Scott Borchetta, CEO da Big Machine Records, gravadora de Taylor Swift, esteve presente essa semana na Canadian Music Week e durante uma entrevista com Alan Cross, Scott falou sobre Taylor Swift, como iniciou sua relação profissional, alguns posicionamentos atuais de ambos na indústria musical, incluindo o relacionamento com os serviços de streaming, como o Spotify.

Leia a entrevista abaixo:

[Como é] quando você entra em contato com um verdadeiro superstar e há um carisma que sai sem parecer forçado, o tipo de pessoa quando eles entram na sala e, mesmo de costas, você sabe que a pessoa está lá?

“Sim, sempre digo que as cores na sala mudam, como se Steven Tyler entrasse agora, você iria se virar para ele naturalmente, porque ele tem essa coisa. E tenho certeza de que qualquer um de vocês pode se lembrar de um momento, se vocês conheceram Mick Jagger ou Taylor [Swift], e você simplesmente soube: ‘WOW! Há muito mais carisma nesta pessoa do que em todas os outras.’ “

Então você queria construir “Big Machine” da maneira que você pensava que uma gravadora precisava ser construída, desde o início. E você não tinha escritório, nem dinheiro, nem funcionários, você não tinha nada exceto a sua intuição que te dizia para dar uma chance para essa garota de 14 anos [Taylor Swift]. Você acha que estava evidente este talento de 14 anos?

“A ironia é que eu recebo um pacote em outubro de 2004 e meu acordo com a Universal acontece em setembro de 2005, então eu recebo este pacote com demos de Taylor em outubro de 2004 e a conheço e me surpreendo em 2 de novembro de 2004… eu vou vê-la duas noites depois no Bluebird Cafe, conhecer a sua família e sou completamente capturado por seu ser, quão inteligente ela era aos 15 anos de idade, quão incríveis suas músicas eram. Então eu volto para uma segunda reunião e digo: ‘Se você quiser assinar com a Universal, eu vou apresentá-la aos executivos e tentar ajudá-la a conseguir um contrato, mas você precisa saber algo — vou começar daqui um ano. Vou ter meu próprio selo, não sei nem como será chamado, mas posso te fazer uma promessa hoje à noite de que, quando eu começar, você terá um contrato comigo’.

Eles olharam para mim e estavam um pouco assustados. Disseram: ‘Uau, finalmente encontramos alguém que gostou dela e ele está louco’. Então, algumas semanas depois, Taylor completou 15 anos, e ela me ligou e disse: ‘Ei, quero deixar você saber que eu decidi esperar por você’. Ela deixou clara que a decisão não era um empresário ou um de seus pais e eu disse: ‘Bem, você fez o meu dia‘.”

Por que você acha que ela tomou essa decisão?

“Eu acho que porque ela teve primeiro um acordo com a RCA, teve um acordo de desenvolvimento com eles e eles não acreditavam em suas músicas e estavam tentando fazê-la trabalhar com outros compositores, produtores diferentes e ela não sentiu que eles a compreendiam, além do fato de que eu fiquei imediatamente fascinado com suas músicas.

Eu não percebi isso naquela época, mas quando ela entrou no escritório, ela literalmente entrou na Universal e tocou para mim uma primeira música, uma segunda música e, para aqueles que conhecem as músicas de Taylor, a segunda música foi “Picture To Burn” e eu disse que seria um hit. Acho que a partir desse momento ela pensou: ‘Ok, acho que esse cara me entende e entende minhas músicas’. Eu nunca dei a ela a ideia de fazer uma música diferente. Então ela sabe que eu acredito em quem ela é. Ela é compositora, sim — incrível em tudo, mas principalmente em quem ela é. O mais importante é que quando você olhar para trás daqui 50 anos, para o que estamos vivendo hoje, você vai pensar — ‘Taylor Swift era o Michelangelo do início dos anos 2000’.”

Então, sem nenhuma infra-estrutura para o seu novo selo, sem sequer um nome para ele, você precisava de um apoio sério da família Swift… quero dizer, estamos lidando com uma garota de 15 anos, não alguém mais velho, ela não podia fazer seus próprios negócios. Você teve que trabalhar com seu pai e mãe, como isso funcionou?

“Bem, eu tive muita experiência prévia com menores, então uma coisa para aprender se você tem essa experiência é: faça um favor e convide sempre os pais, porque o pior que você pode fazer é pensar que pode trabalhar sem eles. Em quem você acha que os melhores se inspiram quando crianças? Seus pais. Seus pais são incrivelmente inteligentes. Eles fizeram parte do time desde o primeiro dia.”

