26 de julho de 20 Autor: Maria Eloisa Barbosa
Aaron Dessner fala sobre o “Folklore” em entrevista

Assim como o mundo inteiro, Taylor Swift passou os últimos meses em isolamento, dentro de casa, replanejando seus planos, refletindo sobre o passado e imaginando conhecer novas pessoas. Uma delas foi Aaron Dessner, o multi-instrumentista e produtor do The National. A parceria criativa foi responsável por 11 das 16 músicas do Folklore, o novo álbum de Swift.

Dessner já produziu para Michael Stipe, Sharon Van Etten e até para o tributo Day of The Dead, em homenagem ao Grateful Dead, mas esse novo trabalho com Taylor é o destaque. No dia do lançamento, ele nos ligou de sua casa no Hudson Villey para falar sobre o processo, que foi totalmente virtual mas muito colaborativo, soando tão surpreso quanto todos. “Ninguém precisa dizer a Taylor Swift como escrever uma música – e eu certamente não disse”, contou ele rindo. “Mas parecia que íamos lutar um com o outro”.

Qual é a sua relação pessoal com o trabalho de Taylor Swift?

Eu sempre admirei sua habilidade e seu talento. Mas 1989 foi o primeiro álbum que eu realmente ouvi como fã. Meu irmão [Bryce Dessner, guitarrista do The National] e eu estávamos na Islândia com o [artista performático] Ragnar Kjartansson, e ele é muito Swiftie. Foi como se estivéssemos no verão de 1989 e estávamos ouvindo [o álbum] muito alto. Ragnar é um historiador de arte, então ele estava sempre contextualizando os momentos. Foi muito divertido. Foi quando nos tornamos os maiores fãs.

Quando você realmente a conheceu pela primeira vez?

Nós nos conhecemos em 2014, no Saturday Night Live, quando Lena Dunham estava apresentando. E então ela veio nos ver tocar no verão passado no Prospect Park durante uma louca e grande chuva torrencial. Ela estava lá com Antoni [Porowski], do Queer Eye. Ela conversou muito comigo e com meu irmão. Foi quando percebemos o quanto ela era fã e como era adorável e pé no chão. Não conheço muitas pessoas que têm esse tipo de sucesso, por isso é um sentimento agradável perceber que elas são legais. Isso deixou uma boa impressão.

Ela entrou em contato novamente no final de abril. Eu recebi uma mensagem que dizia: “Ei, é Taylor. Você gostaria de escrever músicas comigo?”. Eu disse: “Uau. Com certeza”. Foi resultado dessa época [de pandemia]. Tudo o que tínhamos planejado foi cancelado. Tudo o que ela tinha planejado foi cancelado. Foi um momento em que as ideias que ficavam no fundo da minha mente vieram à tona. Foi assim que começou.

Você participou de 11 das 16 músicas. Como essa colaboração foi acontecendo?

No início de março, Justin Vernon e eu fomos ao Texas para trabalhar no novo álbum do Big Red Machine [banda de Aaron]. Eu estava morando com minha família na França, quando o coronavírus começou a sair do controle na Europa. Eu disse para minha esposa que talvez eles devessem voltar aos Estados Unidos comigo, porque eu estava preocupado em ficar longe. Então, conseguimos as passagens e meus filhos e minha esposa voaram para [a casa da família] o norte do estado de Nova York e eu para o Texas. Fiquei lá por uma semana e, quando voltei ao norte, as fronteiras estavam fechadas e ficamos presos. Eu tenho o estúdio de Long Pond aqui, então ainda tive sorte.

Eu sentei e comecei a escrever uma tonelada de músicas – mais do que nunca. Eu pensei que talvez fossem ideias do The National ou Big Red Machine ou talvez algo totalmente diferente. As coisas estavam acontecendo.

Então, quando [Taylor] me chamou, eu tinha uma grande pasta de ideias. Ela deixou bem claro que não queria que eu mudasse nenhuma das minhas ideias; ela queria ouvir tudo o que era interessante para mim nesse momento, incluindo um som experimental muito estranho. Então eu fiz uma pasta de coisas, incluindo alguns esboços bastante interessantes. Algumas horas depois, ela enviou “Cardigan”, totalmente gravada em uma nota de voz. Foi quando percebi que isso era incomum – o foco e a clareza de suas ideias. Foi bastante surpreendente. Nos próximos meses, isso aconteceria: de repente, eu recebi uma mensagem de voz. E depois outra. Eventualmente, foi tão inspirador que escrevi mais letras especificamente em resposta ao que ela estava escrevendo.

Quando te ocorreu que um álbum estava se formando?

