VOGUE: Taylor fala sobre sexismo, escrutínio e se defender por si mesma


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  • Publicado em 08 de agosto de 2019

É uma tarde de domingo no Tribeca, e estou no loft de Taylor Swift, dentro de uma antiga gráfica que ela restaurou e fortificou em um santuário de tijolos, veludo e mogno. O espaço é quente e aconchegante e vagamente literário — depois, quando passarmos pelo quarto dela a caminho do jardim, 10% do meu cérebro vai acreditar que o seu guarda-roupas abre uma passagem para Nárnia. Descalça e vestindo um top floral vinho com calças esvoaçantes que combinam, Swift está digitando senhas em um laptop para me mostrar o vídeo de “You Need to Calm Down” oito dias antes de lançá-lo para o mundo.

Eu tenho uma pequena ideia do que esperar. Poucas semanas antes, eu passei um dia na filmagem do vídeo, em um campo empoeirado/ferro velho ao norte de Los Angeles. Swift o tinha transformado em um estacionamento de trailers ao tipo Big Gay Candy Mountain, um lugar feliz cheio de cores. O elenco e equipe usavam óculos de sol em formato de coração — como emojis de olhos de coração ao vivo e a cores — e uma caixa de correio avisava: APENAS CARTAS DE AMOR.

Swift e vários convidados filmaram seis cenas ao longo de quase doze horas. A cantora e compositora Hayley Kiyoko, conhecida pelos fãs como “Jesus Lésbica”, disparou flechas em um alvo. A humorista e chef do Youtube Hannah Hart, dançou com Dexter Mayfield, o modelo masculino plus size que se auto-descreve como “garoto grande de salto”. O patinador olímpico Adam Rippon servia raspadinhas vermelhas. Swift e seu amigo próximo, Todrick Hall, de Kinky Boots e RuPaul’s Drag Race, tomavam chá com o elenco de Queer Eye.

O clima era animado e relaxado. Mas, no final do dia, eu não sabia o que os trechos iam compor. Houve dias de filmagem e aparições que eu não vi. Por razões de segurança, a música nunca tocou alto (o elenco usou fones de ouvido). Até mesmo a cena heroica em que Swift e Hall desfilavam de braços dados pelo cenário no pôr-do-sol foi filmada quase em silêncio total.

Por semanas depois disso, eu tentei investigar uma teoria. Comecei casualmente. Tinha um “5” no alvo, então eu fiz uma pequena busca para descobrir o que o número poderia significar. Imediatamente, já estava além da minha compreensão.

Swift tem uma queda por símbolos. Eu sabia que ela vinha colocando mensagens secretas nos encartes e usando metáforas como rimas desde o seu álbum de estreia autointitulado em 2006 — muito antes de sua mega fama transformá-la em um símbolo de supremacia pop. Mas eu não tinha entendido como o corpo do trabalho dela tinha se tornado codificado e bizantino. Não sabia, como os fãs de Swift sabiam, que deveria procurar por significados escondidos em todos os lugares. Por exemplo: no vídeo de 2017 para “Look What You Made Me Do” uma lápide na cena do cemitério diz NILS SJOBERG, o pseudônimo que Swift usou para a composição do hit de Rihanna “This Is What You Came For”, uma homenagem aos magos do pop da Suécia.

Depois de muito estudo autodidata — um amigo brincou que eu poderia ter aprendido mandarim no tempo que passei dissecando a coletânea de Swift — eu não estava perto de ter uma teoria. A música pop tem tantas camadas e significados em si mesmas ultimamente, mas o Universo de Taylor Swift se destaca. Capturar tudo é quase como entender Física Quântica.

Meu primeiro indicativo do que seria seu novo álbum, Lover, apareceu um pouco depois da meia noite do dia 1º de junho, no começo do mês do Orgulho LGBT+, quando Swift lançou uma petição em apoio ao Ato Federal de Igualdade. Essa legislação seria uma emenda ao Ato de Direitos Civis que declara ilegal a discriminação baseada em identidade de gênero e orientação sexual (foi aprovada no congresso, mas a perspectiva no Senado de Mitch McConnell não está clara). Swift também mandou uma carta ao Senador Lamar Alexander, Republicano do Tennessee, pedindo que ele votasse sim. O pedido, em seu próprio papel timbrado (nascida em 1989. AMA GATOS.), denunciava o Presidente Trump por não apoiar o Ato de Igualdade: “eu pessoalmente rejeito o posicionamento do presidente”, Swift escreveu.

