28 de agosto de 19 Autor: Maria Eloisa Barbosa
Taylor fala com o The Guardian sobre fama, fracasso e Donald Trump

O apartamento de Taylor Swift em Nashville é um sonho febril do Etsy, uma loja de Natal 365 dias por ano, puramente adolescente. Você entra por um corredor revestido de veludo azul e molduras douradas cobertas de flores falsas. O teto é pintado como o céu noturno. Acima de um lago na área de lazer, uma escada sobe em espiral até uma gaiola coberta de travesseiros, que provavelmente tem a melhor vista da cidade. Mais tarde, Swift me conta que ela precisa de metáforas “para entender qualquer coisa que acontece comigo”, e a gaiola te desafia a não a interpretar como um comentário sobre as contradições da fama.

Swift, vestindo jeans claros e uma camisa dip-dye, seus cabelos loiros presos com um elástico azul, me guia escada acima para me mostrar a vista. A decoração não mudou desde que ela comprou esse apartamento em 2009, quando ela tinha 19 anos. “Todos esses prédios altos são novos”, ela diz, apontando para as estruturas de vidro e guindastes. Enquanto isso, seu forno ainda está coberto de adesivos, mais parecido com um diário de adolescente que um eletrodoméstico de adulto.

Agora com 29 anos, ela tem passado a maior parte dos últimos três anos vivendo discretamente em Londres com seu namorado, o ator Joe Alwyn, fazendo da cobertura um tipo de cápsula do tempo, um monumento para a ingenuidade jovem com um orçamento ilimitado – os anos em que ela cantou sobre Romeu e Julieta e usou vestidos de baile para premiações; antes de se mudar para Nova York e afiar seu pop habilidoso e transformado em seu próprio mito.

Estamos no meio de Agosto. Essa é a primeira entrevista de Swift para o UK em mais de três anos, e ela parece nervosa: nem presidencial nem pateta  (seus habituais padrões), mas colocando a língua para fora e dizendo “ugh” em tom de arrependimento ou frustração enquanto mexe em suas unhas pintadas de roxo brilhante. Nós descemos da gaiola para sentarmos perto do lago, e quando a conversa chega a 2016, o ano em que tudo deu errado para ela, Swift endurece como se estivesse dirigindo sobre uma milha de quebra molas. Depois de uma série de discussões públicas (com Katy Perry, Nicki Minaj) em 2015, ocorreu um impasse de alto nível com Kanye West. A novidade de que ela estava em um relacionamento com o ator Tom Hiddleston, que vazou logo depois, foi interpretada com uma tática de distração. Enquanto isso, Swift foi para o tribunal em um processo de assédio sexual, e enfrentou uma grande reação negativa quando não apoiou nenhum candidato nas eleições presidenciais de 2016, permitindo que o alt-right a adotasse como sua “princesa ariana”.

Seus críticos assumiam que ela só se preocupava com o resultado final. A realidade, Swift diz, é que ela estava completamente quebrada. “Todas as peças de dominó caíram”, ela diz com amargura. “Me tornei aterrorizada com a ideia de que qualquer pessoa ao menos soubesse onde eu estava. E eu me senti totalmente incapaz de dizer ou fazer qualquer coisa publicamente. Até mesmo minha música. Eu sempre disse que não iria falar sobre o que estava acontecendo pessoalmente, porque aquela foi uma época pessoal”. Ela não vai entrar muito no assunto. “Eu só preciso que algumas sejam minhas”, ela fala, desanimada. “Só algumas coisas”.

Um ano mais tarde, em 2017, Swift lançou seu álbum Reputation, de grande mudança, desenhando um hip hop e vaudeville (a brilhante e teatral Look You Made Me Do), e uma apreciação meio atordoada do nascimento de sua relação com Alwyn, que foi encharcada pela tempestade (as suaves e sensuais músicas pop Delicate e Dress).

