22 de agosto de 19 Autor: Maria Eloisa Barbosa
Taylor Swift e a luta para manter o estrelato pop

Quem é o músico mais bem sucedido do mundo? Taylor Swift é uma das artistas que claramente ocuparia esse status. Desde que ela lançou seu primeiro álbum com seu nome, em 2006, a cantora e compositora nascida na Pensilvânia transitou de uma cantora country talentosa nada comum inspirada em Shania Twain, Faith Hill e the Dixie Chicks para um ícone pop que usa seu peso na indústria a fim de assegurar melhores condições de direitos autorais em streaming para outros artistas.  Durante esse caminho, ela também ganhou importância na crítica de respeito, tornando-se apenas a quinta artista a ganhar o prestigiado álbum do ano no Grammy por duas vezes (em 2009 com o Fearless e em 2014 com o 1989).

Mês passado, Swift foi nomeada como a celebridade mais bem paga do mundo pela revista Forbes, com uma estimativa de lucro de $185 milhões ao longo do último ano. A publicação também relatou que o novo acordo de Swift com a Universal Music, o qual ela assinou em novembro, pode fazê-la ganhar $200 milhões. O sétimo álbum da cantora e compositora, Lover, chega nessa sexta feira; se não se tornar seu sexto álbum consecutivo no top 200 da Billboard, será um grande choque na indústria da música. O álbum de Swift na Billboard Hot 100 também relembra a impressionante marca dos primeiros dois singles de Lover, ME! e You need to calm down, que só não foram número 1 por causa do recorde de Lil Nas X com Old Town Road.

Em 2015, Taylor se tornou uma dos únicos 5 artistas que ganharam o prestigiado álbum do ano pelo Grammy duas vezes (Crédito:Getty Images)

Mas ao mesmo tempo, Swift perdeu a blindagem da sua fase imperial quando, anteriormente em 2014, seu álbum 1989 tornou-se um enorme sucesso comercial e um sucesso pela crítica. Dois anos após, ela vivenciou uma reviravolta viciosa numa bagunçada e muito pública disputa com Kim Kardashian e Kanye West, que se extendeu quando Swift soube que teve seu nome em Famous, música de West. A faixa faz referência, com brutos termos sexuais, ao conhecido incidente no VMAs de 2009, no qual Kanye subiu ao pouco durante o discurso de agradecimento de Swift para dizer a audiência que Beyoncé deveria ter ganhado em vez dela.

Quando Famous foi lançada, Swift esquivou-se publicamente dizendo: “Eu ficaria muito agradecida de ser excluída dessa narrativa, uma vez que eu nunca pedi para fazer parte dela”. Mas então Kardashian postou vídeos no Snapchat que pareciam mostrar Swift dando permissão para West mencioná-la e alguns fãs do pop precipitadamente declararam Swift como “cancelada”. É um profundo e embaraçoso episódio que ainda hoje está preso nela. “Um ataque público em massa, com milhões de pessoas dizendo que você está, entre aspas, cancelada, é uma experiência que te isola muito”, Swift disse para Vogue anteriormente esse mês. “Eu não acho que existam muitas pessoas que consigam realmente entender o que é ter milhões de pessoas dizendo alto que te odeiam”.

De atrevida para comprometida

No despertar de sua queda, como é frequentemente chamado na mídia, seu álbum Reputation de 2017 introduziu uma ousada versão da cantora que os fãs nunca tinham visto–o que aparentemente apimentou seu status como uma nova vilã do pop. Depois de Kim Kardashian chamar Swift de cobra nas mídias sociais, Swift inteligentemente colocou uma gigante cobra como peça central da Reputation World Tour. Mas enquanto ela própria reivindicou sua imagem negativa, o álbum continuou sendo sua venda mais baixa.

Agora com essa campanha para o Lover, Swift está arriscando uma mais ambiciosa reviravolta, tentando mostrar-se como otimista, confortável na pele dela e muito mais socialmente engajada do que no passado. No último outubro, ela quebrou seu cada vez mais perceptível silêncio político quando defendeu dois candidatos democratas do Tenessee.

“O primordial tema com essa campanha é positivo, mas com um propósito”, disse Hugh McIntyre, jornalista musical da Forbes. Ele cita as letras dos dois primeiros singles do Lover: ME! é sobre auto-aceitação, enquanto You need to calm down mostra fidelidade à comunidade LGBT com o verso “Why are you mad when you could be GLAAD?”, referindo-se a uma organização ativista LGBT. McIntyre também pensa que Swift está mostrando cada vez mais seu lado humano nessa campanha, indicando um recente vídeo viral de Swift aparentando estar bêbada numa festa. “Mesmo que tenha sido calculado”, ele diz, “foi um momento que ela precisava”.

