Resenha de ‘Miss Americana’: A prisão e o poder da fama
24/01/2020
Resenha de ‘Miss Americana’: A prisão e o poder da fama

Um aviso para os fãs de Taylor Swift que se depararam com esta resenha: Sou agnóstico em relação a Taylor Swift. Não sou a favor e nem contra ela. Estou familiarizado com sua música, mas, além disso, não sabia muito sobre suas origens, carreira ou personalidade pública. Se você é como eu neste requisito, ainda achará o documentário ‘Miss Americana’ de Lana Wilson uma filmagem cativante, pois usa a história de Swift para explorar o despertar político de um ícone pop e seu relacionamento complicado com a fama. Não há nada aqui para fazer novos fãs ou haters de Swift, mas este é o objetivo do documentário: desconsiderar a audiência em favor de avaliar o relacionamento entre uma celebridade mulher e seus seguidores, e como a fama pode ser uma prisão pessoal até que você descubra como controlar sua narrativa, mesmo que isso signifique perder popularidade.

O documentário começa com Swift fazendo algumas composições com seu gato tocando as teclas (o gato quase rouba o show), antes de mudar para Swift descobrindo que não recebeu nenhuma indicação importante ao Grammy com seu álbum de 2017 ‘Reputation’. Essa virada fornece o quadro para todo o filme, que é a história de uma mulher que baseou toda a sua carreira em fazer estranhos felizes, tendo que aprender o que a fará feliz, mesmo que isso possa perturbar alguns fãs. Wilson, em seguida, registra a ascensão meteórica de Swift em como a fama e sua personalidade pública a forçavam a lugares escuros. Swift sabe que a marca dela é “a garota querida” e que as meninas queridas não fazem ondas ou deixam as pessoas desconfortáveis. E, no entanto, mesmo interpretando a garota querida, seu domínio sobre a popularidade permaneceu tênue quando ela se envolve em controvérsias da mídia sobre sua vida amorosa, sua autenticidade e seu comportamento. Aparentemente diante de uma situação sem vitória, Swift luta para recuperar o controle examinando o que realmente é importante para ela.

O que é surpreendente sobre Miss Americana é o quão pouco do documentário é sobre sua música. Claro, existem bastantes cenas dos bastidores com Swift trabalhando em suas canções e no palco, mas o documentário não está interessado em se envolver com uma avaliação crítica de suas músicas pop ou porquê Swift teve sucesso e outros cantores e compositores falharam, o que é ok. Não estou particularmente interessado em um filme que esteja tentando convencer o público por que a música de Taylor Swift é boa, porque fica claro que Swift se sente em sua zona quando está trabalhando. Para Swift e Miss Americana, o drama está na luta com sua persona pública e o que significa ser uma estrela pop country que é famosa desde que era adolescente.

O documentário dá à Swift a oportunidade de dizer sua opinião sobre seu peso, sua vida amorosa e o que o público exige. O que faz de Swift uma figura central cativante é que ela é tão articulada e autoconsciente de seu status como figura pública e, ainda assim, essa consciência acabou sendo prejudicial. Swift não é apenas um produto de gravadora, que não consegue pensar por si mesma. O problema, como Swift sabe, é que parte de seu apelo é ser uma “garota legal” apolítica e qualquer autenticidade precisa ser filtrada pelos costumes tóxicos do que nossa sociedade exige das mulheres na esfera pública. Ela sabe que você não se destaca entre as músicas country dizendo às pessoas o que elas não querem ouvir, mas o que acontece quando você quer falar mais do que músicas sobre rompimentos?

Miss Americana se torna eletrizante na parte final quando Swift finalmente alcança um despertar político. Embora eu não vá mentir e dizer que sou indiferente a Swift compartilhar opiniões políticas semelhantes às minhas (direitos pró-homossexuais, renovação da Lei de Violência contra as Mulheres), mesmo que não fossem, é refrescante ver como Swift tenta alcançar a harmonia da reinvenção enquanto exprime opiniões políticas que, sem dúvida, farão com que perca seus fãs que não concordam com suas crenças. O filme mostra como as Dixie Chicks foram recebidas quando se manifestaram contra George W. Bush em 2003 e a reação que sofreram dos fãs do país. Swift é muito mais cuidadosa ao elaborar sua mensagem, mas está disposta a dizê-la.

A consciência de Swift sobre sua pessoa pública e como ela é percebida traz à Miss Americana uma leve inquietação em relação ao gerenciamento de imagens, o que, por sua vez, faz você questionar a autenticidade de Swift. Mas no segundo em que você começa a andar pela estrada “Swift é autêntica ou não?”, você chega a um beco sem saída porque isso não importa. Alguns podem argumentar que a autenticidade percebida de Swift é essencial para sua carreira e sua arte, mas eu oponho (para pegar uma linha emprestada de Miller’s Crossing) que ninguém conhece ninguém, não tão bem. Fazer um julgamento sobre se alguém que você nunca conheceu é “autêntico” ou não é uma tarefa tola, e fiquei perplexo com as manchetes que estavam mais preocupadas com a personalidade de Swift do que com sua música.

Os acusadores podem apontar que Miss Americana é a maneira de Swift ter o melhor dos dois mundos. Ela consegue controlar sua narrativa em um documentário favorável que sustenta sua persona como artista introspectiva, mas destrói qualquer pessoa que a interrogue. Para alguém como eu, que não investe nessa persona de uma maneira ou de outra, acho o documentário refrescante como uma visão maior sobre os perigos da fama feminina. A Taylor Swift de Miss Americana, politicamente acordada, é apenas mais uma “reinvenção” para manter sua carreira viva? Talvez, mas não tenho motivos para não aceitar Swift com a palavra dela, porque eu, e presumo que todos que leem isso, sejam estranhos a ela. Nós não somos a família dela. Nós não somos amigos dela. No máximo, podemos ser fãs, e durante a maior parte de sua carreira, Swift determinou que a aprovação desses fãs, esses estranhos, era fundamental. Isso era uma prisão, e é encorajador ver Swift se libertar.

Avaliação: B

Resenha publicada pela Collider e traduzida pela Equipe TSBR.

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