Uma das Entertainers of the Year (Artistas do Ano) da EW de 2020, a estrela do pop se aprofunda sobre seu oitavo álbum, Rebekah Harkness e a presidência de Joe Biden.

“Ele é meu co- compositor em Betty e Exile”, ela responde com uma séria precisão. A pergunta: ‘quem é William Bowery?‘ era, na época em que nos falamos, um dos maiores mistérios de 2020. Um compositor desconhecido sendo creditado no maior álbum do ano? Só pode ser um pseudônimo.

É seu irmão? 

“É o William Bowery”, diz Swift com um sorriso.

A entrevista foi feita no começo de novembro, depois das eleições norte-americanas, mas antes que Taylor revelasse a identidade de Bowery para o mundo (a teoria mais forte, de que ele era seu namorado Joe Alwyn, se provou verdadeira). Mas, como todas as charadas Swiftianas, foi divertido ficar teorizando por meses, particularmente na bagunça que foi esse ano, no qual até breves distrações trazem tanto conforto quanto um bom cardigã. Ainda bem que Bowery, ou Alwyn, deu uma mãozinha para que o ”folklore” – um projeto de Swift cheio de pianos em tons baixos, caixas leves, gravado em segredo com Jack Antonoff e Aaron Dessner do The National – fosse feito.

“As únicas pessoas que sabiam eram as envolvidas na produção, meu namorado, minha família e um pequeno grupo de agentes [da minha equipe]”, Swift, 30, conta para a EW das sessões “secretas” de gravação. Isso deu ao íntimo ”folklore” uma misticidade única: o primeiro álbum surpresa de Taylor, um que priorizava contos fantásticos ao invés de confissões pessoais.

“No início da quarentena, comecei a assistir a muitos filmes”, ela explica. “Consumir narrativas de outras pessoas abriu um portal na minha imaginação e me fez sentir tipo “Por que eu nunca criei personagens com histórias cruzadas?”. E foi assim que ela acabou criando três músicas sobre um triângulo amoroso  (“Cardigan,” “Betty,” “August”), uma sobre romances clandestinos (“Illicit Affairs”), e uma outra sobre um relacionamento condenado ( “Exile”).  Outras contam sobre figuras da vida real como Rebekah Harkness, uma mulher divorciada que se casou com o herdeiro da Standard Oil, de quem Swift comprou a casa 31 anos após sua morte. O resultado, “The Last Great American Dynasty”, gira em torno da história de Harkness até que Swift brilhantemente se coloca na história.

Não seria um álbum da Taylor Swift se não tivesse umas histórias cheias de farpas sobre sua própria vida. “My Tears Ricochet” e  “Mad Woman,” são exemplos, que tratam sobre o chefe de sua antiga gravadora, Scott Brochetta, vendendo os masters do catálogo de Swift para o conhecido inimigo dela, Scooter Braun. Pouquíssimas horas depois da nossa entrevista, as origens da composição das músicas tiveram uma grande virada: a música de Swift havia, novamente, sido vendida para outra empresa de capital privado por 300 milhões de dólares. Ainda que Swift tenha ignorado vários pedidos de comentários sobre a transação, ela tweetou uma declaração acusando Braun e dizendo que ela havia começado a regravar seus antigos álbuns – como ela havia prometido em 2019 como uma maneira de continuar agenciando seu legado criativo. (Mais tarde ela chegou a soltar um pedacinho desse trabalho “reimaginado”, com uma nova versão do seu single de 2008, “Love Story”).   

Seja lançando o ”folklore” de surpresa, irritando o presidente ao apoiar seu oponente ou espantando para longe seus haters, Swift faz o que a convém. “Raramente escutamos sobre mulheres que fizeram o que é que seja que elas queriam”, ela diz de Harkness, o que é algo que claramente Taylor tem intenção de mudar. Para ela, isso significa aproveitar na resposta favorável do mundo sobre o ”folklore”. Como ela diz na entrevista, “Eu tenho essa mania esquisita a qual, tentando criar a próxima coisa, eu ataco a coisa anterior. Eu não amo fazer isso, mas é a coisa que me mantém no caminho para outro mundo cada vez que eu crio um [novo] álbum. Mas com este, ainda o amo.”

