Taylor Swift e Aaron Dessner não esperavam fazer um outro álbum tão cedo depois de folklore. Enquanto eles davam os retoques finais no álbum de Swift verão passado, os dois artistas estavam colaborando de forma remota em possíveis músicas para o Big Red Machine, projeto de Dessner com Justin Vernon do Bon Iver (que participa da música “exile” no folklore). 

“Eu acho que compus cerca de 30 instrumentais no total”, Dessner relembra. “Então quando comecei a compartilhá-los com Swift ao longo dos meses que estávamos trabalhando no folklore, ela realmente gostou e escreveu duas canções para alguns desses instrumentais”. 

Uma dessas foi “closure”, uma faixa experimental, com 5 batidas por medida, que foi feita com um kit de bateria staccato. Outra música foi “dorothea”, com uma divertida e americana melodia no piano. Quanto mais Dessner ouvia essas músicas, mais ele percebia que havia continuações dos personagens e histórias de folklore. Mas essa percepção realmente chegou depois do lançamento surpresa de folklore, em julho, quando Dessner escreveu um rascunho musical e nomeou de “Westerly”, vila em Rhode Island onde Swift possui uma casa, antes ocupada por Rebekah Harkness. 

“Eu realmente não pensei que ela poderia escrever algo para isso- algumas vezes eu dou nome para as músicas com o nome dos meus amigos ou de suas crianças, apenas porque eu escrevo muitas músicas e preciso dar um nome para elas e então eu as envio para eles”, Dessner diz. “Mas de qualquer forma, eu enviei para ela e não muito tempo depois, ela escreveu “willow” com aquele instrumental e me enviou de volta”.

Foi parecido com o momento em que Swift enviou para ele a música “cardigan” na primavera, quando ela e Dessner sentiram uma faísca criativa instantânea e então continuaram escrevendo. Em pouco tempo, eles estavam criando ainda mais músicas com Vernon, Jack Antonoff, com o irmão de Dessner, Bryce, e “William Bowery” (pseudônimo para Joe Alwyn, namorado de Taylor) para o que se tornou o álbum invernal, irmã de folklore, evermore. 

Ainda mais espontâneo do que o álbum anterior, evermore conta com produções mais ecléticas, continuando com a composição de Swift baseada em personagens e incluindo um grupo maior de colaboradores, como Haim e a banda de Dessner, The National. Dessner falou com a Rolling Stone sobre a experimentação do álbum, como ele foi gravado junto com o documentário The Long Pond Studio Sessions e como ele vê a colaboração com Swift continuando no futuro. 

Quando você percebeu que acabariam fazendo outro álbum juntos?

Foi depois de termos escritos várias [músicas], sete, oito ou nove. Cada uma aconteceu e nós dois mal acreditávamos nesse tipo de alquimia que temos. Essas ideias vieram fortes e furiosamente e eram tão atraentes como qualquer coisa do folklore, e isso foi a coisa mais natural do mundo. Em determinado momento, Taylor escreveu “evermore” com William Bowery e então enviou para Justin, que escreveu a ponte e de repente, foi quando as coisas começaram a ficar mais claras de que havia um álbum irmã. Historicamente, há exemplo disso, de álbuns que vieram em seguida que eu amo, como os álbuns de Dylan, Kid A e Amnesiac. Eu secretamente fiquei apaixonado pela ideia de que isso era uma parte da mesma corrente e que essas duas manifestações estavam interligadas. E com Taylor, eu penso que ficou claro para ela o que estava acontecendo. Isso realmente ganhou força e em determinado momento, tinham 17 músicas, porque existem duas faixas bônus, que eu amo demais.  

evermore definitivamente é mais experimental do que o folklore, e tem mais variantes- tem essas músicas mais eletrônicas que soam como Bon Iver ou Big Red Machine, mas também tem músicas parecidas com que Taylor escreveu no country na última década. Era algo que ela queria, diversificar mais nesse álbum?

Sonoramente, as ideias vieram mais de mim. Mas eu lembro quando eu compus “tolerate it” no piano, logo depois de enviar para ela, eu pensei “Essa música é intensa”. É uma 10/8, que é uma divisão de compasso incomum. E eu pensei por um segundo “Talvez eu não devia enviar para ela, ela não vai gostar disso”. Mas eu enviei e isso gerou uma cena na mente dela, e ela escreveu essa canção incrivelmente linda e enviou de volta. Eu acho que chorei na primeira vez que ouvi. Porque pareceu a coisa mais natural do mundo, sabe? Não houve limitações no processo. E nós estávamos buscando um som mais experimental e divisões de compasso diferentes, apenas pareceu parte do processo. 

