Taylor Swift surpreendeu seus fãs na manhã dessa terça-feira, 28 de abril, com uma entrevista de trinta minutos para a The New York Times em sua edição sobre os 30 maiores compositores. Nela, a cantora abriu o coração sobre seu processo de criação e escrita, seu começo muito baseado nas estruturas musicais da música country e como gosta de montar narrativas que surpreendam os ouvintes com reviravoltas ou quebras da quarta parede. Abaixo, a tradução completa da matéria – o vídeo pode ser assistido clicando aqui.

Fonte | Tradução e Adaptação: Equipe TSBR.

Ela nunca deixou de perseguir aquele impulso inicial de Nashville — uma destilação de cerca de quatro minutos dos sentimentos mais intensos imagináveis, entrelaçada em uma melodia que não te deixa em paz. Às vezes, ela traz frases desde o country até o eletropop, ou do rigor pop até o indie rock; pode deixar suas rimas e versos mais despojados ou trazer uma ponte de volta como um refrão. Essas são as vantagens de ter dominado o gênero desde cedo, enquanto acumulava o capital cultural para reinventar o pop à sua imagem.

Estrelas pop não deveriam durar tanto tempo ou criar tanto. Toda a produção criativa dos Beatles aconteceu, essencialmente, em oito anos. Mas a durabilidade de Swift — 12 álbuns de estúdio e centenas de músicas ao longo de duas décadas — nos deu uma combinação sem precedentes de autoria musical e sucesso comercial.

Seus trabalhos mais recentes frequentemente exploram a tensão entre os dois. Ela tem um repertório irônico e sarcástico para frases de efeito ácidas — “lights, camera, bitch, smile / even when you wanna die” (luzes, câmera, vadia, sorria / Mesmo quando você quer morrer”, ela canta na falsamente animada “I Can Do It With a Broken Heart”. Mas na obra-prima dream-pop “Mirrorball”, tudo se resume a uma reflexão sincera do topo da montanha: “Eu posso mudar tudo em mim para me encaixar”.

A mais recente fase de domínio de Swift, a sequência que lhe rendeu mais dois Grammys de álbum do ano (e quatro no total, um recorde), começou com o sucesso inesperado de “Folklore” e seu álbum irmão, “Evermore”, durante a pandemia. Simultaneamente, Swift estava meticulosamente recriando quatro de seus álbuns anteriores para torná-los exclusivos. O fervor coletivo em torno dos álbuns “Taylor’s Version” levou uma versão estendida de 10 minutos da balada de término de relacionamento “All Too Well”, lançada há quase uma década, ao primeiro lugar na parada da Billboard em 2021, simplesmente porque muitos ouvintes queriam ouvir ainda mais de uma música que os fazia sentir magoados, abandonados e devastados.

Swift fez tanto quanto qualquer outra pessoa na história da música popular moderna para promover a ideia da canção — sua construção e impacto, suas tensões e limitações — como uma importante forma de arte. Mas ela também fez isso dando destaque à autonomia e à vida emocional de mulheres jovens e, como resultado, tornou-se provavelmente a escritora mais analisada — ou pelo menos está no mesmo patamar que J.K. Rowling e o Papa — do século XXI em qualquer meio. — Joe Coscarelli

Ainda é um baita mistério para mim. Mesmo que eu esteja escrevendo músicas por tanto tempo, e eu comecei e terminei músicas de formas muito diferentes, elas passam por muitas jornadas. Elas acontecem de forma rápida ou acontecem conforme o tempo passa. Elas foram inspiradas pela minha vida, por mitologia, por fábulas, por livros, por filmes, por personagens, por avisos, lições. E elas nunca acontecem exatamente no mesmo jeito e eu ainda não entendo como isso funciona.

Eu tenho essa forte opinião de que, quando você é jovem, você sente as coisas em um nível muito intenso e detalhado. Há uma atenção ao detalhe quando você está entre os 17 e 22 anos, e você está com ansiando algo, ou estendendo a mão e agarrando mas nunca segurando a atenção, o amor ou a dedicação de alguém, e você apenas não consegue entender porquê passa o dia todo pensando nisso. Você nota tudo. Você nota cinzas de velha no punho da camisa, e os botões…tudo que cria a mitologia desses sentimentos intensos que você tem. E eu sempre tentei, sem ser uma adulta completamente descontrolada, manter esse nível de intensidade e detalhe quando se trata de tentar descrever um sentimento.

