lembranças.
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