Nos anos 2010, ela passou de super estrela do country à uma titã do pop e quebrou recordes com álbuns no topo das paradas e turnês de grande sucesso. Agora, Swift está usando sua influência na indústria para lutar pelos direitos dos artistas e promover a comunidade musical que ela desejava ter quando começou.

Certa noite, no final de outubro, antes dela se apresentar em um show beneficente no Hollywood Bowl em Los Angeles, o camarim de Taylor Swift se tornou – como acontece frequentemente – uma cúpula improvisada dos maiores nomes da música. Swift estava lá para participar do concerto anual da American Cancer Society, o We Can Survive, ao lado de Billie Eilish, Lizzo, Camila Cabello e outros; e alguns dos artistas do line-up apareceram para visitá-la.

Eilish, junto com sua mãe e seu irmão e colaborador, Finneas O’Connell, passaram para dizer olá – foi a primeira vez que ela e Swift se conheceram. Mais tarde, Swift se juntou ao clube exclusivo de pessoas que já viram Marshmello sem seu famoso capacete, quando a estrela do EDM e seu empresário aparecerem por lá.

“Dois caras entraram – eu não sabia qual dos dois era ele”, lembra Swift algumas semanas depois, sentada em uma espreguiçadeira no quintal de uma residência particular em Beverly Hills, após uma sessão de fotos. Sua confusão momentânea se transformou em uma pontada de inveja. “É realmente inteligente! Porque ele tem uma vida e ele pode comprar uma casa que não precisa ter uma entrada à prova de paparazzi.” Ela para, ajusta o vestido de moletom cinza e solta uma risada cortada.

Swift, que completará seus 30 anos no dia 13 de dezembro, tem sido incrivelmente famosa por quase metade de sua vida. Ela tinha 16 anos quando lançou seu auto-intitulado álbum de estréia em 2006 e 20 quando seu segundo álbum, Fearless, ganhou o Grammy Award por álbum do ano em 2010, fazendo dela a artista mais jovem a receber esse prêmio. Enquanto a década se aproxima do fim, Swift se consagra como um dos mais bem sucedidos artistas musicais de todos os tempos: 37,3 milhões de álbuns vendidos, de acordo com a Nielsen Music; 95 entradas no Billboard Hot 100 (incluindo cinco nºs 1); 23 Billboard Music Awards; 12 prêmios da Associação de Música Country; 10 Grammys; e cinco turnês mundiais.

Ela também termina a década em um campo totalmente diferente do que quando surgiu no mundo da música. A transição de Swift do country para pop – sugerida no Red de 2012 e totalmente adotada no 1989 de 2014 – refletiu uma era dominante onde os gêneros poderiam ser misturados e onde artistas com raízes no country, no folk e no rap poderiam unir forças sem que ninguém erguesse as sobrancelhas.

O novo álbum de Swift, Lover, lançado em agosto, é tanto uma ruptura aquecida da escuridão do ‘reputation’ — que foi criado durante uma onda de imprensa negativa gerada pelo confronto público de Swift com Kanye West e Kim Kardashian-West — quanto uma mistura de todas as suas explorações estilísticas ao longo dos anos, do pop sintético sonhador ao country silencioso. “Os céus estavam se abrindo na minha vida”, diz Swift do álbum, que recebeu três indicações ao Grammy, incluindo o de Música do Ano para a faixa-título.

Ela gravou Lover depois que a Reputation Stadium Tour quebrou o recorde de turnê americana mais lucrativa no final do ano passado. Em 2020, Swift embarcará na Lover Fest, uma série de algumas datas em estádios que contará com um line-up ainda não anunciado de artistas escolhidos a dedo e permitirá que Swift tenha mais tempo fora da estrada. “Este é um ano em que eu tenho que estar lá para minha família – há muitos pontos de interrogação ao longo do próximo ano, então eu queria ter certeza de que poderia ir para casa”, diz Swift, provavelmente se referindo ao diagnóstico de câncer de sua mãe, que inspirou a faixa mais sensível de Lover, ‘Soon you’ll get better’.

Agora, no entanto, Swift se vê em uma outra disputa altamente comentada. Dessa vez, é com Scott Borchetta, chefe de sua antiga gravadora, a Big Machine Records, e Scooter Braun, gerente-magnata cuja Ithaca Holdings adquiriu em junho a Big Machine Label Group e os mestres de suas gravações, que incluem os seis álbuns pré-Lover de Swift.