Seu novo álbum, Lover, o sétimo, foi lançado ontem. É muito mais brilhante que Reputation.  Swift compara sua escrita como sentir que “Eu poderia respirar profundamente de novo”. Muito disso é sobre Joe Alwyn: a faixa “Galway Girl” do álbum, London Boy, lista sua favorita cidade assombrando-a e sua mais nova descoberta de apreciar assistir rugby num pub com os amigos dele da faculdade; na ruminativa Afterglow, ela pede a ele para perdoar sua tendência ansiosa de assumir o pior.

Taylor e o namorado, Joe Alwyn.Foto: REX/Shutterstock

Enquanto ela esteve sempre escrevendo sobre relacionamentos, tudo era uma fantasia adolescente ou grandes términos, como com seus ex Jake Gyllenhaal e Harry Styles. Mas ela e Alwyn raramente são fotografados juntos e a relação deles é a única coisa que ela não quer conversar. “Eu aprendi que se eu fizer, as pessoas pensarão que é para debater e nossa relação não é para debate”, ela diz, rindo depois de eu tentar roubar um ângulo. “Se eu e você tivéssemos uma taça de vinho agora, nós conversaríamos sobre isso- mas é só que isso vai para o mundo.  É aí que o limite existe e é aí que minha vida tornou-se administrável. Eu realmente quero continuar mantendo isso administrável”.

Em vez disso, ela trocou a divulgação da vida pessoal por ativismo. No Agosto passado, Swift quebrou seu silêncio político para defender o candidato democrata do Tennessee, Phil Bredsen, na corrida do senado em Novembro de 2018. Vote.org mostrou um incomum pico de registro de votação depois do post no Instagram de Swift, enquanto Trump respondeu que gostava da música dela “por volta de 25% menos agora”.

Enquanto isso, seu recente single You Need To Calm Down reprime os homofóbicos e menciona a organização americana de direitos LGBT, GLAAD (que teve um grande aumento de doações). Swift encheu seu vídeo com estrelas queer, como Ellen DeGeneres e Adam Lambert, e terminou o clipe com uma chamada para assinar sua petição em apoio do ato de igualdade, que, se passasse, iria proibir a discriminação nos EUA baseada em gênero e sexualidade. Um vídeo de fãs poloneses imitando a faixa, em provocação ao governo  homofóbico diariamente, tornou-se viral. Mas Swift foi acusada de “queerbaiting” e apoiar o movimento porque está sendo falado. Você pode ver o quanto ela acha difícil resolver isso, exatamente o que as pessoas esperam dela.

***

Foi uma adolescente que fez Swift multimilionária. Quando os guardiões da música country juraram que as donas de casa eram as únicas mulheres interessadas no gênero, ela provou que eles estavam errados.  Seu álbum de estreia, que leva o seu nome, marcou a mais longa estadia na Billboard 200, mais do que qualquer outro álbum lançado na década. Uma potente e enjoativa imagem- cachos de saca-rolhas, letras pesadas no “papai” e nos valores de casa- enfraquecida pelo fato que ela estava evidentemente e carinhosamente um pouco esquisita, uma inusitada combinação de intensidade e falta de arte. Também, ela estava realmente, realmente, bem com o que ela fazia, e não apenas para uma adolescente: seu totalmente escrito por ela terceiro álbum de 2010, Speak Now,  é inigualável em seus devastadores términos com homens terríveis.

Na adolescência, Swift era obcecada com o programa “Behind The Music” do VH1, que mostrava a ascensão e queda de grandes músicos. Ela revia minuciosamente os episódios, tentando identificar o momento exato em que a carreira deu errado. Eu peço pra que ela se imagine assistindo um episódio sobre ela mesma e se questionar: onde ela deu um passo em falso? “Ai meu Deus”, ela diz, respirando fundo e deixando seus lábios vibrarem enquanto ela exala. “Digo, isso é tão deprimente”, ela pensa de novo e tenta desviar. “O que eu me lembro é que [o programa] era sempre tipo “Aí nós começamos a brigar no ônibus da turnê e depois o baterista se demitiu e o guitarrista estava tipo ‘vocês não estão me pagando o suficiente.’”

