30 de janeiro de 20 Autor: Maria Eloisa Barbosa
Miss Americana: Retrato de uma artista como uma jovem diva pop

Grandes aplausos abalaram o cavernoso Eccles Theater para a estreia de Miss Americana, sendo que geralmente eles são raros no Sundance Festival. Mais um vez, você já sabia que a exibição do tão aguardado documentário de Taylor Swift seria um evento especial através dos coros espontâneos das letras das músicas de Swift que surgiram na fila da bilheteria.

O documentário de Lava Wilson para a Netflix é um trabalho bem ritmado que entrega nas mãos da cantora um microfone diferente: a voz narrativa de um filme que tem um tom de confissões como em suas músicas. Miss Americana detalha a jornada artística e pessoal de umas das top divas da música do pop, uma potência que comanda milhões de fãs e bilhões em vendas. Ao mesmo tempo, Swift pode ser a personalidade mais exposta na mídia desse ramo, e ás vezes, se desapontava com a pressão extrema de sua fama (testemunha da onda de rivalidades que surgia em torno de Kanye West, que parecia cristalizar sua fragilidade desde o ínicio). O filme narra sua ascensão, suas quedas e sua autodescoberta como uma artista e pessoa que traz a tona o empoderamento feminino.

Wilson não é estranha ao Sundance, já que apresentou seu primeiro filme aqui em 2013, After Tiller, que tratava dos poucos médicos que ainda arriscavam suas vidas para realizar abortos tardios em uma clima crescente de restrições e hostilidade violenta. Miss Americana também tem um contexto político, de modo que ainda o ponto central seja a história de Taylor Swift: country-pop, agradar o público – virar uma artista politicamente engajada. Tudo isso foi uma forte transformação que desagradou sua equipe de relações públicas. Sua personalidade inicial, diz Taylor, que era um equívoco de sua própria autoria. “Eu escrevo sobre relacionamentos e términos” nós a ouvimos explicar em uma entrevista para a tv europeia. Especialmente no mundo da música country, a franqueza política é fortemente desencorajada. Ainda mais para mulheres jovens – como o filme nos lembra da reação de Dixie Chicks, depois que o grupo criticou George Bush.

Em vários vídeos caseiros que parecem diários que conhecemos a jovem e adolescente Taylor como uma cantora e compositora precoce, uma menina que tinha um enorme talento e uma ambição sem fim de “tornar-se grande”. Quando ela começou sua carreira, seus principal desejo era adquirir fãs e agradar a crescente multidão de seguidores. Esse impulso pode ser comum a vários artistas, mas no caso de Swift e de outras artistas do sexo feminino como no filme sugere, isso gera uma pressão muito grande para se apresentar e se adaptar. Para Taylor Swift, essas forças foram multiplicadas e amplificadas pelo aquário das mídias sociais. Exposta a todo momento ao favor volúvel – e ódio raivoso – dos exércitos de seguidores, Swift admite problemas de imagem corporal e distúrbios alimentares, enquanto luta para atender às expectativas dos fãs – e dela própria.

Entre suas crescentes apreensões com sua imagem como celebridade, a cantora se torna a concorrente no julgamento de um DJ de rádio que a assediou sexualmente. É um evento decisivo na jornada para, como ela mesma diz, “desprogramar a misoginia no meu cérebro”. Essa nova resolução assume a forma de Swift “se assumir” para fazer campanha contra a reeleição da ultraconservadora candidata ao senado do Tennessee, Marsha Blackburn, nas eleições de ‘meio de mandato’ de 2018. Swift genuinamente abomina a oposição de Blackburn aos direitos LGBTQ e a Lei de Violência contra as Mulheres. Depois de muita deliberação e angústia dos seus consultores de imagem, a indignação a leva a tomar uma posição moral como mulher política.

Ou seja: sendo Taylor Swift, é, no total, uma versão bastante brilhante do despertar feminista, em meio a viagens em seu jato particular na companhia de sua equipe e seus gatos. No entanto – novamente um crédito a Wilson e à colaboração com seu sujeito disposto – uma sinceridade fundamental brilha nesse retrato. Há uma inegável medida de autenticidade para essa artista, que é especialmente fascinante nas inúmeras sessões de composição capturadas pela câmera, nas quais os produtores mais experientes dão uma ampla importância à sua criatividade irreprimível.

Em outras palavras, você não precisa ser fã de suas músicas alegres para acabar torcendo por ela como uma figura de empoderamento com algo que agora vai além das justas alfinetadas nos ex-namorados. “Eu fiz este filme para todos vocês aqui nesta sala hoje”, disse Wilson ao apresentar o filme. “Uma geração atrás, haveria muito menos de nós. Em outra geração, haverá muitos mais de nós.” Os aplausos que ela recebeu seriam diminuídos após a exibição do filme, durante as perguntas e respostas, quando a “convidada especial” Taylor Swift subiu ao palco para sua estrondosa recepção pelo público.

Resenha publicada pelo Golden Globes e traduzida pela Equipe TSBR.





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