Eles devem ter realmente acreditado nela… Se mudaram para outra parte do país pra que sua filha pudesse seguir seus sonhos e funcionou.

“Eu vou te dizer e você tem que acreditar que seu pai sempre acreditou que ela seria a melhor/maior artista do mundo.”

Ele investiu?

“Sim, ele é um acionista minoritário da Big Machine.”

Então, ela lançou “Tim McGraw” como single em 2006…

“Sim, sim. […] Havia esse momento de brilhantismo por sua parte. Ela surgiu com essa linha brilhante “quando você pensa Tim McGraw, espero que você pense em mim” e eu soube que era brilhante. E eu disse que aquele era o primeiro single. Ela perguntou: ‘Sério?’. E eu disse que sim, então ela retrucou: ‘Bem, isso foi fácil’.”

Então ela teve essa escalada como artista de country […] e decide que quer algo mais pop. Como isso é projetado?

“Se você olhar para a transição, não foi um dia que acabamos dizendo ‘Tudo bem, a partir de hoje você não vai ser isto, você vai ser aquilo’. No Fearless, tanto “Love Story” quanto “You Belong With Me” fizeram história. Estas músicas foram os primeiros singles a dominarem tanto os charts de country quanto os charts de pop. Então, coisas ficaram bem explícitas neste segundo álbum. Tivemos “Mine” lançada no terceiro álbum, que foi um hit, mas com um sucesso menor.

Então, quando o “Red” chegou, esse foi realmente o momento polar. Lembro-me claramente de um dia, ela disse: ‘Ei, eu preciso que você venha e escute uma música’, porque até hoje, quando ela está animada, ela vem deslumbrante dizendo ‘Scott Scott Scott, você deve ouvir isso! Onde você está?’, e ela vem até o meu escritório ou eu vou para onde ela está. E ela tocou “Red”. A música era brilhante. Mas a produção não estava certa. Eu disse, você sabe que esta letra é fantástica, a melodia é incrível, mas a produção… se você vai escrever assim, merece ter uma produção apropriada para isso. E ela disse: ‘Tudo bem…’, e fui eu mesmo com Nathan Chapman, no estúdio com Taylor, e eles não estavam muito felizes comigo e disseram: ‘Vamos tentar novamente’. Eu disse que tudo bem. Então voltei três semanas depois e eles tocaram a versão mais recente, que você ouve no álbum.”

Posso perguntar como foi a primeira produção?

“Parecia um produtor de country tentando fazer algo pop. Depois, ele me tocaram a nova versão e após o primeiro coro, Taylor disse: ‘Pare’, porque eu disse na vez anterior que talvez devêssemos ir até Max Martin e ela sempre quis trabalhar com o Max. Ela sentiu como se os dois pudessem fazer isto em Nashville, então ela acabou por dizer: ‘Pare’, e ela apenas olhou para mim e disse: ‘Ligue pro Max’. Foi quando começou.

E, novamente, lembro-me de um dia, voamos para Bentonville para fazer um evento pro Walmart, voltei para Nashville, ela foi para Los Angeles e oito horas depois, o telefone toca. ‘Scott Scott Scott…’ e eu estou pensando se isso é bom ou ruim e ela diz: ‘Eu nem sei qual é o nome da música, mas ela é sobre nunca mais voltarmos a ficar juntos, é uma loucura…’. Foi a primeira coisa que os dois escreveram. Isso foi no final do processo de criação do “Red”, então há um grande arco através do álbum que diz de onde ela saiu e para onde ela estava indo. Nunca foi colocada uma estaca no chão até o “1989”. Mas já tínhamos feito a transição e ela tomou a decisão consciente, porque havia outras músicas que ela escreveu para o “1989” que ela poderia ter trabalhado com country, mas ela disse: ‘Você sabe que eu não quero colocar essas músicas no álbum. Eu vou cantar pop’. E muitas, muitas conversas aconteceram mas eu disse: ‘Você sabe que é o seu nome na capa do álbum, eu entendo o que você está dizendo’.”

Como foi enviar estas novas músicas para as rádios?

“Foi interessante, ela teve um apoio tão surpreendente das rádios, foi assim desde que seu primeiro álbum decolou, você não pode negar isso. Nesse ponto, eu tenho que dar todos os créditos aos fãs.”

Eu vou fazer uma pergunta que possa me colocar em problemas, mas eu vou perguntar de qualquer maneira. Taylor Swift é famosa por escrever músicas sobre pessoas que ela namorou. Existe uma lenda sobre isso, um preconceito em torno disso… algo que precise ser corrigido?