Eu comecei a compor quando tinha 12 anos. Assim que meu amor por cantar e pegar um instrumento aconteceu, a composição espontaneamente começou a se tornar a pedra angular da minha vida.

PRIMEIRAS INFLUÊNCIAS

Eu acho que as primeiras músicas pelas quais me apaixonei foi o tipo de composição pelo qual o folk e o country são conhecidos. É aquela estrutura de contação de história. Músicas como, “Harper Valley P.T.A.” ou “Goodbye, Earl” das Dixie Chicks, ou qualquer música incrível de Kenny Chesney onde uma estrutura hipotética seria, tipo, primeiro verso, garotinha aprende uma lição que, no refrão, sua mãe a ensina, e a garotinha cresce e agora ela é adolescente, e ela percebe, ‘oh meu Deus, minha mãe estava certa sobre isso”. Na segunda vez que você escuta o gancho, o mesmo gancho, agora significa algo um pouco diferente porque ela cresceu na vida, e aí, na ponte, ela segue na vida, tem uma filhinha, e passa essa sabedoria para ela. E se você realmente quer me fazer chorar, traz de volta a exata primeira frase da música e termine a canção com ela. Então essa foi a primeira coisa que me fez pensar que tinha que ser música country. Esse foi o primeiro tipo de música pelo qual me apaixonei, mas em relação o lirismo…eu fui intensamente impactada por música emo. Dashbord Confessional, Chris Carrabba, Fall Out Boy, as letras do Pete Wentz… como eles pegam uma frase comum e enfiam a faca e giram ela nessa frase, sabe? Tipo, “I’m just a notch in your bedpost but you’re just a line in this song” (“eu sou apenas um entalhe na sua cabeceira de cama mas você é só uma linha nessa canção”, da música “Sugar, We’re Going Down”, da banda Fall Out Boy). “Drop a hear, break a name” (“derrube um coração, quebre um nome”, da mesma canção). O comum é “Drop a name, break a heart” (“derrube um nome, quebre um coração”), mas eles trocaram…esse é o tipo de letra que eu leria – ou a especificidade de “Hands Down”, do Dashboard Confessional, onde eu leria essas letras e terminaria de ler e ficaria tipo, “oh, meu Deus!”.

CONTAÇÃO DE HISTÓRIAS DE NASHVILLE

Eu assinei um contrato de publicação quando tinha 14 anos. Fui contratada por um cara chamado Arthur Buenahora na Sony, e ele apenas acreditava que eu tinha uma perspectiva que importava. E eu, na verdade, pedi que impedisse que minhas canções fossem usadas por outros artistas. Eu falava, “apenas me dê um tempo para eu encontrar um contrato com uma gravadora. Vou tentar muito”. Eu poderia quase comparar isso com o Brill Building. Eles têm esses escritórios na Music Row, ou pelo menos tinham bastante naquela época, que eram tipo casas pequenas no estilo bangalô, agora temos prédios altíssimos. Basicamente, você ia lá e encontrava três compositores compondo nessa sala, três compositores nessa outra, quatro naquela outra ali…e eu apenas ia para a escola, depois minha mãe me dirigia até o centro da cidade por 30 minutos e eu tinha uma sessão de composição com alguém que eu nunca vi antes. Mas eu não queria parecer despreparada. Então eu entrava na sala com quatro ou cinco canções quase finalizadas, duas meio finalizadas, dez ganchos. Eu nunca quis que as pessoas pensassem algo do tipo, “tá, essa é uma criança que acha que consegue achar seu caminho na Music Row e escrever canções com esses compositores de sucesso”. Mas acho que uma das minhas coisas favoritas sobre a cena musical, country music e a contação de histórias de Nashville da forma como era quando cheguei lá – tinha essa tradição de quebrar a quarta parede, fazer uma música, ou a composição, ser parte da música. Eu fiz isso em uma música chamada “Tim McGraw”, onde eu canto sobre esse amor perdido e sobre a esperança de que essa pessoa pense em mim, e aí na ponte é revelado que eu escrevi essa canção e espero que ele a escute. A canção “Our Song”, que eu ainda amo tanto, é sobre esse romance e esse relacionamento, e no final fala: “I grabbed a pen and an old napkin and I wrote down our song” (peguei uma caneta e um velho guardanapo e escrevi nossa canção”). Eu amo fazer isso. Ainda amo. Algo do tipo “…e era eu!”. Meu plot twist favorito, daqueles que fiz em composição, está no final de “The Last Great American Dynasty”. É o meu favorito. É muito divertido contar a história dessa mulher real que viveu na história, e ela desafiou normas sociais, e levou pessoas à loucura, e ela se divertiu muito arruinando tudo. E você fala sobre a casa que ela morava na praia, e aí basicamente, no final, você diz que ela se mudou da Casa de Veraneio que hoje está quieta naquela praia, livre de mulheres loucas, seus homens e maus hábitos, e aí foi comprada por mim. Sempre que eu chegava nessa parte, quando eu cantava na turnê, eu queria que meu sorriso fosse de orelha a orelha, mas isso seria loucura. Então eu tinha que segurar minha animação quando esse gancho acontecia.