De volta à cozinha, Swift aperta o play. “A primeira estrofe é sobre trolls e a cultura do cancelamento”, ela diz. “A segunda estrofe é sobre homofóbicos e as pessoas protestando em frente aos nossos shows. A terceira estrofe é sobre mulheres de sucesso sendo colocadas umas contra as outras”.

O vídeo é, para Swifties eruditos, um texto enriquecido. Eu segui pistas o suficiente para ter adivinhado algumas outras aparições — Ellen DeGeneres, RuPaul, Katy Perry. Eu senti a satisfação de um jogador que sobe de nível — conquista alcançada! O último frame encaminha os espectadores para a petição de Swift no change.org em apoio ao Ato de Igualdade, que já arrecadou mais de 400 mil assinaturas — incluindo as de Cory Booker, Elizabeth Warren, Beto O’Rourke e Kirsten Gillibrand — quatro vezes o número necessário para provocar uma resposta oficial da Casa Branca.

“Há mais ou menos um ou dois anos, Todrick e eu estávamos no carro e ele me perguntou: O que você faria se o seu filho fosse gay?

Estamos no andar de cima no jardim secreto de Swift, confortavelmente escondidas em uma cesta em tamanho humano que tem o formato de um casulo. Swift trouxe uma tábua de frios e está colocando queijo Brie em bolachas de sal marinho. “O fato de que ele teve que me perguntar… me chocou e me fez perceber que eu não tinha me posicionado de maneira clara e alta o suficiente”, ela diz. “Se meu filho fosse gay, ele seria gay. Não entendo a pergunta“.

Eu pressionei Swift neste tópico, e suas respostas foram diretas sem ser ensaiadas ou decoradas. Eu percebo que ela gosta de conversar comigo tanto quanto ela gostaria de uma cirurgia de canal — mas ela é totalmente educada e, quando mudamos o assunto para música, ela se anima e coloca frases melódicas em sua fala, claramente a língua que ela prefere falar.

“Se ele estava pensando nisso, mal posso imaginar o que meus fãs na comunidade LGBTQ poderiam pensar”, ela continua. “Foi meio devastador perceber que eu não tinha sido publicamente clara sobre isso”.

Entendo por que ela estava surpresa; ela tem mandado sinais pró-LGBTQ desde, ao menos, 2011. Muitos foram sutis, mas nenhum insignificante — principalmente para uma jovem estrela do country vinda de Nashville.

No vídeo para seu single “Mean” (do Speak Now, de 2010), vemos um garoto em um vestiário escolar com um suéter lavanda e uma gravata-borboleta, rodeado de jogadores de futebol. Em “Welcome to New York”, a primeira faixa do 1989, ela canta: “E você pode querer quem quer que seja. Meninos e meninos e meninas e meninas”. Dois anos depois, ela doou para um fundo para o recém criado Monumento nacional de Stonewall e apresentou o prêmio GLAAD a Ruby Rose. Em todas as noites da reputation Tour, no ano passado, ela dedicou a música “Dress” a Loie Fuller, pioneira da dança moderna e iluminação teatral que capturou a imaginação do fim do século em Paris e era abertamente gay.

Swift, que já foi criticada por manter suas opiniões políticas para si mesma, tomou uma posição explicita pela primeira vez um mês antes das primárias de 2018. No Instagram, ela endossou os Democratas para o legislativo do Tennessee e citou diretamente a republicana que concorria ao senado, Marsha Blackburn. “Ela acredita que os negócios tem o direito de se recusar a servir casais gays”, Swift escreveu. “Ela também acredita que eles não devem ter direito ao casamento. Esses não são os MEUS valores do Tennessee”.