Mas não é isso que ela costumava dizer. Em entrevistas de anos atrás, Swift costumava observar que os artistas falham quando perdem sua auto-consciência, como se repetir isso funcionaria como um seguro contra sucumbir ao mesmo destino. Mas ela cometeu esse erro? Ela aperta o nariz e sopra para limpar um zumbido nos ouvidos antes de responder. “Definitivamente, acho que às vezes você não percebe como está sendo percebida”, diz ela. “A música pop pode parecer como Jogos Vorazes, e é como se nós fôssemos os gladiadores. E você pode realmente perder o foco do fato de que é assim que é, porque é assim que os fã clubes, tablóides e blogs fazem parecer – a análise excessiva de tudo faz com que pareça realmente intenso. ”

Com Selena Gomez, Nicki Minaj e Katy Perry em 2011 no American Music awards. Foto: Lester Cohen/Wirelmage

Ela descreve a maneira como ela queimou pontes em 2016 como uma espécie de desatenção. “Eu não percebi que era tipo uma clássica derrubada de alguém no poder – onde você não percebeu os sussurros nas suas contas, você não percebeu a reação em cadeia de eventos que faria tudo desmoronar, no momento exato e perfeito para tudo desmoronar”.

Aqui está a cadeia de eventos completa: Com o 1989, álbum de 2014 cujo nome traz seu ano de nascimento, Swift transcendeu o estrelato country, tornando-se tão onipresente quanto Beyoncé. Pela primeira vez ela abraçou vocalmente o feminismo, algo que havia rejeitado na adolescência; mas, depois de um tempo, parecia não muito mais do que muitas fotos dela saindo com seu “squad”, um bando de supermodelos, musicistas e Lena Dunham. O squad não incluía sua antiga amiga Katy Perry, a quem Swift havia escolhido como alvo em sua música Bad Blood, como parte do que parecia ser uma disputa dolorosamente exagerada por causa de alguns dançarinos. Depois, quando Nicki Minaj tuitou que o Music Video Awards de 2015 da MTV havia premiado mulheres brancas às custas de mulheres negras, a múltipla nomeada levou para o lado pessoal e respondeu: “Talvez um dos homens tenha tirado o seu lugar”. Para alguém propenso a falar sobre os haters, ela rapidamente se tornou seu pior inimigo.

Seu velho adversário Kanye West ressurgiu em fevereiro de 2016. Em 2009, West invadiu o palco de Swift no VMAs da MTV para protestar contra sua vitória em cima de Beyoncé na categoria de vídeo feminino do ano. Ainda hoje, esse é o pico de interesse em Swift no Google Trends, e o conflito entre eles se tornou um pilar tão grande no jornalismo de celebridades que é difícil lembrar que ficou inativo por quase sete anos – até West lançar sua música Famous. “Eu sinto que eu e Taylor Swift ainda vamos fazer sexo”, ele canta no rap. “Por que? eu tornei aquela vadia famosa”. O vídeo mostrou um manequim de Taylor nu numa cama com homens como Trump.

Kanye West e Swift, em 2009, no MTV VMA award. Foto: Kevin Mazur/Wirelmage

Swift abertamente condenou ambos, apesar de ter discutido a faixa com West, ela disse que nunca com o “vadia” na letra, e nem com o vídeo. A esposa de West, Kim Kardashian, revelou um vídeo altamente editado que mostrava Swift concordando pelo menos com a parte do “sexo” em ligação com West, mas não a parte do “vadia”. Swift alegou a edição técnica dos vídeos, mas não fez diferença. Quando Kardashian foi ao Twitter descrevê-la como uma cobra, a comparação pegou e a cantora se encontrou muito publicamente “cancelada” – o incidente foi tomado como prova da falsidade de Swift. Então ela sumiu.

