26 de julho de 20 Autor: Maria Eloisa Barbosa
Review: Estrela do pop sofre uma extraordinária renovação indie-folk

Este rico álbum do isolamento possui colaborações com Bon Iver e Aaron Dessner do The National, que faz participação em uma das melhores músicas de Taylor.

Este verão, Taylor Swift estaria como atração principal de Glastonbury. Na verdade, ela estava escalada para tocar em vários festivais e shows em uma turnê internacional assim como apresentando a Lover Fest nos Estados Unidos, todos celebrando seu sétimo álbum de estúdio “Lover”, que foi lançado em Agosto do ano passado. A pandemia global, claro, estragou esses planos, deixando Taylor com bastante tempo livre. Não mais presa em ensaios ou voando o mundo se apresentando a dezenas de milhares de pessoas, ela usou essas horas para compor.

O resultado dessas sessões de escrever imprevisíveis na quarentena foi o seu mais novo oitavo álbum de estúdio, chamado “Folklore”. Ela fez parecido com a Beyonce, anunciando seu álbum com menos de 24 horas antes de lançar, uma rígida mudança para quem calculava todo um calendário de lançamento que estamos acostumados a ver nos álbuns passados de Swift. Em um simples texto postado nas redes sociais, ela comenta que provavelmente ela teria esperado o momento “perfeito” para lançar, mas que a situação global serviu como um aviso para ela de que “nada é garantido”. As mudanças na forma de lançar estão de mãos dadas com a mudança musical de Swift; “Folklore” é algo totalmente inesperado vindo de uma das maiores pop stars do mundo.

Durante o percurso de sete álbuns, nós vimos a Taylor evoluir de uma adolescente novinha, esperançosa e cantora de country para uma elegante potência de pop sintético demolidora/esmagadora de charts. Cada álbum veio com uma mudança gradual – Speak Now (2010) era mais intenso e em Red (2012) você presenciava mais produções pop, e depois tivemos em 2014 o “1989”, quando ela aposentou o chapéu de cowboy de uma vez e assumiu o pop. Já no oitavo álbum, Taylor mergulha de cabeça no mundo de folk, rock alternativo e indie.

O álbum foi escrito em isolamento; ela remotamente montou um time com uma ajudinha de alguns de seus heróis da música – e lendas do indie – incluindo Aaron Dessner do The National (que trabalhou em 11 de 16 músicas), Bon Iver (ele fez apenas uma aparição com sua voz em “Exile”) e seu antigo colaborador Jack Antonoff. No seu texto antes do lançamento, ela vibra por trabalhar com outro “herói”, o misterioso William Bowery – apesar de não existir nenhum detalhe sobre ele em nenhum lugar e alguns fãs especularam que pode ser um pseudônimo para seu irmão ou seu namorado, o ator Joe Alwyn.

Independente de quem Bowery seja, os resultados são inesperados, e algumas vezes surpreendentes – “Folklore” é como se Taylor tivesse viajado para uma cabana na floresta metaforicamente – embora uma com uma ótima conexão WiFi – inventada e maravilhosa, cheia de modernas músicas folks.

As digitais de Dessner permeam por grande parte de “Folklore”. O suave piano em “The 1” e “Mad Woman” é algo presente no álbum do ano passado do The National “I Am Easy to Find”, e “The Last Great American Dynasty” apresenta a produção ouvida no álbum da banda de 2017, chamado “Sleep Well Beast”. Esses vários instrumentais são sempre complementados pelos vocais de Taylor, como um aviso da artista que está por trás das maiores músicas da década passada. Apesar da colaboração com Bon Iver, “Exile”, é um dueto melancólico, a música eventualmente entra em um clímax de euforia cheio de vocais em coro e cordas que lembram o quarto álbum de Bon Iver.

Apesar da forte mudança de direção, há momentos de nostalgia com álbuns antigos da Taylor. “Betty”, uma doce música sobre romance de ensino médio escrita por Taylor e o enigmático Bowery, misturando o novo som folk com momentos country que não ouvimos há muito tempo nos álbuns da Taylor. “My Tears Ricochet” parece uma irmã de “Clean”, que foi co-escrita por Imogen Heap, de 1989, só que dessa vez a música pop está envolvida em camadas vocais e instrumentais de caixas de som brilhantes.

As 16 músicas de Folklore (17 se você contar a faixa “The Lakes) podem as vezes dar uma leve escorregada. “Mirrorball”, uma declaração de romance super sentimental, se distoa um pouco do resto do álbum, enquanto “Epiphany” é levemente mais lenta. A maior parte, as melodias elegantes, cintilantes produções e, crucialmente, a composição de Taylor e o lirismo trazem de volta a essência da cantora.

De fato, é a capacidade de Taylor de contar histórias que faz de “Folklore” um álbum tão impressionante. Essa característica sempre foi o diferencial em sua música, mas sua discografia brilha com algumas partes que são preciosas (como o trecho “you call me up again just to break me like a promise / so casually cruel in the name of being honest “ na música All Too Well, do álbum Red; e a rica descrição de um casamento na faixa Speak Now)

“Folklore” está cheio de de histórias contadas por Taylor. Pegue “The Last Great American Dynasty”, que é uma candidata a melhor música já escrita por Taylor. Descrevendo a vida de uma mulher desmoronando em sua volta, as letras trazem a tona a cantora e compositora dos anos 80 Mary Chapin Carpenter, ou os complexos contos que Bob Dylan faz em seus longos e sinuosos versos. “Invisible String” com uma mudança incomum de frase – “ruim era o clima da música no taxi em sua primeira viagem em LA” – é um vislumbre sincero sobre o atual relacionamento de Taylor. E, é claro, há vários trechos de música para você colocar nas suas próximas legendas no Instagram, e a melhor chegada acontece quando Taylor sussurra “e se eu estou morta pra você porque você está no velório?” em “My Tears Ricochet”.

“Folklore” é algo novo, inovador e, na maior parte, honesto. A produção brilhante que Taylor emprestou da metade da década passada é deixada de lado para algo mais simples, com melodias suaves e instrumentação melancólica. É o som de uma artista que está cansada de calcular seus lançamentos e quer tentar algo diferente. Taylor desapareceu na floresta metafórica enquanto escrevia “Folklore”, e ela reapareceu mais forte do que nunca.

Resenha publicada pela NME e traduzida pela Equipe TSBR.





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