Após a notícia da venda, Swift escreveu em um post no Tumblr que esse era o seu “pior cenário”, acusando Braun de cometer bullying com ela ao longo de sua carreira, devido às conexões com West. Ela sustenta hoje que nunca teve a oportunidade de comprar suas gravações diretamente. (No Tumblr, ela escreveu que lhe foi oferecida a chance de “recuperar” os mestres de um de seus álbuns para cada novo álbum que entregasse se assinasse novamente com a Big Machine; Borchetta contestou essa versão, dizendo que ela tinha a oportunidade de adquirir seus mestres em troca de assinar novamente com a gravadora por um “período de tempo” – mais 10 anos, de acordo com capturas de tela de documentos legais publicados no site da Big Machine.)

Swift disse que pretende regravar seus seis primeiros álbuns no próximo ano — a partir de novembro de 2020, quando ela diz que está, contratualmente, permitida a fazê-lo — para recuperar o controle de suas gravações. Mas o ‘vai e vem’ da confusão parece não estar nem perto de acabar: no mês passado, Swift alegou que Borchetta e Braun a estavam impedindo de performar seus hits anteriores no American Music Awards ou usá-los em um documentário da Netflix – o que a Big Machine chama de “informações falsas” em uma resposta que não entrou em muitos detalhes. (Swift acabou por apresentar o medley que ela havia planejado.) Nas semanas seguintes a essa entrevista, Braun disse que estava aberto a “todas as possibilidades” de chegar a uma “resolução”, e fontes da Billboard dizem que isso inclui negociar uma venda. Swift continua interessada em comprar seus mestres, embora o preço possa ser um ponto de discórdia, dados seus planos de regravação, o controle que ela tem sobre o licenciamento de suas músicas para cinema e TV e o crescimento do mercado desde a aquisição de Braun.

Seja como for, a batalha pelas suas gravações mestres é o mais recente de uma série de ações que tornaram Swift uma espécie de defensora dos direitos dos artistas – e fizeram dela uma causa pela qual todos, de Halsey a Elizabeth Warren, se uniram. De 2014 a 2017, Swift reteve seu catálogo do Spotify para protestar contra as taxas de compensação da empresa de streaming, dizendo em uma entrevista de 2014: “Deveria haver um valor inerente à arte. Em termos de percepção, não vi isso acontecer quando coloquei minha música no Spotify.” Em 2015, antes do lançamento do Apple Music, Swift escreveu uma carta aberta criticando a Apple por seu plano de não pagar royalties durante o período de três meses de teste grátis que estava previsto para ser oferecido aos ouvintes; a empresa anunciou uma nova política dentro de 24 horas. Mais recentemente, quando ela assinou um novo acordo global com a Universal Music Group em 2018, Swift (que agora está na Republic Records) disse que uma das condições de seu contrato era que a UMG dividisse os lucros que procedessem de qualquer venda de seu patrimônio no Spotify com sua lista de artistas – e torná-los irrecuperáveis ​​em relação aos ganhos desses artistas.

Durante uma longa conversa, a Mulher da Década da Billboard expressa esperança de que ela possa ajudar a tornar a vida dos criadores um pouco mais fácil nos próximos anos – e uma crença de que seus passos nos bastidores serão tão fiéis ao seu legado como seus maiores singles. “Novos artistas, produtores e escritores precisam trabalhar, e precisam ser agradáveis e ser agendados em sessões, e não podem fazer barulho – mas se eu posso, então eu vou fazer”, promete Swift. É aqui que ser incrivelmente famoso pode ser uma coisa muito boa. “Eu sei que parece que estou fazendo barulho demais sobre isso”, diz ela, “mas é porque alguém tem que fazer”.

Enquanto assistia alguma de suas performances deste ano – como o Saturday Night Live e NPR’S Tiny Desk Concert – Fiquei impressionado com o quão focada você parecia, como se não tivesse nenhum tipo de distração por perto para atrapalhar o que você quisesse falar.

Esse é um jeito maravilhoso de olhar esta fase da minha vida e minha música. Passei muito tempo recalibrando minha vida para que ela se tornasse administrável. Porque teve alguns anos em que eu não sabia ao certo o que dar às pessoas e ao que reter, o que eu podia compartilhar e o que deveria proteger. Acho que muitas pessoas passam por isso, principalmente na última década. Entrei nas redes sociais e teve uma fase onde elas eram divertidas, casuais, peculiares e seguras. E então chegou ao ponto de todos precisarem avaliar seu relacionamento com elas. Então decidi que a melhor coisa que eu posso oferecer às pessoas é a minha música. Não estou aqui exatamente para influenciar seu modo de vestir ou sua vida social. Isso se transformou uma parte do que eu faço.

Enquanto isso, você encontrou uma maneira de interagir com seus fãs de um jeito muito puro – na sua página do Tumblr.