Mas aí é que está o problema. Injustamente ou não, acusações de ser “calculista” perseguem Swift desde que ela se tornou um grande nome. De volta a uma entrevista de 2015, ela repudiou a expressão, chamando-a de “altamente ofensiva” forma de descrevê-la. Mas enquanto ela claramente não gosta dessa caracterização das escolhas na sua carreira e vida pessoal, é discutível que ela esteja lutando para deixar isso para lá.

Swift começou sua carreira como uma estrela do country , antes de transformar sua sonoridade (Créditos:Alamy)

Por muitos anos, partes da mídia têm estado fascinadas em tentar decifrar quais de suas músicas foram escritas para quais ex-namorados, perpetuando a ideia de que Swift utiliza fundamentalmente sua vida pessoal para ganhos comerciais. “Francamente, eu acho que isso é um ângulo muito sexista de se pegar”, Swift disse em 2014 numa entrevista. “Ninguém diz isso sobre Ed Sheeran. Ninguém diz isso sobre Bruno Mars”.

Enquanto isso, o afluente background de Swift como filha do corretor de ações Merrill Lynch provavelmente não a ajudou a parecer como uma artista que o sucesso é inteiramente orgânico. Sua família se mudou da suburbana Pensilvânia para Nashville quando ela tinha 14 anos, para que Swift pudesse seguir carreira na casa da música country. A mudança claramente foi válida, mas é uma história menos atraente e original comparada com a de seus contemporâneos. Lady Gaga falou de aprimorar sua personalidade musical em bares desonrosos no sedutoramente sujo Lower East Side, em Nova York. Sheeran foi lembrado dormindo no sofá de Jamie Foxx seis meses antes de virar uma estrela. Até quando as tentativas de Miley Cyrus de deixar de lado suas saudáveis origens no Disney Channel foram desajeitadas, elas continham uma atraente dica da atitude despreocupada e imprudente.

Problema de identidade

“Apesar de ser um fenômeno global, Taylor Swft sempre esteve lutando para encontrar seu lugar”, disse o doutor Kirsty Fairclough da Escola de Artes e Mídia da Universidade de Salford, “e isso frequentemente transferiu-se como uma falta de identidade e uma identidade que parece menos que autêntica”

Para muitos fãs do pop, essa falta de autenticidade apareceu primeiramente em 2015, quando Swift embarcou em suas 85 datas da 1989 World Tour. Em seu grande show a céu aberto no Hyde Park, em Londres, em julho,Swift se juntou ao palco com as supermodelos Martha Hunt, Kendall Jenner, Karlie Kloss, Gigi Hadid e Cara Delevingne, além da campeã de tênis Serena Williams—membros de seu grupo de amigas que a mídia apelidou de “squad”. Parece muito uma representação visual do “acordar feminista” que Swift falou anteriormente na campanha do álbum.

Mas conforme a turnê foi rolando, a lista de convidados especiais de Swift tornou-se cada vez mais aleatória e confusa.Tanto o ícone de Hollywood Julia Roberts quanto o ícone da contracultura Joan Baez se juntaram a Swift no show de Santa Clara, Califórnia, em agosto. O adorado ator britânico Ian McKellen revelou mais tarde que ele recusou sua oportunidade de aparecer no palco com Swift. Esses convidados especiais não anunciados devem ter se sentido como um bônus adicional para os fãs que pagaram para ver o show. Mas para outros, também parecia uma maneira inteligente de Swift manter-se nas notícias diárias do showbiz e sublinhar seu “superstar” mostrando poder.

“Sua mudança de estética e alianças parece confusa em uma narrativa geral que mostra Taylor Swift como o centro do universo cultural”, diz Fairclough. Swift não tem medo de criticar outros artistas que façam com que ela se sinta prejudicada – além de afirmar que West tentou controlar sua “narrativa”, ela criticou Tina Fey e Amy Poehler por fazerem piadas não muito agradáveis com ela -, mas suas queixas públicas foram interpretadas por alguns como semelhantemente egoísta, com os críticos a acusando de “se fazer de vítima”.

Durante sua fase imperial, Swift montou um grupo de amigas celebridades chamado de “squad” (Créditos: Alamy)

Fairclough acrescenta: “Ela sempre apresentou um status de oprimida, mas por todas as qualidades que fazem o público torcer por ela, há outras que fazem com que ele a questione – e essas são as que ela não pode facilmente afastar. Como uma mulher mundialmente famosa, atraente, magra, branca e muito rica, ela é uma antipática profundamente azarona”

As armadilhas do ativismo da estrela pop

Quando Swift falhou em defender um candidato durante a eleição presidencial dos EUA em 2016, ela pareceu, para seus críticos, não poder ou não querer enxergar além de seus dramas pessoais e lidar com problemas muito maiores. Ela recentemente explicou sua decisão de ficar em silêncio, dizendo que achava que teria sido prejudicial. “Infelizmente, na eleição de 2016, você tinha um adversário político que estava usando o apoio de celebridades como algo ruim”, disse ela à Vogue. “Ele andava dizendo: ‘Eu sou um homem do povo. Eu sou de vocês. Eu me preocupo com vocês. Eu só sabia que não ia ajudar.”

