Talvez a mais polêmica review da era reputation seja a do portal Consequence of Sound. Isso não se deve somente ao fato de ser a mais negativa entre as grandes, mas a toda a situação envolvendo a nota que ela agrega ao Metacritic (que agrupa todas as reviews e dá uma nota média, que serve como base para analisar a recepção crítica do álbum). É também a primeira nota “vermelha” da carreira da Taylor no Metacritic.

No sistema de notas utilizado no sistema educacional americano, estão “acima da média” de 60% todas as notas entre A+ (94-100%) e D- (60-62%) e o F significa tudo abaixo dessa média. Esta tabelinha da Universidade de Berkeley (em inglês) tem todas as correspondências certinhas. Porém, em reviews profissionais qualificadas para o Metacritic, o sistema é utilizado de forma diferente. No Metacritic, as notas de A+ a D- não compreendem apenas o intervalo entre 60-100%, mas vão de 16-100%. Mais baixo que isso, apenas F+ (8%) e F/F- (0%). Nesta página deles (em inglês) tem uma tabela com os números exatos.

A review do autor Geoff Nelson apareceu com uma nota 33 no Metacritic, um número incrivelmente baixo e fora da curva. Existem alguns álbuns pop duramente criticados por muitos críticos e que ainda assim não receberam nenhuma nota menor que 40 –não vamos citar nomes pra não parecer briguinha de fandom quando na verdade é mera comparação de estatísticas. É tão fora da curva quanto aquele zero que alguma pessoa sem coração deu ao Born This Way. Ao ser questionado no Twitter sobre o porquê de seu 33, ele respondeu que deu ao álbum um D+, que para ele tem a conotação escolar e é equivalente a 68%, e o algoritmo do site transformou naquilo.

Muito provavelmente, ele realmente não estava atento à diferença nas correspondências de nota na hora que publicou a review, e, apesar dos protestos de alguns fãs para que ele “corrija” para um B- (que corresponde ao 68 no Meta), não parece muito disposto a fazer essas alterações e disse que o site “pode transformar o D+ dele no que quiser”. Outra possibilidade é que tenha realmente a intenção de dar um 33, mas está tentando se justificar para acalmar fãs insatisfeitos. Qualquer que seja a situação, confira aqui a infame “review de 33 no Metacritic”:

Taylor Swift – reputation
O sexto álbum de estúdio da estrela recordista de vendas é um desastre envaidecido, mas talvez seja esse o objetivo?

A carreira de Taylor Swift como uma Questão Cultural começa com seu clipe de “You Belong With Me”. No vídeo, Swift interpreta a popular-mas-indigna líder de torcida e a garota-caseira nerd, que tira os óculos no final para beijar seu interesse amoroso. Foi um momento bizarro de autoconsciência –Swift interpretava tanto a “capitã de torcida” quanto a garota “que fica na arquibancada”. Taylor Swift a Questão Cultural um dia foi apenas a simpática amante injustiçada e a loira popular detestável e normativa.

Com uma beleza eurocêntrica que parece criada em laboratório, uma conta bancária cheia de discos de platina e uma coleção de amigos famosos, se Swift não parecia conseguir encontrar o amor, e ela escrevia sobre esse problema com frequência, torcer para Taylor Swift a Questão Cultural encontrar a felicidade era meio como torcer pela casa em um jogo de Blackjack. Se havia um som característico da música de Swift, era o mesmo som de anular o imposto sobre propriedade.

Com a chegada do 1989, seu quinto álbum de estúdio, a queridinha das críticas e monumento comercial parou de dividir. Ela abraçou sua dominância. Em 1989, ela se tornou uma mafiosa do pop, virou má de um jeito encantador que não podia ser negado. No clipe de “Blank Space”, Swift se transformou em uma mistura da Eva da Bíblia com Shiva, Destruidora de Mundos. Estávamos na casa dela, e foi sua própria maçã que ela mordeu alegremente. Até mesmo os haters mais comprometidos não podiam negar a dominância e a qualidade do 1989 –nem seus sete singles lucrativos. Caramba, “New Romantics” nem no álbum estava e acabou virando single –sim, suas B-sides também fizeram sucesso.

Isso tudo é para dizer que Taylor Swift a Questão Cultural se resolveu no 1989. Como tantas histórias americanas, Swift não tinha mais para onde ir se não para baixo. Mas, mesmo considerando a expectativa como uma pedra no caminho, reputation, sexto álbum de estúdio de Swift, é um desastre envaidecido ambulante. Com “Look What You Made Me Do”, o primeiro single do álbum, Swift tenta virar má uma segunda vez, e o clipe da música até retorna às imagens bíblicas do Éden, só que agora ela não é Eva; ela é a serpente. “Look What You Made Me Do” é o sutiã cônico da Madonna, a “If You Seek Amy” da Britney e o twerking da Miley, tudo misturado em uma tentativa desesperada de chocar uma auiência que se choca menos a cada dia. E liricamente a música funciona, talvez no máximo, como uma crítica irônica ao capitalismo cultural: queríamos mais dela quando não havia mais nada, apenas um mercado saturado à beira do colapso. O que levanta a pergunta: “Look What You Made Me Do” foi feita para ser ruim? Esse era o objetivo?