Swift diz que ela parou de tentar se explicar, apesar de que ela definitivamente podia. Enquanto trabalhava em Reputation, ela também estava escrevendo “um pedaço de pensamento por dia que eu sabia que nunca publicaria: as coisas que eu diria e as diferentes facetas da situação que ninguém sabia. Se ela pudesse se exonerar, porque não o fez? Ela se inclina para frente. “Aqui está o porquê”, diz ela conspiratoriamente. “Quando as pessoas estão em um frenesi de ódio e encontram algo para odiar mutuamente juntos, isso os une. E qualquer coisa que você diz se transforma numa câmara de eco de zombaria”.

Ela compara aquele ano com ser atingida por um maremoto. “Você pode ficar parado lá e esperar a onda te atingir e você pode tentar com todas as forças lutar contra algo que é maior e mais forte que você”, ela diz. “Ou você pode mergulhar na água, prender a respiração, esperar isso passar e enquanto você está lá embaixo, tentar aprender algo. Por que eu estava naquela parte do oceano? Havia sinais claros que diziam: Correnteza! Ressaca! Não nade! Não tem salva-vidas!”, ela continua sem parar. “Por que eu estava lá? Por que eu estava confiando nas pessoas que confiei? Por que eu estava deixando as pessoas entrarem na minha vida do jeito que elas estavam entrando? O que eu estava fazendo que causou isso?”

Após o incidente com Minaj, suas críticas começaram a apontar a narrativa de “vitimização branca” na carreira de Swift. Falando devagar e cuidadosamente, ela diz que começou a entender “muito sobre como meu privilégio me permitiu não aprender sobre privilégio branco. Eu não sabia disso quando criança, e isso já é um privilégio, sabe?E isso é algo que eu ainda estou tentando me educar todos os dias. Como eu posso ver de onde as pessoas estão vindo e entender a dor que vem com a história do mundo?”

Ao vivo na Austrália ano passado. Foto:Don Arnold/ Getty Images

Ela também aceita a responsabilidade na sua superexposição e por um pouco do drama dos tablóides. Se ela não desejasse feliz aniversário a um amigo pelo Instagram, haveria notícias de amizades desfeitas, mesmo que eles tivessem celebrado juntos. “Porque nós não postamos sobre, não aconteceu – e eu percebi que EU tinha feito isso”, ela diz. “Eu criei uma expectativa de que tudo que acontecesse na minha vida, as pessoas veriam.”

Mas ela também diz que não poderia vencer. “Eu meio que estou acostumada a ficar assustada agora”, ela diz arrastadamente. “E eu acho que isso acontece com mulheres tão frequentemente que, quando envelhecemos e vemos como o mundo funciona, podemos entender o que é esse abuso psicológico. Então eu sou capaz de olhar para o 1989 – GATOS!!” Ela se derrete quando uma assistente entra com os três amados gatos de Swift, as estrelas de seu Instagram, voltando do veterinário antes de voarem para a Inglaterra essa semana. Benjamin, Olivia e Meredith circulam  arrogantemente entre nossos pés enquanto Swift retoma sua linha de pensamento, de volta ao lançamento do 1989 e a subsequente queda. “Ai meu Deus, eles estavam bravos comigo por sorrir demais e ‘ser falsa’. E depois eles estavam bravos comigo por eu estar chateada, amarga e respondendo.” As regras continuavam mudando.

***

O novo álbum de Swift vem com trechos impressos de seus diários. Em 29 de agosto de 2016, ela escreveu em sua letra personalizada: “Este verão é o apocalipse.” Quando o incidente com West e Kardashian se desenrolou, ela estava se preparando para o processo judicial contra o DJ David Mueller, que foi demitido em 2013. Swift denunciou ele por colocar a mão em seu vestido em um meet-and-greet. Ele a processou por difamação; ela contra-atacou por agressão sexual.

