27 de julho de 20 Autor: Julia Cardoso
Review: Folklore é a rebelião pop de Taylor Swift

O grande fascínio que envolve Folklore, o oitavo álbum de Taylor Swift, não está na execução firme do álbum, mas na tentativa em si – de que durante uma crise global que paralisou nações inteiras, uma grande artista pop se aventuraria a desviar-se do barulhento Lover e correr para dentro da floresta, fixada em uma reinvenção sônica. Seus fãs ficariam mais do que satisfeitos com um videoclipe simples para seu synth-bop “Cruel Summer”, mas ao invés disso, ela escreveu um álbum furiosamente isolada, lançando uma rebelião orgânica muito além do pseudo-desafio do Reputation e produzindo o álbum que menos levou tempo em toda sua carreira. Para estúdio, ela contou com a colaboração do indie-rock do National, Aaron Dessner, e do já amigo, o produtor Jack Antonoff. Juntos, eles reuniram um fluxo caleidoscópico de consciência, diferente de tudo que se assemelha remotamente ao trabalho anterior de Swift. “Bad Blood” agora parece estar à anos-luz de distância.

Como Taylor pontuou no Instagram, na sexta-feira de manhã, Folklore inclui músicas de “fantasia, história e memória”. “Minha imaginação correu solta”, disse ela.

Taylor veste bem o papel de uma contadora de histórias solene, que está mais confortável do que nunca tecendo suas histórias sem finais felizes (e cuja capa do álbum de inspiração gótica parece uma reminiscência do Opeth). Essa abordagem lembra os tons mais escuros encontrados em The River, de Bruce Springsteen, o álbum duplo que viu Boss abraçar totalmente a ideia de contar histórias em primeira pessoa – uma fórmula que o guiaria por décadas. Swift pode não estar muito atrás.

Mas The River teve “Hungry Heart”, o primeiro single do Top 10 do Boss, enquanto nada do Folklore sugere uma grande vitória no Hot 100. A “vitória” nesse álbum, realmente não importa. Ele flutua muito mais perto da órbita discreta de outra cliente de Antonoff, Lana Del Rey, bem como do álbum mais recente do National, I Am Easy to Find. Dessa vez, Swift se recusou a dar um tempo: não houveram lançamentos sufocantes, nem fãs da platéia à la “ME!” ou “Shake It Off”, que nunca parecem capturar a essência de seus respectivos álbuns. Claro, embora ela não tenha resistido ao desejo de lançar oito edições diferentes de CD e vinil de luxo.

“Cardigan”, o single principal (não que isso importe), é um primo sonoro e lento de “Wildest Dreams”, dirigido por um piano sensível e uma amostra de bateria, acompanhado por um fantástico videoclipe auto-dirigido. A música é uma das três do álbum a examinar um triângulo amoroso, revelou Swift na manhã de sexta-feira, com cada faixa – “cardigan”, o corte cintilante “august” e “betty”. Enquanto os easter eggs patenteados de Swift são muito bons – vasculhe na internet para ler teorias de fãs sobre como o compositor William Bowery provavelmente é seu parceiro, Joe Alwyn – o maior destaque do álbum é “Exile”, seu dueto com Justin Vernon de Bon Iver, que abre a faixa com uma voz profunda. “Acho que já vi esse filme antes e não gostei do final”, lamentam-se quando o arranjo exuberante de Dessner transforma o piano melancólico em um panorama cinematográfico abrangente. É imediatamente uma das colaborações mais impressionantes de Swift até agora, uma sucessora digna de “Safe and Sound”, com Civil Wars.

Ao longo de 16 faixas, o que faz o álbum ter a duração de mais de uma hora, nem Dessner e nem Antonoff ousam ultrapassar a missão que lhes foram entregue, embora mesmo com seus estilos musicais – Dessner sendo geralmente menos linear e Antonoff com um som mais familiar – seja fácil de determinar quem trabalhou no quê. Enquanto Antonoff desenvolveu uma reputação como o príncipe do sintetizador bombástico de Swift, seu toque é notavelmente mais leve aqui, principalmente em “August” e “Mirrorball”, que toca como a última dança esperançosa de um baile de formatura. Somente uma vez Swift explora uma abordagem baseada nas manchetes, na faixa posterior “Epiphany”, que captura um cenário comovente da pandemia do coronavírus: “Filha de alguém, mãe de alguém / Segure sua mão com plástico agora / Acho que ela está desmaiando.” Dependendo de quantas notícias você leu em um determinado dia, pode ser difícil demais ouvir essa música.

“The last great american dynasty” é uma lição de história meticulosa sobre a família Harkness, que viveu na mansão de Swift em Rhode Island. E ela solta os primeiros palavrões de sua carreira, primeiro em “Mad Woman” quando fala “Ela sorri? Ou ela fala: ‘Foda-se para sempre’?” – uau! – e novamente no refrão de “Betty”: “Mas se eu aparecesse na sua festa / Você me aceitaria? / Você me quer? / Você me diz para ir me foder?”

Enquanto o álbum tende a se agitar na metade, Folklore se preocupa muito menos com suas faixas individuais e mais com as conversas contundentes – o tipo de bate-papos com horas de duração e afirmações de sanidade que se tornaram vitais nos últimos quatro meses. Uma reflexão sangra na outra; os temas sonoros mantêm uma coesão brilhantemente abatida. É um disco nascido da necessidade, uma prova de sua profunda necessidade de fazer música, mesmo quando não faz sentido fazê-la. Ela se tornou uma cantora consumada, mesmo que ainda se sinta subestimada, enquanto brinca com “Cardigan”: “Quando você é jovem, eles assumem que você não sabe nada”. Ela está provando o contrário desde que assinou seu primeiro contrato de gravação aos 15 anos, metade de sua vida atrás.

Review publicada pela Spin e traduzida pela Equipe TSBR.





Twitter do site

Facebook do site

Scroll Up