Swift diz que a publicação foi em partes para ajudar os fãs mais jovens a entender que, se eles queriam votar, tinham que se registrar. Para dizer à eles, como ela coloca, “Ei, só pra você saber, você não pode só aparecer lá”. Cerca de 65 mil novos votantes se registraram nas primeiras 24 horas da publicação dela, de acordo com o Vote.org.

Trump apareceu para defender Blackburn no dia seguinte. “Ela é uma grande mulher”, ele disse à imprensa. “Tenho certeza de que Taylor Swift não sabe de nada sobre ela. Digamos que gosto da música de Taylor 25% menos agora, ok?”

Em Abril, incentivada por vários projetos de lei anti-LGBTQ em Tennessee, Swift doou 113.000 dólares ao Projeto de Igualdade no Tennessee, que defende os direitos LGBTQ. “Horrível”, ela fala sobre a legislação. “Não a chamam de ‘Proposta de Ódio’ por acaso”. Uma das coisas de que Swift mais gostou foi que o Projeto de Igualdade no Tennessee organizou uma petição de líderes religiosos na oposição. “Amei como foi inteligente abordar isso de uma perspectiva religiosa.”

Enquanto isso, o vídeo de “Calm Down” fez com que um pastor no Colorado chamasse Swift de “pecadora que precisa desesperadamente de salvação” e avisasse que “Deus irá bani-la”. Também reacendeu o debate dentro das comunidades LGBTQ sobre a política de aliados e corporização do Orgulho LGBT+. Alguns críticos argumentaram que a imagem pró-LGBTQ de Swift e suas letras estavam atrasadas e vieram do nada — uma reação que a mais nova estudada em Swift dentro de mim achou desconcertante. Eles não estavam prestando atenção?

Também não achei que não era do feitio de Swift usar seu poder por uma causa. Ela tirou seu catálogo do Spotify em 2014 por questionar o pagamento aos artistas. Ela peitou a Apple em 2015 quando a empresa disse que não pagaria os artistas durante o lançamento do seu serviço de música (Apple mudou a sua política imediatamente). Como condição de seu acordo com a Universal Music Group no ano passado, a companhia prometeu que distribuiria os lucros de qualquer venda de suas ações no Spotify para todos os artistas. E neste verão, Swift entrou em uma briga feroz com Scott Borchetta, fundador da Big Machine Label Group, por vender os originais de suas gravações para o empresário da música Scooter Braun. (Quando pergunto a Swift se ela tentou comprar seus originais da Big Machine, todo o corpo dela se curva com um peso palpável. “Precisava escolher entre investir no meu passado ou no meu futuro e de outros artistas, e eu escolhi o futuro”, ela fala sobre o acordo que fez com a Universal.)

O testemunho direto de Swift durante o caso de assédio sexual contra o DJ de uma rádio em 2017 — meses antes de o #MeToo ter explodido — me pareceu profundamente politico para mim e, imagino, para muitas outras mulheres. Swift acusou o DJ, David Mueller, de apalpá-la por baixo de sua saia em uma sessão de fotos em 2013. A equipe dela relatou o acontecimento para os empregadores dele, que o demitiram. Mueller negou a alegação e processou Swift pelo valor de 3 milhões de dólares e seu caso foi indeferido. Swift o contraprocessou por um valor simbólico de 1 dólar e ganhou.

Confira vídeo em que Taylor faz 8 perguntas a Anna Wintour, editora Chefe da VOGUE.
Em breve, legendado em nosso site.

Em um tribunal do Colorado, Swift descreveu o incidente: “Ele agarrou a polpa da minha bunda enquanto as fotos eram tiradas.” Questionada por que as fotos da frente de sua saia não mostravam isso, ela disse: “Porque minha bunda está localizada na parte de trás do meu corpo.” Questionada se ela se sentiu mal por o radialista perder seu emprego, ela disse, “eu não vou deixar que você ou seu cliente me façam sentir que de alguma forma isso é minha culpa. Aqui estamos anos depois, e estou sendo culpada pelos acontecimentos infelizes da sua vida que são o produto de suas decisões – não minhas.”