Tumblr é o último lugar na internet em que eu sinto que ainda posso fazer uma piada pois ela parece pequena, como um bairro e não um continente inteiro. Podemos brincar – eles literalmente acabam comigo. É divertido. É realmente uma zona de conforto para mim. E como qualquer outra coisa, eu preciso dar algumas pausas nele algumas vezes. Mas quando eu estou participando daquele espaço, é sempre cheio de piadas internas, como se fôssemos todos amigos. Às vezes, quando abro o Twitter, fico tão sobrecarregada que o fecho instantaneamente. Não tenho o Twitter instalado no meu celular faz um bom tempo pois não gosto de ter tantas notícias. Tipo, eu sigo políticas, e é isso. Mas não gosto de seguir quem terminou com quem ou quem estava com um par de sapatos interessante. É tanta largura de banda que meu cérebro não aguenta.

Você falou recentemente em entrevistas sobre as suas expectativas gerais, usando frases como “Eles queriam ver isto” e “Eles me odiavam por isso”. Quem são “eles”? As redes sociais, peças depreciativas ou…

É uma espécie de amálgama de tudo isso. Pessoas que não são fãs ativos de sua música, que gostam de uma música, mas amam ver o que foi cancelado no Twitter. Tive vários transtornos por de alguma forma, não ser o que eu deveria ser. E isso acontece com as mulheres na música muito mais do que com os homens. Por isso recebo tantas ligações de novos artistas do nada – tipo, “Hey, estou recebendo minha primeira onda de má publicidade, estou enlouquecendo, posso falar com você?” E a resposta é sempre sim! Estou falando de mais de 20 pessoas que aleatoriamente vieram até mim. Levo isso como um elogio pois significa que viram o que aconteceu ao longo da minha carreira, várias e várias vezes.

Você teve alguém assim para conversar?

Não exatamente, porque minha carreira existiu em vizinhanças diferentes da música. Tive muitos mentores no country. Faith Hill era magnífica. Ela me procurava, me convidava e me levava em turnê, eu sabia que podia conversar com ela. Ir para o pop foi como ir para um mundo completamente diferente. O country é realmente uma comunidade, e no pop não vi muito essa comunidade. Agora, existe algo entre as garotas no pop – todas temos os números uma das outras e trocamos mensagens – mas quando comecei no pop, era um você VS você VS você. Não tínhamos uma rede, o que é estranho porque poderíamos nos ajudar nesses momentos em que nos sentimos tão isoladas.

Você sente que essas barreiras estão sendo derrubadas agora?

Deus, espero que sim. Eu também espero que as pessoas possam debater sobre isso, como, se você ver um artigo sobre previsão do Grammy e tem apenas os rostos de duas mulheres um ao lado da outra, e isso não faça que você queira questionar aquilo. Ninguém começará a ser perfeitamente educado sobre os meandros da política de gênero. A chave é que as pessoas estão tentando aprender, e isso é ótimo. Ninguém vai ficar perfeito, mas, Deus, por favor, tente.

Neste ponto, quem é sua caixa de ressonância criativa e profissional?

Do ponto de vista criativo, estive escrevendo sozinha por mais tempo. Me sinto bem em estar sozinha, em pensar sozinha. Quando surge uma ideia de marketing para a Lover tour, o lançamento do álbum, os merchandise, irei direto à empresa de gestão que montei. Acho que uma equipe é a melhor maneira de gerenciar as coisas. Só pela minha experiência, não acho abrangente essa ideia de apenas uma pessoa controlar minha carreira, isso não funcionaria para mim. Porque essa pessoa acaba meio que sendo eu. Eu que venho com a maioria das ideias e tenho uma equipe incrível que facilitam essas ideias.

O trabalho por trás das câmeras é diferente para cada fase que estou em minha carreira. Organizar os shows de festival que estamos preparando para o ‘Lover’ é completamente diferente do que organizar a Reputation Stadium Tour. Organizar o lançamento do Reputation foi muito diferente do que a organização para o lançamento do 1989. Então nós realmente atacamos as coisas caso a caso, onde o criativo primeiro informa todo o resto.

Você já falou sobre o quão significativo foi o sucesso da Reputation Stadium Tour. O que isso representou?

Essa turnê era algo que eu queria imortalizar no especial da Netflix que fizemos, porque esse álbum possui uma história, mas era como se a história não estivesse completa até que você visse ao vivo. Era muito legal escutar as pessoas saindo do show dizendo coisas do tipo, “Entendi. Entendi tudo agora.” Existem muito arenques vermelhos e iscas nas escolhas que fiz com os álbuns, porque eu quero que as pessoas vão e explorem todo o corpo do trabalho. Você nunca pode expressar como se sente ao longo de um álbum em um single, então por que tentar?

Isso parece especialmente verdadeiro nos seus últimos três álbuns.