AS PESSOAS NÃO LIGARAM PARA ESSA MÚSICA

Eu aprendi que você não consegue saber realmente se as outras pessoas vão gostar, mas frequentemente quando eu amo algo em um certo nível, isso tende a combinar com a opinião das pessoas e pode ser que não combine mais com a forma como as pessoas se sentem seis anos depois. Eu amei o álbum “Reputation”. Eu fiquei tipo, ‘tá, falem o que quiserem, eu sei o que eu fiz. Eu amei isso”. Tipo, vá com Deus. Desculpa. Chega junto se quiser. E está tudo bem se não quiser. E aí, sabe, seis ou sete anos depois as pessoas ficam tipo, “oh meu Deus!”. Tipo “…Ready For It” – as pessoas nem ligaram pra essa música. Eu lembro de querer meter a cabeça na parede. Eu senti isso quando escrevemos “…Ready For It”, senti quando escrevemos “Getaway Car”. Eu acho que a primeira vez que senti essa coisa de, “eu não ligo se as pessoas odiarem isso, porque eu amo”, foi quando eu compus “Love Story” quando tinha 17 anos, sentada no meu quarto, brava com meus pais porque eles não queriam deixar eu ir em um encontro com um cara que era mais velho, então eu não deveria ir em um encontro com ele de qualquer forma. E é por isso que você precisa disciplinar seus filhos porque eles talvez componham músicas que cheguem ao primeiro lugar.

COMPONDO SOZINHA

Quando eu compus “Speak Now”, eu tinha 18, 19 anos, e estava saindo de um grande momento que eu tive com um álbum chamado “Fearless”, e eu tinha ganhado “Álbum do Ano” no Grammy. Foi a primeira vez que houve esse grande debate sobre se eu merecia estar lá. Sempre haverá debates assim, sabe? Mas esse era novidade, e discussões assim podem te levar a um lugar muito ruim se você não fizer algo sobre isso e provar que, não, não foram os meus co-compositores que fizeram todo esse trabalho e sim, eu sou a autora de todo esse trabalho do qual eu tenho tanto orgulho. Eu escrevia tantas músicas sozinha e eu amo colaborações, mas não era algo que eu precisava. Quando comecei a confiar em mim como editora, porque muito do que faço em uma sessão, até mesmo hoje em dia, e uma das razões pelas quais a Liz Rose e o Jack Antonoff se tornaram pessoas com quem eu amo escrever, é porque eu vou ter essa correnteza de consciência jorrando pra fora, e a Liz senta com seu bloquinho anotando, mas quando você remove isso, eu apenas comecei a gravar tudo em “voice memos” porque haverá momentos que eu estou muito em fluxo e escrevendo tão rápido que não tem a menor chance de eu lembrar qual era a melodia que eu fiz dois minutos atrás e que eu achei que ia ficar legal com o verso. Esse foi um álbum muito importante pra mim em termos de me tornar a compositora que eu sabia que poderia, e confiar na minha intuição.