“Tendo lidado com alguns deles, os narcisistas basicamente se inscrevem em um sistema de crença que eles deveriam ser capazes de fazer e dizer o que diabos eles querem, sempre que eles quiserem”, Swift diz agora, falando a toda velocidade. “E se nós – como qualquer outra pessoa no mundo, mas especificamente mulheres – reagirmos a isso, bem, não podemos. Não podemos ter uma reação às ações deles.”

No verão de 2016 ela estava em depoimentos legais, dando sua versão sobre o caso. “Você deveria ser muito educado com todos”, diz ela. Mas quando chegou ao tribunal em agosto de 2017, “algo estalou, eu acho”. Ela ri. Seu testemunho foi afiado e intransigente. Ela se recusou a permitir que os advogados de Mueller culpassem seus seguranças; Quando perguntada se ela poderia ver o incidente, Swift disse que não, porque “minha bunda está na parte de trás do meu corpo”. Foi uma defesa brilhante e grosseira.

Você deveria se comportar no tribunal e dizer “traseiro”, diz ela sarcástica. “O outro advogado estava dizendo: ‘Quando ele tocou no seu traseiro?’ E eu fiquei tipo ‘BUNDA! Chame do que é! ”Ela bate palmas entre cada palavra. Mas, apesar da aclamação pelo seu testemunho e eventual vitória (ela pediu um dólar simbólico), ela ainda se sentiu menosprezada. Foi dois meses antes do início do movimento #MeToo. “Até mesmo esse caso foi literalmente distorcido tanto que as pessoas o chamavam de ‘caso de agarrar a bunda’. Eles estavam dizendo que eu o processei porque há essa narrativa que eu quero processar todo mundo. Essa foi uma das razões pelas quais o verão foi o apocalipse.”

Ela nunca quis que o ataque se tornasse público. Teve outros casos particulares que ela teve de lidar? “Na real, não” diz ela sobriamente. “Eu tenho muita sorte que isso não tenha acontecido comigo antes. Mas esse é um dos motivos de ter sido tão traumatizante. Eu não sabia que isso poderia acontecer. Foi realmente descarado, na frente de sete pessoas”. Desde então, ela instalou câmeras de segurança em todos seus M&G, deliberadamente apontou para sua metade do meio. “Se algo acontecer de novo, podemos provar com os vídeos, de todos os ângulos”,diz ela.

As alegações sobre Harvey Weinstein vieram logo após ela vencer o caso. O produtor de filmes pediu para ela escrever uma música para a comédia romântica ‘Apenas Uma Chance’, que a rendeu sua segunda indicação ao Globo de Ouro. Weinstein também conseguiu um papel de apoio no filme de ficção científica ‘Doador de Memórias’ de 2014 para ela, e atendeu a festa de lançamento do álbum ‘1989’. Mas ela diz que nunca ficaram sozinhos juntos.

“Ele ligava para a minha diretoria e dizia: ‘Ela tem uma música para esse filme?’ E eu diria ‘Aqui está’” ela diz desapaixonadamente. “E então eu estaria no Globo de Ouro. Eu nunca desisti. E eu sentiria que – nunca atestaria ele. Eu acredito em mulheres que se pronunciam, acredito em vítimas que se pronunciam, acredito em homens que se pronunciam”. Swift suspira, frustrada. Ela diz que Weinstein nunca a propôs: “Se você escutar as histórias, ele escolhe as pessoas que são vulneráveis na opinião dele. Parecia que era uma coisa de poder. Então para mim não dizia nada – que eu não estava nessa situação”.

Com Harvey Weinstein na premiere de “O Doador de Memórias”. Foto:Marion Curtis/Starpix/REX/Shutterstock

Enquanto isso, Donald Trump estava há mais de nove meses em sua presidência, e ainda assim Swift não havia assumido uma posição.  Mas a ideia de que uma estrela pop poderia ter impedido seu caminho para a Casa Branca parecia cada vez mais ingênua. Em retrospecto, a demanda de que Swift fale se tornou menos sobre política e mais sobre sua identidade (branca, rica, poderosa) e uma necessidade moralista de que ela se redima – como se ninguém mais tivesse agido por instinto vingativo ou cometido erros publicamente.