Quando a Time incluiu o Swift na capa de sua edição “Silence Breakers” naquele ano, a revista perguntou como ela se sentiu durante o depoimento. “Eu estava com raiva”, disse ela. “Naquele momento decidi abrir mão de todas as formalidades do tribunal e apenas responder as perguntas do jeito que aconteceu… me disseram que foi a maior quantidade de vezes que a palavra ‘bunda’ foi dita no Tribunal Federal do Colorado.”

Desde então, Mueller pagou à Swift um dólar — com uma moeda de Sacagawea. “Ele estava me perseguindo, insinuando que eu era hipócrita e estava influenciada por um feminismo raivoso e vingativo. Era por isso que eu estava o inferindo a me dar uma moeda de Sacagawea”, diz Swift. “Ei, talvez ele estivesse tentando fazer isso em homenagem a uma mulher nativa americana poderosa. Eu não perguntei.” Onde está a moeda agora? “Está com meu advogado.”

Eu pergunto a ela o motivo de agora ela ter se tornado mais vocal sobre os direitos LGBTQ. 

“Os direitos estão sendo retirados de basicamente todo mundo que não é um homem branco hétero e cisgênero”, diz ela. “Eu não sabia até recentemente que eu poderia advogar por uma comunidade da qual não faço parte. É difícil saber como fazer isso sem ter tanto medo de cometer um erro ao ponto de ficar paralisada. Porque meus erros são muito notórios. Quando eu cometo um erro, ele ecoa através dos cânions do mundo. Vira clickbait, faz parte da minha história de vida e faz parte do meu arco de carreira.”

Eu argumentaria que nenhuma mulher heterossexual poderia ouvir “You Need to Calm Down” e achar que é apenas um hino gay. “Acalme-se” é o que os homens controladores dizem às mulheres que estão com raiva, contrárias ou “histéricas”, ou, digamos, temendo por sua segurança física. É o que Brendon Urie diz a Swift no início do clipe “ME!”, fazendo com que ela gritasse: “Je suis calme!”

Eu não posso acreditar que seja uma coincidência que Swift, uma geek de números com afinidade por datas, tenha lançado o single — cuja batida compassada e incessante deverá estar ecoando em estádios do mundo inteiro em 2020, se ela sair em turnê — no dia 14 de junho, no aniversário de um certo presidente.

É esclarecedor ler 13 anos de cobertura da vida e carreira de Taylor Swift — todas as grandes resenhas, todos os grandes artigos — de uma só vez. Você percebe coisas.

A rapidez com que Swift passou de “prodígio” (The New Yorker) e “sábia da composição” (Rolling Stone) a um alvo de tabloides, por exemplo. Ou como fizeram sua ambição parecer suspeita quando ela conquistou poder de verdade.

Outros pontos de simplesmente parecem diferentes à luz do #MeToo. É difícil imaginar que hoje as músicas de Swift sobre seus ex seriam analisadas como sensacionalistas. Me pergunto se, em 2019, qualquer homem ousaria pegar o microfone das mãos de uma jovem em uma cerimônia de premiação. Fiquei refletindo por um bom tempo quando me lembrei que a Pitchfork não fez uma resenha do 1989 de Taylor Swift, mas fez do álbum-cover que Ryan Adams fez do 1989, de Taylor Swift.

Pergunto a Swift se ela sempre teve consciência do machismo. “Eu penso muito sobre isso”, diz ela. “Quando eu era adolescente, ouvia as pessoas falarem sobre machismo na indústria da música e eu pensava que não via isso. Não entendia. Então percebi que era porque eu era criança. Homens na indústria me viam como uma criança. Eu era uma jovem magricela e super empolgada, que as lembrava mais de sua pequena sobrinha ou filha do que de uma mulher de sucesso nos negócios ou uma colega de trabalho. No momento em que me tornei uma mulher, na percepção das pessoas, foi quando comecei a vê-lo.”