De fato, reputation não fica melhor que seus primeiros singles, mesmo que o refrão de “…Ready For It?” seja um dos poucos vestígios da Taylor do 1989 no álbum. No resto, Swift encontra dificuldades: ela faz rap, ela usa o inglês do negro, e ela colabora bizarramente com o Future, que é de se imaginar que tenha corrido para receber seu pagamento. “I see how this is gunna go”, ela canta em “…Ready For It?”, como qualquer outra mulher branca que coloca “dat” ou “doe” nas legendas de suas fotos no Instagram. Para Swift, a negritude é algo que pode ser usado e descartado. Não vamos esquecer como ela coroou o plano de lançamento do reputation pedindo para seus advogados processarem blogueiros e escritores que a chamaram de supremacista branca, outra decisão tão errada quanto deixar seu amigo Ed Sheeran fazer um rap em “End Game” ao lado do já citado Future.

Então, o que funciona? Não é surpreendente que os momentos mais fortes do reputation sejam os mais contidos. “Gorgeous”, “Delicate” e “Call It What You Want”, três das músicas mais mid-tempo, são a salvação, especialmente quando estão todas ao lado da produção sem vida de todo o resto. A produção de “Gorgeous” relembra a linha lamuriosa de sintetizador do hit da década de 1980 “Only You”, do Yazoo, e Swift inclui uma harmonia única para anunciar uma das melhores e mais grudentas músicas do álbum. Como os cachorros de Pavlov, nós devemos ouvir a harmonia de “Gorgeous” e salivar, sabendo que o refrão está vindo. É um dos poucos momentos em que Swift tem a resposta condicionada que deseja. Da mesma forma, “Getaway Car” é o mais perto que os fãs vão chegar da estética do 1989; o refrão acerta, mas não tem efeito devastador.

Com reputation, Swift aparentemente tem a ideia de que maior, mais abrangente e mais barulhento é necessariamente melhor, mas a carga de dopamina que a música pop moderna é tão capaz de produzir nunca chega. Quando Swift mira no topo, como em “I Did Something Bad” ou “So It Goes…”, parece um arranjo que Lorde nunca deixaria chegar perto do Melodrama, que lançou este ano. Na verdade, é impossível não ouvir o monumento que Lorde fez ao pop moderno e como ele ocupa os espaços que jogam o reputation no lixo. Em vez disso, nestas músicas faltam sucessos, e sobra para a audiência escolher os momentos de pop que brilham em meio aos escombros.

Se 1989 era um regime totalitário agradável, reputation é um ditador burro demais até mesmo para ser autoritário direito. Este álbum é tão embaraçoso quanto é extravagante, como cortinas de ouro no Salão Oval. Talvez como reflexo de um problema cultural maior, esta Taylor soa tão cara quanto vazia. Em “This Is Why We Can’t Have Nice Things”, o co-produtor e co-compositor Jack Antonoff escreve o refrão enquanto dorme, assim como Future, correndo para receber o pagamento. (Todos somos pagos no caminho do abismo.) O refrão feito para cantar junto é espaçoso e simplesmente não consegue dar vida a um álbum que parece aberto a qualquer ideia desde que seja grande, atual e potencialmente lucrativa. Como tal, reputation termina em um paradoxo cruel: um álbum disposto a fazer qualquer coisa para agradar acaba sendo desagradável.

Mas uma parte do encanto e do espanto do reputation é seu fracasso. É raro ver uma celebridade americana, com sua cavalaria de co-compositores e produtores suecos, tropeçar tão claramente. Sucesso pode ter um preço nos Estados Unidos, e parte do charme do reputation está na densidade de seu fracasso: cada gesto soa tão pobre, cada decisão soa tão imprudente, cada erro soa tão evitável. A falha começa a bizarramente humanizar Swift de novo, tirando-a da posição de ditadora de torcida e levando de volta às arquibancadas. Porque, se há um momento de simpatia no reputation, o ouvinte o encontra na luta de Swift para navegar por sua enorme fama.

No entanto, nós ouvimos o futuro dela –por mais previsível que seja– em “New Year’s Day”, a faixa de encerramento do reputation. Piano e violão aparecem pela primeira vez como se ela já estivesse sinalizando para um próximo álbum com um “retorno às raízes” à la Miley. Talvez ele traga slide guitar e histórias de amor “no fundo de uma picape” no coração da América? Talvez ela rejeite conscientemente a cultura negra que adotou aqui –um relacionamento casual no caminho de volta à visível branquitude? E talvez ela veja reputation como uma brincadeira, um encontro com o fracasso para uma artista que nunca falhou. É claro que ela vai voltar, daqui a dois ou três anos, como a Dow Jones e a nossa incontrolável e desmerecida fé em nós mesmos. Além disso, ela, assim como tantos antes dela, tem uma voz com som de dinheiro.

