“Como o mundo agora sabe você pode e deve apresentar qualquer música que você queira no AMAs.” Braun escreveu. Mas o que ele não escreveu foi bem interessante.

Logo cedo na manhã dessa sexta (ou possivelmente muito tarde na quinta de noite), Scooter Braun, um executivo da música cujo nome rapidamente está associado a Taylor Swift, publicou uma longa carta aberta endereçada a pop star. Na carta, ele respondeu a algumas alegações feitas pela Swift na última semana, onde ela acusa Braun e outro homem de impedi-la de usar a sua própria música. Braun disse que as acusações de Taylor resultaram em ameaças de mortes contra ele e sua família, expressou sua vontade em resolver seu problema com Swift, e insistiu que ela, de fato, está permitida a usar sua própria música (mais sobre isso depois).

Uma coisa é clara: ameaças de morte são terríveis, traumatizantes, e inaceitáveis. Eu já recebi algumas antes. Amigos de amigos também, e vê-los nesta situação lamentavelmente perturbadora fez meu sangue ferver – como deveria. Até mesmo a Taylor está acostumada com os efeitos desse comportamento tóxico, já que revelou que andava com roupas de proteção militar (contra facadas e tiros) por causa de “muitos perseguidores aparecerem na frente da sua casa armados”.

As ameaças de morte, no entanto, apenas fazem parte da carta de Braun. E se a carta de Braun nos ensina alguma coisa, é que é possível se sentir genuinamente por alguém que está passando por algo estressante como ameaças de morte E descordar deles sobre basicamente tudo que eles escolheram transmitir.

Vamos começar pelo começo. Em junho de 2019, Taylor disse que estava “triste e enojada” depois de Scooter Braun adquirir sua antiga gravadora, Big Machine, a qual Swift lançou seus seis primeiros álbuns (de um total de sete, ou seja, sim, o trabalho de toda sua vida). Ela acuso Braun de “incessante, manipulador bullying”, alegando que isso aconteceu “por anos”. Swift expressou sua angústia por ter sido despojada das músicas que ela “escreveu em seu quarto e vídeos que ela sonhou e foram pagos com o dinheiro que ela ganhava tocando em bares, baladas, arenas e depois estádios”.

As coisas tomaram proporções maiores de novo na semana passada quando Taylor disse no twitter que ela foi escolhida para receber o título de Artista da Década pelo American Music Awards. Ela alegou que Scooter Braun e Scott Borchetta, o fundados da Big Machine, não a deixariam apresentar um medley de suas músicas durante a cerimônia, e que ela não estava permitida a usar suas músicas antigas e se apresenta-las em um documentário que estaria sendo feito. No que talvez foi a maior condenatória de suas acusações, Swift alegou que disseram a ela que ela teria a permissão de usar suas próprias músicas se ela concordasse em não regravá-las (atitude a qual ela disse que teria intenção de fazer já que ela não possuía mais os direitos das músicas) e se ela parasse de falar sobre Braun e Borchetta em público.

Em uma série de tweets, Swift pediu a seus fãs que compartilhassem seus sentimentos sobre a situação com Braun e Borchetta e disse que suas tentativas de resolver isso privadamente não tiveram sucesso – dizendo que vir a público era sua última opção.

Com seu último discurso, Braun não está só respondendo as alegações de Taylor, o que é seu direito, mas ele também está pintando ele mesmo como a real vítima da história – uma posição um tanto quanto questionável, pelo menos.

“Eu presumo que isso não foi sua intenção mas é importante entender que suas palavras carregam uma quantidade enorme de peso,” Braun escreveu no segundo parágrafo de sua carta, com clara condescendência, antes de adicionar que ele “estava pensando em sua esposa e filhos” (evitando de dizer que ela deveria conhecer sua esposa e o chamar de percevejo na sua própria cara, claro.)

Mas o que vem depois é o real problema. Braun continua usando o que se pode reconhecer como a desculpa de “mocinho”, alegando que Swift se recusou a se comunicar com ele e que isso é o que ele mais quer, achar uma solução feliz para os problemas delas. “Quase que parece que você não tem interesse em resolver esse conflito,” ele escreve, adicionando: “Eu estou bem aqui, pronto para falar diretamente e respeitosamente. Mas se você prefere transformar isso em longos discursos públicos enquanto recusa em trabalharmos juntos para resolver as coisas amigavelmente, então eu só torço para que ninguém se machuque seriamente nesse processo.”

Parece uma suposição razoável de que Swift nunca pretendeu que alguém ameaçasse a vida de Braun ou a de seus entes queridos. Ainda, Braun – o mesmo cara que que diz que não quer “participar de uma guerra nas redes sociais” – está jogando a culpa toda nela. Ele está pintando ela como uma mulher nervosa que lançou uma vingança contra um bom homem sem motivos aparentes e não vai parar até tornar sua vida um inferno. Nós vivemos em um mundo misógino, então é muito fácil entender porque ele está tentando cair no velho clichê sobre histéricas, exageradas, manipuladores mulheres acabando com os mocinhos. Mas agora é 2019, e fazer isso não é mais tão legal.

Várias outras linhas da carta de Braun também se destacam. “Nas poucas vezes que nos conhecemos, lembro que sempre eram amigáveis e respeitosos,” Braun disse enquanto expressa sua surpresa sobre o descontentamento de Swift e seu envolvimento no contrato da Big Machine. Isso é no melhor das hipóteses uma leitura diferente da situação e no pior dos casos uma tentativa de incendiar. O bullying alegado por Taylor não tem cara de ser o “cara a cara”, como se fosse no playground, mas sim por de trás das cenas, onde o bullying do “mundo adulto” realmente acontece.

Interessante, Braun também diz que Taylor está permitida a apresentar suas músicas, causando no público dúvidas nas últimas alegações da cantora. “Como o mundo agora sabe você pode e deve apresentar qualquer música que você queira no Amas”, ele escreve. “Eu nunca e jamais diria o contrário.” Ok, então, nós temos que acreditar que Taylor… fez toda essa história por diversão? Que ela nunca tinha ouvido falar que a Netflix e está fazendo isso para passar o tempo? Eu permaneço não convencida. Notavelmente, ele não diz: “Eu nunca e jamais diria que você pode apresentar qualquer música que você queira no AMAs, desde que você não regrave seu material.” que é o verdadeiro problema aqui. Ele não diz, “Sinta-se a vontade para apresentar qualquer uma de suas músicas o AMAs sem qualquer pendência”.

É tão irônico que a música de Taylor, que envolve tantos assuntos como meninas, mulheres e masculinidade tóxica, estão envolvidas nessa bagunça. Uma coisa permanece certa: mocinhos não viram a mesa para as pessoas que disseram que eles estiveram errados. Mocinhos reconhecem quando eles fizeram parte de uma situação injusta e trabalham para reverter isso. Grandes caras trabalham em silêncio, sem pedir por elogios em público.

Mocinhos, de fato, não usam desculpas de mocinhos. Eles não precisam delas.

Matéria publicada pelo INDEPENDENT e traduzida pela equipe TSBR.





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