Foi realmente impressionante para mim que ela poderia contar histórias tão facilmente em algo como “closure” como também em músicas country, como “cowboy like me”. Obviamente, “cowboy like me” é muito mais familiar musicalmente. Mas para mim, ela é tão inteligente e expecional em qualquer situação. E também, falando no que estávamos interessados, há uma nostalgia invernal em algumas músicas, o que foi intencional da minha parte. Eu estava indo para a ideia de que esse álbum era o outono e o inverno, e ela também estava falando sobre, que o folkore era mais a primavera e o verão para ela e evermore o outono e o inverno. É por isso que você ouve sinos de trenó em “ivy” e por isso algumas das imagens das músicas são invernais.  

Eu consigo ouvir isso na guitarra em “tis the damn season” também. Soa quase como The Nacional com aquela guitarra crua

Assim, aquele é literalmente eu em meu maior estado natural [risos]. Se você me der uma guitarra, será assim que vai soar quando eu começar a tocar. Pessoas associam aquele som com o The National, mas é só porque eu toco uma guitarra daquele jeito- se você ver o solo de guitarra em “Mr. November” não é muito diferente daquilo .

Aquela música, para mim, sempre pareceu nostálgica ou uma espécie de saudade. E a música que Taylor escreveu é tão identificável, sabe, “Tem uma dor em você, que foi colocada aí pela dor em mim”. Eu me lembro de quando ela começou a cantar para mim na minha cozinha- ela escreveu durante a noite, durante The Long Pond Studio Sessions, na verdade.

Ela gravou todos os vocais de evermore no Long Pond enquanto vocês estavam filmando o documentário?

Não todos, mas a maioria deles. Ela ficou depois que terminamos de filmar e então nós gravamos muito. Foi louco porque estávamos prontos para fazermos o filme, mas ao mesmo tempo, essas músicas estavam acumulando. Então pensamos, “Hmm… eu acho que podemos ficar e trabalhar”.

Em “closure” há partes que os vocais de Taylor são filtrados por Messina, que é o modificador de voz que Justin Vernon usa muito no Bon Iver. Como vocês puderam modificar os vocais dela com isso, se ela nunca esteve no mesmo lugar que Justin?

Eu estive com Justin em determinado momento, numa viagem que fiz, e nós trabalhamos juntos no mesmo lugar em algumas coisas. Ele toca bateria em “cowboy like me” e em “closure” e ele toca violão e banjo e canta em “ivy” e canta em “marjorie” e evermore”. E agora ele passou os vocais de Taylor pelo Messina. Ele estava profundamente envolvido nesse álbum, mais do que no último. Ele sempre me deu uma grande ajuda, e não só tocando ou cantando, eu também posso enviar coisas para ele e receber sua opinião. Fizemos vários trabalhos juntos, mas temos perspectivas diferentes e cérebros harmônicos e diferentes. Ele obviamente tem o próprio estúdio montado em casa, mas foi legal poder vê-lo e trabalhar com ele nisso. 

“no body, no crime” também é bem interessante, isso porque eu acho que nunca ouvi você produzir uma música como essa. Como essa balada country sobre assassinato, com feat das Haim, foi parar no disco?

Taylor escreveu essa sozinha e me mandou um áudio dela tocando violão- ela escreveu nesse violão com cavalete de borracha que eu dei pra ela. O mesmo tipo que eu usei em “invisible string”. Então ela escreveu “no body, no crime”, me mandou a gravação e eu comecei trabalhar nela. É engraçado porque as músicas que escutei durante aTmaior parte da minha vida se parecem bastante com essa-música roots, folk, country, rock & roll clássico, a banda The Grateful Dead. Não é como soa o The National ou outros trabalhos meus, mas traz um sentimento muito confortável.

A música também teve muitos amigos meus envolvidos- Josh Kaufman, que tocou a harmônica em “betty” também tocou nessa e tocou um pouco de violão. JT Bates tocou bateria na música- ele é um ótimo guitarrista de jazz, mas ele também conhece muito sobre ritmo de músicas assim. Ele também tocou bateria em “dorothea”. Taylor, desde o começo, tinha  ideias bem específicas de como ela queria que a música soasse e ela queria que as Haim cantassem. Elas gravaram com Ariel Reichshaid, elas mandaram de L.A e juntamos com a Taylor aqui no Long Pond. Elas são uma banda incrível, foi outra situação que ficamos tipo “ nossa o que rolou”. Parecia uma história esquisita de rock& roll.