TRUQUES DE LINGUAGEM

Eu tenho pequenas coisas fonéticas. Amo aliterações, eu amo duas palavras que começam com a mesma letra. Eu amo isso. Eu não gosto de ter uma palavra que termine com a mesma letra que começa a próxima palavra. Por exemplo, em “Our Song”, era pra ser, “when you’re on the phone and you talk real low”, mas eu não gosto de “real” e “low” juntos (porque terminam e começam com a letra ‘L’), então mudei para “talk real slow”. Certas palavras apenas voam para mim e eu acho que uma das razões pelas quais eu amo pegar frases ou coisas que você ouviu em filmes ou viu em livros, tipo essas frases clássicas, e ressignificá-las, invertê-las ou redefiní-las de alguma forma é porque eu amo a combinação de vernacular moderno e mundo antigo, ou discurso clássico atemporal. Na música “The Fate of Ophelia”, tem uma espécie de terminologia moderna e frases comuns do jeito que falamos hoje em dia. Mas também tem a ponte, uma linha que vem de Hamlet que eu ressignifiquei. Eu gravito em direção à justaposição e polaridade em uma linha, sabe? “So hey, what could you possibly get for the girl who has everything and nothing all at once?”, de Elizabeth Taylor, “Our coming of age has come and gone”, de Peace. Você pega uma palavra que está no começo da frase e então você pega o oposto dela, porque estamos todos cheios de polaridade, hipocrisia, esse tipo de batalha e fatores que criam nossas personalidades. Eu tenho meu celular e eu tenho esse arquivo onde eu apenas sinto que…eu sei que eu gosto disso, ou gosto daquela palavra, ou gosto daquela questão. E aí, quando entro em sessão, não tenho rede social no meu telefone, e parece que eu to apenas passando por páginas infitivas, mas estou passando por páginas de palavras e palavras do meu arquivo. Se estamos no meio de uma sessão de composição, eu procuro pela frase perfeita que eu pensei há 4 anos às 3 da manhã.

PONTES

Eu acho que a importância, pra mim, de uma ponte, é que parece que estamos pintando um quadro. Nós definimos a cena, temos essa oportunidade como compositores de contar uma história completa, um filme completo ou uma descrição bem detalhada de uma cena em um filme ou uma dinâmica cheia de nuances entre pessoas ou sobre uma emoção complicada. E temos um tempo limitado para fazer isso. Sabe, eu já escrevi canções bem longas na minha vida, mas pela maior parte, elas têm entre três minutos e meio a quatro minutos. Você pode começar a pintar o quadro no verso. Você pode chegar no coração disso no refrão, mas então a ponte pode ser onde você retrocede, dá uns 20 passos pra trás e vê o que esse quadro completo deveria ser. Você já viu as pinceladas, os tons das cores, mas a ponte pode ser quando você dá um passo pra trás e sente tudo que aquela obra de arte deveria fazer você sentir.
É assim que eu me sinto sobre pontes musicais. Eu cresci como compositora em Nashville, onde estrutura é uma parte enorme de como você conta uma história de forma eficaz, certo? Você faz verso, refrão, segundo verso, refrão, ponte, refrão. Você repete aquele primeiro verso se quiser mexer com as emoções, se fizer sentido. Isso é algo em que eu absolutamente acredito: a ideia de que estrutura é importante. Mas acho que, quando você escreve músicas o suficiente — pelo menos no meu caso — a parte intuitiva do seu cérebro de compositora pode meio que criar uma nova estrutura que não seja tão clássica quanto aquilo que te ensinaram. Tipo, Jack Antonoff é um colaborador meu e um dos meus melhores amigos. Nós criamos essa coisa que adoramos fazer e chamamos de “rant bridge”, a ponte raivosa. Eu poderia apontar exemplos como “Out of the Woods”, “Is It Over Now?”, “Cruel Summer”. E muitas vezes adoramos essas rant bridges, em que basicamente é como um fluxo de consciência, um despejar interminável de emoção, pensamentos intrusivos misturados com metáfora, conversa, gritos. Você quer que essa rant bridge pareça a parte mais intensa daquele sentimento que está tentando construir ao longo da música, e quer que ela seja um crescendo. Normalmente gostamos tanto delas que depois as trazemos de volta. Então fazemos verso, refrão, verso, refrão, rant bridge, às vezes um pequeno pós-coda dessa rant bridge. Verso, refrão, trazemos a rant bridge de volta, talvez com os acordes do refrão por baixo.