EW: Nós passamos o ano em quarentena nas nossas casas tentando nos manter saudáveis e evitando amigos e familiares. Você se surpreendeu com sua habilidade de criar um álbum inteiro no meio de uma pandemia?

TS: Sim, eu não estava esperando fazer um álbum. No início da quarentena eu comecei a assistir a muitos filmes. Assistíamos a um filme diferente toda noite. Tenho vergonha de dizer mas nunca tinha visto O Labirinto do Fauno antes. Uma noite assistimos a isso, depois Los Angeles – Cidade Proibida, depois Janela Indiscreta, aí depois Jane Eyre, enfim. Sinto que consumir a arte e a maneira de contar histórias de outras pessoas meio que abriu esse portal na minha imaginação e me fez sentir, tipo, “Bom, por que eu nunca fiz isso antes? Por que eu não criei personagens com histórias que se cruzam? E por que eu nunca me libertei para fazer isso de um ponto de vista narrativo?”. É algo muito pesado saber que quando você lança um álbum as pessoas vão interpretar tudo de forma tão literal que tudo que você disser pode ser transformado numa manchete sensacionalista em busca de cliques. Foi muito, muito libertador ser capaz de encontrar inspiração apenas nos mundos criados nos filmes que assistimos, ou livros que lemos, ou lugares que sonhamos ou pessoas que imaginamos. Não apenas na sua própria experiência.

EW: Falando nisso, como é se sentar e escrever algo como “Betty”, que é contada pela perspectiva de um garoto de 17 anos?

TS: Isso foi incrível pra mim. E acho que veio do fato de meu co-compositor, William Bowery [Joe Alwyn], ser um homem– e foi ele quem originalmente pensou na melodia do refrão. E ouvindo ele cantar eu pensei, “Isso é muito legal”. Obviamente eu não tenho uma voz masculina, então pensei, “Eu poderia adotar uma perspectiva masculina”. Patty Griffin escreveu uma música assim, “Top of the World”. É uma das minhas favoritas de todos os tempos, e é contada pela perspectiva de um homem mais velho que viveu uma vida cheia de arrependimentos, e ele está meio que avaliando esses arrependimentos. Então pensei, “Isso é algo que pessoas que eu admiro e sou fã já fizeram. Seria divertido fazer isso para variar”.

EW: Quais são as suas teorias favoritas sobre William Bowery?

TS: Eu gosto de todas individualmente e igualmente. Eu amo todas as teorias que envolvem esse álbum. [Sobre] “Betty”, Jack Antonoff me enviava por mensagem vários artigos e resenhas e posts profundos do Tumblr sobre o que esse triângulo amoroso significava para as pessoas que ouviam. E isso é exatamente o que eu torcia pra que acontecesse com esse álbum. Eu escrevi essas histórias por uma razão específica, com uma visão específica sobre pessoas específicas que eu imaginei, mas queria que tudo isso mudasse de acordo com quem as ouvia. E eu queria que começasse sendo meu e se tornasse das outras pessoas. Tem sido muito divertido assistir [isso acontecer].

EW: Outra peculiaridade sobre o Folklore os parâmetros acerca dele foram completamente diferentes de tudo que você já fez. Não houve um período longo de preparação para o lançamento, não houve um hino pop feito para estádios, nem a intenção de criar um single comercial para as rádios. O quão assustador foi para você evitar tudo que já tinha trabalhado no passado?

TS: Pela primeira vez, eu não pensei em nada disso. E muito desse álbum foi moldado para ser a versão mais pura que a história de fato é. As letras desse álbum são exatamente da maneira que eu escreveria se eu não considerasse nada além de “Quais palavras quero usar? Que histórias quero contar? Que melodias quero cantar? Que produção é essencial para contar essas histórias?”. Foi uma experiência bem ‘faça você mesmo’. Minha equipe e eu criamos absolutamente tudo de antemão — cada lyric video, cada versão individual do álbum. E aí ligamos para a gravadora uma semana antes e dissemos, “Aqui está o que nós temos”. O photoshoot foi apenas eu e a fotógrafa andando em um campo. Eu fiz meu cabelo e maquiagem e levei algumas camisolas. Essas experiências que eu estava acostumada a ter com 100 pessoas em um set, comandando um comitê fashion ao lado de outras pessoas — tudo isso de repente deu lugar a apenas eu e uma fotógrafa, ou apenas eu e minha direção fotográfica. Foi um novo desafio, porque eu amo colaborar com as pessoas. Mas há algo de muito divertido em saber o que você consegue fazer sozinha.

