29 de abril de 16 Autor: Erika Barros
TSBR Indica: “Blue”, Joni Mitchell (1971)

Em nossa nova coluna que será liberada aos finais de semana, nós recomendaremos referências diretas e indiretas em trabalhos semelhantes ao da Taylor. É uma forma de vocês conhecerem um pouquinho mais das inspirações da nossa cantora favorita, do universo cultural em que ela está inserida e também de se entreter no tempo livre. Agora que já explicamos um pouquinho sobre este especial, mãos à obra, ok?!

Para começar, não poderíamos escolher trabalho diferente do “Blue”, álbum de Joni Mitchell lançado no início dos anos 70. O álbum foi uma inspiração direta para o “Red”, lançado por Taylor em 2012.

“Blue” é tido como um dos maiores álbuns de todos os tempos e foi listado pela Rolling Stone como o 2º melhor álbum feminino da história da música, ficando atrás apenas do “I Never Loved A Man The Way I Love You”, de Aretha Franklin. A lista é de junho de 2012 e, embora o “Red” e o “1989” ainda não tivessem sido lançados, Taylor aparece nela com o “Speak Now”, seu álbum intimista lançado em outubro de 2010.

xblue

Blue
Álbum de Joni Mitchell

Lançamento: 22 de junho de 1971
Gênero(s): Folk, folk rock
Gravadora: Reprise Records
Disponibilidade: Serviços de streaming e iTunes
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Tracklist

Lado A
1. All I Want
2. My Old Man
3. Little Green
4. Carey
5. Blue

Lado B
6. California
7. This Flight Tonight
8. River
9. A Case of You
10. The Last Time I Saw Richard

O lado A do álbum se inicia com a poderosa “All I Want” e as primeiras palavras de Joni no disco são “I am on a lonely road and I am traveling, traveling, traveling, traveling. Looking for something, what can it be?” (Eu estou em uma estrada solitária viajando, viajando, viajando, viajando. Procurando por algo, o que pode ser?). A frase é um resumo do que virá no álbum, em especial, o sentimento de solidão que Joni carregou durante a composição das dez músicas.

Joni compôs o “Blue” enquanto viajava pela Europa, o que explica o fato deste verso fazer alusão às viagens e a sua constante busca por inspiração. Outros pontos de destaque na mesma canção são “All I really really want our love to do is to bring out the best in me and in you” (Tudo o que realmente quero é que nosso amor traga o melhor em mim e em você) e “How you hurt me, baby? So I hurt you too, then we both get so blue” (Como você me machuca, amor? Então eu te machuco também, e ambos ficamos azuis). É importante lembrar que, assim como o vermelho é uma cor relacionada à intensidade, à paixão e ao calor, o azul é uma cor relacionada à tristeza, ao frio e à sensação de vazio.

“Little Green” é uma das músicas mais fortes do álbum e também da carreira de Joni: fala sobre a filha biológica que ela deu para adoção quando vivia em Toronto e era uma cantora pobre, em 1967. A história só se tornou pública na década de 90, quando uma colega de Joni vendeu-a para um tabloide. Mitchell comentou posteriormente, dizendo: “Eu era pobre e tola. Uma mãe infeliz não cria uma criança feliz. Foi difícil romper, mas tive que deixá-la ir.

A letra começa com “Born with the moon in Cancer, choose her a name she will answer to… call her green and the winters cannot fade her” (Nascida com a lua em Câncer, escolha para ela um nome que ela pergunte a razão… chame-a de verde e os invernos não a apagarão); só nestes primeiros versos podemos notar o quão pessoal e devastadora é a canção, apesar do ritmo ser o de um folk receptivo e aconchegante. Joni fala sobre o nome que escolheu para a filha antes de dá-la para a adoção, Kelly, que é um tom de verde (verde kelly). Ela diz que, com um nome verde, a garota jamais seria apagada pelo inverno e pede para que os pais adotivos preservem o nome que ela escolheu para a criança.

Em “Blue”, música que dá nome ao álbum, Joni fala sobre sua própria tristeza e a depressão que vivia nos anos em que compôs o disco.

O lado B do álbum começa com a sexta música, “California”, que confirma o que Joni já havia dito em “Carey” — ela não aguenta mais ficar longe das pessoas que ama e da Califórnia, onde ficava sua residência oficial. Alguns versos dizem “Reading Rolling Stone, reading Vogue, they said ‘how long can you hang around?’ I said a week, maybe two, just until my skin turns brown” (Lendo a Rolling Stone, lendo a Vogue, eles dizem ‘quanto tempo você pode vagar por aí?’ e eu digo uma, talvez duas semanas, até que minha pele fique bronzeada). Estes versos fazem referência ao tempo em que Joni passou na Espanha, lugar ainda mais quente do que a própria Califórnia; neste momento, a maior parte da imprensa se perguntava quanto tempo Joni levaria para reaparecer e lançar um novo álbum, e ela diz que “apenas o suficiente para pegar um bronzeado”. Genial, não é?

“River” é sobre um rompimento amoroso próximo na época natalina e seus versos “It’s coming on Christmas, they’re cutting down trees, they’re putting up reindeer and singing songs of joy and peace, I wish I had a river I could skate away on” (Está chegando o Natal, eles estão cortando árvores, estão colocando as renas e cantando canções de alegria e paz, eu gostaria de ter um rio para patinar para longe) descrevem perfeitamente a forma como o sentimento de um término se contrapõe à sensação de unidade que o Natal traz às pessoas.