“Shake It Off” não é nada como o resto do 1989. Era como se eu tivesse sentido muita pressão com o primeiro single que eu não quero que seja algo que você sinta que só ao escutá-lo você já entenda como é todo o resto do projeto. Eu ainda acredito fielmente em álbuns, não importa a forma que você o consuma – se você quer escutá-los por streaming, comprá-los ou escutar em vinyl. Não acho que isso me torne uma purista firme. Acho que é um sentimento bem forte na indústria da música. Estamos correndo muito rápido numa indústria de singles, mas você tem de acreditar em algo, ainda acredito que albuns sejam importantes.

A indústria da música tornou-se cada vez mais global na última década. Alcançar novos mercados é algo em que você pensa?

Sim, estou sempre tentando aprender. Estou aprendendo com todos. Estou aprendendo quando vou ver Brune Springsteen ou Madonna fazer um show de teatro. Estou aprendendo com os novos artistas que estão vindo agora, apenas observando o que eles estão fazendo enquanto penso, “Isso é muito legal.” Você precisa manter suas influências amplas e meus artistas prediletos sempre fizeram isso. Comecei a trabalhar com Andrew Lloyd Webber no filme Cats e Andrew sempre aparece na porta do nada dizendo “Acabei de assistir essa coisa sensacional no TikTok!” E eu fico “Você é assim! Você é sensacional!” Porque você não pode olhar para o que, entre aspas, “as crianças estão fazendo” e revirar os olhos. Você tem de aprender.

Você já explorou o TikTok?

Eu só os vejo quando eles são publicados no Tumblr, mas eu os amo! Acho eles hilários e incríveis. Andrew diz que eles fizeram os musicais se tornarem legais de novo, porque há uma enorme faceta musical no TikTok. [Ele] fala, “Qualquer maneira de fazer isso é bom.”

Como você vê o seu envolvimento no lado comercial de sua carreira progredindo na próxima década? Você parece alguém que poderia, eventualmente, começar um selo ou ter mais contato com artistas contratados.

Eu penso nisso de vez em quando, mas se eu fosse fazer isso, precisaria fazê-lo com toda a minha energia. Sei o quanto isso é importante, quando você tem a carreira de outra pessoa e sei como é quando alguém não é generoso.

Você serviu como uma embaixadora de artistas, especialmente recentemente – encarando os serviços de streaming em vez de pagamentos, aumentando a conscientização do público sobre os termos dos acordos de gravação.

Temos um longo caminho a percorrer. Eu acho que estamos trabalhando com um sistema contratual antiquado. Estamos galopando em direção a um novo setor, mas não estamos pensando em recalibrar estruturas financeiras e taxas de remuneração, cuidando de produtores e escritores. Precisamos pensar em como lidamos com os direitos de gravações. Quando me levantei e conversei sobre isso, vi muitos fãs dizendo: “Espere, os direitos desse trabalho não são seus, nunca?” Passei 10 anos da minha vida tentando rigorosamente comprar meus direitos de imediato, então neguei essa oportunidade, e eu simplesmente não quero que isso aconteça com outro artista se eu puder ajudar. Quero, pelo menos, levantar a mão e dizer: “Isso é algo que um artista deve ser capaz de recuperar ao longo do contrato – não como uma manobra de renegociação – e algo que os artistas talvez tenham o primeiro direito de recusa em comprar.” Deus, eu teria pago tanto por eles! Qualquer coisa para possuir o meu trabalho que era uma opção de venda real, mas não me foi dada. Felizmente, há poder em escrever sua música. Toda semana, recebemos uma dúzia de solicitações de sincronização para usar “Shake It Off” em algum anúncio ou “Blank Space” em algum trailer do filme, e dizemos não a cada um deles. E a razão pela qual estou regravando minhas músicas no próximo ano é porque quero que minha música continue viva. Eu quero que seja nos filmes, eu quero nos comerciais. Mas eu só quero isso se eu o possuir.

Você sabe quanto tempo levará esse processo de regravação?

Eu não sei! Mas vai ser divertido, porque será como recuperar a liberdade e recuperar o que é meu. Quando eu criei [essas músicas], eu não sabia que elas iriam crescer. Voltar e saber que isso significava algo para as pessoas é realmente uma maneira muito bonita de comemorar o que os fãs fizeram pela minha música.

Há dez anos, no começo dos anos 2010, você estava prestes a completar 20. Que conselho você daria a si mesma se pudesse voltar no tempo?

Oh, Deus – eu não me daria nenhum conselho. Eu teria feito tudo exatamente da mesma maneira. Porque mesmo as coisas realmente difíceis pelas quais passei me ensinaram coisas que eu nunca teria aprendido de outra maneira. Eu realmente aprecio a experiência, os altos e baixos. E talvez isso pareça ridiculamente zen, mas… tenho meus amigos que gostam de mim pelas razões certas. Eu tenho minha familia. Eu tenho meu namorado. Eu tenho meus fãs. Eu tenho meus gatos.

Matéria publicada pela Billboard e traduzida pela Equipe TSBR.





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