EW: Você achou isso libertador?

TS: Achei. Cada projeto envolve diferentes níveis de colaboração, pois em outros álbuns meu estilista pensaria em coisas que eu nunca teria pensado. Mas se eu tivesse todas as pessoas que normalmente estão em uma sessão de fotos, eu teria que mantê-los em quarentena longe de suas famílias por semanas a fio, teria que pedir a eles coisas que eu não achava serem justas e que eu não precisaria fazer se encontrasse uma maneira de fazer isso [sozinha]. Eu tive essa ideia para a capa do álbum Folklore que seria uma garota sonâmbula pela floresta de camisola em 1830 [risos]. Muito específico. Uma pioneira sonâmbula à noite. Fiz um moodboard e mandei para a Beth [Garrabrant], com quem eu nunca havia trabalhado antes, que tira foto apenas em filme fotográfico. Nós carregamos sacolas cheias de filmes pelo campo, colocando elas no chão e tirando as fotos. Foi incrível.

EW: Folklore inclui muitos ecos acústicos íntimos do que você fez no passado. Mas também há muitos sons novos aqui – essas harmonias silenciosas, poderosas e em camadas complexas. Como foi receber o instrumental de Aaron e tentar escrever letras em cima delas?

TS: Bem, Aaron é um dos criadores mais produtivos com quem já trabalhei. É realmente alucinante. Toda vez que converso com um artista, desde que todo esse processo [começou], eu digo: “Você precisa trabalhar com ele. Isso mudará a maneira como você cria”. Ele me mandou esses – ele os chama de esboços, mas é basicamente uma faixa instrumental. No segundo dia – um dia após eu mandar uma mensagem para ele e dizer: “Ei, você gostaria de trabalhar juntos?” – ele me enviou este arquivo com provavelmente 30 desses instrumentais e cada um deles foi uma das coisas mais interessantes e emocionantes que eu já tinha ouvido. A música pode ser bela, mas pode não ter essa natureza tão emocionante. Havia algo em tudo o que ele criou que se traduzia em uma imagem imediata na minha cabeça ou melodia que eu criei. Tanto que eu começava a escrever assim que ouvia um novo instrumental. E muitas vezes o que eu mandava de volta o inspirava a fazer mais instrumentais e depois ele me mandava mais. Então eu escrevi a letra e ela começou a moldar o projeto, adaptado e customizado para o que queríamos fazer.

Foi estranho porque antes eu nunca tinha feito um álbum que não tivesse tocado para minhas amigas ou contado para meus amigos. As únicas pessoas que sabiam eram as pessoas com quem eu estava trabalhando nele, meu namorado, minha família e depois minha equipe administrativa. Esse é o menor número de pessoas com quem já trabalhei. Eu geralmente toco antes para todos os meus amigos. Então, eu tinha um monte de amigos me enviando mensagens de texto como: “Por que você não disse em nossos FaceTimes que estava fazendo um álbum?”

EW: Foi bom conseguir manter isso em segredo?

TS: Bem, parecia que era algo só meu. Parecia um mundo tão íntimo para o qual eu escapava todos os dias que quase não parecia um álbum. Eu não estava fazendo uma música e no final dizendo, “Oh meu Deus, isso é muito chiclete”. Eu não estava criando essas coisas com nenhum propósito em mente. Foi quase como se guardar só pra mim fosse uma parte doce, agradável e pura do mundo, já que todo o resto do mundo estava desmoronando e sendo afetado por doença e tristeza. Quase não o processei como um álbum. Esse era apenas o meu espaço de devaneios.

EW: Você ainda se sente assim?

TS: Sim, porque eu amo muito [o álbum]. Eu tenho essa mania esquisita a qual, tentando criar a próxima coisa, eu ataco na minha cabeça a coisa anterior. Eu não amo fazer isso, mas é a coisa que me mantém seguindo para outro mundo cada vez que eu crio um álbum. Mas com esse, ainda o amo. Estou muito orgulhosa dele. Parece muito estranho para mim. Isso não parece com a experiência normal que tive com o lançamento de álbuns anteriores.