TENTAR, TENTAR, TENTAR

A ponte de “Mirrorball”… isso foi o Jack me mandando uma faixa durante a pandemia do COVID-19 e eu imediatamente sabendo que precisava ser sobre como eu me sentia como performer e artista naquele momento em que entretenimento e arte tinham efetivamente parado. Mas, ao mesmo tempo, sabe, sendo uma pessoa pública, eu realmente comecei a perceber que você é um espelho. Tipo, você é um espelho para seus fãs, para a mídia, para as pessoas na internet, para pessoas aleatórias, pessoas que nem ligam tanto para sua música, mas sabem quem você é. Como quer que elas se sintam sobre si mesmas e sobre a própria vida, isso vai ser projetado na forma como elas percebem você. Uma pessoa pública que faz arte é uma bola de espelhos. E isso é parte do motivo pelo qual consegui manter a cabeça no lugar durante tudo isso, porque eu sei disso. E estou realmente bem consciente dessa dinâmica, mas ainda sou infinitamente fascinada pelas pessoas, pela experiência humana, pelo motivo de as pessoas serem como são, pelas formas como sentem emoção. É isso que nos mantém conectados, mesmo que, sabe, você possa fazer essas confissões chocantemente vulneráveis dentro de uma música, dizendo: “Eu nunca fui algo natural. Tudo o que faço é tentar, tentar, tentar.” E você diz isso no começo, e eu lembro de escrever isso e pensar: “Meu Deus, isso parece… tipo, você quer mesmo dizer isso?” E eu pensei: na verdade, sinto que muita gente se sente assim. Isso sempre supera meu desconforto quando uma linha parece verdadeira demais, porque eu realmente não acho que exista algo verdadeiro demais.

UM DESABAFO MUITO EMOTIVO

Toda a questão com “All Too Well” foi que aquilo era um desabafo muito emocional que eu fiz durante uma passagem de som. Estávamos ensaiando para a Speak Now Tour. Eu estava muito triste de um jeito que, sabe, quando você tem tipo 21 anos, você simplesmente está dolorosamente… você é assim. A tristeza é você. Você é a tristeza. Eu simplesmente, em uma pausa, comecei a tocar os mesmos quatro acordes repetidamente. Basicamente são os mesmos quatro acordes repetidos durante a música inteira. E aquilo virou uma coisa em que eu simplesmente comecei a divagar. E isso continuou por muito, muito tempo. Foram mais de 10 minutos desse desabafo sem parar. E não era coeso, nem muito estruturado. Mas depois pareceu que minha mãe ou alguém foi até o técnico de som e perguntou: “Por acaso você gravou alguma coisa disso?” E ele respondeu: “Sim, gravei.”. E eu teria ido embora e deixado aquilo para trás se ele não tivesse uma gravação. Então voltei e ouvi, e pensei: “Ah, aqui está esse desabafo de 10 minutos, basicamente uma catarse de emoção intensa.” Tinha algumas partes realmente furiosas e cortantes em que pensei: “Vou ter que transformar isso em uma música um pouco mais palatável”, porque eu já me sentia tão exposta lançando aquela música tão detalhada como era. Então ela foi para o mundo. Essa música não causou muito impacto nos primeiros seis meses a um ano. Mas então os fãs fizeram uma coisa que já fizeram algumas vezes: essa música simplesmente continuou crescendo. Eles fizeram isso também com “Cruel Summer”, quando basicamente disseram: “Não, nós gostamos dela.” Não importa se uma gravadora quer lançá-la ou não. Nós amamos essa. Então acabei apresentando a música no Grammy Awards. Cometi o erro de meio que explicar, em uma entrevista, como a música surgiu. Acabou sendo um erro muito feliz, que depois virou algo como: “Ainda bem que isso aconteceu.” Mas durante anos os fãs diziam: “Nos dê a versão de 10 minutos.” E eu fiquei voltando aos diários e encontrando pequenos fragmentos dela. Eu já não tinha mais a gravação antiga. Então procurei em cofres, tentando achar o CD, mas tive que voltar e reconstruir letras e outras coisas. Mas esse foi o processo de restauração mais extenso que já fiz em uma música. Acho que nunca mais vou viver algo assim.

