Taylor Swift conta à Variety mais sobre “o quão prejudicial isso tem sido para mim – meu relacionamento com a comida”, um assunto abordado com ousadia em seu documentário do Sundance, “Miss Americana”.

No novo documentário de Taylor Swift, “Miss Americana”, que estreou no Sundance Film Festival na noite de quinta-feira, há uma montagem de comentários depreciativos sobre a cantora que apareceu em programas de TV à cabo ao longo dos anos. Uma das observações menos desagradáveis: “Ela é muito magra. Me incomoda.”

Acontece que, eventualmente, incomodou Swift também.

Em um dos segmentos mais reveladores e surpreendentes do filme da Netflix, Swift fala por vários minutos sobre ter lutado no passado com um distúrbio alimentar.

Depois de ser fotografada por uma falange de fotógrafos logo após sair pela porta da frente de sua casa, a voz de Swift é ouvida por cima das imagens dizendo: “não é bom para mim ver fotos minhas todos os dias”. Embora ela diga “isso só aconteceu algumas vezes, e eu não tenho nenhum orgulho disso”, Swift admite que houve momentos no passado em que ela viu “uma foto minha em que parecia que minha barriga era grande demais ou… alguém disse que eu parecia estar grávida … e isso me engatilhava a passar um pouco de fome – só parar de comer.

Swift explicou o que ela passou nesse período em sua entrevista para a reportagem de capa da Variety desta semana, dizendo que era difícil para ela falar sobre isso no documentário.

Eu não sabia se eu iria me sentir confortável em falar sobre imagem corporal e falar sobre as coisas que eu passei em termos do quão prejudicial isso tem sido pra mim – meu relacionamento com a comida e tudo mais ao passar dos anos”, ela diz à Variety. “Mas o jeito que a Lana (Wilson, diretora do filme) conta a história, realmente faz sentido. Eu não sou tão articulada quanto deveria ser sobre esse tópico porque tem tantas pessoas que poderiam falar sobre isso de um jeito melhor. Mas tudo que eu sei é minha própria experiência. E meu relacionamento com a comida era exatamente a mesma psicologia que eu aplicava em todas as outras coisas da minha vida: se eu ganhasse um tapinha na cabeça de aprovação, eu registrava como uma coisa boa. Se eu recebia uma punição, registrava isso como algo ruim.”

No silêncio de uma suíte de hotel, ela entra em mais detalhes sobre o efeito formativo que uma das primeiros manchetes de tablóides teve nela. “Lembro que, aos 18 anos, foi a primeira vez que estive na capa de uma revista”, diz ela. “E a manchete era: ‘Grávida aos 18?’ E era porque eu usava algo que fazia meu estômago não parecer reto. Aí eu registrei isso como um castigo. E então eu entrava em uma sessão de fotos e ficava no provador e alguém que trabalhava em uma revista dizia: ‘Uau, é tão incrível que você pode se encaixar nos tamanhos das amostras. Geralmente temos que fazer alterações nos vestidos, mas podemos tirá-los da passarela e colocá-los direto em você!’ E eu vi isso como um tapinha na cabeça. Você registra isso o suficiente para começa a acomodar tudo em ‘elogios’ e ‘punições’, incluindo seu próprio corpo.”

Ela hesita. “Acho que nunca quis falar sobre isso antes e estou muito desconfortável falando sobre isso agora”, diz ela calmamente. “Mas no contexto de todas as outras coisas que eu estava fazendo ou não na vida, acho que faz sentido” ter isso no filme, diz.

Wilson, a diretora, se orgulha de Swift por abordar o assunto com tanta sinceridade. “Essa é uma das minhas sequências favoritas do filme”, diz ela. “Fiquei surpresa, é claro. Mas eu amo como ela está meio que pensando alto sobre isso. E toda mulher se verá nessa sequência. Não tenho dúvidas.

A cineasta ressalta que, claramente, havia muitas pessoas que não consideravam Swift tão magra assim por volta 2010. “Você pode simplesmente não notar as pessoas realmente magras, porque estamos todos acostumados a ver mulheres nas capas de revistas que são magras e saudáveis que isso se normaliza.” Mesmo com quem não é celebridade, diz Wilson, todo mundo é um crítico de corpo . “É incessante, e posso dizer isso como mulher: é incrível para mim como as pessoas estão constantemente dizendo ‘Você está mais magra’ ou ‘Você ganhou peso’. Pessoas que você mal conhece dizem isso para você. E é horrível, de nenhuma maneira você vence. Então eu acho realmente corajoso ver alguém que é um modelo para tantas meninas e mulheres ser tão honesta sobre isso. Eu acho que terá um enorme impacto.”