Mas ela resistiu ao que poderia ter sido um retorno fácil aos bons olhos do público.  Embora Reputation contivesse canções de amor mais suaves, era mais conhecido por seu lado frágil e vingativo (veja This is Why We Can’t Have Nice Things). Ela descreve esse lado do álbum agora como “um pouco de personalidade”, e sua produção influenciada pelo hip hop como “um mecanismo de defesa”.  Pessoalmente, eu pensava que ela nunca tinha sido mais compreensível, destruindo o contrato de compreensão piedosa que prende as mulheres jovens aos olhos do público.

 ***

 Foi o julgamento de assédio e assistir os direitos dos amigos LGBTQ ser corroído, que finalmente a politizou, Swift diz. “As coisas que acontecem em sua vida são o que desenvolvem suas opiniões políticas.  Eu estava vivendo neste paraíso de oito anos de Obama, você vai, você joga seu voto, a pessoa que você vota ganha, todo mundo está feliz!”, Ela diz. “Essa coisa toda, nos últimos três, quatro anos, foi completamente uma surpresa para muitos de nós, inclusive eu.”

Ela recentemente disse que ficou “em choque” quando uma amigo apontou que sua posição sobre os direitos dos LGBT  não era óbvia (‘e se ela tivesse um filho gay?’, ele perguntou), daí a correção com o single You Need To Calm Down ( “Você está vindo para meus amigos como um míssil / Por que você está bravo? / Quando você poderia ser GLAAD?”,fazendo referência à instituição). Ela não se sentiu igualmente desanimada por sua política não estar clara? “Sim”, ela insiste, “e eu odeio admitir isso, mas eu senti que não fui educada o suficiente sobre isso. Porque eu não tinha tentado ativamente aprender sobre política de uma maneira que eu achava que era necessária para mim, fazendo declarações que chegam a centenas de milhões de pessoas”.

Ela explica seu conflito interno. “Eu venho da música country.  A primeira coisa que eles dizem a você como artista country, e você pode perguntar a qualquer outro artista country, é ‘Não seja como os Dixie Chicks!’”.Em 2003, o trio texano denunciou a guerra do Iraque, dizendo:  eles estavam “envergonhados” por compartilhar um estado de origem com George W. Bush.  Houve um boicote e um evento em que um trator destruiu seus CDs.  “Eu assisti música country apagar aquela vela.  O grupo mais incrível que tivemos, só porque eles falaram de política.  E eles estavam recebendo ameaças de morte.  Eles foram feitos como um exemplo que, basicamente, todo artista country que veio depois disso, toda gravadora lhe diz: “Apenas não se envolva, não importa o quê aconteça”

Com sua mãe, que está enfrentando uma batalha contra o câncer. O novo álbum conta com uma música escrita para ela, com vocais de Dixie Chicks. Foto:Kevin Mazur/AMA2010/Wirelmage

“E então, você sabe, se houvesse um tempo para que eu me envolvesse…” Swift faz uma pausa. “A pior parte do que aconteceu em 2016 foi me sentir completamente sem voz. Eu apenas senti como, oh Deus, quem iria me querer? Honestamente.” Caso contrário, teria apoiado Hillary Clinton? ‘Claro’ ela diz sinceramente. ‘Eu me senti completamente, completamente inútil. E talvez até um obstáculo para os outros.”

Eu sugiro que, pensando de forma egoísta, apoiando Clinton ela poderia ter feito as pessoas gostarem dela. “Eu não estava pensando assim”, ela enfatiza. “Eu estava apenas tentando proteger minha saúde mental – não leio muito as notícias, vou votar, digo às pessoas para votarem. Eu só sabia o que eu poderia lidar e sabia o que eu não sabia. Eu estava literalmente prestes a quebrar. Por um tempo.” Ela procurou terapia? “Essas coisas eu realmente quero manter pessoal, se estiver tudo bem”, diz ela.

