28 de julho de 20 Autor: Maria Eloisa Barbosa
A história por trás de cada música do “folklore”

Aaron Dessner confirma: folklore é um álbum gótico de Taylor Swift. Ou, pelo menos, é o disco mais gótico dela. Também há algumas outras características, que variam com seu humor: uma colaboração não oficial com o Big Red Machine (Big RED Machine); uma proximidade com o espiritual álbum I Am Easy to Find (2019), do The National, especificamente acompanhando o filme do álbum, de Mike Mills, também filmado em preto e branco e destacando um cenário mais natural; ou apenas a tentativa de Swift de fazer um álbum para se escutar nos fones de ouvido, que, mesmo que você não goste do trabalho de Taylor, recompensa várias ouvidas enquanto você capta todos as nuances de cada música e fica uau, é aqui que a influência de In Rainbows aparece. Dessner é quem você deve agradecer por todos esses pequenos detalhes.

O multi-instrumentista do The National falou com a Vulture por telefone do interior de Nova York algumas horas após o lançamento surpresa do oitavo álbum de estúdio de Swift. (“Uma corrida bem doida”, ele admite, parecendo cansado, mas feliz). Ele deixou claro que não poderia falar em nome de Swift sobre as letras, assim como não poderia falar por Matt Berninger, o vocalista do The National, ou sobre o pensamento por trás das músicas de Jack Antonoff. (Aqui vão algumas dicas: as músicas de Jack voam, as de Aaron deslizam). Mas Dessner estava disposto a falar sobre suas contribuições, influências e interpretações específicas de cada música do folklore, um disco que você pode resumir em duas palavras que surgiram com certa frequência durante nossa conversa: nostalgia e sarcasmo.

the one

“The 1” e “Hoax”, a primeira e a última música, foram as últimas músicas que fizemos. O álbum estava meio que finalizando antes delas. Achamos que estava completo, mas Taylor voltou para a pasta de ideias que eu tinha compartilhado. Ela escreveu “The 1”, e depois escreveu “Hoax” algumas horas depois e me enviou as duas no meio da noite. Quando eu acordei de manhã, eu mandei uma mensagem para ela antes que ela acordasse em LA e disse “Essas tem que estar no álbum.” Ela acordou e disse “Eu concordo” [risadas]. Essas são as músicas que dão início e terminam o álbum”.

É fácil de perceber que “The 1” não foi escrita pela sua perspectiva. Foi escrita sob a perspectiva de outro amigo. Há uma emoção de ironia e crueza, enquanto também é como se fosse uma piscada de olhos. Há um pouco do senso de humor da Taylor nela, junto com esse tipo de tristeza que existe por baixo e por cima da superfície. Eu gosto disso em sua escrita. 

A música [começou com] uma gravação de voz que ela me enviou, e então eu trabalhei na música e seguimos com seus vocais e então meu irmão adicionou a orquestração. Existem algumas outras partes, mas basicamente essa foi uma das últimas coisas que fizemos.

cardigan

Essa é a primeira música que escrevemos [no início de maio]. Depois que Taylor perguntou se eu estaria interessado em escrever com ela de forma remota e trabalhar em músicas, eu disse: “Você está interessada em algum tipo de som?” Ela disse: “Estou apenas interessada no que você faz e no que está fazendo. Basta enviar qualquer coisa, literalmente qualquer coisa, pode ser a coisa mais estranha que você já fez”, então enviei uma pasta com as coisas que havia feito recentemente e que estava realmente animado.”cardigan” era uma dessas coisas; foi originalmente chamada de “Maple”. Era quase  exatamente o que está no álbum, exceto a orquestração que meu irmão escreveu, que adicionamos mais tarde. 

Enviei [o arquivo] às 21h e mais ou menos por volta das 2 da manhã , havia “cardigan”, totalmente escrita. Foi aí que percebi que algo louco estava acontecendo. Ela dialogou diretamente com o coração da música, escreveu uma letra incrível e foi continuando. Isso remete às lições aprendidas ou as experiências de sua juventude, de uma maneira realmente bonita e com esse sentimento de saudade e tristeza, mas, que, no final das contas, é libertador. Eu pensei que era uma combinação perfeita para a música e como a voz dela se sai. Foi uma espécie de guia. Possui essas partes que soam mais baixas, e acho que nós dois percebemos que isso era um pára-raios durante a maior parte do resto do álbum.

the last great american dynasty

Escrevi isso depois de termos trabalhado por um tempo. Foi uma tentativa de escrever algo atraente, mais uptempo e meio que inovador. Eu também estava interessado nesse quase estilo Rainbows com um conjunto de guitarras elétricas. Elas entram e meio que puxam você, de certa forma lembra a Big Red Machine. Foi sonoramente muito parecido com o que eu estou acostumado e ela imediatamente pegou isso. Inicialmente, eu estava imaginando essas guitarras elétricas e eletrônicas distantes e fantasiosas, mas com um elemento folk. Tem muita coisa acontecendo nessa linha. Enviei antes de sair para correr e, quando voltei, essa música estava lá (risos).