EW: Quando você ouviu falar sobre Rebekah Harkness pela primeira vez?

TS: Oh, eu soube dela assim que fui até a casa [dela] em Rhode Island. Comprei a casa quando tinha vinte e poucos anos como um lugar para minha família se reunir. Fiquei sabendo sobre ela, eu acho, pelo corretor de imóveis que estava nos mostrando a propriedade. E assim que descobri sobre ela, quis saber tudo o que pudesse. Então comecei a ler. Eu a achei tão interessante. À medida que mais paralelos começaram a se desenvolver entre nossas vidas – sendo a mulher que mora naquela casa na colina sobre a qual todo mundo gosta de fofocar- eu sempre procurei uma oportunidade de escrever sobre ela. E finalmente encontrei.

EW: Eu amo que você quebrou a quarta parede* na música. Você pensou em se incluir na história desde o começo? 

*migrar do ponto de vista narrativo/observativo e se inserir na história.

TS: Acho que na minha cabeça, sempre quis fazer uma música country, com aquela disposição narrativa padrão, que é: no primeiro verso você canta sobre outra pessoa, no segundo verso você canta sobre outra pessoa que está ainda mais próxima de você, e depois no terceiro verso, você chega com, “Surpresa! Sou eu”. Você traz para o lado pessoal no último verso. Sempre pensei que, se fosse contar essa história, gostaria de incluir as semelhanças – nossas vidas, nossa reputação ou nossos escândalos.

EW: Com que frequência você contava aos seus amigos a história de Rebekah e sua Casa de veraneio quando vocês estavam nela?

TS: Quem já esteve lá sabe que faço “um tour”, onde mostro a casa a todos e conto a eles diferentes  fatos sobre cada cômodo, pois fiz muitas pesquisas sobre essa casa e essa mulher. Então, em cada quarto, há uma  história diferente sobre a Rebekah Harkness. Se é um grupo misto de pessoas que já estiveram lá e pessoas que não estiveram, quem já esteve fica tipo, “Oh, ela vai fazer o tour. Ela tem que te contar a história sobre como as bailarinas ensaiavam no gramado”. Então, eles vão tomar uma bebida e fazer outra coisa porque conto a mesma coisa todas as vezes. Mas eu conto a história com o mesmo entusiasmo, porque é extremamente divertido pra mim o que essa mulher fabulosa viveu lá. Ela simplesmente fez o que ela quis.

EW: Há várias músicas no Folklore que parecem ser claras referências aos acontecimentos da sua vida pessoal ao longo do último ano, incluindo seu relacionamento com Scott Borchetta e Scooter Braun. Quanto tempo levou para materializar o que você sentia a respeito deles em “My Tears Ricochet” e “Mad Woman”?

TS: Eu me peguei bastante mexida com qualquer história, filme ou narrativa que falasse sobre divórcio, e achei estranho porque nunca vivi diretamente essa experiência. Não havia um motivo para que isso me causasse tanta dor, mas aí de repente parecia algo que eu já tinha vivido. Eu acho que é isso que acontece quando um relacionamento de 15 anos acaba de uma maneira tão conturbada e dolorosa. Então eu escrevi “My Tears Ricochet” e usei várias imagens que imaginei enquanto comparava o fim de um relacionamento a quando as pessoas, de fato, terminam um casamento. De uma hora pra outra, a pessoa que você confiava mais que qualquer um no mundo é a pessoa que mais pode te machucar. De uma hora pra outra, a pessoa que era seu melhor amigo é agora seu maior inimigo, etc. Creio que escrevi os primeiros trechos logo após assistir a História de um Casamento e ouvir sobre quando casamentos dão errado e terminam de uma maneira tão catastrófica. Então essas músicas são imaginárias em alguns aspectos, reais em outros e, às vezes, os dois.

EW: Qual foi a sensação de falar um “palavrão pesado” em “Mad Woman”?

TS: Fantástico pra ca**lho.

EW: E essa foi a primeira vez que você gravou um [palavrão] num disco, certo?

