A primeira entrevista de Taylor desde seu retorno ao universo da música não foi para promover o reputation, como nós esperávamos — contudo, Taylor fala para a consagrada TIME sobre um assunto extremamente importante: o caso de abuso sexual do qual foi vítima em 2013 que foi a julgamento em agosto deste ano.

Eleita uma das pessoas do ano pela TIME em conjunto com outras mulheres que participaram do movimento digital #MeToo, que denunciou casos de abuso sexual, Taylor conversou com a TIME. Confira as principais partes abaixo:

“Eu estava com raiva.” Taylor Swift conta o que a deu forças para denunciar assédio sexual

— Eliana Dockterman

Antes das denúncias contra Harvey Weinstein, e antes de o #MeToo tomar conta da Internet, Taylor Swift foi testemunha no tribunal no dia 10 de agosto e falou sobre sofrer abuso sexual em uma sala cheia. Swift, que a TIME reconheceu como uma das pessoas a quebrar o silêncio e inspirar mulheres a falarem sobre assédio nesta edição de Pessoa do Ano, concedeu à TIME sua primeira entrevista desde o julgamento.

Em 2013, a cantora e compositora tirou uma foto com o DJ de uma rádio do Colorado após uma entrevista. Durante aquela foto, Swift diz, o DJ David Mueller pôs a mão embaixo da saia dela e a apalpou. Swift denunciou o incidente de forma confidencial à rádio em que Mueller trabalhava, e ele foi demitido. Mueller então processou Swift por difamação; ela o processou de volta pedindo indenização simbólica de 1 dólar–e ganhou.

Swift não se deixou intimidar na bancada. Seu testemunho direto foi elogiado por muitos pela ousadia. Quando a perguntaram por que as fotos do abuso não mostravam a parte da frente de sua saia amassada como prova de que algo estava errado, ela disse simplesmente “porque a minha bunda está localizada na parte de trás do meu corpo”. Quando a perguntaram se ela se sentia culpada por Mueller perder o emprego, ela disse: “Eu não vou deixar você ou o seu cliente me fazerem sentir como se isso fosse culpa minha de alguma forma. Aqui estamos, anos depois, e eu estou sendo culpabilizada pelos eventos infelizes da vida dele que são um produto das decisões dele–não das minhas.”

Como várias das mulheres entrevistadas para a edição de Pessoa do Ano de 2017, Swift não aceitaria ser culpada pelo abuso que sofreu. Seu testemunho lúcido foi um dos vários grandes momentos na conversa sobre assédio sexual este ano. Swift respondeu às perguntas sobre sua experiência por escrito para a TIME.

Por que é importante para você se abrir sobre o que aconteceu?
Em 2013, eu conheci um DJ de uma estação de rádio country famosa em um dos meus meet & greets pré-show. Quando estávamos posando para a foto, ele enfiou a mão por baixo do meu vestido e apalpou minha nádega. Eu me contorci e esquivei para o lado para sair de perto dele, mas ele não soltava. Na época, eu era a atração principal de uma grande turnê de arenas e havia várias pessoas na sala que viram o que aconteceu, além de uma foto do acontecido. Eu concluí que, se ele era descarado o suficiente para fazer isso comigo nessas circunstâncias de alto risco, imagine o que poderia fazer com artistas mais jovens e vulneráveis se tivesse a chance. Era importante denunciar o incidente para a estação de rádio dele porque eu sentia que eles precisavam saber. A estação conduziu sua própria investigação e o demitiu. Dois anos depois, ele me processou.

Como você se sentiu quando testemunhou?
Quando eu testemunhei, eu já tinha passado a semana inteira no tribunal e tinha tido que assistir ao advogado desse homem intimidar, atormentar e constranger a minha equipe, inclusive a minha mãe, por detalhes vazios e minúcias ridículas, acusando a eles, e a mim, de mentir. Minha mãe estava tão perturbada depois de ser interrogada que ela adoeceu e foi fisicamente incapaz de ir ao tribunal no dia do meu depoimento. Eu estava com raiva. Naquele momento, decidi abandonar todas as formalidades de tribunal e só responder às perguntas da forma que as coisas aconteceram. Esse homem não tinha considerado nenhuma formalidade quando me violou, e o advogado dele não se segurou com a minha mãe–por que eu deveria ser educada? Me disseram que foi o maior número de vezes em que a palavra “bunda” foi dita no Tribunal Federal do Colorado em todos os tempos.

Como as pessoas reagiram à sua história?
As pessoas têm dado muito apoio à minha história desde que o julgamento começou, em Agosto, mas antes eu passei dois anos lendo manchetes que se referiam à situação como “O Caso de Pegar na Bunda de Taylor Swift” e trolls da internet fazendo piadas sobre o que teria acontecido comigo. Os detalhes estavam todos distorcidos, como normalmente estão. A maior parte das pessoas achava que era eu que estava processando [Mueller]. Deu pra ouvir o espanto no tribunal quando eu fui introduzida como ré. Quando se espalhou a notícia de que eu estava em Denver lidando com isso, houve uma onda de apoio nas redes sociais e eu o valorizei mais que nunca. Eu falei com a Kesha no telefone e ajudou muito conversar com alguém que tenha passado pelo processo degradante do tribunal.

Depois desta experiência, que conselho você daria aos seus fãs?
Eu diria às pessoas que se encontram nessa situação que há muito da culpa sendo atribuída às vítimas nos casos de assédio e abuso sexual. Você poderia levar a culpa pelo fato de ter acontecido, por ter denunciado, e levar a culpa pela forma com que reagiu. Pode ser que façam você achar que está exagerando, porque a sociedade tornou esse negócio tão rotineiro. Meu conselho é que você não se culpe e não aceite a culpa que os outros vão tentar colocar em você. Você não deveria receber a culpa por esperar 15 minutos, ou 15 dias, ou 15 anos para denunciar abuso ou assédio sexual, nem pelo que acontece com alguém depois que toma a decisão de assediar ou abusar de você.

Esse é um momento decisivo para a maneira com que pensamos sobre abuso e assédio sexual na cultura?
Eu acho que este momento é importante para a conscientização, para a forma com que os pais estão falando com seus filhos, e para como as vítimas estão processando seus traumas, novos ou velhos. Todas as mulheres e os homens corajsos que se abriram este ano chamaram a atenção para problema, deixando claro que esse tipo de abuso de poder não deve ser tolerado. Ir ao tribunal e enfrentar esse tipo de comportamento é uma experiência solitária e exaustiva, mesmo quando você vence, mesmo quando você tem a capacidade financeira de se defender. Mesmo que haja mais conscientização que nunca sobre assédio sexual no trabalho, ainda há tantas pessoas que se sentem vitimizadas, assustadas e silenciadas por seus abusadores e pelas circunstâncias. Quando o júri se decidiu a meu favor, foi decretado que o homem que abusou sexualmente de mim teria que me dar uma indenização simbólica de 1 dólar. Até hoje ele não me pagou esse dólar, e eu acho que o próprio desafio dele é um ato simbólico.

*Entrevista editada e condensada.

A capa da revista já está disponível para download em nossa galeria:

Confira também a fotografia do ensaio concedido por Taylor:





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