Taylor Swift e a armadilha de precisar de aprovação


A constante busca de Swift por aprovação é o resultado da nossa misoginia internalizada, mas em Miss Americana, ela deixa isso de lado. Precisamos fazer o mesmo.

Eu nunca fui fã de Taylor Swift ou de sua música. Eu detestava o quão perfeita ela parecia e achava sua postura de “boa garota” irritante. Eu também sou de Nashville e tenho um profundo ódio pela música country apenas por esse motivo. Mas, com a mistura de curiosidade insaciável e masoquismo, decidi odiar – assistir ao novo documentário da Netflix no fim de semana passado. Imagine minha surpresa quando a cena de abertura imediatamente me atraiu e me fez gostar dela. Porque essa mulher, 12 anos mais nova do que eu, admitia sem medo, logo de cara, o que muitos de nós – em qualquer idade – têm dificuldade de dizer em voz alta: que precisamos desesperadamente ser amados. Miss Americana é um alerta para todos nós.

A necessidade de ser adorada é uma sentença de morte para as mulheres.

Swift, secretamente, passou fome para ter o corpo que achava que todo mundo queria que ela tivesse. Entendi. Apesar de me considerar bastante feminista, eu acreditava fundamentalmente que ninguém iria querer dormir comigo ou levar minhas ideias a sério como mulher se eu não fosse agradável ao olhar masculino. Por quase duas décadas, eu fiz dieta, morri de fome, vomitei, me exercitei demais. Você faz isso tudo para ser magra. No final dessa guerra direta ao meu corpo, eu estava vomitando sangue e quase rompi meu esôfago. Meu medo da morte foi o que finalmente me forçou a procurar ajuda, deixar de lado o que “eles” querem que eu pareça e, eventualmente, aprender a amar minha bunda grande e os quadris de Hamlett.

Se as pessoas não pudessem gostar de mim pela minha aparência, teriam que gostar de mim por outra coisa.

Swift também enfrentou esse dilema. Ela também precisou que a apreciassem por ser “a boa menina” e por sempre fazer “a coisa certa”. Todo o seu código moral estava baseado nisso. O problema é que ela, como muitas de nós, logo aprendeu que ser boa e ser amada estão frequentemente em atrito direto entre si, especialmente ao falarmos de mulheres. Uma boa menina não mexe no que está quieto ou deixa as pessoas desconfortáveis. Mas fazer a coisa certa geralmente exige que façamos exatamente isso. Estamos ferradas de qualquer maneira.

Eu entendo agora porque Swift ficou muda por tanto tempo. Não era apenas estar atada à uma imagem de boa garota, ter baixa auto-estima ou ser tão jovem. Era também por conta de quem cuida dela, a própria indústria e até o próprio pai que a pressionava a ficar quieta. Swift estava chorando, implorando ao pai que a perdoasse por ter falado sobre política e se pronunciado contra a senadora republicana Marsha Blackburn. Sendo de Nashville, sei exatamente o quão difícil é ir contra seus familiares e amigos, enfrentando a senadora Blackburn e o Partido Republicano. Assim como eu, Swift teve que aprender sobre privilégios e o quanto ela se beneficia, e aceitar que algumas pessoas não vão gostar de você por falar sobre isso. As pessoas teriam que gostar de mim por algo além de morder minha minha língua para parecer “boa”.

Como mulher, você também tem essa ótima escolha entre ser amada ou respeitada. Muitas pessoas gostam da boa moça, porque ela diz sim quando deveria dizer não e, assim, deixa as pessoas passarem por cima. Eles atacam sua necessidade desesperada de aprovação.  Durante anos, Swift se esgotou, acomodando-se e se corrigindo demais para satisfazer desejos conflitantes, receber tapinhas na cabeça e evitar críticas. Mas quando toda a sua base é construída exclusivamente com esses gostos, só a ideia de alguém te odiar ameaça toda a estrutura em que ela se mantém. Para mim, ainda parece uma ameaça de morte quando as pessoas me xingam no Twitter por um dos meus artigos, e eu nem sou famosa ou recebo tantas ameaças reais de morte! Não me surpreende que, quando #TaylorSwiftIsOver se tornou a tendência número um no Twitter, ela se viu diante de uma crise existencial. “Eu tive que desconstruir todo um sistema de crenças para minha própria sanidade pessoal”, diz Swift em Miss Americana. Para sobreviver, Swift não apenas desistiu de ser a boa garota, mas também deixou de lado sua necessidade de gostarem dela.

Não precisar que as pessoas gostem de você é a única maneira de ser genuinamente amado por alguém, inclusive por você.

Para sobreviver, Taylor não apenas desistiu da imagem de boa garota, mas também deixou de lado sua necessidade de ser aprovada pelos outros.