Ela me contou o significado por trás disso, que meio que narra a história de Rebekah Harkness, chamada como Betty pelas pessoas. Ela, integrante da família Harkness, era casada com o herdeiro da fortuna dos Standard Oil e eles compraram esta casa em Rhode Island , localizada num penhasco. É sobre a história dessa mulher e das festas ultrajantes que ela já deu. Ela era desmoralizada por não se encaixar inteiramente na sociedade; essa história, no final, se torna pessoal. Taylor acabou comprando aquela casa. Eu acho que é característico do folklore, esse tipo de música narrativa. Nós também não fizemos muito isso.

exile (ft. Bon Iver)

Taylor e o cantor e compositor William Bowery inicialmente escreveram essa música juntos e mandaram para mim como uma espécie de demo ‘bruta’ em que Taylor cantava as duas partes, do homem e da mulher. A intenção era ser um diálogo entre duas partes de um relacionamento. Eu interpretei isso e construí a canção, toquei piano e construí a partir daquele molde. Nós gravamos os vocais de Taylor cantando suas partes e também as partes masculinas.

Nós conversamos bastante sobre quem ela achava que seria a pessoa perfeita para cantar e o nome de Justin [Vernon] sempre aparecia. E como ele é um grande amigo e colaborador meu eu disse, “Bom, se ele ficar inspirado com a música ele vai cantar, se não ele não vai”. Eu enviei a música para ele e disse, “Sem nenhuma pressão, nenhuma mesmo, mas o que você acha disso?” Ele respondeu, “Uau!”. Ele acrescentou algumas partes, enviamos a música um para o outro algumas vezes mas foi uma colaboração entre amigos incrivelmente natural e segura. Não era como se estivéssemos recebendo uma participação especial ou algo do tipo. Era mais tipo, “Bom, estamos trabalhando nisso”, e obviamente ele é extremamente talentoso, então deu tudo muito certo. Eu acho que os dois colocaram tantas emoções cruas na música. É como uma superfície borbulhante. É incrível, sabe? Você realmente acredita que eles estão tendo esse diálogo tão intenso.

Com outras pessoas eu precisei ser mais discreto, guardar o segredo, mas com o Justin, como ele ia cantar também, eu enviei uma versão da música já com os vocais dela e contei o que estava fazendo. Ele ficou tipo, “Uau, incrível!” Mas ele já esteve envolvido em tantas grandes colaborações que ele não ficou interessado nessa parte do processo. Foi mais porque ele amou a música e pensou que teria a chance de fazer algo nela que iria acrescentar ainda mais.

my tears ricochet

Esta é absolutamente uma das minhas músicas favoritas no álbum. Eu acho que é uma composição brilhante, e as palavras da Taylor, a maneira como a voz dela soa e a sensação que essa música causa, são, para mim, grandes destaques. Ficou presa no meu cérebro. Isso também é muito importante para Taylor e Jack. É o que guia esse álbum.

mirrorball

Pra mim, “mirrorball” tem uma beleza misteriosa. Me lembra dos “Cardigans” dos anos 90, ou algo como Mazzy Stars. Tem o mesmo tipo de brilho misterioso e “sombrio”. Ela soa muito bem antes de “seven”, que é bastante melancólica e nostálgica. Pinta imagens icônicas na letra, [ por exemplo, “girando nos meus saltos mais altos”] mas elas não me vem à cabeça agora porque meu cérebro não está funcionando [risos].

seven

Essa foi a segunda música que escrevemos. É meio que relembrando a infância, e os sentimentos da infância, recontando lembranças e tentando memorizá-las. É uma linda música folk. Tem uma das letras mais importantes do álbum: “E assim como uma música folk, nosso amor será passado adiante”. É isso que esse álbum está fazendo. Passando adiante. Gravando memórias de amor, infância e outras lembranças. É uma maneira folclórica de processar tudo.

august

Essa é provavelmente a música mais próxima de algo pop. Fica barulhenta. Tem esse clima cintilante de verão. É como sair de “seven” que você imagina ela em um balanço com sete anos, e então em “august” parece que é avançar no tempo até os dias de hoje. É um contraste interessante. Eu acho que é um tipo de sentimento arejado, calmo e envolvente.

this is me trying

Para mim, essa música se relaciona com o álbum todo. Talvez eu esteja interpretando além do que realmente é, e a partir da minha própria perspectiva mas, penso no álbum todo como um exercício e uma forma de revelar sobre essas histórias, sendo pessoais ou pelo olhar de terceiros. Está conectando muitas coisas. Mas eu adoro a sensação que a música passa e a produção que o Jack desenvolveu. Tem uma batida meio relaxante.

illicit affairs

É uma das músicas realmente folk no disco, uma música folk com narrativa sagaz. Mostra a versatilidade e poder de Taylor como compositora, a perspicácia de sua escrita. É uma ótima música.

invisible string

Essa foi outra música que eu estava tocando há alguns meses e meio que cantarolando para ela. Parecia uma daquelas músicas que te transporta. Tocá-la em um violão tem essa movimentação emocionante, um padrão de dedilhado que realmente me atraiu. É tocada nesse cavalete (ou ponte) do violão feita de borracha que meu amigo colocou e isso abafa as cordas, fazendo com que soe antigo. A base dessa música soa como  uma música folk.

