Escrito por Jessica Gubert em 13 de novembro de 2017

The Observer: “reputation –luxúria, perda e vingança”

reputation –luxúria, perda e vingança
A vida amorosa e as briguinhas da estrela do pop são a atração principal em um set R&B irresistível que a distancia ainda mais de suas raízes country

A essa altura, qualquer um que se chama de adulto e ainda acredita que música pop é “apenas” música pop vai acabar se desiludindo. O sexto álbum de estúdio de Taylor Swift, reputation, é irresistível, e é difícil separar seu lançamento do contexto em que ele acontece.

Com duração de quinze faixas, que vão de esquecíveis até exóticas, o álbum fala de luxúria, perda e vingança. Tangencialmente, ele toca em gênero e poder. Por mais que o reputation tente se esquivar do assunto, é um álbum em que vitimização, privilégio branco e liberdade de expressão têm muito espaço.

O contexto fala especialmente alto considerando que, na véspera do lançamento, Swift estava sendo atacada por mandar uma ordem judicial a um pequeno blog que a criticou por não expulsar fãs de extrema-direita de sua fanbase. (Da persepectiva de Swift, o blogueiro a comparou com Hitler.) É a última virada em uma polêmica muito maior sobre a influência dela –Swift, de patrimônio estimado em 280 milhões de dólares, é acusada de praticar bullying contra o blogueiro, que convocou a União Americana pelas Liberdades Civis (ACLU – American Civil Liberties Union)– e a natureza do silêncio. Ao escolher não engajar em política, Swift foi acusada de tudo desde conspiração até se beneficiar do privilégio branco.

Sem surpresas, reputation não apresenta uma Taylor nova, com consciência social. Se isso não for levado em consideração, o negócio de Swift continua reluzindo. Paixão é o projeto de vida de Swift –resultando em obras-primas como “Dress”, onde ela confessa que “só comprei esse vestido para que você pudesse tirá-lo”. Como a maioria de seus antecessores recentes, reputation é um roman à clef que implora para que o ouvinte decifre qual história é sobre qual ex-namorado superfamoso. Com seu refrão EDM digno de rave, “Dancing With Our Hands Tied” musicalmente parece ser sobre o relacionamento de Swift com Calvin Harris.

As fofocas vão se agarrar a “Getaway Car”, uma bonança de dois-pelo-preço-de-um que parece transmitir como o relacionamento de Swift com Harris acabou quando ela dançou com Tom Hiddleston. “Eu queria deixá-lo, e precisava de um motivo”, Swift confessa. De forma menos óbvia, a canção pondera como ninguém sai desse poço –nem Swift. “Nós traidores nunca vencemos”, ela diz em devaneio.

Um punhado de músicas citam as manchetes. A excelente “Call It What You Want” aborda os infortúnios da reputação de Swift de cabeça erguida e seu desânimo com a narrativa que fugiu junto com ela. “Meu castelo ruiu da noite para o dia”, ela canta, “Eu trouxe uma faca para um tiroteio”. A história que definiu os seus últimos anos não foi a de seus romances, mas a batalha de Swift com Kanye West, que é longa demais para discutir aqui.

Anteriormente, “Look What You Made Me Do” tentou levar a longa briga de volta para West, declarando que a Velha Taylor estava morta e uma nova Valquíria vingativa do pop/R&B tinha tomado seu lugar.

Outra faixa, “This Is Why We Can’t Have Nice Things”, também parece se referir a West. “Você me apunhalou nas costas enquanto apertava minha mão”, Swift critica; outras partes da letra apontam para alguém que a “pegou no telefone” e “usou truques mentais” nela.

Por um lado, West tratou Swift de forma machista e praticou bullying. Por outro lado, West tinha um bom argumento originalmente sobre a forma com que as premiações tendem a recompensar artistas brancos de forma desproporcional. A saga terminou de uma forma lamentável em que se luta pelas hierarquias de vitimização em um campo de batalha mais amplo, onde tudo é tocado pela questão racial.

Além disso, “…Nice Things” é uma ótima música Swiftiana para cantar junto, e o estilo de briguinha de recreio de uma nota só recebeu uma roupagem mais urban. Depois de trocar o country pelo pop mainstream, a inclusão mais recente de elementos eletrônicos e R&B é agora definitiva para Swift. A Taylor pop boazinha está morta, declara o reputation; em seu lugar está uma jogadora mais fria do pop-R&B. Não é apenas no Kanye que ela mira –a dura (e excelente) “I Did Something Bad” coloca Swift como uma manipuladora gélida. Ela também inclui o que pode ser seu primeiro xingamento na vida: “Se um cara fala bosta/Então eu não lhe devo nada”.

Esta mudança de tom não é fácil de digerir. Ao fazer referências a cadências do R&B, Swift é culpada de apropriação cultural, como Miley Cyrus foi na época do Bangerz de 2013? Isso torna Swift uma figura mais, ou menos, odiada pelos observadores furiosos com sua relutância em deserdar fãs racistas? Swift deveria mesmo ter abandonado seu som próprio para soar como todos os outros? O argumento é complicado pelo fato de que a música que traz Future como rapper convidado –“End Game”– não é muito boa, e certamente não chega nem perto da versão de “Bad Blood” com Kendrick Lamar.

Se os tempos fossem mais simples, paixão realmente poderia ser o projeto de vida de Swift. Nossos tempos não são tão simples, no entanto. Pode entrar, álbum de duetos com a Beyoncé.

–Kitty Empire
4/5 estrelas
(Texto original)