26 de agosto de 19 Autor: Maria Eloisa Barbosa
Pitchfork avalia o Lover

O tema do Lover de Taylor Swift está logo no título. Estas 18 músicas são odes para as coisas que ela mais ama e conhece: seu namorado e sua mãe, o West Village e o West End, e sempre num álbum de Taylor Swift, se apaixonar. É uma exuberante celebração dos desafios de manter uma relação através das estações e continentes, de dizer a verdade e pedir desculpa. Swift sempre minou sua vida pessoal para sombrias fábulas de amor e retribuição; ela decora detalhes fugazes de um romance, envolve-os em arcos e leva-os para o público, ansiosos em receber seus presentes.  Ela escreve sobre uma vida que é fortalecida, não quebrada, por um coração partido. Lover é a sugestão de que a pessoa certa, a música certa, podem tirar o coração partido de sua vida também. O conceito é, assim como ela afirma desde cedo,  “muito dramático e verdadeiro”.

Lover acena para o Reputation , de 2017, mas em espírito, é a sequência do synth-pop glitter do 1989.  Produzido, em sua maioria, pelo onipresente contador de segredos do pop, Jack Antonoff, é cheio de pulsadas baixas de sintetizadores e batidas reverenciadas que parecem mais andaimes do que músicas completas. Algumas vezes, tenta honrar  toda a jornada artística de Swift ao mesmo tempo: a valsa “Lover”, cheia de violinos e casamentos de contos de fadas, te leva de volta para a antiga Taylor; “I Think He Knows” tem uma batida de electro-pop que grita para o Music Row de Nashville. Ela usa a palvra “shade” duas vezes,  enquanto no Reputation ela usa uma única.  Ela tem 29 anos, mas ela continua escrevendo metáforas sobre vestidos de baile e a volta de rainhas . É brilhante e divertido e ocasionalmente enjoativo.

Os picos e depressões emocionais do Lover são mais altos e profundos do que o Reputation, onde o romance é jogado sob uma grande nuvem de dúvida. A primeira faixa “I Forgot That You Existed” tem um ritmo de brincadeira infantil definido por uma rima que você deixaria no yearbook dos seus inimigos se você fosse realmente honesto – o que quer dizer, não soa como se ela esquecesse por um segundo. Vem um pigarro, mas que abre uma série de delícias livres de drama, como a magnética e brilhante rosa “Cruel Summer” (“Eu não quero manter segredos apenas para manter você!”) e a bola de cristal limpída “The Archer”, com seus elegantes sintetizadores cromáticos e um arrependimento sincero: “ Eu machuco meu rosto apenas para me punir/Então odeio meu reflexo por anos e anos”. A exceção é o hino mal cozido de igualdade de gênero “The Man”, uma música que hilariamente e ironicamente pontua a imagem de playboy de Leonardo DiCaprio como o tamanho do privilégio masculino e demonstra que outras pessoas não deveriam escrever as músicas de Kesha.

É a produção de algodão doce espinhoso ou o detalhe lírico ou os ecos vocais ou apenas o evento do álbum – ou tudo isso- que deixa Lover  no primeiro plano, música após música? Com a possível exceção dos tambores de aço na excêntrica  “It’s Nice To Have a Friend” , o álbum nunca reivindica qualquer novo terreno: alguns dos melhores momentos são inevitavelmente familiares. Rihanna ou Robyn podem pretender que suas músicas soem totalmente frescas; Swift, nossa mais convencional estrela do pop, constrói sobre o que já foi trabalhado anteriormente. E com Antonoff tão por trás do som da música pop da metade da década, o estilo inspirado nos anos 80 em negrito não é inerentemente mais interessante ou variado do que qualquer outro. “I Think He Knows” soa como Carly Rae Jepsen; “The Archer” soa como “Supercut” de Lorde; “Miss Americana & the Heartbreak Prince”, na verdade de Joe Little, soa como Born to Die da Lana Del Rey.

Swift e seus colaboradores tentam algumas coisas marcantes: A proposta de casamento pop-punk “Paper Rings” tem uma mudança de chave emprestada de Shangri-Las e mais de um pequeno violão na mistura. É fofo e então exaustivo. O tema alegre e inglês “London Boy” começa doce—“ Eu vi as covinhas primeiro e então eu escutei o sotaque”—mas cai numa partida de rugby e chá da tarde e “Eu desejo você”, uma música de amor tão previsível quanto a direção de vídeo de Kate e Ashley em suas aventuras na Europa. Ela usa um sample de Idris Elba brincando sobre levar James Corden num passeio de scooter com intenção nenhuma, a não ser quando ele diz “London”. Eu consigo imaginar que isso soe como um Brit.

“London Boy” é implacavelmente otimista, mas o próximo humor vai te derrubar: É “Soon You’ll Get Better”, uma comovente balada sobre a batalha da mãe de Swift contra o câncer, com harmonias de Dixie Chicks no fundo. Três minutos após, seu terno testemunho de uma nova fé é superado pela fantástica “False God”,  uma reflexão melancólica pop sofista num transatlântico romance onde a adoração (“Religião está em seus lábios… o altar é meu quadril”) soa mais como uma metáfora para…sexo oral? Num álbum de Taylor Swift? Eu estou enlouquecendo? Então “You Need to Calm Down” desaba para nos lembrar que ela considerou fazer as pazes com Katy Perry como forma de ativismo.

Porque Swift é melhor quando ela está aprendendo do que quando ela está tentando nos ensinar uma lição, os extravagantes primeiros singles de Lover contribuem para a tensão. Eu venho pensado em “ME!” todos os dias por quatro meses; continua soando como um número musical tirado de contexto, apenas uma fanfarra de comemoração não merecida sem enredo ou desenvolvimento do personagem, então a falta de emoção é assustadora. Mas ela é melhor quando ela nos dá seu próprio espaço para pensar, como em “Cornelia Street”, um adorável e subestimado tributo para a memória e nostalgia com o poder de fazer um bloco rarefeito de Manhattan parecer universal.

Como Red ou Speak Now, Lover é um livro de recortes alastrando invisíveis marcas pessoais,  uma fantasia escapista sobre um namorado celebridade da vida real, uma sagaz mitologia própria disfarçada como uma caridosa oferta. Está provavelmente cinco músicas distante de ser melhor que o 1989. É também um pouco mais sábio e emocionalmente honesto. “Eu acreditei uma vez que o amor poderia ser branco e preto… Eu acreditei uma vez que o amor poderia ser vermelho ardente/ Mas é dourado”, ela canta na última faixa, sonhadora em tons pastéis, “Daylight”, substituindo a inflamável paixão de Red com uma gentil e maior maturidade, entendendo o verdadeiro amor como uma boa ideia que você não quer deixar de ter. Coração partido pode te fortalecer; o amor te sustenta. Se ao menos todos os amantes tivessem o mesmo coração.

Nota: 7.1

Resenha publicada pela Pitchfork e traduzida pela equipe TSBR.





Twitter do site

Facebook do site

Scroll Up