“Não há problema em infantilizar o sucesso de uma garota e dizer: que fofo ela está tendo alguns hits“, ela continua. “Que fofo que ela está escrevendo músicas. Mas no segundo em que se torna formidável? Assim que comecei a tocar em estádios — quando comecei a parecer uma mulher —, isso não era mais legal. Isso aconteceu quando comecei a misturar mais os gêneros ao lançar músicas do Red, como “I Knew You Were Trouble” e “We Are Never Ever Getting Back Together”.

Essas músicas também são mais assertivas do que as que vieram antes, eu digo. “Sim, o ângulo era diferente quando eu comecei a dizer ‘eu sabia que você era um problema quando você entrou’. Basicamente, você me manipulou emocionalmente e eu não amei isso. Isso não foi divertido para mim.”

Tive que me perguntar se ter suas composições menosprezadas, já que seus sucessos foram analisados minuciosamente, não foi a maior chatice de todas. Swift disse: “Eu queria dizer para as pessoas, ‘você percebe que escrever músicas é uma arte e um ofício e não é uma coisa fácil de fazer? Ou fazer bem?’. As pessoas agiam como se fosse uma arma que eu estava usando. Como um truque sujo e barato. ‘Tenha cuidado, mano, ela vai escrever uma música sobre você. Não fique perto dela.’ Em primeiro lugar, não é assim que funciona. Em segundo lugar, veja se eles dizem isso sobre um artista masculino em algum momento: ‘tenha cuidado, menina, ele usará sua experiência com você para obter — Deus me livre — inspiração para fazer arte.’

Sem dúvida, o teor da narrativa de Taylor Swift mudou drasticamente em julho de 2016, quando Kim Kardashian West a chamou de “cobra” no Twitter e vazou trechos de Swift e Kanye West discutindo as letras da música “Famous”. (Não há necessidade de repassar os detalhes aqui. Basta dizer que a versão dos eventos de Swift não mudou: ela sabia sobre algumas das letras, mas não outras; especificamente, os palavrões.) As publicações provocaram várias hashtags, incluindo #TaylorSwiftIsASnake e #TaylorSwiftIsCanceled, que rapidamente se transformou em uma campanha de meses para “cancelar” Taylor Swift.

Até hoje, Swift não acha que as pessoas percebem as repercussões desse termo. “Um ataque público em massa, com milhões de pessoas dizendo que você está cancelada, é uma experiência que isola muito. Não acho que existam muitas pessoas que conseguem de fato entender o que é ter milhões de pessoas dizendo tão alto que te odeiam.” Ela acrescenta: “Quando você diz que alguém está cancelado… isso não é um programa de TV. É um ser humano. Você está mandando várias mensagens para a pessoa se calar, desaparecer, ou pode até mesmo pode ser entendido como ‘se matar’.”

Uma revisada foi necessária. “Percebi que precisava reestruturar minha vida, pois parecia completamente fora de controle”, diz Swift. “Eu soube imediatamente que precisava fazer uma música sobre isso, porque eu sabia que era a única maneira de sobreviver a isso. Foi a única maneira de preservar minha saúde mental e contar a história de como é passar por algo tão humilhante ”.

Eu tenho uma noção da dor que Swift sentiu quando percebo que, depois de alguns meses desse caos, quando ela estava escrevendo as músicas que se tornariam o álbum reputation — e enfrentando Mueller no tribunal —, uma parte da mídia e da internet começou a exigir saber por que ela não tinha se descancelado por tempo suficiente para tomar partido na eleição presidencial.

Sobre isso: “Infelizmente, nas eleições de 2016, havia um oponente político que estava usando o apoio de celebridades como algo negativo. Ele ficava dizendo, ‘Sou um homem do povo. Sou de vocês. Me importo com vocês.’ Eu simplesmente sabia que eu não ajudaria em nada. Além disso, no verão antes daquela eleição, tudo o que diziam sobre mim era ‘Ela é calculista. Ela é manipuladora. Ela não é o que parece. Ela é uma cobra. Ela é mentirosa.’ São as mesmas coisas que gritavam para a Hillary. Será que eu seria um apoio ou um risco a mais? ‘Olha só, diga-me com quem andas e direi quem és. Olha, as duas mentirosas. Olha, as duas mulheres horríveis.’ Literalmente milhões de pessoas estavam me dizendo para desaparecer. Então desapareci. Em vários sentidos.”