Por mais que Swift possa ser vista como um modelo para falar francamente sobre o assunto, ela tem sua própria artista favorita, por assim dizer, quando se trata de defender questões de auto-imagem corporal feminina.

“Eu amo pessoas como (a atriz e ativista) Jameela Jamil, porque ela fala as coisas de um jeito muito articulado”, a cantora nos diz. “A maneira como ela fala sobre imagem corporal, é quase como se ela falasse em mantras. Se você ler as citações dela sobre mulheres, imagem corporal, envelhecimento e a maneira como somos tratadas em nossa indústria e retratadas na mídia, eu juro que o jeito que ela fala parece trechos de música, fica preso na minha cabeça e me acalma. Porque as mulheres são condicionadas a um padrão de beleza tão ridículo, e estamos vendo tantas coisas nas redes sociais que fazem sentir menos que outras, ou que não são o que deveríamos ser, que você meio que precisa de um mantra para repetir sua cabeça quando você começa a ter pensamentos ruins. Então ela é uma das pessoas que, quando eu leio o que ela diz, eu guardo e me ajuda.”

No filme, as fotos de “antes e depois” ilustram o quão magra Swift havia ficado durante a era “1989” em comparação com o visual, ainda esbelto, mas mais saudável, que ela exibia quando fez turnê pelo álbum “Reputation” em 2018. Swift diz que sua falta de comida naquele tempo afetou severamente sua resistência em turnê.

“Eu pensei que o normal era sentir que iria desmaiar no final de um show, ou no meio dele”, ela atesta no documentário. “Agora eu percebo que não, se você come, tem energia, fica mais forte, pode fazer todos esses shows e não se sentir enervado.” Swift diz que não se importa tanto agora se alguém comentar sobre seu ganho de peso, e ela reconciliou “o fato de ser do tamanho 6 em vez de um tamanho 00”. Swift diz que não sabia que havia algo errado na era 00 e tinha uma defesa pronta, caso precisasse… Se alguém manifestasse preocupação, ela diria: “Do que você está falando? Claro que eu como… E me exercito muito. ‘E eu realmente me exercitava muito. Mas eu não estava comendo.”

Poucas mulheres que assistem ao filme deixarão de concordar com a cabeça quando Swift descreve a impossibilidade de qualquer forma ou tamanho corporal atender a todos os padrões de beleza. “Se você é magro o suficiente, não tem a bunda que todo mundo quer”, diz ela no filme. “Mas se você tem peso suficiente para ter uma bunda, seu estômago não está liso o suficiente. Tudo é simplesmente impossível.” Quando ela ficou ciente do problema, diz Swift no filme, isso a fez “entrar em uma verdadeira espiral de vergonha/ódio”.

A palavra “vergonha” aparece em outro lugar na conversa com Swift, que em virtude de se tornar uma das mulheres mais célebres do mundo também teve que lidar com mais comentários maliciosos do que quase qualquer celebridade do mundo – e nem sempre conseguiu ‘deixar pra lá’.

“Eu estava assistindo um especial da Brené Brown pra Netflix sobre vergonha, eu li muitos livros dela porque tenho que lidar com a vergonha de vez em quando”, diz Swift à Variety. “Ela estava dizendo algo como: ‘É ridículo dizer: “Eu não me importo com o que alguém pensa de mim”, porque isso não é possível. Mas você pode decidir quais opiniões são mais importantes e sobre as quais você dá mais peso.’ E acho que isso realmente faz parte do processo de crescimento, se você vai fazer isso do jeito certo. Isso faz parte da esperança de encontrar algum tipo de maturidade e equilíbrio em sua vida. “

Ela continua: “Não espero que ninguém com uma carreira pop aprenda como fazer isso nos primeiros dez anos. E sei que muitas coisas ruins aconteceram recentemente, muitas coisas difíceis pela qual minha família está passando e muita oposição e  pressão ou supressão, de um tipo ou de outro. Mas estou realmente muito feliz. Porque eu separo e escolho agora, na maior parte, o que me interessa profundamente. E acho que isso fez uma enorme diferença. “

Entrevista publicada pela Variety e traduzida pela equipe TSBR.





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