Ela resiste culpando qualquer outra pessoa por seu silêncio político. Seu surgimento como democrata veio depois que ela saiu da Big Machine, o selo que assinou aos 15 anos. (Agora ela está em disputa depois que o diretor da gravadora, Scott Borchetta, vendeu a empresa e os direitos dos seis primeiros álbuns de Swift para o empresário de Kanye West, Scooter Braun). Será que Borchetta já a aconselhara a não falar? Ela exala. “Era só eu e minha vida, e também fiz muita auto-reflexão sobre como eu me sentia realmente arrependida por não dizer nada. Eu queria tentar ajudar de qualquer maneira que pudesse, da próxima vez que tivesse uma chance. Eu não ajudei, não me senti capaz disso – e assim que puder, eu vou”

No Grammy, em 2016. Foto: Mark Ralston/AFP/Getty Images

Swift já foi conhecida por ter feito festas extravagantes no 4 de julho em sua mansão em Rhode Island. As postagens no Instagram desses eventos repletos de estrelas – em que os convidados usavam biquínis e macacões de estrelas e listras combinadas – provavelmente apoiaram uma fatia significativa do PIB da indústria de notícias de celebridades. Mas em 2017, eles pararam. “O horror!” Escreveu Cosmopolitan, citando “razões que permanecem um mistério” para o seu desaparecimento. Não foi a disputa no “squad” ou a indisponibilidade que levou a celebração ao fim, mas sim a desilusão de Swift com o país dela, diz ela.

Tem uma música inteligente sobre isso no novo álbum – a faixa que deveria ter sido o primeiro single, ao invés da caricatural ME!. Miss Americana & The Heartbreak Prince é uma balada gótica e desamparada, vinda das veias de Lana Del Rey, que usa imagens de ensino médio para desmantelar o nacionalismo americano: “A escola inteira está jogando dados falsos/Você joga jogos idiotas/Você ganha prêmios idiotas”, ela canta com desdém. “Garotos serão garotos, então/Onde estão os homens sábios?”

Como uma criança de 11 anos ambiciosa, ela percebeu que cantar o hino nacional em jogos esportivos era o jeito mais fácil de chegar em frente a uma grande plateia. Quando ela começou a ter sentimentos conflitantes sobre os Estados Unidos? Ela me dá mais um “ugh” enfático. “Foi fato de que todos os truques sujos conhecidos foram usados e funcionaram”, ela diz. “A coisa que eu não consigo superar no momento é manipular o povo americano em pensar tipo” – ela adota um tom moralista – “’Se você odeia o presidente, você odeia a América’. Nós estamos em uma democracia – pelo menos, devíamos estar – onde você tem direito de discordar, divergir, debater”. Ela não usa o nome de Trump. “Eu realmente acredito que ele acha que estamos em uma autocracia”.

Nesse momento, legisladores do Tennessee estão tentando impor um banimento quase total do aborto. Swift tem defendido firmemente seus “valores do Tennessee”, nos últimos meses. Qual sua posição? “Quer dizer, obviamente eu sou a favor da escolha, eu só não consigo acreditar que isso está acontecendo” ela diz. Ela parece prestes a chorar. “Eu não acredito que estamos nessa situação. É realmente chocante e horrível. E eu quero fazer tudo que puder para 2020. Eu quero entender exatamente como ajudar, quais são as maneiras mais efetivas de ajudar. Porque isso é…” Ela suspira novamente. “Isso não está certo”.

