04 de agosto de 20 Autor: Karla Santos
Review: Taylor Swift encontra a paz em ‘folklore’

Taylor Swift nos entrega 16 páginas de seu diário secreto…

A penúltima música no sereno e requintado ‘folklore’, de Taylor Swift, se chama ‘peace’. Uma Swift outrora vingativa, à mercê de amores indo e vindo, finalmente encontrou a paz. E a paz pode ser usada para descrever tudo sobre o ‘folklore’ — da atmosfera sônica que cria, o período criativo em que foi escrito, ao casulo de anseio deslocado e auto reflexões de limpeza mental que a quarentena te força a entrar.

O fato de a natureza acelerada de nossas vidas ter finalmente sucumbido por causa de algo muito mais deliberado deu origem ao ‘folklore’, um álbum que favorece a auto-atualização — a tão esperada segunda chance que nos damos enquanto fazemos as pazes com a realidade e permitimos que algo bonito saia dela. A quarentena se transformou em uma época de artesanato, isolamento, auto-reflexão, saudade e realização. E todas essas coisas ao mesmo tempo para Swift, cujo delicado oitavo álbum se uniu surgiu como uma fantasia na fervilhante e interminável agonia do isolamento.

Grande adição ao catálogo de Swift – resultado apenas da incerteza frenética de nossa era atual – é quase um milagre que este álbum tenha se concretizado. Se o mundo nunca tivesse virado de cabeça para baixo três meses atrás, se ainda estivéssemos vivendo nossas vidas em alta velocidade, Lover ainda seria o último álbum a enfeitar sua discografia e a pegajosa fragrância de ‘ME! (ft. Brendon Urie)’ ainda estaria no ar do verão.

Mas ‘folklore’, o grandioso início musical de Taylor nos anos 20 (que começaram, em todos os sentidos, terrivelmente), fez muito para tornar um pouco mais suave o impacto de uma nova década tumultuada. Um álbum sereno e invernal lançado bem no meio do verão, folklore é como “Red”, mas mais gentil; como ‘reputation’, mas mais perspicaz, como ‘Speak Now’; mas mais complexo liricamente. Ele reverbera com a energia de uma “antiga” estrela pop, finalmente navegando na produção sem se apegar a um hit, e nos força a desacelerar e fazer um balanço de onde estamos agora, no amor e na vida.

O “diabo” está de fato nos detalhes: folklore descaradamente coroa a graça cinematográfica em um momento de inquietação turbulenta. Prioriza sentimentos que se fazem presentes em momentos de reflexão quieta, na tranquila escuridão da noite, entre olhares saudosos de “encontros clandestinos em estacionamentos”.

Enquanto no passado, os trabalhos de Swift tendiam a dar socos de eufemismos ao invés de afirmações contundentes e ousadas, há um frescor de direção em algumas das músicas aqui. Onde ela já foi instável com metáforas e vítima de letras com “falsa profundidade”, ela parece suavizar as distorções de sua composição lírica, transformando sua já magistral narrativa em um jogo ainda mais hábil de dizer mais com menos palavras.

O ritmo suave e sem pressa das músicas, enquanto ela conta suas histórias em metáforas ricas e escondidas, nos mostra um lado dela que ninguém esperava – um lado que agora aprecia as nuances da vida e aceita que nem tudo é preto no branco. De valsas distorcidas a um pop inspirado nos anos 80, seu repertório musical se expandiu para direções inesperadas. E ela também cresceu – se tornou mais franca, sem desculpas e, ao mesmo tempo, mais auto-reflexiva.

A beleza sonora de ‘folklore’ fica evidente em ‘exile’. Produzido por Jack Antonoff, o dueto cintilante de Swift com Justin Vernon (Bon Iver) nos leva de volta às belas harmonias de seu dueto de 2012 com Gary Lightbody, do Snow Patrol, em ‘Red’. Cantadas linha por linha, as letras conversacionais do dueto apaixonado de Swift e Bon Iver – uma música monstruosamente bonita, invernal e torturante – parecem ser contadas pelas perspectivas de dois amantes que se afastam de um relacionamento turbulento antes que se torne impossível de escapar.

Isso por si só já é um novo terreno para ela – que costumava mergulhar de todo o coração em coisas que sabia que a machucariam, e as letras resultantes eram uma catarse necessária enquanto ela procurava os pedaços de si mesma perdidos no mar. Agora ela é cuidadosa, calculada, protetora do próprio coração. No fundo, a música é mais Swift fechando o capítulo da última década, olhando para seus relacionamentos passados em retrospectiva, com o benefício da maturidade, prometendo não cometer os mesmos erros novamente. A poderosa ponte nos traz o que pode ser uma referência a ‘If This Was A Movie’: ela realmente já viu esse filme antes, em seus últimos seis álbuns. E em nenhuma dessas vezes ela gostou do final.