TS: Sim, joguei fora todos os livros de regras. Eu sempre tive essas regras na minha cabeça e uma delas era, Você nunca fez isso antes, então nunca poderá fazer. “Bom, você nunca teve um adesivo de conteúdo explícito [no cd], então nunca poderá ter um adesivo de conteúdo explícito”. Mas esse foi um dos momentos onde eu senti que deveria seguir a linguagem e a narrativa. E se a narrativa e a linguagem combinam e você acaba soltando a palavra com F, então apenas faça isso. Eu não estava me prendendo a nenhuma das diretrizes que sempre coloquei sobre mim mesma. Decidi apenas fazer o que queria fazer. E eu estou muito feliz que os fãs se animaram com isso porque acho que eles puderam sentir. Não culpo ninguém além de mim pelo fato de me restringir tanto no passado. Mas tudo isso apenas foi sobre fazer o que eu queria fazer, eu acho. E acho que meus fãs puderam sentir que eu abri um portão e fugi pela primeira vez, o que me alegra porque eles são bastante intuitivos.

EW: Vamos falar sobre “Epiphany”. O primeiro verso é uma referência ao seu avô, Dean, que lutou na Segunda Guerra Mundial. O que a história dele representa para você?

TS: Eu queria escrever sobre ele já há algum tempo. Ele morreu quando eu era muito nova, mas meu pai sempre me contava que a única coisa a qual o pai dele dizia sobre a guerra quando o perguntavam “Por que você tem uma visão tão positiva sobre a vida?” era: “Bom, não era pra eu estar aqui. Eu não deveria estar aqui”. Meu pai e seus irmãos sempre imaginaram que ele vivenciou coisas horríveis e traumatizantes e que viu muitas coisas terríveis. Então, quando pesquisaram a respeito, descobriram que ele lutou nas Batalhas de Guadalcanal, em Cape Gloucester, em Talasea, em Okinawa. Ele viu muita coisa pesada, incêndios e perdas — todas as coisas que formam pesadelos. Ele foi um dos primeiros a se alistar para a guerra. Mas sabe, essas são coisas quais se pode apenas imaginar que muitas pessoas daquela geração não falaram sobre porque a) eles não queriam que as pessoas para as quais retornavam em casa se preocupassem e b) era tão terrível que era realmente a definição de indescritível.

EW: Esse tema continua no próximo verso, que é um aceno bastante claro para o que tem acontecido durante a COVID. Como alguém que mora em Nashville, quão difícil tem sido ver as pessoas na Lower Broadway lotando os bares sem máscaras?

TS: Quero dizer, você imediatamente pensa nos profissionais de saúde que estão colocando suas vidas em risco – e muitas vezes perdendo suas vidas. Se eles conseguirem sair disso, se eles chegarem ao outro lado disso, eles sairão dessa situação com muito trauma envolvido; existem coisas que eles testemunharam que nunca serão capazes de apagar da mente. Foi essa a conexão que fiz. Eu fiz muitas pesquisas sobre meu avô no início da quarentena, e me ocorreu muito rapidamente que temos uma versão desse trauma acontecendo agora em nossos hospitais. Meu Deus, é de se esperar que as pessoas respeitem isso e entendam que sair à noite não vale o efeito dominó que isso causa. Mas obviamente estamos vendo que muitas pessoas não parecem estar de olhos abertos para isso – ou se têm, muitas pessoas não se importam, o que é perturbador.

EW: Você tinha o Lover Fest East e West agendados para este ano. O quão difícil tem sido não se apresentar para seus fãs este ano, e ver a indústria musical em geral passar por uma mudança tão brutal?

TS: É confuso. É difícil assistir. Acho que talvez querer fazer o máximo de música possível durante esses tempos foi uma maneira de sentir que poderia estender a mão e tocar meus fãs, mesmo que não pudesse alcançá-los fisicamente ou tirar uma foto com eles. Ao longo dos anos construímos muitas tradições diferentes, incríveis e divertidas, que envolvem muita interação humana, então não tenho ideia do que vai acontecer com as turnês; nenhum de nós faz ideia. E isso é uma coisa assustadora. Você não consegue chegar em alguém da indústria musical que está no ramo há muito tempo, ou um empresário ou promotor de turnês ou um especialista, [perguntar] o que vai acontecer, e receber uma resposta. Acho que estamos apenas tentando olhar pro horizonte e ver como ele parece. Estamos apenas aguardando e lidando com as faíscas criativas que possam existir e tentando descobrir como alcançar nossos fãs de outras maneiras, porque simplesmente não temos conseguimos fazer isso agora.