“A Case of You” é tida como a maior música da carreira de Joni. Uma balada de batida lenta com uma letra poderosíssima, é uma espécie de relato fiel sobre como Joni enfrentou um término em sua vida (supostamente o término com Leonard Cohen, cantor canadense), mas como a pessoa ainda está grudada a ela de uma forma inexplicável; em um dos versos Joni fala “I drew a map of Canada, oh Canada… with your face sketched on it twice” (Eu desenhei um mapa do Canadá, oh Canadá… com seu rosto esboçado nele duas vezes) e esta seria uma pista de onde vivia o tal affair ao qual se refere a canção.

Outra análise sobre o mesmo verso diz que a pessoa sobre quem Joni canta amava mais a si mesma do que a cantora; esta foi a razão pela qual ela desenhou duas vezes o rosto do amado no mapa, ao invés de ter desenhado o seu próprio rosto ao lado do rosto dele. O refrão da música diz “I could drink a case of you, darling, and still I’d be on my feet” (Eu poderia beber uma caixa de você, querido, e ainda estaria sóbria), o que indica o quão fiel e dedicada a este amor Joni era, estando até mesma viciada a ele, em contraposto com o que o narcisista sente. Isso até mesmo nos remete à “We Are Never Ever Getting Back Together” onde Taylor dá a entender que seu ex era meio narcisista ao considerar outras (ou suas) músicas “bem mais legais que a dela”.

“The Last Time I Saw Richard” é a última faixa do álbum e especula-se que a canção fale sobre Chuck Mitchell, primeiro marido de Joni, e o breve casamento que ambos tiveram juntos. A cantora termina o álbum com os seguintes versos: “All good dreamers pass this way some day, hidin’ behind bottles in dark cafes… dark cafes, only a dark cocoon before I get my gorgeous wings and fly away… only a phase, these dark cafe days” (“Todos os bons sonhadores passam por este trajeto um dia, escondendo-se atrás de garrafas em cafeterias escuras… cafeterias escuras, só um casulo escuro antes que eu encontre minhas maravilhosas asas e voe para longe… só uma fase, estes dias de cafeteria escura”), ou seja, apesar de todo o peso e dor que estão atrelados a este álbum, Joni o enxerga como só uma fase e sabe que tudo em breve ficará bem.

Só falando assim já deu pra perceber a maior parte das semelhanças entre o “Blue” e o “Red”. Aliás, o álbum “Red”, lançado por Taylor em 2012, teria ganhado este título por conta do “Blue”, sendo Joni uma das maiores inspirações de Taylor.

Joni mostra, no primeiro verso de “Little Green”, ser devota da astrologia, o que Taylor afirma logo em “State of Grace” no verso “Just twin fire signs” (Apenas signos gêmeos de fogo).

“Blue” pode ser relacionada à canção “Red”, pois Joni vê o romance em uma cor, azul, exatamente como Taylor também enxerga o amor em cores em “Red”. Observamos uma ligação com a cor azul no verso “Losing him was blue like I’d never known” (Perdê-lo foi azul [triste] como se eu jamais soubesse).

“This Flight Tonight” tem uma estranha semelhança com “Come Back… Be Here”, apesar de Taylor não se mostrar arrependida como Joni por terminar o affair em questão. “The Moment I Knew”, por sua vez, parece ser uma releitura de “River”, à medida que ambas as músicas mostram a frustração de terminar um relacionamento em dezembro.

“A Case of You” pode, muito bem, ter servido de inspiração para a obra-prima que é “All Too Well”, pois ambas expressam uma reflexão que as cantoras tiveram após um término e mostram que, mesmo depois do rompimento, as duas continuavam acreditando no sentimento que nutriam pela tal pessoa — em “All Too Well” e “A Case of You”, tanto Taylor quanto Joni deixaram claro que o amor é, para elas, uma religião, uma bússola, algo que norteia tanto a vida pessoal quanto a vida profissional.

“The Last Time I Saw Richard” e “Begin Again” são canções que terminam os álbuns com uma bela mensagem de esperança: não importa o quão partidas as artistas estejam, elas sabem que são capazes de recomeçar e que a dor é capaz de fazê-las crescer (Além de ambas citarem a localização de uma cafeteria).

Outra ligação encontrada em “Begin Again” é o fato de Taylor citar o quão é fã de James Taylor, cantor da geração de Joni, que além de ter trabalhado neste álbum tocando violão em “California”, “All I Want” e “A Case of You”, também se especula ter sido um dos affairs da cantora e que posteriormente escreveram músicas um sobre o outro.

As más línguas especulam que “The Lucky One” seja sobre Joni Mitchell, que Taylor tenha escrito uma canção para dizer o quanto admira a carreira de sua ídolo e que ela ainda servirá por muito tempo de inspiração. Se é verdade? Bem, nós provavelmente jamais saberemos, mas que Taylor e Joni têm muito em comum isto é fato: Joni é considerada uma das maiores compositoras de sua época, enquanto Taylor é considerada uma das maiores de nossa geração.

Para uma grande compositora, não é necessário um estúdio repleto de artistas — basta um violão, um lápis e algumas lágrimas. Divulgada em 2003, a lista dos 500 melhores álbuns de todos os tempos marca o “Blue” como o 30º melhor álbum da história da música.

Ainda que com todas as semelhanças, “Blue” não precisaria de nada além de suas músicas para ser ouvido. Foi por isto que Taylor o fez por tanto tempo, e é por isto que nós temos o “Red” para chorar nossas mágoas. Obrigado, Joni Mitchell.





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