Escrito por Aline em 11 de julho de 2018

Harper’s Bazaar: Na capa, Taylor entrevista Pattie Boyd

Para não quebrar a tradição estabelecida na era reputation, Taylor segue sem conceder entrevistas. A solução encontrada pela Harper’s Bazaar? Colocar a cantora na capa e fazer com que ela trabalhe para eles, comandando uma entrevista com Pattie Boyd, ícone do Rock’n’Roll dos anos 60 e 70 quando serviu de inspiração para músicas icônicas dos Beatles e das maiores canções da carreira de Eric Clapton.

Pattie Boyd conta como foi ser casada com duas das maiores lendas do rock’n’roll

Durante os anos 60 e 70, Pattie Boyd estava no cruzamento entre a moda, rock’n’roll, arte e fama. Considerada por muitos como uma das maiores musas da história, Boyd, que primeiro se casou com George Harrison e, depois, com Eric Clapton, inspirou as músicas “Something” dos Beatles, “Layla” e “Wonderful Tonight” de Eric Clapton. Recentemente eu li a biografia, chamada Wonderful Tonight, desta mulher intrigante. Semanas depois, tive o prazer de sentar com ela na cozinha do seu belo flat em Kensington. Enquanto a luz do Sol brilhava pelas janelas, seus olhos azuis brilhavam quando ela falava. Ela tem uma personalidade divertida e, surpreendentemente — considerando tudo que ela já passou na vida — uma leveza.

TS: Estou animada em conversar com você porque somos duas mulheres que tem as suas vidas profundamente influenciadas por músicas e composições. Eu fico em um lado disso e, você, do outro. O conceito de ser chamada de musa te parece certo?
PB: Acho que o conceito de ser uma musa é compreensível quando você pensa em todos os grandes pintores, poetas e fotógrafos que normalmente já tiveram uma ou duas. O artista absorve um elemento de sua musa que em nada tem a ver com palavras, é so a pureza de sua essência.

TS: O que você acha que é um fator que artistas querem comunicar a você através de uma canção?
PB: Acho que no meu caso George e Eric tinham uma incapacidade de comunicar seus sentimentos em uma conversa normal. Me tornei um reflexo para eles.

TS: Imaginei quem e o que a situação de “Wonderful Tonight” foi composta sobre, e agora eu sei que é sobre você se arrumando para uma festa, trocando de roupa e dizendo: “Não gosto disso, não gosto daquilo”.
PB: Desci as escadas receosa achando que o Eric estava super bravo que eu tinha demorado muito e, ao invés disso, ele disse: “Escute, acabei de escrever essa música”.

TS: Isso é incrível para mim.
PB: Mas você deve fazer isso também. Você deve se inspirar por alguns momentos ou algo assim, a maneira que seu namorado se vira ou diz algo a você, ou um pequeno sorriso, ou “ele está pensando nisso ou naquilo?” e isso te inspira. Você compõe no momento que acontece?

TS: Definitivamente existem momento em que e como se uma nuvem de ideia chega e para na frente da sua cara, você vai e pega ela. Muito da composição são coisas que você aprende, estrutura e cultiva esta habilidade, sabendo como criar uma música. Mas existem momentos místicos, mágicos, momentos inexplicáveis quando uma ideia que está pronta aparece na sua cabeça. E é a parte mais pura do meu trabalho. Pode ficar complicado em um outro nível, mas compor é o mesmo processo descomplicado que era quando eu tinha 12 anos e compunha músicas no meu quarto.
PB: Certo, certo…

TS: Não sei o que é que faz com que algumas pessoas sejam realmente inspiradoras criativamente. Tiveram pessoas com quem passei muito tempo e que eu não consegui escrever sobre
PB: Sim, e o que acontece?

TS: Não sei. É só que tem pessoas que aparecem na sua vida e tem esse efeito em você. É bem interessante porque no seu caso você inspirou esse tipo de produção criativa de dois músicos. Isso me impressiona. É muito raro!
PB: Bem, quanto mais você fala para mim, mais está me impressionando.

TS: Você conheceu George Harrison quando tinha 19 anos no set de A Hard Day’s Night. De repente, sua vida mudou para sempre porque você se apaixonou por alguém com quem o mundo estava obcecado. Não existia nenhuma banda maior que o Beatles. Alguém te preparou para a atenção?
PB: Não. Ninguém se prestou a este papel. Ninguém pensou que esse papel seria significante para começo de conversa. Lembro de um jornalista que veio a nossa casa um dia e disse ao George: “Falando sério, quando você acha que a bolha vai estourar? Quando os Beatles vão acabar?”

TS: Wow.
PB: Se pensaram nisso, não tem porque alguém ia pensar: “Ah, vou cuidar de Pattie e a guiar pelo o que vai ser uma situação tremendamente difícil para uma garota lidar”. A única coisa que Brian Epstein, o empresário deles, disse para mim e as outras esposas e namoradas foi: “Não falem com a imprensa”.

