26 de julho de 20 Autor: Maria Eloisa Barbosa
Taylor esteve buscando pelo “Folklore” esse tempo todo

Os toques indie-folk de seu novo álbum se encaixam, sem esforço, numa carreira repleta de reinvenção.

“Estou fazendo umas merdas novas”, Taylor Swift canta nos primeiros versos que abrem o Folklore, anunciando com um sorriso e uma piscadela que a Taylor Swift de seus sete álbuns anteriores – e até a Taylor do Lover, que não completou nem um ano – “can’t come to the phone right now” (não podem atender o telefone agora).

Swift sempre se colocou primeira e principalmente como cantora e compositora. Mas ela nunca se apresentou ao mundo dessa maneira, com tanta clareza, quanto no Folklore, o álbum surpresa que ela passou os últimos quatro meses gravando com roqueiros indie: Aaron Dessner e Justin Vernon. No entanto, a parte mais surpreendente do álbum é o fato de não ser uma surpresa ouvir Swift em sua nova merda, cantando com trombetas agitadas High Violet, em trechos sombrios no piano de Dessner e suavemente usando os sons programados de 22, A Million

Isso porque Swift passou os últimos 15 anos desenvolvendo um próprio mundo estrutural de melodias e músicas tão singular que agora suas músicas pertencem mais a ela do que a qualquer gênero em que ela esteja trabalhando, independente do momento. Pegue “Better Man”, a balada poderosa de 2016 que ela escreveu para o grupo country Little Big Town, ou “This is What You Came For”, o hit eletrônico que ela co-escreveu para Rihanna no mesmo ano. Produzidas de maneira um pouco diferente, as duas músicas poderiam se encaixar perfeitamente em qualquer um dos três últimos álbuns de Swift – porque, no fundo, elas não são uma música country ou eletrônica, mas sim, músicas de Swift.

Swift poderia ter escolhido várias direções para o seu próximo passo, mas no Folklore ela claramente gosta de trabalhar em um segmento que pode estar mais próximo do modo como ela sempre ouvia suas próprias músicas em sua cabeça. “Assim como uma música folk / Nosso amor será passado adiante”, canta homenageando James Taylor. Mesmo que essas músicas não sejam exatamente músicas folk numa estrita definição musical, faz sentido que Swift tenha escolhido a música folk como modelo para se aprofundar na criação de personagens em terceira pessoa. “Eu me vi não apenas escrevendo minhas próprias histórias”, disse ela sobre seu novo álbum, “mas também escrevendo sobre ou da perspectiva de pessoas que nunca conheci”.

Como tantos que eram melodramáticos em seus vinte e poucos anos, Swift provavelmente passou algum tempo escutando For Emma, Forever Ago, de Bon Iver, o álbum que redefiniu o folk na cabeça das pessoas: uma música para se isolar, que poderia ser profundamente sentida numa cabana na floresta. Encarando um período, até então desconhecido, de isolamento na quarentena, Swift fez o que qualquer um em seu lugar faria: telefonou para Justin Vernon e começou a escrever algumas músicas tristes.

A capacidade de Swift de experimentar novos estilos e sonoridades sem muito esforço vem de muito tempo, já que ela sempre consumiu todos os discos que conseguisse. Como em todos os seus álbuns, há pistas de seu amplo conhecimento musical em todo o Folklore: os singles do Dashboard Confessional pelos quais ela era obcecada na adolescência; a luz de Avril Lavigne e Colbie Caillat, cantoras e compositoras pop, que ajudaram na inspiração de seus dois primeiros álbuns; as músicas de Death Cab for Cutie, MGMT, Band of Horses, Tunnel of Love-era Springsteen e Flaming Lips, que ela mostrou gostar durante a Speak Now World Tour; e sim, as várias músicas relacionadas ao The National e Justin Vernon que ela coloca em suas playlists desde 2017. (Em 2018, Swift incorporou a música “Slow Show” do The National, que apresenta o verso mais swiftiano de todos os tempos da banda : “Você sabe que eu sonhei com você / por 29 anos antes de te ver”).

Tal como, o Folklore não mostra nenhum tipo de declaração do passado, mas também abre um novo mundo de possibilidades futuras que certamente se encaixariam nela, do pop-punk (como mostraram ano passado no ReRed, um remake do álbum Red no estilo rock de garagem), para o pop indie espetacular de Ingrid Michaelson, no qual ela sempre parece estar quase mergulhando de cabeça, e até para os álbuns estilo Patty Griffin com raízes no violão dobro (tipo de violão acústico) ou quais Swift parece estar fadada a transitar daqui a uma ou duas décadas.

Não há dúvidas de que qualquer um de seus álbuns nesses gêneros pertencerá ao gênero dela. Mas parte da diversão de assistir à mudança de gênero está na maneira como ela gosta de incorporar divertidamente a estética de seus mais recentes colaboradores. No caso do Folklore, ela se refere publicamente a Vernon como seu amigo parceiro desde pelo menos 2014, e você até consegue vê-la assumindo o papel de nerd colecionadora de discos, enquanto comanda seu próprio som. No refrão de “Cardigan”, Swift experimenta sua melhor versão de Matt Berninger embriagado de vinho em “This is The Last Time”, cantando a palavra “I” como “i-i-i-i”. “Sua música favorita estava tocando / do outro lado da academia”, ela suspira depois, fazendo uma alusão à música do The National de 2017 “Dark Side of the Gym”, uma das músicas favoritas de Swift. (Deixe que Taylor escreva uma linha sobre o fato de ela ter colocado uma certa música em uma playlist na Apple Music).

Essa linha vem em 14 músicas do álbum, como em “Betty”. Produzida por Dessner, é uma faixa que lembra suas raízes e possui uma gaita no instrumental. Por um lado, parece uma das preciosas e poucas músicas puramente acústicas que você espera de um álbum chamado Folklore. Por outro lado, a melodia de “Betty” soa como uma mistura de toda as baladas da carreira de Swift: a ternura de “Tim McGraw”, com versos rápidos, a pop-folk Fearless, que vira pop no refrão, e a progressiva ponte de “Speak Now”. “Eu apareci na sua festa”, Swift canta na música, falando, de certa forma, com qualquer “fiscal de gênero musical” que se pergunta o que ela está fazendo com seu novo som. Mas Swift novamente ri por último e ri mais. Ela sabe que esteve na festa, escondida no lado escuro da academia o tempo todo.

Matéria publicada pela Rolling Stone e traduzida pela Equipe TSBR.





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