29 de julho de 20 Autor: Maria Eloisa Barbosa
“exile” nos lembra que não estamos sozinhos

Será interessante que daqui a uma ou duas décadas, olharemos para trás e veremos os “álbuns da quarentena” ou a “arte na pandemia” como classificações, como por exemplo a classificação que damos para algumas coisas e músicas antigas feitas na “Grande Depressão”. Primeiro, acho que todos podemos concordar que não queremos que esse período tumultuado continue por mais tempo ou mais destrutivamente do que deveria. Mas o isolamento e o tempo de sobra que acompanharam essa pandemia inevitavelmente refletiram na música: como ela é criada, como é compartilhada, como é executada e, sim, até mesmo sua base. Podemos olhar para o aumento de conteúdo na quarentena nos próximos anos e reconhecer que um álbum como o de Charli XCX, how i’m feeling now ou o lançamento surpresa desta semana, o folklore de Taylor Swift, não são apenas álbuns de pandemia, mas talvez um pedaço de arte que só poderia ter sido criado em tempos tão incertos e confusos?

Uma coisa que os últimos meses nos ensinaram é que o isolamento não significa necessariamente estar sozinho. Os artistas – e os seres humanos no geral – precisam procurar, ouvir, trocar ideias, colaborar e precisamos sempre nos lembrar que o melhor de nós geralmente surge com a ajuda de outros. Se a empolgação com a surpresa do lançamento de Taylor Swift durar um fim de semana, um verão ou continuar por tempo indefinido à medida que o álbum cresce em números, esse disco foi, como afirma nossa própria Katie Moulton em sua crítica, “nascido em isolamento”, mas não sozinho. O parceiro de longa data Jack Antonoff retorna, é claro, e, dada a arte do álbum amadeirada (que alguns chamam mais de metal do que folk), parece certo que um colaborador interessado e discreto, como Justin Vernon de Bon Iver, apareça na floresta com Taylor para uma faixa. Depois, há Aaron Dessner, que não apenas co-escreveu e/ou produziu 11 das 16 faixas do álbum, mas também compartilhou e promoveu o lançamento neste fim de semana como se fosse o último álbum do The National. E isso sem falar no misterioso colaborador da Swift “William Bowery”.

Acontece que Swift não está apenas acompanhada aqui, mas sim muito bem acompanhada.

Como o próprio Dessner descreve a experiência, “raramente fui tão inspirado por alguém [Swift], e ainda é difícil acreditar que isso tenha acontecido – essas músicas surgiram em um momento tão difícil”. E, no entanto, apesar da distância e de outros obstáculos, o álbum agora existe. Pode ser apropriado, então, ou até mesmo irônico, que nossa música da semana seja chamada de “exile”, um dueto entre um antigo casal (interpretados por Vernon e Swift), com um dos envolvidos sentindo-se desprezado de uma hora para outra (“E você levou cinco minutos inteiros / Para nos deixar de lado e me deixar com isso”) e o outro sentindo-se extremamente preso (“ Segunda, terceira e centésima chance”) antes da separação. Vernon e Swift dando certo como compositores e trocando versos nessa faixa produzida por Dessner, pode, como Dessner sugere, parecer um pequeno milagre em 2020. Mas ao mesmo tempo em que o ex casal discorda um do outro e estão distantes (distância descrita como exílio) durante toda a música, eles também jogam coisas um no outro (“Você nunca deu um sinal de aviso / eu dei tantos sinais”) nos momentos finais da canção e são forçados a discutir o que aconteceu de verdade. É por isso que olharemos para trás um dia e iremos dizer: “Isso soa como uma música de pandemia”.

Matéria publicada pela Consequence of Sound e traduzida pela Equipe TSBR.





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