Mas sua recente tentativa de tornar-se mais socialmente consciente também tem sido criticada, apontando a linha tênue que as estrelas pop modernas devem andar quando tentam se mostrar como ativistas. Para o vídeo de You need to calm down em junho, que coincide com o mês do orgulho, Swift se cercou de pessoas LGBT como Ellen DeGeneres, Todrick Hall, Adam Rippon, Hayley Kiyoko e Laverne Cox. O vídeo acontece em um parque de trailers colorido, cercado por manifestantes segurando cartazes anti-gays. No final, Katy Perry aparece e as duas estrelas pop se abraçam, aparentemente para acabar com a sua longa, falada e bem documentada rivalidade. “Eu perguntei se ela estaria interessada nisso e Katy disse: ‘Eu adoraria que fôssemos um símbolo de redenção e perdão'”, disse Swift quando o vídeo estreou: “Eu me sinto da mesma maneira em relação a isso”.

Embora Swift tenha demonstrado publicamente sua solidariedade LGBT com o que a instituição LGBT de caridade GLAAD chamou de doação “muito generosa”, sua tentativa de se tornar uma defensora dos direitos queer não provou ser unanimamente popular.

Como parte de sua recente e visível aliança com a comunidade LGBT, Swift performou no Stonewall Inn durante o mês do orgulho (Créditos:Getty Images)

 “O vídeo You Need to Calm Down é tão culturalmente surdo, é simplesmente ridículo”, diz Paul Flynn, um proeminente jornalista da cultura pop e autor de Good As You: 30 Years of Gay Britain. “Como alguém que se preocupa com jovens LGBT crescendo e as mensagens que eles recebem, eu acho que igualar a homofobia a uma briga que você teve com outra estrela pop não é só um insulto, mas realmente muito perigoso”.

Flynn também diz que “a dualidade no século 21 tem que ser sobre o entendimento de pessoas queer e não apenas sobre colecioná-las. Mas isso é o que Taylor Swift faz. Quando ela era uma artista “não impressionante”, ela se cercou de pessoas legais como Lena Dunham, as irmãs Hadid e [o blogueiro de moda] Tavi Gevinson. Agora ela tem um problema com seu perfil político e precisa evidenciar isso em uma época que há a expectativa de que as estrelas pop sejam políticas. É tão cínico e isso faz parte de sua estratégia de Relações Públicas: se houver algum problema, você consegue que outras pessoas preencham o déficit em vez de tentar fazer isso você mesmo”.

Profundamente desinteressante?

Mas independente do que  você ache da estratégia de relações públicas de Swift, é discutível que a ideia de ter uma campanha tão cuidadosamente construída está começando a parecer um pouco antiquada. Novas estrelas, como Cardi B e Billie Eilish, estão mais sem filtro e dispostas a mostrarem seus defeitos; Ariana Grande, companheira do pop, recusou o ciclo tradicional de lançamento de grandes gravadoras, lançando dois álbuns em sete meses. Dr Kirsty Fairclough diz que a estratégia muito óbvia de Swift “parece ser profundamente desinteressante num momento contemporâneo em que as estrelas pop desprotegidas, muitas vezes politicamente conscientes e ativas são aquelas que se conectam com o público”.

Ainda assim, o jornalista musical Hugh McIntyre acredita que Swift poderia contornar seus atuais problemas de imagem se Lover contiver evidências de que ela redescobriu seu talismã de composição. “Até agora, as músicas não são tão fortes”, diz ele. “Durante a campanha do álbum 1989, ninguém podia argumentar com músicas como Shake It Off e Blank Space. Mesmo que houvesse alguns problemas, as faixas eram tão chicletes que a música venceu. Mas isso definitivamente não é o caso de ME! e especialmente You need to calm down. Eu acho que ela pode mudar isso se a música for boa o suficiente. Você pode se livrar de qualquer coisa na música pop, desde que você esteja entregando o que esperam de você. Ela precisa de uma música que ninguém possa discutir para controlar a conversa”.O terceiro single e faixa-título do álbum, Lover, é uma adorável e sombria memória das raízes country de Swift, mas também não soa como uma música desse estilo.

Essa incerteza faz de Lover potencialmente o álbum mais fascinante da carreira de Swift. Depois que ele for lançado na sexta-feira, a última pergunta não será: “Isso é bom?”, Mas “é bom o suficiente para passar por cima das rachaduras da sua imagem pública?” E, se não conseguir captar o espírito da época, isso pode ser algo preocupante para as estrelas pop, tanto as ascendentes quanto as estabelecidas, sobre a dinâmica de poder da indústria atualmente. Afinal, se alguém como Swift não conseguir controlar sua imagem com êxito no cenário pop atual super-esclarecido, hipercrítico e engajado politicamente, quem conseguirá?

Matéria publicada pela BBC e traduzida pela equipe TSBR.





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