“Temos uma regra muito específica. Eu falo sobre os álbuns, como eles são produzidos e feitos, mas quando chegar a esse ponto, eu tenho um ditado — a primeira regra do clube da Taylor não é falar sobre o clube da Taylor.”

Vamos falar sobre o Spotify. O streaming chegou para ficar. Vimos que atualmente a maioria dos selos estão gerando mais receita com o streaming do que com as vendas físicas…

“Vamos fazer uma pausa por aqui. Não é verdade. Ainda. Há alguns artistas que estão desempenhando uma performance surpreendente no streaming. Se você for ver, o Drake é incrível com o streaming, The Weeknd e Ed Sheeran também… mas eles estão muito longe do resto da indústria musical. Quando você equivale um streaming a um álbum, basicamente você precisa de 1.500 reproduções de músicas para igualar a receita do streaming obtida com um álbum físico. É uma escalada incessante em relação às taxas, não recebemos o mesmo valor das vendas físicas. Então sobre esses artistas — eles estão indo muito bem no streaming e os outros vão conseguir alcançá-los — você sabe que eu andei dando uma olhada quando eu estive em Nashville sobre o Apple [Music], o Spotify e o Amazon [Prime Music], e essa conversa nem é tida ainda em Nashville. Então é melhor que eles venham até aqui e comecem a investir, porque apenas quando o interior dos Estados Unidos utilizar streaming, só então será uma revolução. 

Mas não vamos nos esquecer — o Spotify ainda não é lucrativo, então acho que devemos ser realmente calmos e cuidadosos e ter certeza, porque concordo com você 100%, o gênio [Taylor] está fora da garrafa e ela não vai voltar até que façamos com que os serviços de assinatura Premium funcionem. Ponto final. Isto significa que nós precisamos de um Spotify saudável. A missão deles é ter que liquidar suas ações ou ser uma empresa lucrativa? Você sabe, nós precisamos que eles sejam lucrativos. Graças a Deus a Apple está investindo em música, assim como a Amazon.

“O streaming é o futuro, mas não vamos nos esquecer, e eu literalmente visto essa camisa: a música tem valor. Eu sempre soube que, com tudo o que pagamos, cada vez nós valorizamos mais.”

Vamos voltar para Taylor, quando ela tirou sua música do catálogo do Spotify. Nos conduza através deste momento. Por que alguém gostaria de se manter com um “formato morto” ao invés de caminhar para o futuro da música?

“Bem, vender 1.4 milhões de cópias na semana de estreia certamente não é um ‘formato morto’. Também é como você aprecia música, como os treinamos como fãs, qual é sua expectativa daquela música? A  razão por fazermos isso, foi uma reunião que tivemos dia 24 de outubro e dissemos que se fôssemos segurar o álbum mais recente, por ter sido o que demos prioridade de tirar do streaming gratuito, eu disse: ‘Por que não fazemos um posicionamento maior e tiramos logo tudo? Vamos pelo menos começar a conversa, pois só então poderíamos fazer a conversa acontecer’. Naquele ponto, a maioria das pessoas nem sabia o que era o Spotify. Então nós pensamos que se essa é uma espada de dois gumes, vamos trazer muito mais atenção pro Spotify, pois a maioria das pessoas fora os super-fãs e aqueles que prestam realmente atenção, nem sabem ainda o que é isso. Mas se formos fazer um posicionamento, vamos fazer por todos os artistas.

Isso não é apenas sobre a Taylor, isso é pelos artistas que lutam e por todo o ecossistema, tudo isso está de alguma forma envolvido na música e afeta a cada um de nós, seja você um produtor, engenheiro, compositor, trabalhe em uma turnê, afeta a cada pessoa. Essa foi a maior forma de fazer um posicionamento e é fiel ao que Taylor acredita. Então esse foi o momento e você sabe o que ela disse ao Wall Street Journal e em outros lugares — isso é arte. A música que fazemos, não vamos desvalorizar o que fazemos todos os dias, pois quando você olhar daqui a 50 anos – pelo que nossa cultura será definida? Espero que não seja definida pelo que está acontecendo com o nosso presidente, vamos ser melhor que isso, pois nós podemos ser melhores… e se você olhar pelas eras, o que nos define? Arte nos define. 

Então, por que não ir lá e dizer isso? Música tem valor, nós amamos, faz parte do nosso DNA, parte do que nós fazemos e eu me sinto melhor por pagar por isso.”

Teve uma história estranha há alguns meses atrás sobre Taylor lançar seu próprio serviço de streaming?

“Não, isso só tinha a ver com o seu canal no AT&T.”