***

É fácil esquecer que o ponto de tudo isso é que uma Taylor Swift adolescente queria escrever músicas de amor. Nêmeses e negatividade estão tão entranhados em sua personalidade pública que é difícil entender como ela vai conseguir voltar para isso, apesar de ela parecer querer. No final de Daylight, a devaneadora faixa final do novo álbum, tem uma parte falada: “Eu quero ser definida pelas coisas que amo”, ela diz enquanto a música enfraquece. “Não as coisas que odeio, não as coisas das quais eu tenho medo, as coisas que me assombram no meio da noite.” Além das músicas escritas para Alwyn, existe uma para sua mãe, que recentemente viveu uma volta de seu câncer: “Você aproveita o melhor de uma situação ruim/Eu apenas finjo que não é real”, Swift canta, com backing vocals das Dixie Chicks.

Com Tom Hiddleston, em 2016. Foto: REX/Shutterstock

Como escrever sobre sua vida pessoal funciona se ela está estabelecendo limites mais claros? “Isso realmente me fez sentir mais livre”, diz ela. “Eu sempre tive o hábito de nunca entrar em detalhes sobre exatamente qual situação inspirou que coisa, mas ainda mais agora”. Isso é apenas meia verdade: no passado, Swift não tinha vergonha de detalhar o que  convidou os fãs a descobrirem verdades específicas sobre seus relacionamentos. E quando eu digo a ela que Lover parece um álbum mais emocionalmente protegido, ela se irrita. “Eu sei a diferença entre fazer arte e viver sua vida como uma estrela de reality show”, diz ela. “E então, mesmo que seja difícil para outras pessoas entenderem, minha definição é realmente clara”.

Mesmo assim, Swift começa Lover dirigindo-se a um adversário, abrindo com uma música chamada I Forgot That You Existed (“não é amor, não é ódio, é apenas indiferença”), presumivelmente voltada para Kanye West, uma faixa que derrota levemente sua premissa por existir.  Mas isso afasta velhos dramas para confrontar o verdadeiro inimigo de Swift, ela mesma.  “Eu nunca cresci / está ficando tão antigo”, lamenta ela em The Archer.

Ela teve que aprender a não se antecipar ao desastre, nem a fugir dele.  Sua vida foi definida por relacionamentos, amizades e relacionamentos comerciais que começaram e terminaram muito publicamente (embora ela e Perry sejam amigas novamente). Ao mesmo tempo, as regras em torno do envolvimento de celebridades evoluíram além do reconhecimento em seus 15 anos de fama. Em vez de tentar se adaptar a eles, ela agora está se perguntando: “Como você aprende a mantê-los? Como você aprende a não ter esses desastres fantasmas em sua cabeça e como se impede de sabotar – porque o mecanismo de pânico em seu cérebro está lhe dizendo que algo vai dar errado”. Para ela, é isso que crescer é. “Você não pode simplesmente tomar decisões de sim ou não na vida, muitas coisas são uma negociação, uma área cinzenta e uma dança de como descobrir isso”.

E desta vez, Swift vai ficar.  Em dezembro, completará 30 anos, marcando o ponto em que mais da metade de sua vida será vivida em público. Ela começará sua nova década com uma veia auto-preservacionista mais forte e uma aderência mais frouxa (além de uma participação especial em Cats).  “A verdade é que você não pode micro gerenciar a vida”, diz ela secamente.

Quando Swift finalmente respondeu à minha pergunta sobre o momento que ela escolheria no episódio VH1 Behind The Music sobre si mesma, aquele em que sua carreira se transformou, ela disse que esperava que isso não se concentrasse em seu “apocalipse” no verão de 2016. “Talvez isso seja uma ilusão”, ela disse,“mas eu gostaria de pensar que será daqui a alguns anos”. É engraçado ouvir sua esperança de que o pior ainda esteja por vir enquanto estou sentado em sua sala de contos de fadas, os gatos andando de um lado para o outro: uma pragmática em desacordo com seu monumento romântico aos seus sonhos de adolescente.Mas soa mais ou menos como perspectiva.

Entrevista feita pelo The Guardian e traduzida pela equipe TSBR.

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