COMO AS MÚSICAS COMEÇAM

Existem muitas formas diferentes de uma música começar no meu mundo. Vou dar como exemplo a música “Elizabeth Taylor”. Estou andando de carro com Travis Kelce, e fico falando sem parar para o Travis sobre por que amo tanto Elizabeth Taylor. Ela lutou pelos direitos dos artistas. Foi explorada de tantas formas e, ainda assim, manteve sua humanidade. Manteve seu humor. Manteve sua paixão pela vida. Eu continuo falando sem parar. Digo: “Os olhos dela eram violetas.” Algumas pessoas diziam que eram azuis. Outras diziam que eram violetas. Eu acho que eram violetas. Então chegamos em casa, ele sai do carro, e eu continuo na minha cabeça com essa melodia insistente: “Eu choraria meus olhos até ficarem violetas, Elizabeth Taylor.” E eu saio correndo para abrir o aplicativo de gravação no meu celular. Esse é um daqueles momentos espontâneos em que a ideia desce como uma nuvem na sua frente, e tudo o que você precisa fazer é agarrá-la. E a música nasce a partir dali. Ela surge como se viesse do nada. Esse é um jeito muito divertido de músicas surgirem. É assim que acontece na maior parte do tempo. Outra forma de uma música acontecer é quando alguém, um produtor com quem adoro trabalhar, como Aaron Dessner ou Jack Antonoff, cria um instrumental, me manda, e imediatamente eu escrevo o que se chama uma top line por cima. Isso é a melodia vocal e a letra. Outra forma de escrever músicas é quando você está na sala com seu colaborador e um de vocês começa a tocar alguma coisa. Por exemplo, quando Jack Antonoff começou a tocar uma parte no piano e aquilo virou a música “New Year’s Day.” Aquela parte de piano já foi suficiente para impulsionar a música inteira. Sessões de composição são uma forma de escrever que eu adoro, porque todo mundo está na sala, todos trazem ideias, todos participam. Eu sempre sigo a regra: que a melhor ideia vença. Não importa se veio de você, de você ou de mim. Se for melhor, é isso que entra na música. Eu até gosto quando as pessoas me contestam em alguma coisa, porque nunca quero estar em uma sala com criadores que tenham medo de dizer que têm uma ideia melhor, ou de discutir comigo, achando que só a minha ideia vai prevalecer. Eu nunca vou crescer assim.

CONFISSÕES

Acho que a década de 2010 foi um período para mulheres na indústria do entretenimento sobre o qual ainda vamos falar muito. Todas nós ainda estamos mancando depois disso. Acho que hoje as conversas estão bem mais saudáveis em torno da diferença entre arte e simplesmente ir desabafar numa live do Instagram. Existe uma diferença. Isto é uma música. Isso exige técnica. Isso exige habilidade. Isso exige experiência. Mas também fico realmente animada porque sou uma enorme fã melancólica da composição dele, e as letras dele são intensamente confessionais. “Eu não quero que o filho de outro homem tenha os olhos da garota que eu não consigo esquecer.” Está brincando comigo? Ter um artista homem dizendo coisas assim é muito bom para a causa de mulheres poderem dizer coisas também. Se houver alguma forma de tornar a composição confessional algo que não seja visto como “você está sendo bagunçada” ou algo assim, então é preciso ser justo com todo mundo. Brigas no rap são bagunçadas ou são confessionais? Precisamos transformar isso em uma conversa sobre música, em vez de simplesmente pegar no pé das artistas mulheres. E acho que quanto mais artistas homens forem bagunçados, emocionalmente complexos, confessionais ou revoltados, mais feliz eu fico.

