Músicas country e root são comumente usados como sinônimo de ‘seriedade artística’, uma noção  baseada em um fetiche por autenticidade e questões raciais. A implicação de que a música pop seria uma forma inferior de arte tem cercado, nos últimos anos, álbuns de Justin Timberlake, Lady Gaga e Miley Cyrus. Infelizmente, folklore também foi vitima desse julgamento sem embasamento. Swift convocou Aaron Dessner, da banda indie-rock de grande prestígio ‘The National’, para cumprir papel de co- compositor e parceiro de produção- se juntando ao parceiro frequente Jack Antonoff- e eles abraçaram a paleta de cores cinza, a estética visual rústica do projeto.

Então, o que faz que folklore seja tão interessante são as incontáveis maneiras pelas quais Taylor, a artista mais perspicaz e mais auto- consciente da sua geração, antecipe questões em relação a sua ‘boa fé’ e se debruce sobre cada uma das contradições. Ela cria um grau de crítica discursiva que deixa todos com “o que isso significa?”, liberando a cantora para que ela possa fazer a música que ela quer, quando ela quiser. Folklore não é o ápice da carreira de Swift nem uma guinada em outra direção. Ela está fazendo exatamente o que sempre fez: oferecendo uma coleção de músicas incisivas e muitas vezes provocativas que incorporam autenticidade, detalhes de personalidade que deixam outros discutindo sobre as significâncias de cada música.

Folklore coloca Taylor em mais um pico de controle da língua. Enquanto faixas como “Cardigan” e “Invisible String” se baseiam em longas metáforas, “Mad Woman” e “Peace” vão direto ao ponto e sem filtro. Em todas as formas, o que vale a pena mencionar é a precisão de Swift em comunicar exatamente suas intenções. “Eu posso mudar tudo sobre mim para me encaixar” ela canta em “Mirrorball”, um sentimento que é símbolo de sua habilidade de dar dicas sobre interpretações autobiográficas ao mesmo tempo que se distancia dessas interpretações. Se ela comenta sobre seu desejo de estar a par de estrelas do pop da próxima geração como a Billie Eilish, então a questão que obviamente deve suceder é “por que nada no Folklore soa como um single viável a pegar Top 40?” e a resposta vem em forma da estrofe final da música que transborda vulnerabilidade  “ainda estou tentando tudo/ para manter você olhando para mim”.

Em outras palavras, Swift está em um ponto de sua carreira no qual ela sabe que ter sucesso nos Charts é um desenvolvimento “secundário” para ter impacto cultural, e ela tem o cunho de sacrificar os charts em nome do impacto cultural. “All Too Well”-, do Red (2012)- se tornou, com razão, uma de suas músicas características mesmo que nunca tenha sido single, e parece que isso vai acontecer para muitas músicas desse álbum. Todas as faixas do Folklore tem uma estrofe ou verso que é simplesmente extraordinário por seu uso da linguagem, narrativa, empatia ou combinação dos fatores. 

A música de destaque “Seven” primeiramente se coloca como uma nostalgia sobre a infância para que depois revele as complexidades do que perdemos ao crescer : “me imagine na folhagem/ antes de eu aprender a civilidade/ costumava gritar ferozmente/ quando eu queria”. A música também coloca um tom queer na escrita de Swift pela primeira vez, o que aumenta os horizontes de ponto de narrativas já usados por Taylor nos seus anos de carreira. “Illicit Affairs” constrói mudanças de tom na meia oitava,o que parece que vai ser uma das marcas da cantora, até que acaba abruptamente- sem entrar em outro coro- aumentando a sensação de encerramento em sua separação de seu antigo amante. Em vez de amenizar a música ao repetir um refrão ou hook que ficam na cabeça, ela deixa que frases mais duras se mantenham, e isso se torna um dos momentos mais impactantes do álbum. 

Mais tarde, ela canta do ponto de vista de alguém rejeitado em “This Is Me Trying” com frases devastantes como “ você disse que todas as minhas prisões eram mentais/ então eu me embebedei como meu potencial desperdiçado”. A faixa mostra Swift dando credibilidade para as visões dos outros sobre ela, fazendo que seja mais fácil ainda de acreditar no narrador. 

Os primeiros álbuns de Swift foram prejudicados por sua insistência de que a história dela era a única a ser contada – e que, essencialmente, ela era a protagonista na história de todos, e não só na dela.  A mudança de perspectiva no Folklore – uma homenagem à herdeira Rebekah Harkness em “The Last Great American Dynasty”, a frase queer no triângulo amoroso de “Cardigan”, “August” e “Betty” – destacam como a visão de mundo cada vez mais ampla de Swift aprofundou suas habilidades  como compositora.  E mesmo que nenhuma dessas faixas soe como um “hit”, “Invisible String” e “This Is Me Trying” demonstram ainda  a compreensão magnífica que Swift tem sobre estrutura musical.  Seu uso da repetição ao longo do álbum é particularmente eficaz: “The 1” fala “os melhores filmes de todos os tempos” e “os maiores amores de todos os tempos” como fontes de arrependimento, enquanto cada estrofe em “Invisible String” começa com uma frase na voz passiva para criar um distanciamento da narrativa.

O desenvolvimento mais significativo no Folklore é que Swift emprega suas habilidades de composição de longa data de maneiras inovadoras, não quais são suas escolhas de colaboradores ou se o álbum é pop ou alternativo ou electro-folk.  Ela já explorou esse tom melancólico antes, mas nunca durante todo um álbum e certamente nunca de tantos pontos de vista. Não é apenas o peso do assunto que faz o álbum parecer tão vital – é o calibre exemplar de sua composição. Ela pode cantar sobre um potencial desperdiçado, mas o Folklore mostra Swift fazendo jus a todos os elogios que ganhou por suas composições no início da carreira.

Resenha publicada pela Slant Magazine e traduzida pela Equipe TSBR.





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