Voce também trouxe o The National para o álbum em “coney island”. Como foi o processo de gravar uma música com a sua banda para uma outra artista? 

Eu estava trabalhando em várias músicas com meu irmão [Bryce Dessner], e muitas dessas estávamos também mandando para Taylor. Naquele ponto, “coney island” estava praticamente feita com exceção da bateria. Enquanto eu compunha, eu não ficava pensando se soava como The National, Big Red Machine ou se soava completamente diferente. Mas a Taylor e o William Bowery compuseram essa letra linda e primeiro nós gravamos só com os vocais dela. Era um lindo arco para a história e acredito que seja uma das músicas mais fortes tanto musicalmente quanto pela composição da letra. Escutando as palavras, coletivamente percebemos que a música seria relacionável ao The National– parece com uma história que Matt [Berninger] contaria, eu poderia escutar também Bryan [Devendorf] tocando a parte das baterias.

Então começamos a conversar sobre como seria legal envolver a banda, eu liguei pro Matt e ele adorou a ideia. Conseguimos que Bryan ajudasse a produzir, tocasse a bateria e Scott [Devendorf] tocasse um teclado. É estranho porque parece muito Taylor- obviamente- já que ela e William Bowery escreveram a letra, mas também parece muito The National, de uma boa maneira. Eu amo como a Taylor e o Matt soam juntos. Foi legal porque fazia um ano que não fazíamos show, e não sei quando teremos uma oportunidade de novo. Você acaba perdendo o contato, então de certa maneira, foi bom se reconectar. 

Quando estava trabalhando no folklore, você teve que deixar seus colaboradores no escuro a respeito de com quem você estava trabalhando. Como foi a experiência dessa vez que já sabiam que era a Taylor? Como você manteve o segredo?

Foi difícil, tivemos que ser cautelosos por causa da quantidade de pessoas que consomem cada pedacinho de informação que conseguem encontrar sobre ela, e essa é uma realidade opressiva com a qual ela tem que lidar. Mas o fato de que ninguém do público sabia nos permitiu ter mais liberdade para curtir o processo. A maioria dos músicos que tocou no folklore tocou no evermore. E mais uma vez, foi uma situação em que eu não contei a eles o que era e eles não puderam ouvir os vocais dela, mas creio que muitos deduziram, especialmente por causa do nível de sigilo. [risos]. Mas por mais engraçado que seja, eu acho que todos que estiveram envolvidos estão agradecidos por terem esses álbuns para tocar esse ano e estão orgulhosos deles. Isso meio que não acontece, fazer dois ótimos álbuns em um período tão curto de tempo. Todos ficam um pouco tipo, “Como isso aconteceu?”, e ninguém desvaloriza isso.

Taylor comentou que vocês gravaram “happiness” apenas uma semana antes do lançamento do álbum. Foi algo que vocês escreveram, gravaram e produziram – tudo no último minuto, ou foi algo que vocês ficaram quebrando a cabeça por um tempo até finalmente conseguirem desvendar o código?

Houve duas músicas assim. Uma era uma faixa bônus chamada “right where you left me”, e a outra era “happiness”, que ela escreveu literalmente dias antes de quando planejamos gravar. Isso é similar ao que aconteceu com folklore, com “the 1” e “hoax”, que ela escreveu dias antes. Nós editamos todas as faixas aqui, e é bastante coisa editar 17 músicas, é como um trabalho de Hércules. E foi divertido porque entrei no estúdio e Jon Low, nosso engenheiro, estava trabalhando apenas nisso o tempo todo. Eu entrei, ele estava no meio do processo e eu disse, “Tem mais duas músicas”. Ele olhou pra mim tipo, “Não vamos conseguir”. Porque leva bastante tempo para trabalhar em finalizá-las.

Mas ela cantou essas remotamente. E a melodia de “happiness” é algo que eu estava trabalhando desde o ano passado. Eu cantei um pouquinho nela também — Pensei que eu tinha uma música para a Big Red Machine, mas ela amou o instrumental e acabou escrevendo em cima dele. O mesmo com a outra, “right where you left me” — era algo que eu compus antes de ir visitar o Justin, porque pensei, “Talvez façamos algo quando estivermos juntos lá”. E a Taylor ouviu e escreveu essa música incrível pra ela. Isso é pouco de como ela trabalha — ela escreve muitas músicas, e aí bem no finalzinho ela às vezes escreve mais uma ou duas, e elas acabam sendo importantes.