NARRATIVAS

Só posso falar por mim, mas conforme fui amadurecendo, a intensidade daquela natureza — sem trocadilho intencional — de “mensagem numa garrafa” da minha composição mudou e se transformou em outra coisa. Antes era tipo: eu não consigo dizer a uma pessoa como me sinto, então vou escrever isso nesta música. E isso foi muito importante para mim na época em que era importante. Também é importante quando você está no começo dos 20 anos e existe alguém com quem você não deveria falar, e você não quer ligar para essa pessoa porque ela faz mal para você e a relação é tóxica, então você simplesmente escreve isso na música e é ali que aquilo passa a existir. Quase como um método de autocontrole, autopreservação ou algo assim. Mas no álbum “Folklore” e em tudo relacionado a isso, não foi exatamente uma resposta a ter uma vida pública e às invasões que vêm com isso. Foi muito mais um desejo de me desafiar como compositora. Eu sempre achei que seria incrível escrever livros. É muito empolgante ter o desafio de pensar: será que consigo colocar pontos de enredo suficientes em uma música de três minutos e meio para que as pessoas sintam que leram algo depois de ouvi-la? Ou simplesmente levá-las de volta àquela sensação de história de ninar, tipo “me conte uma história”. Quero ser capaz de colocar minha própria imagem nesses personagens. Foi realmente incrível quando isso expandiu o meu mundo. Acho que minha composição nunca mais foi a mesma depois de folklore. Desde então sempre tive um pouco dessa brincadeira com personagens nas minhas músicas, e espero que isso nunca desapareça, porque é muito divertido.

SOBREVIVENDO A INDÚSTRIA

Eu gosto de ser uma narradora que não é necessariamente a pessoa com quem me identifico. Então, a narradora em Clara Bow é ou alguém de um estúdio de Hollywood, ou um executivo de gravadora que está sentado na minha mente atrás de uma mesa, conhecendo uma nova estrela que acabou de chegar à cidade. O executivo diz: “Você se parece com Clara Bow nesta luz. É impressionante. Você é tão especial. Você é incrível. Vamos transformá-la nela.” Na minha cabeça, aquela garota era Stevie Nicks, certo? Então Stevie Nicks se senta. Dizem a ela que ela se parece com Clara Bow. Ela tem aqueles grandes olhos de lua e vamos transformá-la nela. Não se preocupe. Vamos colocá-la nessa máquina e você será uma deusa. O segundo verso diz: “Você se parece com Stevie Nicks nesta luz, o cabelo e os lábios.” Então, na minha cabeça, era eu quem se sentava do outro lado daquela mesa, certo? Eu me sento diante de uma gravadora e eles dizem: “Você se parece com Stevie Nicks. Vamos fazer de você a próxima Stevie Nicks.” E, basicamente, você aprende que está dentro dessa máquina, e eles estão tentando transformá-la em uma mulher que antes idealizaram e depois descartaram. A indústria do entretenimento bombardeia mulheres com amor, certo? “Nós amamos você.” “Nós nem sabemos quem você é.” “Por que você está aqui?” E então, no último verso, na minha cabeça, é uma nova artista que se senta diante da mesa da gravadora, e eles dizem: “Você se parece com Taylor Swift nesta luz. Estamos adorando. Você tem atitude. Ela nunca teve. O futuro é brilhante, deslumbrante.” Porque isso também é outra coisa que você recebe quando é mulher na música ou na indústria do entretenimento, cinema, seja o que for. É tipo: “Ah, você é como essa pessoa de quem gostamos.” Eles citam um grande nome e depois dizem: “Ah, mas você vai ser muito melhor.” “Vai ser tão… não, não, não… vai ser mais legal.” “Você vai ser muito melhor.” Como uma forma de amenizar a comparação. No álbum Red, havia uma música que escrevi sozinha em um quarto de hotel quando tinha 22 anos, chamada Nothing New. Parece ridículo, mas aos 22 anos eu me sentia completamente ultrapassada. Eu sentia que talvez a única coisa que me tornava especial era ser aquele fenômeno adolescente, seja lá como me viam. Então escrevi essa música, e ela inclui versos como: “Como uma pessoa pode saber tudo aos 18 e nada aos 22?” Porque quando eu tinha 18 anos, o álbum Fearless foi lançado, e eu tive meus primeiros números 1 internacionais. E todo mundo dizia: “Essa composição… é tão verdadeira, é tão honesta, ela parece merecer estar aqui.” E então houve uma grande reviravolta de: “Não, ela não merece.” “Na verdade, ela é horrível.” E isso realmente virou minha percepção de cabeça para baixo, de como o amor pode ser entregue a você tão rapidamente e depois retirado. E existe essa relação estranha com a fama. Foi a primeira vez que enfrentei isso. Alguém disse: “Ah, você tem 22 anos e está cantando tipo, “cocês já se cansaram de mim?” “Se ainda não se cansaram, vão se cansar?” Porque normalmente isso seria algo sobre o qual você cantaria mais tarde na vida. Mas a indústria do entretenimento, vou te dizer, dá dez anos para…Cada ano em que você está nela vale por dez. Mas é divertido.

