11 de novembro de 17 Autor: Taylor Swift Brasil
The Guardian: “composição soberba com drama extremo”

Taylor Swift: Reputation — composição soberba com drama extremo
Ele pode mirar em amargura e fofocas, mas a composição esperta e proeza lírica da estrela são inegáveis em seu sexto álbum

Algumas versões do sexto álbum de Taylor Swift vêm completas com um bilhete, escrito pela cantora e compositora de 27 anos. Ele começa com alguns pensamentos gerais sobre redes sociais: os rumores infestados nelas nem sempre são reais, as imagens que as pessoas apresentam delas mesmas ali nem sempre refletem a realidade. Então passa para as pressões da vida sob os holofotes da mídia –“Minhas decepções amorosas foram usadas como entretenimento”– e repreende rapidamente aqueles que possam tentar interpretar as músicas de Swift como sendo sobre sua vida pessoal: “Quando este álbum sair, blogs de fofoca vão escavar as letras procurando os homens correspondentes a cada música (…) haverá galerias de fotos para apoiar cada teoria incorreta”.

É neste ponto que mesmo o fã mais devotado de Taylor Swift pode involuntariamente soltar as palavras “Ah, larga disso”. Ela tem bastante razão sobre a forma exaustiva com que o trabalho de mulheres cantoras e compositoras é invariavelmente interpretado como autobiográfico, enquanto o dos colegas homens não é. (“Eu acho que, às vezes, quando descrevem música como confessional, é um termo que relegam a artistas mulheres”, é como Annie Clark, a St. Vincent, disse há alguns anos.) No entanto, é difícil pensar em outra estrela do pop que se provou tão brilhante em manipular a mídia através de sua música, em explorar a obsessão lasciva que existe com as minúcias das vidas das celebridades –seus romances, suas brigas, reais ou imaginárias. Com todo respeito, parece um pouco rico começar a reclamar de pessoas peneirando suas letras atrás de pistas sobre quem elas são quando você introduziu seu álbum novo com Look What You Made Me Do, uma música e um clipe tão cheios de referências à sua vida privada que os fãs se sentiram impelidos a escrever guias de todas as alusões indiretas como se fosse um poema de T.S. Eliot, em vez de uma música pop de três minutos que tirou seu refrão de I’m Too Sexy do Right Said Fred.

Talvez seja um blefe duplo elaborado: se são essas alusões que vocês querem, por mais que me doa, é isso que eu vou dar. Certamente, se a sua área são músicas que fazem você se perguntar a quem ou ao que se referem, então o reputation é o tipo certo de álbum pra você: “Que comecem os jogos”, anuncia a abertura …Ready For It?, como se a coisa toda fosse um quebra-cabeça esperando ser montado. Começando pelo título, reputation é um álbum frequentemente obcecado com fofocas –-“Todos os mentirosos estão dizendo que sou um deles”, “Um circo não é uma história de amor” e “Se ele falar de mim eu não lhe devo nada”— assim como as conspirações de inimigos sem nome. “Eu tenho alguns grandes inimigos”, diz End Game, enquanto This Is Why We Can’t Have Nice Things passa três minutos e meio com os lábios franzidos em desaprovação, expondo uma antiga amizade, com muitas referências à vida exótica regada a champanhe da qual a tal amizade agora será excluída por incitar a ira de Swift. Quem quer que seja o assunto, essa amargura endinheirada é um pouco desagradável de ouvir, como o Morrissey depois de receber um cartão Amex preto.

Essas letras são frequentemente ditas em música que soa como Swift cortando seus últimos laços com as raízes de Nashville para fazer o retumbante pop com influência EDM. Em seu melhor, essas músicas têm uma energia efervescente que lembra o brilhante Blackout, álbum fodam-se-todos-vocês de Britney Spears em meio ao seu surto (em outra referência a Spears, o refrão brilhante de Don’t Blame Me traz uma progressão de acordes que lembra …Baby, One More Time). Em seu menos atraente, ainda são canções pop decentes, mas parecem genéricas: poderiam ter sido feitas por Rihanna ou Rita Ora. Com todos seus protestos, fica a impressão de que a linha de composições que começou com o enigma de You’re So Vain de Carly Simon –que Swift convidou Simon para cantar com ela no palco de sua turnê de 2013– está alcançando sua fase terminal aqui, onde a música é menos importante que a habilidade das letras de criar o que Swift chama de “drama”.

Se isso fosse tudo que o reputation tem a oferecer liricamente, seria uma decepção –mas não é. Swift é espertinha. Ela é esperta o suficiente para escrever letras muito melhores e mais inteligentes que a média do pop, invertendo o clichê do amar e deixar de Romeu –“Vou gravar seu nome na cabeceira da minha cama”, ela rosna– e admitindo a derrota quando suas cantadas não funcionam com um “Acho que vou cambaleando pra casa e ficar com meus gatos — sozinha”. E ela certamente é esperta demais para colocar todos os ovos em uma cesta só. No coração do reputation há uma sequência de canções que falam da ascensão e queda de um relacionamento fugaz e oferecem uma aula de composição pop no caminho. Gorgeous, Getaway Car e King of My Heart são cheias de melodias fantásticas –a melodia de Gorgeous tem uma melancolia encantadora que lembra ABBA– e letras bem líricas: “Você deveria pensar nas consequências de o seu campo magnético ser um pouco forte demais”. Enquanto isso, Dancing With Our Hands Tied retorna ao som AOR que inspirou o 1989, e a faixa de encerramento New Year’s Day se prova uma exceção à regra geral de que a balada de piano é o ponto fraco de todo álbum pop, expondo raízes musicais que o resto do reputation esconde: você não chega a lugar nenhum em Nashville se não souber como fazer uma música romântica que acerta bem lá no fundo.

Ela proporciona uma conclusão a um álbum que parece ser ele próprio uma conclusão. Ele leva um aspecto da composição de Swift a seu limite: Look What You Made Me Do e This Is Why We Can’t Have Nice Things parecem o fim da linha para o tipo de música que faz os fãs jogarem hashtags por aí e se pronunciarem como #TeamTaylor. Mas o reputation também sugere que isso não importa: como o bilhete apontou e as músicas confirmam, há muito mais em Taylor Swift do que soltar pistas e criar drama.

–Alexis Petridis
4/5 estrelas

(Texto original)





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