Faixas essenciais: “… Ready For It?”, “Gorgeous” e “Delicate”

–Geoff Nelson
D+
(Texto original)

  • Marlene Xavier

    Pior que ler essa crítica, é infelizmente ter que concordar com ela. Reputation é pobre em todos os sentidos, não convence, não transmite emoção nenhuma. É a Taylor na sua forma mais gélida possível. E quanto aos sons, não sei o que a Taylor estava pensando, porque parece mais um CD de remixes

  • Ódio é doença… 🐍

    Alguém avisa esse cara que critica tem que ser dada imparcialmente? Ele parece estar pegando ideias sem sentido do antigo 1989 e tornando em verdade absoluta ‘-‘ A critica as musicas, talvez algumas sejam validas, talvez não, mas a crítica a Taylor em si é completamente desnecessária.

  • Rosane Santos

    Concordo que Look What You Made Me Do é ruim, funciona mais como conceito em si do que musicalmente como single de lançamento, tal shake it off foi para o 1989. No entanto, a crítica escrita por Geoff Nelson da Consequence of Sound parece mais um ataque pessoal à Taylor Swift do que uma verdadeira análise musical do álbum. Concordo que é estranho ver Taylor entrando no R&B e Hip-hop, mas ela já vinha sinalizando isso desde 1989 com shake it of e bad blood. Acredito que se fosse outro artista que tivesse lançado este álbum, livre do julgamento de apropriação cultural, Reputation seria aclamado como um ótimo álbum Pop. Talvez teria sido mais prudente para Taylor ir numa direção mais rock ao invés de R&B. Mas rock não está muito em alta no mercado ultimamente e todos sabemos que música pop sempre priorizou o lado comercial. Ademais, se foi uma questão comercial ou de afinidades musicais de Taylor, no momento, escolher este caminho para o Reputation, isso não importa. No final das contas o que importa é que o álbum inteiro está muito bem produzido, e isso é o que deveria pesar na avaliação desses críticos.

  • Felipe Andrade

    Eu concordo com o que foi dito, mas Taylor tem a mania de so entregar a versão final da música no clipe, então por isso, n irei me adiantar! Qnd ouvi 1989, achei a msm coisa, qnd ela lançou os clipes, eu amei! Bad Blood por exemplo, no clipe n chega perto da versão do álbum

  • Wiu Medeiros

    Concordo em tudo que vc escreveu. Quando terminei de ler, tive a sensação de ataque à Taylor e não uma análise musical do álbum.

  • Jader Almeida Luduvig

    ´´um desastre envaidecido´´ é? é, ao mesmo tempo que ele é ousado musicalmente, ele se entrega por inteiro a uma sonoridade eletrônica agressiva, exagerada e meio saturante(afinal, beats estrondantes é o que não falta nas paradas) além de uma abordagem precipitada do R&B e ao Hip Hop, fora as letras, enfim, todos esses motivos apontados pelo autor, e que teoricamente, tornam o disco um fracasso premeditado. Essa é a visão dele, eu já vejo como uma ambição ainda maior do que foi o 1989, quando ela aderiu 100% ao pop eletrônico perfeccionista e hiper-produzido, e penso que teria sido bem mais fácil simplesmente fazer um 1989 parte 2, muito mais seguro, mas ela decidiu ir além, e quando a mudança é brusca(no caso deste, sonoridade agressiva, incursões pelo R&B e Hip Hop, temas que são o oposto de tudo que ela já escreveu) demais as reações são sempre assim. Mesmo soando meio desajustado, a cada ouvida ele fica melhor, Look What You Made Me Doo é estranha, inesperada, mas ao mesmo tempo grudenta, e conforme o disco avança, como todos já sabem, a ´´old taylor´´ retorna com seu estilo inconfundível, e no seu melhor, Georgeous, Gateway Car, Dancing with Our Hands Tied, This Is Why We Can’t Have Nice Things e Call It What You Want.

  • Anita Santos

    Eu concordei com o q ele disse sobre o “apelo rap” do album. Taylor é uma artista blindada que, assim como Adele, não precisa se aguarrar a modismos musicais do momento por ter crescido num genero de nicho (no caso country). Até o pop de 1989 tem uma pegada diferente do pop tocado em 2014, com seu synthpop anos 80. Ela é grande para criar modas e não para rebaixar-se seguindo-as.

  • Edley Santana 

    Eu também não gosto desse disco. Comprei, claro. Sou fã!
    Mas ele não me convenceu. Concordei com ele que “Gorgeous” é a melhor faixa.
    Fiquei extremamente decepcionado com esse disco. Mas, uma hora ela tinha que errar a mão. Não dá pra acertar todas.