Swift mostrou reputation pela primeira vez em agosto de 2017, com “Look What You Made Me Do”. O single veio com um lyric video cuja imagem central era um ouroboros, uma cobra engolindo seu próprio rabo, um símbolo ancestral de renovação contínua. Swift limpou seu perfil em todas as redes sociais e começou a publicar vídeos curtos de uma cobra. A música era bombástica e exagero puro. (Para não deixar nenhuma dúvida, o refrão foi interpolado do clássico do exagero dos anos 90, “I’m Too Sexy” de Right Said Fred.) Mesmo assim, a maioria dos críticos entendeu como se fosse uma granada lançada diretamente a Calabasas.

Um crítico tradicional de Nashville, Brian Mansfield, teve uma visão mais plausível: ela estava escrevendo sarcasticamente como a “Taylor Swift” mostrada na mídia numa tentativa de ter privacidade. “Sim, essa é a personagem que vocês criaram para mim, então me deixe esconder atrás dela”, afirma ela hoje sobre a persona que criou. “Eu sempre usei essa metáfora quando era mais jovem. Eu dizia que em toda reinvenção, eu nunca queria destruir minha casa. Porque eu construí essa casa. Essa casa sendo, metaforicamente, meu trabalho, minhas composições, meu catálogo, minha biblioteca. Eu apenas queria redecorá-la. Eu acho que muita gente, com o reputation, talvez tenha pensado que eu destruí a casa. Na verdade, eu só construí uma fortaleza ao redor dela.”

Em março, as cobras começaram a se transformar e borboletas, a paleta de tons sóbrios em tons pastéis. Quando uma grande floração de plantas silvestres atraiu uma grande quantidade de borboletas a Los Angeles, Taylor anunciou o evento em uma publicação no Instagram. Ela foi ao iHeartRadio Music Awards naquela noite com um macacão de cetim e sandálias com asas brilhantes pregadas.

Taylor anunciou o single “ME!” no mês seguinte com um grande mural de borboletas em Nashville. No clipe, uma cobra pastel explode em um caleidoscópio de borboletas. Uma voa pela janela de um apartamento, onde Taylor e Brendon Urie discutem em francês. Uma vitrola está tocando no fundo. “É uma versão instrumental meio anos 40 de ‘You Need to Calm Down’’’, Taylor diz. Depois, no clipe de “YNTCD”, Taylor tem uma tatuagem (falsa) de uma cobra envolta de borboletas.

Nós estamos apenas com duas músicas lançadas, gente. Lover, que será lançado dia 23 de agosto tem um total de 18 músicas. “Eu estava reunindo ideias por muito tempo”, Taylor diz. “Quando eu comecei a compor, não conseguia parar.” (Podemos assumir que o ator britânico Joe Alwyn, que Taylor namora há 3 anos, serviu de inspiração também.)

Taylor acha que o Lover possa ser seu álbum preferido até agora. “Esse álbum parece um novo começo em tantas formas”, diz. “É realmente uma carta de amor ao amor, com toda sua glória enlouquecedora, apaixonada, animadora, encantadora, horrível, trágica e maravilhosa.”

Preciso perguntar a Swift, vendo como ela parece genuinamente em paz, se uma parte dela não agradece — se não pelo Grande Cancelamento de 2016, pelo menos pela pessoa que ela é agora, que sabe quem são seus amigos e o lugar de cada coisa. “Quando você passa por uma perda ou é envergonhado publicamente, é um processo parecido com o luto, com muitas microemoções no mesmo dia. Um dos motivos de eu não ter dado entrevistas na era reputation é que eu não conseguia imaginar como estaria me sentindo dali a uma hora. Às vezes eu pensava: Todas essas coisas me ensinaram algo que eu nunca poderia ter aprendido de uma forma que não doesse tanto. Cinco minutos depois, o sentimento era: Isso foi horrível. Por que isso tinha que acontecer? O que eu ganho com isso além de doses cavalares de humilhação? E, mais cinco minutos depois, eu pensava: Acho que estou mais feliz que nunca.