TS: Os fãs foram o motivo pelo qual você decidiu viver no interior?
PB: Morar em Londres com George, tinha muitos fãs todos os dias, ficou impossível sair do flat. Brian Epstein teve uma ideia de que John, Ringo e George se mudassem para o interior, tivessem casas a uma hora de distância de Londres. Nós decoramos o exterior da nossa casa com tinta em spray. A casa era um monstro psicodélico.

TS: Lembro de ter visto uma foto da casa, e Mick Jagger e Marianne Faithfull tinham pichado os nomes deles na parede e as palavras mick e marianne estavam lá. Li um livro sobre Richard Burton e Elizabeth Taylor recentemente, e como havia essa loucura ao redor deles. No livro, Elizabeth é citada dizendo: “Poderia ser pior, poderiam ser os Beatles”. Você é uma das únicas pessoas que podem dizer que experimentou o que a Beatlemania foi de dentro. Como isso foi para você?
PB: Na minha primeira experiência, achei absolutamente amedrontador. Fui ver os Beatles tocarem em um teatro em Londres, e George me disse que eu deveria ir embora com os meus amigos antes da última música. Então antes de terminar, nós levantamos dos nossos lugares e andamos em direção da saída mais próxima, e tinha essas garotas atrás de mim. Elas nos seguiram para fora e estavam me chutando, puxando meus cabelos e nos empurrando durante toda a extensão de um longo corredor.

TS: O que elas diziam?
PB: Nós te odiamos.

TS: Esse é o meu pior pesadelo. Você provavelmente pensava: “Se você me conhecesse e eu te conhecesse, você não estaria puxando o meu cabelo em qualquer beco e dizendo ‘eu te odeio'”.
PB: Exatamente.

TS: Mudou a dinâmica com as fãs dos Beatles agora que você faz todas essas exibições incríveis das suas fotos?
PB: George não está mais conosco, nem John. Faz tanto tempo e as fãs não mantiveram os mesmo sentimentos antagônicos comigo. Na verdade, elas parecem felizes que eu estou compartilhando as fotos que tirei. Uma vez, em uma exposição, umas garotas apareceram vestidas como eu em A Hard Day’s Night.

TS: É fofo quando as pessoas fazem isso. Eu amo isso.
PB: É adorável.

TS: É incrível que você pode ir de um estágio em que você se sentia incrivelmente aterrorizada pela ideia da atenção das pessoas que amavam os Beatles e agora recebe uma grande gratidão deles. Para mim, um dos momentos mais desoladores do livro é quando, anos depois, você e Eric se casam e George e sua nova esposa, Olivia, vão para a festa de casamento, o Paul vai, Ringo vai, mas John não consegue ir. Ele disse depois que ela queria muito ter ido. Naquela noite teve uma grande improvisação e, se ele estivesse lá, teria sido a última vez que os Beatles tocaram juntos.
PB: Consegue imaginar? Eu fiquei devastada.
TS: Meu coração ficou em frangalhos com isso.
PB: John achou que não poderia ir porque pensou que se ele deixasse a América, não o deixariam entrar de volta, e era importante para ele que estivesse na América.

TS: Achei incrivelmente lindo no livro como você passou por vários altos e baixos e contou essas verdades muito bonitas sobre seus relacionamentos, mas todo mundo parece estar de boas. Digo, Eric até deu permissão para que você publicasse as cartas de amor dele. O que precisou para que você chegasse nesse ponto de boa vontade com as pessoas com quem você já viveu tantas coisas? É o tempo que passa?
PB: Acredito que o tempo tenha um importante papel. Porque tudo acabou por um motivo, não tem porque carregar nenhum tipo de ódio ou ranço por esta pessoa. E, com o tempo pensei: “Vou ligar para o Eric e ver se ele vai deixar que eu use essas cartas maravilhosas que ele escreveu, e se ele precisar de algo, é só me ligar, mesma coisa, e eu diria sim para ele”. Acho que tudo é baseado nas minhas memórias de como era quando nos casamos pela primeira vez e o quanto nos divertimos e, também, o amor que compartilhamos.

TS: Soa como você é dona do seu passado, não só das partes boas.
PB: Eu sou. Absolutamente.

TS: Por último, que conselho você daria para uma garota de 28 anos que está profundamente inspirada pela sua visão? Adoraria recordar a minha vida com a mesma claridade, sabedoria e paz que você parece ter.
PB: Você tem que se lembrar que nada permanece igual. Sempre vai mudar. O mundo muda o tempo todo, nós mudamos o tempo todo, as coisas nas nossas vidas continuam mudando. Nada permanece o mesmo. Se você está feliz, ou se está triste, não será eterno. Você tem que se lembrar disso.

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Fonte: Harper’s Bazaar