NÓS QUEREMOS SUA ARTE

Compor músicas é algo muito íntimo, uma coisinha pequena e pessoal para mim. Tenho muitas coisas de que gosto. Gosto de cozinhar. Gosto de fazer arte. Gosto de pintar. Gosto de costurar. Gosto de escrever músicas. E tento manter isso tão precioso para mim quanto essas outras coisas que acabei de citar. Eu preciso saber que existem certas tradições entre mim e meus fãs. Eles adoram que uma música emocional seja a faixa cinco. Existem coisas especiais assim. Mas, ao mesmo tempo, também existem… Muitos deles agora, o que é ótimo, mas há partes da minha base de fãs que levam as coisas para um nível realmente extremo. Não há nada que eu possa fazer sobre isso. Existem pessoas que tentam fazer trabalho de detetive, descobrir os detalhes. “Sobre quem é isso?” “O que significa isso?” Quando fica um pouco estranho para mim é quando as pessoas agem como se fosse um teste de paternidade: “Essa música é sobre aquela pessoa.” Porque eu penso: aquele cara não escreveu a música, fui eu. Mas isso faz parte. Você precisa se agarrar à sua própria percepção da sua arte e da sua relação com ela. E depois meio que precisa soltar: “Lá vai ela.” “Espero que gostem.” “Se não gostarem agora, espero que gostem daqui a cinco anos.” “E se nunca gostarem, eu estava fazendo isso por mim mesma de qualquer forma.” Sim, a crítica foi um enorme combustível para mim. Foi um grande ponto de partida, como uma proposta de escrita criativa ou algo assim. Existem muitas músicas na minha carreira que não existiriam. Blank Space não existiria se não houvesse pessoas dizendo: “Aqui está a lista de todos os namorados dela.” E Anti-Hero é uma música da qual ainda me orgulho muito. Essa música não existiria se eu não fosse criticada por todos os aspectos da minha personalidade que as pessoas, sabe, têm problema ou algo assim. Minha coisa favorita quando sento com novos artistas ou compositores é perguntar: “Por que você está lendo seus comentários?” Isso é demais. Você está se inundando com críticas demais que nem têm foco real. Mas acho que um pouco disso, você precisa aceitar e pensar: “Isso faz parte.” Não deixe isso fazer você parar de escrever ou censurar a si mesmo. Se houver um ponto interessante ali, algo ao qual você queira responder, então isso é um presente para você poder escrever alguma coisa. Talvez você nem fosse escrever nada naquele dia. Mas, pelo amor de Deus, não vá para o aplicativo de notas postar resposta. Escreva sobre isso. Faça arte sobre isso. Não responda a trolls nos seus comentários. Não é isso que queremos de você. Nós queremos a sua arte.

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