Ela continua: “É tão estranho tentar ter consciência de si mesma quando você foi colocada como uma espécie de ‘queridinha da América’ sempre feliz e sorridente, depois ver alguém tirar isso de você e perceber que acabou sendo ótimo, porque isso limitava você.” Swift se encosta no casulo e sorri: “Não vamos pular para a gratidão nesse caso. Nunca. Mas vamos encontrar aspectos positivos nisso tudo. Nunca vamos escrever um bilhete agradecendo.”

Apesar de o abraço de hambúrguer-e-batata-frita de Swift e Perry no clipe de “You Need to Calm Down” estar sendo interpretado como um anúncio público de que as duas se acertaram, Swift diz que, na verdade, é um comentário sobre a mídia colocar cantoras pop uma contra a outra. Depois de Perry enviar a Swift um ramo de oliveira (de verdade) no ano passado, Swift pediu que ela fizesse parte do vídeo: “Ela disse, ‘Isso me deixa tão emotiva. Topo muito. Quero que sejamos esse exemplo. Mas vamos passar um tempo juntas. Porque eu quero que seja de verdade mesmo.’ E aí ela veio pra cá e conversamos por horas.”

“Decidimos a metáfora para o que acontece na mídia”, explica Swift. “e é que eles escolhem duas pessoas e é como se as duas estivessem derramando gasolina no chão. Basta um movimento em falso, uma palavra errada, uma falha de comunicação, e um fósforo aceso cai no chão. Foi o que aconteceu com a gente. Virou: ‘Quem é melhor? Katy ou Taylor? Katy ou Taylor? Katy ou Taylor? Katy ou Taylor?’ A tensão é tão alta que fica impossível não achar que a outra pessoa tem mesmo algo contra você.”

Enquanto isso, os protestantes do vídeo fazem referência a um grupo religioso que faz protestos em frente aos shows de Swift, não a brancos da classe trabalhadora em geral, como alguns presumiram. “Eles aparecem em shows de tantos artistas, e é uma coisa tão confusa e irritante de ter na frente de shows cheios de alegria”, ela me diz. “Obviamente, não vou mencionar a entidade de fato, porque eles ficariam felizes com isso. Dar palco para eles não está na minha lista de prioridades.”

Em certo ponto, Swift pergunta se eu gostaria de ouvir duas outras músicas do novo álbum. (Dã.) Primeiro, ela toca “Lover”, a faixa-título, coproduzida por Jack Antonoff. “Esta aqui tem uma das minhas pontes favoritas”, ela diz. “Eu amo pontes, e pude explorar bem isso.” É uma preciosa baladinha romântica, intimista, difícil de esquecer: a clássica Taylor Swift. “Meu coração não era meu e o seu estava frio. Tudo que é bom termina bem, como acabar junto a você.”

Depois, Swift toca uma faixa que “brinca com a ideia de percepção”. Ela sempre se pergunta como seria a forma que falam ou escrevem sobre ela se ela fosse um homem, “então eu escrevi uma faixa chamada The Man (O Homem)”. É uma espécie de experimento com pensamentos. “Se eu tivesse feito todas as mesmas escolhas, cometido todos os mesmos erros, alcançado as mesmas conquistas, como isso seria visto?” Segundos depois, os fones dela tocam um pop grudento com sintetizadores no meu ouvido: “Eu seria um líder destemido. Seria um tipo alfa. Quando todo mundo acredita em você: Como é o sentimento?”

Swift escreveu os dois primeiros singles com Joel Little, mais conhecido como um dos produtores favoritos de Lorde. (“De um ponto de vista de compositoras pop, ela é o ápice”, diz Little de Swift.) O álbum deve incluir mais nomes de destaque. Um retrato das Dixie Chicks no fundo do clipe de “ME!” aponta, quase com certeza, para uma colaboração. Se os fãs estiverem entendendo bem um dos broches na jaqueta dela em outra capa de revista recente, podemos esperar uma com Drake também.