Houve momentos em que começamos a refletir sobre o que estávamos fazendo. As três primeiras músicas que escrevemos foram “Cardigan”, “Seven” e “Peace”. “Cardigan” é provavelmente o mais próximo de uma música pop do álbum. E então “Seven” é uma canção folclórica nostálgica, melancólica e emocional. E então, quando ela escreveu “Peace”, percebi que ela podia fazer qualquer coisa! Ela é tão versátil. É uma música simples mas ela basicamente escreveu uma canção de amor de Joni Mitchell. Ela fez apenas uma gravação e é ela que aparece no disco.

Você estavam muito próximos durante todo o processo? 

Sim. Ficamos praticamente em contato diário por três ou quatro meses, por telefone e mensagens. Parte disso era sobre coisas referentes a produção e reestruturação, mas muito disso também era apenas empolgação. Nós dois sentimos que esse foi um dos melhores trabalhos que fizemos. Foi uma coisa estranha e surreal, especialmente nesse momento.

Em certo ponto do processo, fui aleatoriamente condenado por teóricos da conspiração da direita que me identificaram erroneamente como organizador da Antifa, em Ohio… longa história, mas estava no meio de todo esse trabalho. Eu não queria estressá-la, então não contei a ela. Mas em algum momento ela riu e disse: “Então você é um anarquista notório?” E eu fiquei tipo, “Sim, eu ia mencionar isso”.

Como surgiu a colaboração com Bon Iver em “Exile”? 

Taylor escreveu essa com o cantor e compositor William Bowery. Quando ela me enviou a gravação de voz, ela cantou tanto as partes masculinas quanto as femininas – tanto quanto ela conseguiu sem perder o fôlego. Conversamos sobre quem ela estava querendo que cantasse a música e ela comentou que amava a voz de Justin [Vernon] no Bon Iver e no Big Red Machine. Ela estava tipo, “Meu Deus, eu morreria se ele fizesse isso. Seria tão perfeito”. Eu não queria pressionar Justin (como amigo dele) então eu disse: “Bom, depende se ele se sentir inspirado pela música, mas eu sei que ele te acha radiante”.

Então eu mandei para ele a música e ele gostou bastante. Ele mexeu um pouco e adicionou algumas partes também- a ponte que ele diz “Step right out”, sua partes de coro e o final também. Foi divertido porque Justin e eu trabalhamos juntos em vários projetos, então foi bem natural e fácil. Em alguns momentos eu me senti como um super fã escutando dois de meus cantores favoritos. Tudo estava sendo feito remotamente, mas foi um daqueles momentos que você encosta na parede e fica tipo “Puta merda. Ok”.

Tem um debate entre fãs sobre a identidade de William Bowery- eu não o conheço.

Eu também não. Na verdade, é até engraçado mas, devido ao distanciamento social eu não o conheço. Acho que é um amigo. 

Você sentiu muita pressão trabalhando com uma artista do nível da Taylor Swift?

Eu tentei muito não pensar na magnitude ou escala de fazer um álbum que seria escutado por milhões e milhões de pessoas. Fiz um bom trabalho ignorando isso. Música para mim é uma necessidade emocional. É terapia. É o que eu vivo e respiro. Todas essas músicas são coisas nas quais eu já estava trabalhando, e nós dois sentíamos que havia uma boa coincidência no fato que acabamos juntos nessa situação. E foi nisso que eu me foquei, em fazer o nosso máximo.

Enquanto nos aproximávamos do lançamento, quase achei que não ia acontecer. Talvez eu só tenha falado isso para mim mesmo! Os meninos do The National te dirão a mesma coisa- eu tendo a trabalhar até o último minuto. Eu não tive muito tempo para ficar “meu Deus, as pessoas vão escutar isso”. A gente até brincou sobre isso noite passada. Eu disse “Então, aconteceu mesmo?” e ela respondeu “Yep!”.

Como foi trabalhar sob segredo total?

Não teve nenhuma influência externa. Na verdade, ninguém sabia, inclusive a gravadora dela, até algumas horas antes do lançamento. Para alguém que está nos holofotes há 15 anos, é muito libertador ter um pouco de privacidade para trabalhar sobre suas proprias condições. Ela merece isso. Em alguns momentos, se eu queria amigos para tocar no disco, era meio difícil porque eu não podia mandar uma gravação com a voz dela. Mas todo mundo foi tranquilo. No fim, acabei indo atrás de um “feiticeiros” para darem uns retoques, e foi legal. Foi divertido, ouvir, “O que é isso? Por que você não pode me contar, Aaron?” e ai eles começaram a tentar adivinhar. Transformaram isso em um jogo.

Teve alguma música que foi cortada? 

Existem algumas coisas que eu sinto que poderiam se tornar músicas. Tenho a sensação de ser uma colaboração ainda em andamento. Agora Taylor está começando ajudar em outras coisas. Estamos trocando ideias, tanto da Big Red Machine ou outras coisas. Tem um aspecto comunitário. Acho que é assim que a música deve ser.

Entrevista feita pela Pitchfork e traduzida pela Equipe TSBR.





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