27 de outubro de 23 Autor: Eduarda Altmann
Leia o prólogo completo do “1989 (Taylor’s Version)”

“Quando eu tinha 24 anos, eu sentei em um camarim de bastidores em Londres. Animada com a antecipação. Minhas cantoras de apoio e meus colegas de banda se juntaram ao meu redor em um círculo espalhado. Tesouras apareceram e eu olhava para o espelho enquanto minhas mechas de cabelos longos e cacheados caíam em montes no chão. Lá estava eu, vestindo minha camisa xadrez de botão, sorrindo animada enquanto meus colegas de turnê e amigos aplaudiam meu corte de cabelo. Essa coisa simples que todo mundo faz. Mas eu tinha um segredo. Para mim, era mais do que uma mudança de estilo capilar. Quando eu tinha 24 anos, eu decidi me reinventar completamente.

Como uma pessoa se reinventa, vocês perguntam. De toda forma que eu conseguia pensar. Musicalmente, geograficamente, antieticamente, de forma comportamental, motivacionalmente…E eu fiz isso de forma alegre. A curiosidade que eu senti nos primeiros murmúrios enquanto fazia o “Red” tinham se ampliado em um batimento de coração incessante em meus ouvidos. Os riscos que tomei quando brinquei com sonoridades pop e maior sensibilidade no Red? Eu queria ir além. O senso de liberdade que senti quando viajava para grandes cidades? Eu queria morar em uma delas. As vozes que começaram a me envergonhar de formas novas por namorar como uma jovem mulher? Eu queria silenciá-las.

Veja só – nos anos que antecederam isso, eu me tornei o alvo de xingamentos pejorativos – a intensidade e a implacabilidade que seriam criticadas se tivessem acontecido hoje. As piadas sobre minha quantidade de namorados, a trivialização da minha escrita em composição como se fosse um ato predatório de uma psicopata louca e gostosa. A mídia sendo co-autora nessa narrativa. Eu tive que fazer isso parar porque estava realmente começando a me machucar.

Ficou claro para mim que, para mim, não existia algo como ‘namoro casual’, ou nem mesmo ter um amigo casual que fosse do sexo masculino com quem você platonicamente passa tempo. Se eu fosse vista com ele, já era assumido que eu estava dormindo com ele, e então eu desisti de sair com meninos. Namorar, flertar, ou qualquer coisa que pudesse ser usada contra mim por uma cultura que clamava acreditar em libertar as mulheres, mas consistentemente me tratava com os duros códigos morais da era vitoriana.

Sendo otimista, eu presumi que poderia consertar isso se eu simplesmente mudasse meu comportamento. Eu larguei mão de namorar e decidi focar apenas em mim mesma, em minha música, meu crescimento, e em minhas amizades femininas. Se eu só saísse com minhas amigas mulheres, as pessoas não poderiam fazer sensacionalismo nem poderiam sexualizar isso, certo? Eu aprenderia mais tarde que as pessoas poderiam, e as pessoas fariam isso.

Mas nada disso importou naquela época porque eu tinha um plano e um comportamento tão confiável quanto uma cesta cheia de filhotinhos de golden retriever. Eu tinha as chaves do meu próprio apartamento em Nova Iorque e tinha novas melodias explodindo em minha imaginação. Eu tinha Max Martin e Shellback, que estavam felizes em me ajudar a explorar essa nova paisagem sônica com a qual estava apaixonada. Eu tinha um novo amigo chamado Jack Antonoff que tinha feito umas faixas muito legais em seu apartamento. Eu tinha a ideia de que o álbum se chamaria 1989, e nós faríamos uma grande referência aos sintetizadores dos anos 80 e compor refrões homéricos. Eu tinha uma fé sublime e inexplicável e eu corri em direção a ela. De salto alto e blusa curta.

Havia muita coisa que eu não sabia naquela época. E, olhando para trás, eu vejo como isso foi bom. Aquela época da minha vida foi marcada por uma boa quantidade de ingenuidade, fome por aventura e um senso de liberdade que eu não tinha provado antes. Acontece que esse coquetel de ingenuidade, fome por aventura e liberdade pode te causar uma ressaca braba, metaforicamente falando. Claro que todo mundo tinha algo a dizer, mas eles sempre terão, mesmo. Eu aprendi lições, paguei alguns preços, e tentei…não dig isso…não diga isso…Me desculpem, mas tenho que dizer: tentei deixar pra lá (shake it off).

Eu sempre serei incrivelmente grata por como vocês amaram e abraçaram esse álbum. Vocês, que seguiram minhas escolhas criativas em zigue-zague e torceram pelos meus riscos e experimentos. Vocês, que ouviram a piscadela e o humor em ‘Blank Space’ e talvez até mesmo tenham sentido empatia pela dor por trás da sátira. Vocês, que viram as sementes da aliança e da defesa por igualdade em ‘Welcome to New York’. Vocês, que sabiam que, talvez, a garota que se cerca de amizades femininas durante o período adulto está tentando recuperar o tempo perdido com a falta delas na infância (sem querer começar um culto de garotas gostosas e tirânicas). Vocês, que viram que eu me reinvento por um milhão de razões, e que uma dessas razões é para tentar meu melhor para entreter vocês. Vocês, que me deram a permissão e a liberdade para mudar.

Eu nasci em 1989. Me reinventei pela primeira vez em 2014, e uma parte de mim foi recuperada em 2023 com o relançamento desse álbum que tanto amo. Nunca, nem em meus sonhos mais selvagens, eu imaginei a magia que vocês colocariam em minha vida por tanto tempo.

Esse momento é uma reflexão das florestas pelas quais andamos e todo o amor entre nós ainda brilhando mesmo no mais escuro dos escuros.

Eu apresento a vocês, com gratidão e uma selvagem admiração, a minha versão do 1989.”





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