Ela anunciou recentemente uma coleção com Stella McCartney, coincidindo com o Lover. “Nos conhecemos em um dos shows dela”, diz McCartney, “depois fizemos uma noite das garotas e entramos de cabeça. Em Londres, saímos para passear e conversamos sobre tudo, da vida e do coração”. (Swift não tem mais ambições na moda no momento. “Eu amo meu trabalho de verdade agora”, ela me diz. “Meu foco está na música.”) Ah, e o número 5 do alvo no clipe? A faixa 5 se chama “The Archer”.

Mas algo me diz que a pista mais interessante para entender tanto o Lover quanto o reputation pode ser Loie Fuller, a dançarina que Swift homenageou na turnê. Como Swift destacava em um telão toda noite, Fuller “lutou para que os artistas fossem donos de seu trabalho”. Fuller também usou o movimento de tecidos e luzes coloridas para fazer uma metamorfose no palco, brincando de “esconde-esconde com ilusões” com a plateia, como disse um escritor. Ela virou musa dos Simbolistas em Paris, onde Jean Cocteau escreveu que ela criou “o fantasma de uma era”. O efeito, segundo o poeta Stéphane Mallarmé, era uma “tontura na alma exposta por um artifício”. A obra mais famosa de Fuller era chamada “Serpentine Dance”. Outra era chamada “Butterfly Dance”.

Swift quase não parou desde o fim de 2017, mas, no pouco que parou, ela se divide entre Nova York, Nashville, Los Angeles e Rhode Island, onde ficam suas casas, e Londres. Em um ensaio no começo do ano, ela revelou que a mãe, Andrea Swift, estava lutando contra o câncer pela segunda vez. “Houve uma recaída”, diz Swift, se recusando a entrar em mais detalhes. “É algo que minha família está enfrentando.”

Ainda neste ano, ela vai estrelar a adaptação para o cinema de Cats, de Andrew Lloyd Webber, como Bombalurina, a gata vermelha paqueradora. “Eles fizeram com que ficássemos do tamanho de gatos tornando os móveis e o cenário maiores”, ela diz. “Você mal conseguia alcançar o assento de uma cadeira. Foi fenomenal. Era como ser uma criança pequena.”

Mas antes, ela vai passar uma parte do verão fazendo as “secret sessions”, onde tradicionalmente Swift convida centenas de fãs para conhecerem as músicas novas em suas várias casas. “Eles nunca me deram nenhum motivo para parar de fazer”, ela diz. “Nem por um momento.”

Falando nisso: os fãs vão querer saber se Swift deixou mais alguma pista para o Lover durante a entrevista. Por vocês, eu ouvi o áudio outra vez, e houve algumas coisas que fizeram meu novo sentido-Swift disparar.

Em certo ponto, ela comparou o superestrelato na era digital a uma casa de boneca, em que as pessoas que observam “podem ‘shippar’ você com quem quiserem ‘shippar’, e podem ter os ‘favoritos’ entre seus amigos, e podem saber onde você está o tempo todo”. A metáfora foi precisa e vívida e, bom, um pouco complexa demais para ter sido tão espontânea. (Além disso, na letra de “ME!”, tem um “boneca” também: “Baby doll, when it comes to a lover, I promise that you’ll never find another like me.”)

E aí teve o balão: um balão dourado gigante na forma do numeral 7 que passou voando enquanto estávamos no telhado dela, bem agora, no sétimo álbum dela. “É um L?” eu pergunto. “Não, olha, a cordinha está na parte de baixo”, ela responde.

Pode parecer um gesto simbólico óbvio, feito para esta entrevista, se não parecesse tão impossível. Swift me deixou controlar o tempo de quase tudo. Além disso, o 7 dourado não estava flutuando na calçada. Já estava lá no alto, vindo da rua em direção a nós. Ela teria que ter controlado o vento, ou ao menos o estudado. Será que Taylor Swift iria tão longe por seus fãs? Isso eu sei: sim, iria.

Confira as duas capas da edição de setembro em nossa galeria e as fotos do ensaio em alta qualidade:


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