Também tem uma leve influência pop, pela batida que entra. Ela sabia que essa música ia se tornar algo pois enquanto ela escutava, me disse “Sabe, estou adorando e já estou escutando alguma coisa” e completou “ isso vai mudar a história”, esse belo e direto relato de um relacionamento e sua origem.

mad woman

Provavelmente a música mais contundente do folklore. Tem um tipo de escuridão que eu acho que é libertadora, uma caça às bruxas, manipulação e até um pouco de bullying. Às vezes você se torna a pessoa que outros obrigaram você a ser, o que não é muito justo.Mas de novo, essa é só a minha interpretação. Para mim, é um dos maiores lançamentos do álbum. Tem um tom bem acentuado, mas lembra folclore gótico. É a música gótica desse disco. 

epiphany

Para “epiphany”, ela teve a ideia de um drone bonito, ou um tipo de música widescreen muito cinematográfica. Um silêncio, em certo sentido. Eu fiz esse drone maluco que começa a música e está lá o tempo todo. São muitos instrumentos diferentes tocados e depois desacelerados e revertidos. Criamos essa pilha gigante de harmonia, que é tão gigante que foi meio difícil de gerenciar, sonoramente, mas muito bonita também. E então eu adicionei um piano a música e ela começou a parecer quase algo clássico ou algo do tipo, com aqueles acordes suspensos. 

É parcialmente a história de seu avô, que era soldado, e parcialmente a história de uma enfermeira nos tempos modernos. Não sei se foi assim que ela fez, mas para mim é como uma enfermeira, médico ou profissional de medicina, em que a faculdade de medicina não o prepara totalmente para ver alguém morrer ou apenas os obstáculos emocionais que você encontrará em seu trabalho. No passado, os heróis eram apenas soldados. Agora, eles também são médicos. Para mim, essa é a mensagem subjacente da música. Há algumas coisas que você vê e que são difíceis de falar. Você não consegue falar sobre elas. Você apenas as testemunha. Mas há algo incrivelmente reconfortante nessa música. Para mim, é esse tipo de sentimento islandês, quase clássico. Meu irmão fez uma orquestração realmente bonita nela.

betty

Taylor e William escreveram, e então Jack e eu trabalhamos nela. Essa é a música que Taylor quis uma referência. Ela queria que fosse no estilo Bob Dylan do álbum Freewheelin.

Pergunta: Então, o folklore é secretamente um novo álbum do Big Red Machine?

Dessner responde timidamente: “Talvez você não esteja muito longe da verdade, mas acho que não vou dizer mais nada”. É uma música folclórica. Épica e narrativa, que nos conta uma longa história e se conecta ao single “cardigan”. É a música onde podemos começar a conectar os pontos da história e acho que é uma música folclórica lindamente escrita.

peace

De certa forma, essa me lembra Joni Mitchell – há uma canção de amor muito poderosa e emocionante, até a ponte impressionista, quase jazz, e ela a combina perfeitamente. Essa é uma das minhas favoritas, com certeza. Mas a verdade é que a música, essa maneira de tocar com linhas de baixo harmonizadas, é provavelmente uma inspiração em como Justin faz isso às vezes. Provavelmente há uma conexão lá. Nós não conversamos muito sobre isso [risos].

the hoax

Essa é uma grande música. Acho que ela me disse: “Não tente fazer algo além do que lhe parece natural”. Se você me deixar em uma sala com um piano, eu posso tocar algo assim. Eu sinto muito conforto nisso. Acho que a imaginei tocando e cantando essa música. Depois de escrever todas essas canções, essa foi a mais emocionante e, de certa forma, a mais crua. É uma das minhas favoritas. Há tristeza, mas é uma espécie de tristeza esperançosa. É o reconhecimento de quando você assume o fardo de seus parceiros, entes queridos e seus altos e baixos. Isso é “peace” e “hoax” para mim. É parte de como me sinto sobre essas músicas, porque acho que é a vida. É quando compreendemos que existe uma realidade, gravidade ou entendimento da condição humana.

the lakes

Essa é uma música do Jack. Remete a um jardim, ou como se você estivesse perdido em um belo jardim. Há um tipo de poesia grega nela. Uma trágica poesia, eu acho.

Matéria publicada pela Vulture e traduzida pela Equipe TSBR.





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