São essas novas perspectivas que dão a esse álbum uma nova dimensão, diferente de qualquer um de seus outros trabalhos. Mais adiante na lista de músicas está ‘illicit affairs’, uma brilhante sequência para ‘this is me trying’, que consegue transformar um conto de infidelidade – um que a Taylor teria de 2006 teria explicitamente condenado – em um conto de paixão amarga e amor irregular. Da mesma forma, ‘betty’, cujas gaitas levam você quase às lágrimas enquanto Swift pinta a imagem de um triângulo amoroso através das lentes ingênuas da adolescência, descrevendo uma história complicada de traição e envolvimento emocional que termina em corações partidos e sonhos despedaçados. Ouvir as letras de “august” parece quase proibido, enquanto nos inclinamos para ouvir todas as histórias que Swift em sua “época inocente” teria mantido em segredo.

Nota-se imediatamente que não há nenhuma música essencialmente “pop” nesse álbum. Há material suficiente para você flutuar pelo quarto com camisolas brancas, para sentar e pensar em relacionamentos antigos, para olhar pelo retrovisor e se perguntar como as coisas seriam se as coisas tivessem sido feitas de forma diferente, mas nada para dançar por aí e fingir que tudo está e vai ficar bem.

Indiscutivelmente, não precisamos disso. Virá, Swift deixa claro, uma vez que fizermos as pazes com a batalha que acontece dentro de nós. Simplificando, folklore é um quebra-molas no asfalto que desacelera nossa velocidade. É uma pequena fatia de familiaridade e nostalgia que transmite abertura sem sem ressentimentos, zombarias ou representações unilaterais, e mostra que Swift finalmente se comprometendo a deixar de lado os sons pop impetuosos do pop para se dedicar ao brilho suave e ao tom reverberante da contemplação.

Mas fãs do ‘1989’, do ‘reputation’ e de “The Archer” em ‘Lover’ ficarão felizes ao saber que o pop sintético e dramático de outrora (‘Wildest Dreams’, ‘Getaway Car’, ‘Dress’) retornaram entre essa lista de músicas, mas dessa vez “escondidos” sob uma camada brilhante de violões folk e notas de piano. ‘folklore’ realmente faz jus ao seu título por ser completamente desprovido de quaisquer batidas mais rápidas que as de ‘invisible string’, e apresenta Swift quase como um livro infantil: melodicamente renovada, liricamente descalça.

A intenção de Swift de misturar os traços remanescentes de suas raízes country com sons mais modernos fica claro nas poderosas ‘this is me trying’ e ‘mirrorball’, os resultados etéreos do álbum. ‘my tears ricochet’ é uma faixa igualmente suave com notas sintéticas um pouco mais sutis e, segundo Swift, é sobre “um homem atormentado e amargurado que aparece no funeral de seu objeto de afeição que partiu”. E ‘hoax’, quase inteiramente piano, leva o álbum embora com um sussurro, a voz de Swift se encaixa em notas suaves de piano que soam quase como se ela estivesse indo embora na ponta dos dedos enquanto toca as notas finais.

E ‘cardigan’ – que exige um assento em sua própria mesa, é uma tranquila e esperançosa música de amor. Parte da coleção de três músicas as quais ela se refere como o “Triângulo Amoroso Adolescente”, que “exploram um triângulo amoroso sob as diferentes perspectivas das três pessoas envolvidas em diferentes períodos de suas vidas”, ‘cardigan’ foi “inspirado pelo sentimento de isolamento e de como é libertador, aterrorizante e faz com que você relembre situações”.

O vídeo, uma sombrio e tempestuoso mistura entre ‘Out Of The Woods’ e ‘Safe And Sound’, mostra Swift se agarrando ao piano, prestes a ser levada por uma tempestade no meio do mar. Mas em vez disso, tem um final feliz: Swift escapa das águas turbulentas ao subir em seu mágico piano, que a devolve para a sala silenciosa e iluminada apenas pela luz de velas. Ela veste seu cardigã desgastado e senta delicadamente ao piano.

Por um momento isolado, ela encontra a paz.

9/10

Matéria publicada pela Clash e traduzida pela equipe TSBR.





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