07 de agosto de 20 Autor: Maria Eloisa Barbosa
Review: folklore mostra o talento de Taylor Swift

Taylor Swift já ganhou a categoria “Álbum do Ano” do Grammy com country e pop (Fearless e 1989). Ela pode levar para casa o terceiro com folklore, que é difícil de encaixar em um gênero musical só. Há elementos tanto do pop como country, mas também folk, indie e Americana. O resultado é encantador, uma mistura rústica que lembra florestas cheias de neblina e fogueiras, cartas de amor manchadas com o tempo e verdades sussurradas.

O que faz de folklore tão extraordinário é a composição das letras. A caneta de Taylor sempre foi uma boa arma da cantora, documentando cada passo de sua vida desde sua adolescência até a superstar de Reputation. Em folklore, entratanto, ela dá um passo a mais, criando seu próprio universo. Um que é simultaneamente pessoal e ficção. A compositora de 30 anos de idade nos presenteia com contos de amor, luxúria e escândalos, e então nos encanta com fluxos de consciência que parecem como partes de seu diário. O fato de que tudo isso se encaixa perfeitamente é a prova do talento de Taylor como curadora (algo que ela não recebe muitos créditos) e a restrição de seus colaboradores.

A sobrevivente de Cats deixa suas intenções bem claras na música que inaugura o álbum. Um hino triste para aquele que foi embora, “the 1” é como um golpe em nós como música. A beleza da produção de Aaron Dessner combinada com a simplicidade sincera das composições de Taylor é suficiente para te tirar o fôlego. Há também uma nova descoberta que vem com a experiência de vida. “Se desejos se realizam, você seria a pessoa certa para mim” é um trecho que não parece com nada com que Taylor já escreveu nos seus outros álbuns, dessa vez há um ato de aceitação em vez de lamentação. Mas não confunda folklore com algo infeliz.

O Single principal “cardigan” é o tipo de música romântica impulsiva que só podia ser elaborada pelo cérebro de Taylor. Eles dizem para matas seus queridos, mas algo me diz que essa música é cheia deles. Enquanto a metáfora com roupas funciona através da força de vontade, os momentos menos chamativos são os que permanecem na mente. “Indo embora como um pai” e “Eu sabia que você iria se assustar com todos meus ‘e se’” em particular, pertencem ao estilo de composição de Taylor.

Quando você pensa que a superstar está prestes a se entregar, ela nos coloca no mundo escandaloso de “the last great american dynasty”, uma música que lembra – por algum motivo que não sei dizer qual – de Speak Now. Pode ser pela imprudência do storytelling, ou pelo prazer que Taylor sente em se colocar no lugar de outra pessoa. Ou talvez seja apenas uma comparação feliz de produção. De qualquer jeito, eu a amo com todo o coração. De uma maneira que eu não consigo achar a mesma coisa de “exile”. A colaboração de Taylor com Bom Iver é surpreendentemente bonita, mas há uma esterilidade que eu acho chocante.

Depois de quatro música extremamente boas produzidas por Dessner, Jack Antonoff assume a posição. “my tears ricochet” é o exemplo das famosas músicas que podem dizer adeus para o topo dos charts mas, digo isso não de forma acusatória e sim anedótica. A única escrita 100% por Taylor Swift é sobre aceitar as cicatrizes emocionais que inevitavelmente aparecem depois que alguém te deixa. Sonoramente, é uma das composições mais interessantes com cordas e camadas de vocais de apoio para criar uma ascensão de emoção.

A próxima é uma das minha favoritas de folklore. “mirrorball” é o cantinho mais sonhador do álbum visto de uma perspectiva. Caindo entre Mazzy Star, e qualquer coisa que esteja tocando no The Bronx no seu episódio favorito de Buffy, essa “balada lenta” te envolve como um quente cobertor. Outra faixa produzida por Antonoff que tem potencial para se tornar um clássico – imagine que há mais de uma no álbum –  é “this is me trying”. Crua, misteriosa e verdadeira, a faixa resume o terror de tentar fazer as coisas darem certo.

O trio divino das produções de Antonoff é completo com “illicit affairs”. Como em “the last great american dynasty”, você encontra Taylor assumindo um papel – só que dessa vez, em ves de se imaginar em momentos românticos, a cantora/compositora se coloca em algo mais sombrio. Ela faz o papel da “outra mulher”, alguém se contentando com momentos em estacionamentos e quartos de hotéis baratos. De certa forma, é um vislumbre de onde Taylor poderia estar musicalmente se ela tivesse ficado com o country. A música deve muito mais a Lucinda Williams, Shelby Lynne e EmmyLou Harry do que qualquer outra artista contemporânea.

Das músicas produzidas por Aaron Dessner da segunda metade do álbum, duas se destacam. A misteriosa e expressiva “seven” podia fazer parte da trilha sonora de The Beguiled, enquanto “invisible string” é reflexão mais charmosa das reviravoltas do destino que consigo imaginar. É um lembrete que embora Taylor  tenha perdido seus óculos cor de rosa em algum lugar ao longo do caminho, ela ainda pode explorar a maravilha de olhos arregalados que tornou seus quatro primeiros álbuns à prova de ódio. É outra música que vai resistir ao tempo.

Há algo incrivelmente libertador e natural sobre folklore, tanto tematicamente quanto sonoramente. Taylor tem a liberdade de seguir a musa que habita em sua mente por caminhos cheios de folhas. Embora algumas paradas são melhores que as outras, nenhuma não é bem-vinda. De fato, é mais fácil listar as coisas que eu não gosto de folklore do que as que eu gosto. As duas últimas músicas parecem uma reflexão atrasada em comparação ao que veio antes delas, e o meio do álbum afunda um pouco. Mas nada disso diminui a tamanha proporção dessa conquista.

Resenha publicada pelo Idolator e traduzida pela Equipe TSBR.





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