EW: Quando você puder se apresentar novamente, você tem planos de ressurgir com um evento tipo o Lover Fest?

TS: Não sei qual formato isso vai tomar e eu  realmente precisaria sentar e pensar a respeito por alguns meses antes de descobrir a resposta. Porque seja o que for que façamos, quero que seja algo atencioso e que faça os fãs felizes, espero conseguir isso. Vou tentar muito.

EW: Além de gravar um álbum, você passou este ano apoiando Joe Biden e Kamala Harris na eleição. Onde você estava quando eles venceram?

TS: Bem, quando os resultados estavam começando a ser contabilizados, eu estava na propriedade onde fotografamos a capa da Entertainment Weekly. Eu estava batendo um papo com minha amiga fotógrafa, Beth, e o casal maravilhoso de donos da fazenda onde nós estávamos. Percebemos bem no início da noite que não conseguiríamos uma imagem precisa dos resultados ali. Então, alguns dias depois, eu estava gravando um vídeo, comigo dirigindo, e eu estava lá com minha viseira e máscara ao lado do meu diretor de fotografia, Rodrigo Prieto. Só me lembro de uma notificação chegando no meu celular que dizia: “Biden é nosso próximo presidente. Ele ganhou a eleição”. Mostrei para o Rodrigo e ele disse: “Vou sempre me lembrar do momento em que descobrimos isso”. Eu olhei em volta, e as proteções faciais das pessoas estavam começando a embaçar porque muitas pessoas estavam realmente com os olhos turvos e emocionados, e não era nada barulhento. Não estavam estourando garrafas de champanhe. Foi esse momento de euforia e alívio silencioso e cauteloso.

EW: Você já pensou sobre como o Folklore teria soado se você, Aaron e Jack tivessem estado no mesmo lugar? 

TS: Eu penso sobre isso o tempo todo. Eu acho que muito do que aconteceu com o álbum foi por todos nós estarmos coletivamente no mesmo lugar emocional. Obviamente, a vida de todo mundo tem diferentes complexidades e essas coisas, mas eu acho que a maior parte de nós estava se sentido abalado e realmente deslocado e confuso e com a necessidade de algo reconfortante, tudo ao mesmo tempo. E pra mim, essa coisa reconfortante foi fazer música na qual eu meio que tentasse abraçar meus fãs pelos alto falantes. Essa foi verdadeiramente minha intenção. Só tentar abraçá-los quando eu não podia abraçá-los. 

EW: Eu queria falar sobre algumas das letras do Folklore. Um dos meus jogos de palavras favorito está em “August”: aquela mudança de “slipped away into a moment of time/sipped away like a bottle of wine” (foi bebido como uma garrafa de vinho/escapou em um momento no tempo) . Você teve um momento “eureka” enquanto escrevia a música? 

TS: Eu fiquei realmente animada com “August slipped away into a moment of time/August sipped away like a bottle of wine”. Essa foi uma música que Jack me enviou o instrumental e eu escrevi a letra no mesmo instante; foi uma coisa intuitiva. E na verdade, foi a primeira música que eu escrevi do triângulo de “Betty”. As músicas de Betty são “August”, “Cardigan” e “Betty”. “August” na verdade foi a primeira, o que é estranho, porque é uma música sobre a perspectiva de outra garota. 

EW: Eu pensei que você tivesse escrito “Cardigan” primeiro.

TS: Faria sentido presumir que “Cardigan” foi a primeira, mas não foi. Foi muito estranho como essa faixa aconteceu, mas meio que as peças foram se juntando, uma de cada vez, começando com “August”, na qual eu meio que quis explorar o fato de que é a perspectiva de uma garota que está tendo sua primeira experiência amorosa. E de repente ela é tratada como se fosse a outra garota, porque já tem uma outra situação acontecendo, mas a garota de “August” pensava que realmente estava se apaixonando. Meio que explora a ideia de uma relação indefinida. Como humanos, todos nós somos encorajados a sermos legais e só deixarmos acontecer e não perguntar o que aquele relacionamento é – ‘Somos exclusivos?‘ – Porque se você está tranquilo quanto a isso, especialmente quando você é jovem, você aprende a difícil lição de que, se você não define algo, muitas vezes isso pode te levar a pensar que não foi nada e nunca aconteceu. E como você lamenta a perda de algo que acabou se estão te levando a acreditar que nunca aconteceu?