Minha música favorita no álbum é “marjorie”, e eu sinto que, para a maioria dos artistas, o instinto seria apresentar uma música como essa como uma balada sombria ao piano. Mas “marjorie” tem essa batida eletrônica vívida a percorrendo — literalmente soa viva. Como você criou isso?

É interessante porque, com “marjorie”, essa é uma faixa que já existia há algum tempo, e você pode ouvir elementos disso por trás da música “peace”. Esse zumbido estranho que você ouve em “peace”, se prestar atenção na ponte de “marjorie”, você o ouvirá um pouco, bem distante. Um pouco do que você ouve vem do meu amigo Jason Treuting tocando percussão, acordes na baqueta que ele escreveu para um projeto do meu irmão, chamado “Music for Wooden Strings”. Eles estão tocando esses acordes e você pode ouvir os mesmos na música “Quite Light”, do The National.

Eu reúno vários elementos rítmicos como esse, e todos os tipos de sons, e os entrego para meu amigo Ryan Olson, que é um produtor de Minnesota e está desenvolvendo um software insano chamado Allovers Hi-Hat Generator. Ele pode pegar sons, qualquer som, dividi-los em samples sonoros identificáveis e depois regenerá-los e padrões aleatórios que são estranhamente muito musicais. Muitas das novas músicas da Big Red Machine usam esses elementos. Eu entro lá e encontro pequenas partes que gosto e as coloco em looping. Foi assim que criei o ritmo de fundo de “marjorie”. E aí eu escrevi uma música pra isso e a Taylor escreveu a letra para o produto final. Estranhamente, é uma das músicas mais experimentais do álbum — não soa assim, mas aí quando você separa as camadas de fundo, é bastante interessante.

Preciso perguntar: Como você descobriu que Joe Alwyn era a identidade real de William Bowery? Ou você sabia o tempo todo?

Acho que posso dizer que eu sabia o tempo todo — estava apenas sendo cuidadoso. Apesar de nunca termos falado explicitamente sobre isso. Mas acho que tem sido muito especial ver a quantidade de músicas nesse álbum que eles escreveram juntos. William toca o piano em “evermore”, inclusive. Gravamos essa remotamente. Fazer isso foi muito importante pra mim e pra eles, porque ele também escreveu a parte do piano em “exile”, mas no álbum sou eu tocando porque não pudemos gravá-lo facilmente. Dessa vez, conseguimos. Eu acho que uma parte importante e especial da história.

Você tem uma música pessoalmente favorita ou um momento que mais se orgulha?

“’tis the damn season’ é uma música muito especial pra mim por uma série de razões. Quando escrevi a melodia pra ela, foi há muito tempo, mas me lembro de pensar que era uma das minhas coisas favoritas de tudo que já tinha feito, mesmo que fosse um esboço musical incrivelmente simples. Mas há esse arco, a simplicidade no minimalismo, um tipo de programação na bateria, e eu sempre amei o tom da guitarra. Quando Taylor tocou a faixa e cantou pra mim na minha cozinha, foi o ponto alto de todo esse tempo. Aquela faixa era algo que sempre amei e poderia ter sido apenas um arranjo musical, mas em vez disso, alguém com uma habilidade musical incrível, e um dom de contar histórias tão incrível quanto, a pegou e a transformou em algo ainda melhor. E é algo que todos nós podemos nos identificar. Foi um momento muito especial, não diferente de como me senti quando ela escreveu “peace”, mas ainda mais especial.

Você vê essa colaboração com a Taylor continuando para mais álbuns ou projetos da Big Red Machine? 

É meio que aquela coisa em que eu tenho tantos músicos na minha vida dos quais fiquei muito próximo, trabalhei junto e eles acabaram virando parte da minha vida. E raramente eu tive esse tipo de química com alguém na minha vida — conseguir escrever juntos, criar tantas músicas lindas em um período tão curto de tempo. Inevitavelmente, eu acho que vamos continuar um na vida do outro, pessoal e artisticamente falando. Não sei exatamente em que forma será, mas certamente irá continuar.

Eu acho que essa história, essa era, foi concluída de uma maneira muito bonita com essas duas irmãs que são os álbuns — meio que sinto como um encerramento disso. Mas ela definitivamente tem sido de grande ajuda e está bastante engajada com a Big Red Machine, e também de forma geral. Sinto como se ela fosse mais uma musicista incrível que eu tive a sorte de conhecer e ter em minha vida. É essa comunidade inteira que vai em frente e assume os riscos e, sendo assim, espero que outros álbuns apareçam no futuro.

Entrevista publicada pela Rolling Stone e traduzida pela Equipe TSBR.





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