Eu costumava ser muito parecida com Taylor. Eu era a garota que dizia sim para tudo e que gostava de tudo. Eu tinha muito medo de dizer não e adorava me sentir importante. Eu não estava tentando agradar ninguém, eu só precisava que as pessoas pensassem que eu era incrível. Esse comportamento de busca pela aprovação me levou a dormir com homens que eu não queria, dedicando meu tempo e energia as pessoas que se aproveitavam dele. As vezes as coisas acabam em situações perigosas e fazem com que a gente se sinta vitimada e amarga – mesmo que ninguém jamais tenha me forçado a fazer nada. Como Taylor, eu me vi nas armadilhas da narrativa da vítima, que é muito mais fácil do que admitir para si mesmo que o seu problema é a necessidade de ter a validação de todos. Taylor admitiu sua responsabilidade e eu a respeito muito por isso.

Meu ponto de virada crítica onde eu percebi a minha necessidade de ser aprovada foi como a de Taylor. Ser agredida sexualmente foi um alerta para ela e para mim também. Para ela, apesar de ter testemunhas e uma foto e nenhuma dúvida em sua mente de que foi apalpada, um homem chamado “bebê” ainda estava tentando processá-la e insistia que ele era a vítima. Então, ela sofreu a humilhação de ir a julgamento para responsabilizá-lo e dar o exemplo aos seus fãs. Mesmo que ela diga que não valeu a pena no final, ela percebeu que deixar algumas pessoas com raiva é realmente empolgante.

Infelizmente, não recebi a mesma justiça que Taylor. Quando fui a polícia, depois de escapar do meu ex que tentou me chantagear e arrancar meus dedos (entre outras coisas), me estuprou várias vezes e depois postou fotos pessoais minhas no Twitter, eles não fizeram nada. Rs. Apesar de terem provas, testemunhas e textos para apoiarem a minha história, eles nunca o chamaram para interrogatório. Em vez disso, eles sugeriram que eu recebesse uma ordem de restrição se eu realmente estivesse preocupada com ele. Recusei-me a ficar quieta, apesar da tentativa da polícia de me calar. Escrevi sobre isso abertamente em meus artigos e abri diálogo em um podcast para esclarecer o problema. Desde então, várias mulheres me escreveram dizendo que deixaram seus parceiros depois de ouvirem a minha história. Como Taylor, eu percebi que falar sobre assuntos que deixam muitas pessoas desconfortáveis ​​não apenas fortalece você, mas também fortalece outras pessoas que precisam de esperança.

Finalmente tive que deixar de lado todos esses arquétipos que envolvem as mulheres para que eu fosse livre.

Não eram só as atitudes de boazinha, as que sempre se pode contar e só diz sim, que eu precisava me livrar. Minha fachada de “garota legal”, que está enraizada na mesma vertente da aprovação, também precisava ir embora. Eu podia sair com os garotos, contar as piadas mais sujas, beber pra caramba e falar mais merda que o mais alfa dos homens, mas minha identidade inteira foi construída para ser o oposto “daquelas” garotas. A garota legal é a escolhida. Ela é especial. Ela daria uma surra na boa garota se ela se importasse o suficiente. Mas a garota legal não deve se importar com nada. Ela é tão, tão tranquila e odeia o tipo de “drama” que aquelas garotas criam. Mas no final, a garota legal está se enganando.

Eu não quero que gostem de mim por não ser outra pessoa.

Assim como Swift, para poder ser livre, eu acabei tendo que me livrar de todos esses arquétipos que enjaula as mulheres. O patriarcado exige diferentes coisas de nós, depois nos convence a odiar a nós mesmas e/ou outras mulheres por se deixarem levar por essas coisas. Então a boa garota, a garota legal, a garota ‘tapa-buracos’, todas têm o mesmo problema. São identidades tóxicas que a gente se apoia no início para tentar sobreviver – até que percebemos que são essas identidades que estão nos destruindo. O que aconteceria se a bota da misoginia, perpetuamente acomodada no pescoço de uma mulher, magicamente desaparecesse um dia? Bom, como Swift tão maravilhosamente nos mostrou em seu especial da Netflix, ela enfrentaria um opressor igualmente implacável e hostil: ela mesma.

Nossa necessidade de ser aprovada está nos matando.

Às vezes, eu nem sei do que preciso ter mais medo: as forças do patriarcado do lado de fora ou as forças dentro de mim que estão garantindo que esse sistema permaneça intacto. Como Swift, eu pelo menos aprendi a lidar com esse último. Eu não posso mudar o mundo ou desmontar o patriarcado sozinha, mas eu posso fazer minha parte para garantir que eu me ame e me respeite. O mais engraçado é que, quando você para de precisar tão desesperadamente de algo vindo dos outros, é bem provável que eles acabem te dando exatamente o que você queria.

Matéria publicada pela Harper’s Bazaar e traduzida pela Equipe TSBR.


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