EW: Por outo lado, “Peace” é um pouco mais definida em termos de como uma pessoa aborda e enxerga um relacionamento. A parte que diz, “The devil’s in the details, but you got a friend in me/Would it be enough if I can never give you peace? (O diabo está nos detalhes, mas você tem um amigo em mim/Seria suficiente se eu nunca conseguisse te dar paz?)” é muito impressionante. Como esse trecho surgiu pra você?

TS: Estou muito orgulhosa dessa também. Eu ouvi a faixa imediatamente. Aaron a enviou pra mim, e instantaneamente senti serenidade emanando dela. A primeira palavra que surgiu na minha cabeça foi ‘paz’, mas pensei que seria muito óbvio cantar sobre estar calmo, ou sobre serenidade, ou sobre encontrar a paz ao lado de alguém. Por isso há essa letra tão conflituosa e dramática combinada a esse instrumental leve e tranquilo. Mas, “The devil’s in the details” é uma daquelas frases que eu anotei há alguns anos. É uma expressão comum na língua inglesa e eu sempre achei a sonoridade muito interessante por causa dos D’s. Aí pensei, “Vou guardá-la na minha lista e algum dia vou encontrar o momento certo de usá-la em uma história”. Acho que é como muitas pessoas se sentem, tipo, “É, o diabo está nos detalhes. Todo mundo é complexo quando se olha por baixo do capô do carro”. Mas basicamente está dizendo, “Mas eu estou aqui por você se você quiser. Se essa complexidade for o que você quer”.

EW: Há outra frase bastante inteligente em “This is Me Trying”. “I didn’t know if you’d care if I came back/I have a lot of regrets about that. (Eu não sabia se você se importaria com minha volta/Tenhos muitos arrependimentos por causa disso)”. Soa como uma referência à sua relação com seus fãs e alguns dos sentimentos que você teve quando decidiu se afastar da esfera pública.

TS: Com certeza. Acho que eu estava escrevendo sob a perspectiva de três personagens diferentes. Um estava passando por isso; eu canalizei as emoções que estava sentindo em 2016, 2017, onde eu apenas sentia que eu não valia absolutamente nada. Então o segundo verso é sobre lidar com vícios e problemas que você precisa enfrentar todos os dias. A cada segundo você está tentando não cair nos seus velhos padrões de comportamento, e ninguém ao seu redor consegue ver, portanto ninguém te dá créditos por isso. E aí, no terceiro verso eu estava pensando, “O que o The National faria? Que letras Matt Berninger escreveria? Que notas o The National tocaria?”. E é engraçado porque toquei essa música para o Aaron e ele ficou tipo, “Não faríamos nada disso. Amo essa música mas é totalmente diferente do que o que faríamos com ela”.

EW: Quando nos falamos pela última vez, em abril de 2019, estávamos falando sobre os álbuns que ouvíamos na época e você declarou seu amor pelo The National e pelo I Am Easy to Find. Dois meses depois você se encontrou com o Aaron no show deles e agora estamos aqui de novo falando sobre o the National.

TS: Sim, eu estava no show que eles tocaram todo o I Am Easy to Find. O que eu mais gostei [naquele álbum] foi que eles colocaram mulheres para cantar sobre perspectivas femininas, e aquilo despertou algo em mim onde pensei, “Eu preciso brincar com perspectivas diferentes porque é tão intrigante quando você ouve uma perspectiva feminina vindo de uma banda em que você está acostumado a ouvir apenas a perspectiva masculina”. Acendeu uma faísca em mim. E obviamente, você mencionar o The National é a razão pela qual o Folklore passou a existir. Então obrigada por isso, Alex!

EW: Estou disponível para atender todas as suas necessidades e inspirar composições no futuro.

 TS: Mal posso esperar para ver o que vai sair dessa entrevista.

Confira a entrevista original clicando aqui. Ao copiar, favor fornecer os créditos da tradução ao TSBR.





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